No. 35 - 10/11/00
Em vez de fazer um comentário sobre as eleições americanas, até porque não sei o resultado delas no momento em que escrevo, resolvi publicar um diário, da madrugada de segunda para terça (06 e 07/11) à tarde de quinta (09/11), a respeito delas - com todas as idiossincrasias de um diário, claro.
Adotei os termos "am" e "pm" não por americanismo, mas para fins de brevidade e para ajudar a acabar com a palhaçada de "14 horas", "15 horas", porque ninguém fora das operações militares fala assim.
Terça-feira
01:00 am - "Jornal da Globo". Pego uns pedaços do telejornal, por acaso. A abordagem do assunto pela Globo é idêntica à abordagem da abominável emissora sobre todos os assuntos: ênfase nos detalhes pitorescos, narração em tom infantil, ausência absoluta de qualquer tipo de análise séria. Para piorar, ainda puseram o Hendrik Hetzberg para posar de analista imparcial das eleições.
Hetzberg é o colunista mais esquerdista da New Yorker, um incorrigível puxa-saco do Clinton, e suas apologias a Gore são de causar náuseas.
Parte do e-MUGGER da semana passada foi sobre Hetzberger. Um trecho do artigo:
"Um homem de quase 60 anos, Hetzberg foi um daqueles jornalistas da geração dos baby-boomers que ficaram completamente selvagens e malucos nos anos 60, contribuindo para jornais underground, participando em vários protestos políticos e desfrutando da liberdade sexual e farmacêutica do tempo, antes de crescerem e entrarem no trem da alegria do governo. Hetzberg trabalhou escrevendo discursos para Jimmy Carter, e depois se transformou num jornalista do Beltway, completando seus turnos de trabalho na New Republic de Martin Perez. Ele é da escola de jornalismo político de Michael Kisley, Sidney Blumenthal e Joel Klein: depois de 12 anos do odiado regime Reagan/Bush na Casa Branca, os três ficaram extasiados quando dois dos seus, Bill e Hillary Clinton, ganharam a eleição de 92."
Mugger continua, refutando os ridículos argumentos pró-Gore de alguns artigos de Hetzberg - o homem que o Jornal da Globo chamou para "descrever" a eleição americana. Que papel ridículo.
10:00 am - Como de costume, acordo e pego "O Globo", que publicou um caderno inteiro sobre a eleição americana. Um monte de detalhes, um monte de estatísticas, nenhuma entrevista, nenhum artigo de opinião, muito tati-bi-tati, quer dizer, explicações para ignorantes. Apenas um artigo original, do correspondente do jornal nos EUA, um sujeito tão inócuo que até seu nome me foge agora. De resto, traduções do New York Times e do Washington Post - as coisas de sempre. Lendo esse tipo de cobertura midiática, só posso agradecer a Deus pelo advento da internet.
10:30 am - Ligo o computador para dar uma olhada em alguns sites e para checar os e-mails. Chega uma notificação do TownHall de que o site faria uma cobertura especial das eleições, com contagem dos votos atualizada sempre, fórum de discussões, links para notícias, comentários etc. O TownHall é o "portal" - essa palavra ficou ridícula - da Heritage Foundation, e, mesmo que seja apenas para ler os comentários (Ann Coulter, Don Feder, Thomas Sowell, Walter Williams, Brent Bozell e os esplêndidos Paul Craig Roberts e Walter Williams, por exemplo), vale uma visita diária. Decido que vou acompanhar as eleições pelo TownHall e não por sites das redes de TV americanas, e aproveito para repassar o e-mail com a notificação na newsletter, recomendando o site e criticando a cobertura do "O Globo", com minha já repetitiva reclamação de que os jornais brasileiros são excessivamente subservientes ao "Times". Isso feito, segue a vida, e não penso em eleição até a noite.
11:40 pm - Acesso pela primeira vez o TownHall, para ver os primeiros resultados e saber se a Hillary ganhou. Uma surpresa desagradável: Bush perdeu a Flórida. O site publicou o comentário de que a eleição seria decidida na Pensilvânia, e no fórum de discussões um sujeito diz que há grandes chances de que isso aconteça. Não estou entendendo direito essa história de "exit polls" e vou pesquisar.
12:00 am - Ando por outras paragens na internet, tento acessar o Drudge, mas não consigo - repetidas mensagens de erro. Imagino que deve ser excesso de tráfego. Paciência.
A TV está logo ali, e resolvo ligar na CNN. Uma mulher, um negro e dois brancos, um dos quais com cara de nerd. Pelo menos agora já sei o que são os "exit polls": são as pesquisas de boca de urna, mas levam em consideração também os primeiros resultados da apuração. Quando a rede de TV julga que tem certeza suficiente sobre o resultado num determinado estado, ela divulga a pesquisa, e acrescenta os números daquele estado à contagem dos votos do candidato no Colégio Eleitoral (este é o trecho "tati-bi-tati" desta coluna). A coisa toda tem um ar dramático: os apresentadores mostram, volta e meia, um mapa gigante dos EUA, com os estados projetados para Bush em vermelho e os de Gore em azul (neste momento, a maior parte do mapa é vermelha, mas Gore tem mais votos, porque garfou os estados mais importantes); eles chamam um ou outro repórter, fazem algumas perguntas e, no meio dessas perguntas surge o aviso de uma "notícia importante", e temos, então, o resultado dos "exit polls" em algum estado.
Quarta-feira
12:30 am - A maior delícia, claro, é ver que Gore perdeu no seu estado natal, o Tennessee, e também na terra de Bill Clinton, o Arkansas. Mas a Flórida é uma grande surpresa, e parece que o nefando vice-presidente vai acabar eleito, contrariando todas as pesquisas anteriores e todas as opiniões abalizadas.
12:45 am - Tiro da CNN, e vou andar pelos canais. No meio do caminho, na Globo News, alguma coisa parece estar acontecendo. O repórter do canal está avisando, por telefone, que as redes de TV acabam de retirar sua previsão da Flórida. O estado não é mais dado como certo para Gore, e nenhuma previsão será feita. Os votos da Flórida só serão considerados quando a apuração dos votos terminar.
1:00 am - Gargalhadas, é claro. Que papel ridículo! Volto para a CNN, os apresentadores com cara de que não estão entendendo direito o que se passa, e agora Bush está na frente de Gore. O incrível é que, pelos votos que faltam, é possível haver um empate, o que provocaria uma nova eleição. Os apresentadores parecem felizes com essa possibilidade, talvez pensando nas próprias contas bancárias.
1:15 am - Hillary ganhou uma vaga no senado por Nova Iorque, um estado no qual ela nunca morou na vida. Parece o Sarney, que teve de se eleger senador pelo Acre. Era muito difícil que ela não se elegesse, por uma combinação de fatores: primeiro, Nova Iorque é um tradicional reduto democrata, e ela sucederá ao também democrata Patrick Moynahan, que está se aposentando; segundo, porque ninguém nunca ouviu falar de Rick Lazio, e sua campanha foi um desastre, com seu apelo desesperado ao voto judaico, acusando Hillary de anti-semita só porque ela cumprimentou, uma vez, a esposa de Arafat. Foi muito mais a combinação desses dois fatores do que algum ilusório amor popular por Clinton que deu a vitória a Hillary. De qualquer maneira, uma vergonha para os nova-iorquinos.
1:45 am - Fiquei tão entretido com outros afazeres que nem percebi que deixei a televisão ligada na CNN. Escuto, agora, uma mulher com voz irritante fazendo um discurso sentimentalóide, desejando felicidades às filhas de seu oponente, mas levantando o público ao prometer ajudar a matar mais bebês. Marta Suplicy? Não, Hillary Clinton. Tanto a CNN quanto a Globo News estão transmitindo ao vivo o discurso de agradecimento de Hillary, com Bill e Chelsea ao seu lado. Lembro uma piada intraduzível, que alguns garantem ser verdadeira: aterrissa o Air Force One na base de Andrews, em Washington, e Clinton desce com um porco embaixo de cada braço. "Ótimos porcos, senhor", diz o comandante da guarda de honra. Bill responde: "Certamente são ótimos porcos. Os melhores que existem no mundo. Estes são os 'Arkansas razorback hogs'. 'I got one for Chelsea and one for Hillary.'" "Nice trade, sir."
Nice trade, indeed.
2:00 am - Depois de quase meia hora de Hillary, minha TV se rebela e sai do ar. Estou falando sério. Saiu do ar mesmo. Desligo a TV, e penso em ir dormir.
2:15 am - A curiosidade matou um gato. Ligo de novo a TV, curioso principalmente para saber se os republicanos manteriam o controle do senado e da câmara de deputados. O resultado da câmara sai logo: eles perderam alguns assentos, ganharam alguns outros, e mantêm o controle, mas com uma margem um pouco menor.
2:30 am - Os resultados nos estados continuam saindo, até que as coisas ficam da seguinte maneira: Gore com 249, Bush com 246, faltando decidir a Flórida (25 votos), Oregon (7) e Wisconsin (11). Quem ganhar a Flórida leva a eleição.
Desânimo no QG de Gore, segundo o repórter da CNN, um quase sósia do Bill Clinton (o curioso é que a CNN trabalhou a noite inteira com apenas dois repórteres: esse canastrão no Tennessee, uma mulher no Texas). Os organizadores da campanha, diz ele, estão se recriminando por não ter feito esforços suficientes no Tennessee e no Arkansas, porque ganhar nesses dois estados dispensaria as dificuldades de ganhar na Flórida.
E houve também o fator Nader, responsável pelos problemas de Gore no Oregon, pela perda de inúmeros votos na Flórida e em outros estados importantes. A CNN está prometendo uma entrevista com o candidato do Partido Verde, mas por enquanto nada.
3:00 am - Empate no Senado. 50 a 50, com um detalhe bizarro: o Missouri elegeu um candidato morto. Aqui no Brasil, estamos acostumados a ver votos de eleitores já mortos ser usados para dar a eleição a candidatos vivos; nos EUA, eles resolveram fazer o contrário. Incrível.
Um detalhe, porém, pode fazer os democratas perder o senado: o candidato a vice na chapa de Gore, Joe Lieberman, concorreu também ao senado em seu estado, e ganhou fácil. Acontece que, se Gore for eleito, a cadeira vai para os republicanos, e não para algum "suplente". Alguém vai querer a cabeça de Lieberman se isso acontecer...
3:15 am - Todos esperando Godot, ou melhor, esperando a Flórida, e sem nada para fazer. Os apresentadores mandam os repórteres para casa, e chamam o detestável Larry King, que está em companhia de uma ex-governadora democrata, um ex-senador republicano e o conhecido jornalista Bob Woodward.
Woodward resume o problema: esta é uma situação de pesadelo para os jornais, porque suas manchetes de amanhã nada terão a dizer senão recomendar aos leitores que esperem as manchetes de depois de amanhã...
3:30 am - Esperam-se os resultados em uma hora ou uma hora e meia, mas minha paciência já se esgotou. É tudo um divertido espetáculo de mídia, mas cansa.
9:00 am - Como era fácil prever, "O Globo" só diz que a eleição está "muito apertada" e "impossível de prever". Os caras ainda traduziram um artigo ridículo do bisonho Thomas Friedman, colunista de assuntos internacionais do "New York Times", criticando os planos de cortes nos impostos de Bush. Por que diabos "O Globo" resolveu fazer propaganda para Gore (já que nenhum artigo semelhante atacando o vice-presidente americano foi publicado)? Vai saber...
Tenho mais a fazer, mas estou curioso para acessar a internet.
11:00 am - Entro no WorldNetDaily e só agora fico sabendo do quid pro quo que aconteceu enquanto eu dormia. A CNN anunciou que Bush tinha sido eleito, Gore ligou para ele para congratulá-lo, presidentes lhe enviaram telegramas de congratulações... e pouco depois a CNN descobriu que as leis da Flória exigiam uma recontagem dos votos em caso de eleição tão apertada. Bush não foi eleito - ainda - e as redes de TV fizeram papel de idiotas de novo.
Na coluna do Joseph Farah, uma denúncia séria: Clinton enviou uma carta para imigrantes na Califórnia, solicitando seus votos, com um cartão de registro de eleitores falso anexado. Como esses eleitores não são registrados, a única fonte que Clinton pode ter usado para descobrir onde contatá-los são os dados da Imigração - dados confidenciais, que foram usados para fins eleitorais. Mando o artigo na newsletter.
Na Front Page Mag, fico sabendo que saiu também no WND uma denúncia de que alguns dos militares americanos não receberam suas cédulas eleitorais em tempo. O repórter Jon Dougherty interpretou isso como uma tentativa dos governantes democratas de impedir que os militares - republicanos, em sua maioria - dêem votos para Bush. A interpretação é um pouco forçada, e Dougherty parece ter metido os pés pelas mãos, pela enésima vez. Por que o WND mantém um incompetente desses ao lado de excelentes repórteres é coisa que escapa ao meu entendimento.
09:00 pm - Coisas mais importantes, como o jogo do Vasco na Argentina, tiram minha atenção das eleições. No caminho para pôr a TV na horrível PSN, entretanto, vejo que há um bando de velhinhos discutindo na CNN a possibilidade de que o resultado da eleição seja decidido judicialmente. Não estou com paciência, e passo logo o canal, deixando para descobrir a substância da discussão no dia seguinte (ah, sim: o Vasco se classifica, a despeito dos esforços contrários do juiz do jogo, e o Flamengo perde para o River Plate).
Quinta-feira
09:00 am - Excelente foto na capa do "Globo", com as quatro manchetes diferentes que o "Orlando Sentinel" publicou no mesmo dia: "Oh, so close - Presidential race knotted in wee hours", "It's Bush - Florida puts Republican over top in nail-biter", "Is it Bush? - Florida votes leave Republican's win in dobt", "Contested - Florida keeps nation in suspense".
Dentro, mais artigos do "New York Times", e uma matéria - esse é o nome dele! - do correspondente José Meirelles Passos contando as confusões que envolveram as eleições. Na mesma página, um artigo do Elio Gaspari pondo a culpa de tudo nos computadores.
Um parêntese: eu não fazia a menor idéia de que Gaspari tinha amarelado de sua coluna diária no UOL. Ele amarelou em outubro, e eu só fiquei sabendo esta semana, durante as pesquisas para formar a lista de colunistas para "O Indivíduo". Outro parêntese: essa lista, que será constantemente atualizada, é uma coisa inédita na internet brasileira, com links para praticamente todos os comentaristas importantes da imprensa brasileira e da americana. Há alguns ingleses, mas é um pouco mais difícil linkar para lá por causa do design dos sites. Por exemplo, o Washington Post tem uma página com os arquivos de seus colunistas, e é fácil linkar para eles; já o Daily Telegraph simplesmente publica na internet os artigos que saíram no jornal naquele determinado dia, sem nenhum outro índice.
Num ponto, porém, Gaspari tem razão: é inteiramente absurdo que a CNN faça a cobertura com quatro apresentadores no estúdio e apenas dois repórteres fora dele. Tivessem um repórter na Flórida, e poderiam ter evitado a vergonha.
Aliás, o Cid Moreira da CBS, Dan Rather, disse no ar, depois que sua rede se retratou de ter anunciado a vitória de Bush, que entenderia perfeitamente se os americanos estivessem enojados com as redes de TV.
1:00 pm - No jornal "Hoje", descubro o ridículo movimento pela revisão dos votos na Flórida. Então, as cédulas eram "confusas" e os pobres coitados queriam votar em Gore, mas acabaram votando em Buchanan ou votando em Buchanan e Gore, e agora exigem uma nova votação? Que palhaçada!
Era disso que os velhinhos falavam na CNN ontem. Esses imbecis estão ameaçando entrar com um processo, porque a cédula seria "ilegal", porque muito confusa. A TV mostra a cédula. Só um retardado mental poderia errar o voto ali.
Outro problema é que aparentemente sumiu na Flórida uma urna cheia de votos. Que coisa. Mas da denúncia do Farah, nem menção.
Um detalhe curioso: por que diabos os americanos ainda usam cédulas de papel?
4:00 pm - O que não falta é coisa para ler na internet (inclusive, no iG, a notícia de que o juiz que quase desclassificou o Vasco tinha sido subornado pelo outro time, segundo denúncia de um jornal argentino!). Começo acessando o TownHall e a CNN. Os dois sites fizeram pesquisas para saber se os imbecis que erraram o voto deveriam ter direito a uma nova votação; curiosamente, no site da CNN, a maioria disse que não, enquanto no TownHall a maioria disse que sim. Resultados estranhos.
No TownHall, um monte de links para a National Review, um site que visito pouco porque a retórica dos conservadores "moderados" me irrita um pouco.
Num dos links, vários comentaristas confessam que erraram suas previsões, inclusive MUGGER, que previu uma vitória avassaladora de Bush, no mesmo artigo em que atacou Hendrik Hetzberg. Comentário impagável de Marshall Whittman, do Hudson Institute:
"É claro, eu sabia o que ia acontecer desde o começo - uma combinação do apocalipse com o êxtase. Os mortos levantariam das tumbas, a família do Elián Gonzalez em Miami determinaria o resultado da eleição e uma guerra civil estouraria entre as cidades e o campo. Eu não sei quanto a vocês, mas eu previ isso desde o começo. O grande vencedor é o centro moderado e os perdedores são os ideólogos da direita e da esquerda. Com W. Provavelmente na Big House, será 'la' maratona do bipartidarismo-cheio-de-empatia-e-abraços no futuro próximo. Yipee!"
Um comentário interessante de Clint Bolick, vice-presidente do Institut for Justice, é que sobrou arrogância no lado republicado, e isso deixou a campanha esfriar nos últimos dias.
Jonah Goldberg também quer saber por que os americanos continuam a usar um instrumento tão arcaico para votar, e o resto de sua coluna (muito engraçada, aliás) é o costumeiro centrismo republicano.
Jay C. Robbins defende o sistema de votos na Flórida, e acrescenta o que me parece bastante provável: é impossível errar o voto. Essa história de que muitos quiseram votar em Gore mas votaram em Buchanan é mais uma mentira democrata.
O problema é que, como quase todas as mentiras democratas, ganhou aceitação midiática imediata.
Ganhará também aceitação judicial? Esse parece ser o maior risco no momento. Dave Kopel lembrou, porém, que um tribunal da Flórida já julgou um caso parecido, decidindo da seguinte maneira:
"Mantendo em mente que estamos falando a respeito de uma reivindicação feita depois de uma eleição, e não de uma que poderia ter sido atendida antes, se um candidato aparece na cédula numa posição tal que ele pode ser encontrado pelos eleitores depois de um estudo responsável da cédula, então tais eleitores tiveram uma oportunidade livre e aberta de fazer sua escolha a favor ou contra aquele candidato em particular; e o próprio candidato não tem nenhum direito constitucional a um lugar na cédula que pudesse tornar mais fácil a escolha dos eleitores. Seus direitos constitucionais no assunto terminam quando seu nome é colocado na cédula. A partir daí, os eleitores têm o direito de ter uma oportunidade justa e razoável de encontrá-lo; e quanto a isto, foi observado que a constituição pretende que o eleitor procure o nome do candidato de sua escolha e expresse sua escolha selecionando o nome do candidato, sem nenhuma observação a respeito dos demais candidatos. Ademais, a constituição pressupõe sua capacidade de ler e sua inteligência de indicar sua escolha com o grau de cuidado compatível com a solenidade da ocasião."
O juízo desse tribunal é perfeito: não faz sentido criar cédulas pressupondo que os eleitores são retardados mentais, como é o caso desses que dizem ter anulado o voto por engano. Não sei se, com a politização do judiciário, haveria, hoje, uma repetição dessa decisão extremamente sensata. Mas, dada a importância da jurisprudência no direito americano, é de se supor que sim. Há também um caso da Suprema Corte, no qual foi decidido que pôr o nome de um candidato num lugar desfavorável na cédula não constitui discriminação constitucional contra aquele candidato.
E se Gore perder a recontagem, e resolver recorrer judicialmente? Aí, como lembra Mark Steyn (outro que errou suas previsões), Bush poderia pedir recontagens em New Mexico, Iowa e Wisconsin, lugares em que a eleição também foi apertada - e, se olhadas de perto, certamente revelarão tantos problemas quanto a Flórida. Esse é o temor dos comentaristas da CNN.
Um deles, porém, diz que Gore pode não recorrer da eleição na Flórida, porque ele pode perceber que isso queimaria sua imagem com o eleitorado e destruiria suas chances para 2004. Não sei, não: acho que ele não vai querer esperar até 2004; afinal, ele já perdeu uma primária (para o insípido Michael Dukakis), depois decidiu não concorrer contra Bill Clinton e acabou virando vice, ficou lá de coadjuvante por oito anos, e agora tem sua grande chance de conquistar o cargo para o qual vem sendo preparado desde que nasceu. Vai deixá-la escapar, assim?
5:00 pm - Fala-se muito em fraude eleitoral contra os democratas, mas Joseph Farah lembra na sua coluna que foram os democratas que enviaram os cartões de registro falsos a imigrantes que nem são cidadãos americanos; foram os democratas que compraram votos de mendigos ("homeless people", o que não é bem mendigo, mas é quase) com pacotes de cigarros em Wisconsin; na Flórida, vários eleitores não puderam votar, enquanto o voto de alguns eleitores não-registrados foi validado; e ainda há o caso das cédulas que não chegaram aos miltares.
Farah diz que já investigou casos de fraudes eleitorais, mas nunca viu casos tão flagrantes quanto nesta eleição. Impressionante que o país que se julga árbitro moral do mundo permita esse tipo de coisa. Deveríamos enviar um representante da ONU ou da OEA para verificar as eleições americanas...
Aliás, há algum tempo o Szamuely (que, aliás, anda puxando excessivamente o saco da extrema esquerda em seus artigos) recomendou, tendo em vista que Nader e Buchanan eram excluídos dos debates, que o Milosevic mandasse um representante para julgar a validade das eleições americanas.
5:15 pm - E lá está o Ralph Nader na CNN, prestando tributo ao recém-falecido presidente do Partido Comunista americano. Nader realmente acabou tirando votos de Gore, e a imprensa conservadora americana evitou criticá-lo justamente para que esse efeito se desse. No entanto, o fato de ele juntar tantos votos é preocupante, porque mostra um avanço de tendências esquerdistas às quais os americanos pareciam imunes.
Afinal, lá estava Nader, nesse discurso, dizendo que o legado do ex-presidente do Partido Comunista é tão importante quanto o da "Grande Revolução"!
Curiosamente, no entanto, Nader é, dos três principais candidatos, o que tem influência mais direta sobre a vida brasileira. Ele é um sujeito inteiramente convencido de que a indústria automobilística existe com o único objetivo de matar seus clientes, e que, portanto, o Governo deve criar mais e mais restrições para essa indústria. Uma de suas principais bandeiras foi a obrigatoriedade dos air-bags. É fato que uma batida com air bag pode ser mais perigosa do que uma batida sem ele, dependendo das circunstâncias, mas graças a Nader agora todos os carros americanos têm este incremento, e, conseqüentemente, quase todos os brasileros também. Engraçado é que, aqui, alguns carros usam isso em seus anúncios, que alardeiam a presença do "air bag" como quem alardeia a presença da direção hidráulica!
5:30 pm - O brilhante Gene Callahan teve a mesma idéia que eu: publicar um diário das eleições. O dele só cobre a própria noite de terça para quarta, mas é mil vezes mais divertido que o meu. Um trecho esplêndido:
"2:17 - [TV] Fox afirma que Bush ganhou a Flórida. Imagens de um monte de esquerdistas chorando em Nashville. Talvez tenha valido a pena ficar acordado. Mas se eu soubesse que seria por tanto tempo, eu definitivamente teria comprado mais cerveja.
"3:00 - Esperando a aparição de Gore em Nashville. Sua equipe está tentando achar a combinação correta de remédios para torná-lo apresentável (...). Pergunta: Por que pessoas em multidões sempre acenam para o monitor, em vez de acenar para a câmera?
"3:20 - Gore está atrasado porque eles estão 'carregando seu discurso no teleprompter'. Um eufemismo para 'ele está engolindo mais Valium'.
"3:44 - Gore se retrata de sua concessão! Agora o Ritalin fez efeito."
5:35 pm - Em artigo excepcional no LewRockwell.com, David Dieteman (um descendente dde um oficial da União que acha que os Confederados é quem tinham razão na Guerra - onde é que o Rockwell descobre esse pessoal?!) lembra que a eleição ainda depende da decisão do Colégio Eleitoral. A questão é a seguinte (tati-bi-tati II, a missão): cada Estado tem o número de representantes equivalentes a seu número de votos no Colégio; esses representantes são soberanos. Eles costumam votar de acordo com o voto popular em seus respectivos estados, mas nada os obriga a isso. Suponham, por exemplo, que dois dos 25 representantes da Flórida resolvam votar em Gore em vez de Bush: ninguém pode impedi-los de fazer isso.
Estou me lembrando agora do velhinho neo-zelandês que deveria votar na África do Sul para sediar a Copa do Mundo, mas, para espanto geral, disse que a pressão era muito grande e não votou em ninguém...
Bom, a mesma coisa pode acontecer no Colégio Eleitoral. Não a abstenção, mas a mudança no voto. E a mídia - especialistas da CNN à frente - já está fazendo pressão para que isso aconteça, porque Gore provavelmente terá mais votos na contagem geral e provavelmente perderá o Colégio Eleitoral.
Mas é só acompanhar a matemática de Dieteman para perceber que o mais justo é que se obedeça ao Colégio Eleitoral. Os votos de Gore vieram dos estados mais populosos: ele ganhou Gore a California por uma margem de 1,2 milhões de votos; ganhou Illinois 560.208; ganhou New York por 1.525.894 de votos e a Pennsylvania por 200.351; levou 85% dos votos em Washington DC. Por outro lado, Bush ganhou em mais estados, mas estados de populações menores - e, portanto, teve um número bruto menor de votos. O que o Colégio Eleitoral faz é contra-balançar esses dois fatores (votos brutos e número de estados) para que, por exemplo, a decisão dos eleitores da Califórnia sozinha não pese sobre os eleitores de Mississipi, Wyoming, Idaho e demais estados menores. O Colégio Eleitoral é uma fórmula bastante engenhosa de equilibrar o peso dos estados, levando, porém, em consideração sua população. É uma espécie de média ponderada.
5:45 pm - Como sempre, um extraordinário artigo do Lew Rockwell no WorldNetDaily (aliás, no começo do LRC, o Rockwell escrevia um artigo semanal pro WND e um artigo diário no LRC; agora, diminuiu radicalmente sua produção e ficou só com o do WND, o que é uma pena).
Rockwell aproveita um tema do artigo de Dieteman: existe um hiato gigantesco entre duas partes do povo americano, o Norte e o Sul.
Dizia Dieteman: "Mississippi, por exemplo, foi para Bush, 58% a 41%. Wyoming foi para Bush 69% a 28%, Idaho por 68% a 28%. Bush ganhou no Texas por 59% a 38%. Significativamente, das pessoas que se identificavam como 'conservadores religosos', 78% votaram em Bush."
E continuava: "A eleição fornece argumentos em defesa da secessão. Os estados do Norte tendem à esquerda e são populados por pessoas que prefere o poder centralizdo e o Estado-babá, mas não gostam e não confiam na liberdade individual. O Sul e o Oeste, em contraste, são populados por aqueles que querem um governo mínimo, liberdade religiosa, e direitos de propriedade fortes."
Diz Rockwell (e este é o "artigo da semana"):
"As pessoas em Utah votaram em proporção de 2 a 1 em Bush e, no entanto, se Gore ganhar, essas pessoas serão forçadas a viver sob o governo de um vasto aparato regulatório administrado por um regime inimigo. Enquanto isso, a mais de 2.300 milhas de distância, as pessoas em Massachussetts votaram de forma quase tão sólida em Gore. No entanto, se Bush ganhar, eles serão obrigados a viver sob um aparato regulatório chefiado por um homem e um partigo que eles desprezam.
"Os estados perdedores serão alvos de punições, exatamente como foram ao longo dos anos 90. Ademais, a maior parte das pessoas que votou em um ou outro dos candidatos fê-lo porque temiam um resultado contrário, não porque amavam o candidato. Uma presidência de Bush não satisfará aqueles que não agüentam mais pagar por 'serviços' governamentais que eles não usam, e uma presidência de Gore não satisfará aqueles que acreditam que o governo sempre pode ficar ainda maior e mais intrusivo.
"E ninguém deveria aceitar tal resultado. É hora de perguntar a questão fundamental: onde está a justiça numa vitória de Bush ou de Gore? Não há nenhuma teoria de uma sociedade livre que possa justificar o despotismo que permite que alguns milhares de votos no estado da Flórida determine o regime do Havaí e do Alaska."
O problema todo, argumenta Rockwell, é que a Presidência não foi criada para acumular tantos poderes - e, se acumula tantos poderes, deveria ao menos garantir o direito de secessão dos Estados insatisfeitos.
Essa argumentação é similar à que comentei semana passada, de um artigo de James Bovard: o presidente dos EUA virou um imperador, capaz de decidir sobre todos os tipos de questões sem que o povo possa fazer nada. A mesma coisa acontece no Brasil, onde o federalismo há muito tempo só existe no papel.
No caso americano, essa importância começou a crescer com a presença centralizadora de Abraham Lincoln, e aumentou mais ainda com a presidência de Woodrow Wilson e sua adoção da teoria da "vontade geral" de Rousseau.
"Desde aquele período, diz Rockwell, nos desenvolvemos a visão de que só conhecemos o Presidente americano depois que o Espírito Santo desce sobre a nação e unta um Escolhido para nos liderar. Nosso papel é nos submeter. Questionar o resultado, menos ainda lamentá-lo amargamente, é ser pouco patriótico, é flertar com a traição. Ao longo dos anos 90, os Clintons invocaram essa noção da presidência, sugerindo freqüentemente que o simples fato de que Bill governava era suficiente para estabelecer que as coisas deveriam ser feitas à sua maneira."
Qual foi a última vez que qualquer brasileiro ouviu que o Presidente não tem poderes para fazer determinada coisa, ou que tal coisa está fora de sua competência? Eu nunca ouvi. Sempre se imagina uma Presidência onipotente, podendo regular tudo, influir em tudo. Quando o Supremo Tribunal Federal revoga uma lei por ela abusar dos poderes do Presidente, o STF é considerado pouco patriótico, é acusado de estar a favor do atraso e contra o irresistível progresso liderado pelo imperador tucano. Um exemplo recente foi o caso da obviamente inconstitucional medida de proibição da venda de armas - e a decisão do STF provoca irritação até hoje.
07:00 pm - O resultado era prometido para esta hora. Nada. Parece que só dia 17, sexta-feira da próxima semana. Coisa de terceiro mundo, que talvez sirva, como deseja o Rockwell, para dessacralizar a presidência aos olhos dos cidadãos americanos.
Para os americanos, penso eu, é melhor que Bush ganhe, mas não faz uma diferença tão grande assim. Quem governa mesmo, como lembrou Fred Reed, é uma multidão de burocratas, PhDs, "especialistas", nenhum dos quais foi eleito, nenhum dos quais aparece em público, mas que influem sobre quase todos os aspectos da vida americana. Com Bush ou com Gore, o Estado americano continuará crescendo. Era, aliás, uma observação de Aristóteles (que é um dos principais teóricos do Federalismo e cuja obra política deveria ser estudada com mais carinho) na "Política": a democracia só pode existir em cidades pequenas. Quando se tem um país do tamanho dos EUA, e mais poderes são conferidos ao Presidente, é inevitável que ele se torne praticamente um ditador, expedindo "Executive Orders" a torto e a direito.
Para o Brasil, a eleição de Gore é um desastre. Ele vai querer influir em tudo por aqui: já afirmou que "a Amazônia não é dos brasileiros", que os EUA só devem comerciar com os países que tiverem a mesma legislação trabalhista dos americanos, que o papel americano no mundo deve ser o de guardião dos direitos humanos.
Um jornal brasileiro - acho que o "Notícias populares" - acusou Bush de, no terceiro debate, ter dito que o Brasil deveria pagar sua dívida externa com pedaços da Amazônia. A acusação é falsa, e está em desacordo com o que defendeu Bush nos debates: que os EUA só devem intervir no mundo se seus interesses estiverem diretamente em jogo. Esta, aliás, é a doutrina do Gen. Colin Powell, que provavelmente será o secretário de segurança num governo Bush. Não é exatamente o isolacionismo de Buchanan, mas já é um refresco.
Numa palestra, perguntaram ao Olavo de Carvalho o que ele achava que aconteceria se Gore fosse eleito. Ele respondeu: "Será o Apocalipse!"
Digamos que, se o eleito for Bush, é porque Deus resolveu adiar um pouquinho o Apocalipse.