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No. 36 - 17/11/00
Jemina Khan, filha de um famoso político inglês, o já falecido Sir James Goldsmith, está enfrentando acusações de anti-semitismo porque escreveu um artigo no Guardian criticando a cobertura da mídia americana a respeito de Israel e dos últimos conflitos no Oriente Médio. Khan vem de uma família judaica, mas se converteu ao islamismo em 1995, ao casar-se com um ex-jogador de críquete, Imran Khan. Após a publicação do artigo, seu advogado, há tempos advogado de sua família, lhe enviou um fax afirmando que não a representaria mais, porque ela é "anti-semita" e "não entende o que significa ser um Goldsmith".
Acho que pouca vezes vi tanta burrice junta. Vamos lá: dizer que a maior parte da mídia americana é favorável a Israel é anti-semitismo? Dizer que a atuação de Israel em relação aos palestinos fere os mais elementares direitos humanos é anti-semitismo? Lembrar que Israel está descumprindo regulamentações internacionais e diretrizes da ONU é anti-semitismo? Que nonsense é esse?
Ora, criticar a política israelense não é criticar os judeus; criticar o status privilegiado que Israel tem no cenário internacional - graças ao apoio americano - não é criticar os judeus; criticar a cobertura parcial da mídia americana nos assuntos israelenses não é criticar os judeus; mais ainda: criticar um ou outro judeu não é despejar ódio sobre todo o povo judaico. Essas distinções são tão óbvias, tão elementares, que sinto vergonha de ter de escrevê-las.
No entanto, é preciso escrevê-las, porque eu também já escrevi coisas terríveis sobre Israel. Há algumas semanas, citei um editorial do jornal inglês Observer que dizia que se o que Israel faz com os palestinos fosse feito por brancos contra negros, haveria uma campanha internacional similar à campanha contra o apartheid na África do Sul. Uma semana depois, repeti as palavras do correspondente estrangeiro do jornal Toronto Sun, que escreveu que a rebelião dos palestinos assemelha-se a uma rebelião de presos. E, por ter escrito essas coisas, eu também poderia ser acusado de anti-semita, se algum dos leitores desta coluna fosse tão burro quanto o advogado da sra. Jemina Khan. Felizmente, a julgar pela correspondência que recebi a respeito desta questão, eles são muito mais inteligentes, e são capazes de perceber que o fato de o Estado de Israel ter sido criado como um refúgio para os judeus depois dos crimes que sofreram em mãos nazistas não dá a esse estado carta branca para agir como queira com relação às populações que perderam suas terras - sem reparações - para que os judeus lá pudessem ser instalados.
Os leitores são inteligentes o suficiente para perceber que respeito o sofrimento judaico, respeito enormemente a cultura e a religião judaicas, mas não acho que os sofrimentos passados justifiquem suas ações no presente. Aliás, num célebre debate sobre o Oriente Médio no Canadá em 1961, o historiador inglês Arnold Toynbee disse, referindo-se a Israel, que a coisa mais trágica da vida humana é um povo infligir ao outro sofrimentos semelhantes aos que sofreu.
Toynbee também não estava sendo anti-semita. Estava, apenas, advertindo os líderes israelenses a respeito dos erros que estavam cometendo - erros que se perpetuam, em parte graças ao temor que certos setores da imprensa sentem de serem considerados anti-semitas se chamarem a atenção para eles, temor que surge da falsa identificação entre sionismo e judaísmo.
Infelizmente, esse é um sinal dos tempos em que vivemos. Tempos do "politicamente correto", da cultura da vítima, da cultura dos ressentimentos. Só nesses tempos de suscetibilidades à flor da pele é possível um judeu sentir-se ofendido enquanto judeu só porque um de seus líderes foi criticado, ou porque a política externa de Israel foi condenada.
Na semana que está começando, no entanto, as vítimas que estarão em posição proeminente não serão os judeus, e sim os negros. Dia 20 de novembro é dia de Zumbi, e o movimento negro aproveita para celebrar a "semana de consciência negra".
Agora, eu pergunto: seria absurdo fazer uma "semana de consciência judaica"? É claro que não. A resposta é óbvia, porque os judeus têm uma unidade cultural, podem celebrar uma história comum, uma origem comum. Embora tenham se dispersado pelo mundo e se inserido em diversas culturas diferentes, permanecem certas características culturais que permitem que se fale em uma unidade do povo judaico.
O que, no entanto, os negros celebrarão? Uma cultura comum? Qual é a cultura comum do "povo negro"? Existe algum tipo de identidade cultural entre os feiticeiros animistas no Sudão, os protestantes nos Estados Unidos, os praticantes do candomblé na Bahia, os muçulmanos no Marrocos?
A única coisa em comum é a raça - e por raça entenda-se a cor da pele. Agora, por que diabos a cor da pele é motivo de celebração? Ela é um mérito, um motivo de orgulho? Normalmente, entende-se por motivo de orgulho aquilo que o indivíduo conquistou com esforços próprios, aquilo que ele conseguiu realizar na sua vida. Por que orgulhar-se de algo que lhe veio de nascimento, algo que independe da sua vontade?
Os próprios líderes do movimento negro percebem que a celebração exclusivamente da raça é um pretexto muito frágil para um movimento político, e falam em celebração da cultura negra. Mas não se sabe exatamente o que é essa cultura negra. Ela, normalmente, é entendida como a cultura "da África", mas nunca existiu uma unidade cultural africana. E, aqui, aparece o paradoxo maior das celebrações do movimento negro: ao mesmo tempo que pretendem celebrar uma fictícia cultura africana, eles pretendem conquistar novos direitos nas sociedades industrializadas e democráticas modernas. E é certo que, desses direitos, o primeiro - e mais importante - que conquistaram foi o de não ser escravizados.
Ora, alguém aí, por favor, me diga como se diz "dignidade da pessoa humana" em banto? Como, na cultura yoruba, se desenvolveu a noção de "direitos humanos"? Qual a tribo africana que aboliu a prática de escravizar os inimigos vencidos?
Nada disso é possível, e a razão é muito simples: a noção de pessoa humana é produto da cultura cristã. Foi o cristianismo, com sua mensagem de salvação universal, com sua celebração do Deus que se oferece em sacrifício pela humanidade inteira, que desenvolveu a noção de que cada vida humana é valorosa e de que existe uma igualdade fundamental entre os seres humanos. Foi sob esta influência que o mundo ocidental aboliu a escravidão, e a considerou uma prática odiosa.
O historiador português Jorge Couto, no seu recente livro sobre a formação brasileira, conta os vários conflitos que se desenrolaram entre os senhores de escravos e os jesuítas, porque estes não admitiam o tratamento que alguns daqueles davam a seus escravos, e conta como os mesmos senhores de escravos buscaram frustrar os esforços dos jesuítas para converter os escravos. Isto porque, convertidos, eles estariam numa religião que não admite uma diferença de espécie entre os seres humanos, que não admite que o senhor é naturalmente superior ao escravo e, portanto, afirma que todos têm direitos fundamentais - direitos decorrentes da "dignidade da pessoa humana".
No entanto, os líderes negros atuais não querem saber de cultura ocidental ou de cristianismo. Eles não querem celebrar a cultura que os libertou, mas sim a que aprisionava seus antepassados.
Recentemente, em entrevista à revista "Raça", um desses líderes pregava que as escolas deveriam ensinar história africana às crianças negras, deveriam enfatizar a cultura tribal afro.
Essa opinião secessionista é característica do movimento negro. Eles querem um Brasil próprio, querem se livrar de uma cultura que, segundo eles, lhes foi imposta. Mas se houve alguma imposição, é importante não esquecer que os próprios membros das culturas tribais contribuíram para ela. Agora, eles querem se separar de uma cultura que nunca os rejeitou, que começou por escravizá-los mas acabou por libertá-los, e voltar para uma que não só os escravizou como os expatriou, a "cultura" de um continente de várias culturas, algumas das quais adotam a escravidão até hoje e outras das quais ficaram reféns de tiranos marxistas financiados pelas potências ocidentais.
Não faz sentido nenhum tentar criar uma "nação negra" à parte do resto do Brasil, porque a cultura brasileira se fundou na união e na tolerância entre as raças. Os negros não têm, aqui, o progresso econômico que tiveram os negros americanos, mas, primeiro, ninguém no Brasil teve o progresso econômico dos americanos e, segundo, em compensação, nunca criamos guetos para negros, nunca criamos mundos raciais separados. Existe muito a se fazer pela unidade nacional, existe muito a se fazer pelo desenvolvimento econômico e cultural do Brasil, mas essa é uma tarefa de todos e que nunca se fará através do acirramento de ódios raciais.
Esse acirramento só terá o efeito oposto: servirá para nos dividir, para jogar brasileiros contra brasileiros, para enfraquecer nosso país e torná-lo mais suscetível à dominação dos novos senhores do mundo e seu ódio às nações.
Vale, agora, fazer a respeito dos negros as mesmas distinções que fiz a respeito dos judeus. É ridículo chamar de racista um artigo que critica a exaltação de uma raça em relação às outras. Mais do que isso: é inteiramente diferente criticar a raça negra e criticar seus auto-proclamados líderes. Esses líderes não são líderes de coisa nenhuma; como diz Thomas Sowell, eles são tão amigos dos negros quanto Iago era amigo de Otelo. Embora não tenham as mesmas intenções maliciosas de Iago, o resultado de suas ações é tão destrutivo quanto o das ações de Iago. Ao incentivar o ressentimento, incentivar a dependência do paternalismo estatal, eles estão prejudicando os negros - e não admitem contestações, porque querem ter o monopólio do anti-racismo, querem ser considerados os únicos beneméritos da raça negra. Para eles, vale o seguinte recado: eu gosto dos negros, mas eu não gosto nem um pouquinho de vocês, e acho que a melhor coisa que eles fariam é esquecer vocês. Digo mais: vocês se enquadram perfeitamente no que disse o herói negro americano Booker T. Washington: "Há uma classe de pessoas de cor cuja ocupação na vida é manter os problemas e as dificuldades da raça negra diante do público. Algumas dessas pessoas não querem que a vida dos negros melhore, porque elas não querem perder seus empregos." No caso de vocês, aliás, empregos financiados por ONGs e fundações pilantrópicas internacionais.
Alguns poderão aproveitar a acusação de racismo para lançá-la sobre a distinção que fiz entre a cultura cristã ocidental e a (inexistente) cultura afro. A resposta, mais do que óbvia, é a seguinte: ou vocês querem igualdade racial ou querem igualdade cultural. A igualdade racial só pode existir dentro da cultura que a admite. Só na cultura cristã, que proclama a igualdade fundamental entre os indivíduos, há igualdade racial. É impossível a convivência de uma cultura escravagista e com outra igualitária - e, portanto, é impossível admitimos a igualdade racial e a igualdade cultural ao mesmo tempo. Façam sua escolha. Eu já fiz a minha.
DESINFORMATZIA
A Slate pediu a todos os membros de seu staff que revelassem seus votos para presidente. Deu Gore por uma maioria esmagadora (aliás, vale a pena ler para notar a péssima qualidade dos argumentos).
Não é surpresa para ninguém que a Slate é um antro de esquerdistas - o que levou um dos participantes do fórum de discussões do site a dizer, com toda razão, que Bill Gates deveria demitir-los todos - mas o que é interessante é que os criadores do site foram honestos a respeito disso e confessaram que votam na esquerda.
Por que a imprensa brasileira não faz o mesmo?
Comentei há pouco minha surpresa com o fato de que alguns jornais brasileiros finalmente resolveram recomendar o voto nos candidatos. Acho que os colunistas e os repórteres deveriam fazer o mesmo. Deixem de se esconder numa falsa impressão de imparcialidade: todos sabemos há tempos que a imprensa brasileira está dominada pela esquerda, que mais de 80% dos jornalistas brasileiros são esquerdistas, mas, ainda assim, paira uma impressão de imparcialidade e neutralidade sobre os nossos jornais e revistas.
Então, sugiro que alguém faça a mesma pesquisa que fez a Slate. Perguntem aos redatores e editores de "Veja", "Isto É", "Época", "O Globo", "Folha", "Estadão" etc. em que partido eles costumam votar. Depois, comparem as suas respostas com o tipo de matéria que esses órgãos de imprensa costumam veicular. Certamente teremos descobertas interessantes.
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Falando nisso, não sei de que panfleto do Partido Democrata a "Isto É" copiou sua última capa, que diz que Hillary Clinton foi a grande vencedora das últimas eleições americanas.
Besteira. Hillary ganhou por mais do que se esperava, mas numa eleição facílima, porque num Estado tradicionalmente Democrata, contra um adversário desconhecido que teve uma campanha horrível, que, em sua obsessão por obter o voto judaico, inventou mentiras contra a Primeira Dama, fez-lhe críticas inteiramente injustas e alijou inteiramente o voto negro - como, aliás, o jornalista americano Cedric Muhammad havia avisado.
E, ainda assim, pesam sérias dúvidas sobre a lisura da eleição em diversos locais, com urnas mecânicas cujas alavancas não funcionavam, propagandas de boca-de-urna em lugares proibidos e coisas semelhantes.
Aproveitem o assunto para uma visita ao site Slap Hillary!, que me esqueci de recomendar antes, mas recomendo agora.
POLITICAGENS
Eleições americanas, atualização em relação à semana passada: eu previ - e para prever isso bastava não ser um comentarista da CNN - acertadamente que Gore não descansaria em seus esforços de reverter o resultado da eleição, mas não imaginei que chegasse ao ponto atual. O que está acontecendo é uma verdadeira tentativa de golpe de Estado, liderada pela imprensa. E a confusão continua (mas não tanto quanto poderia...): uma burocrata democrata - a coordenadora das eleições na Flórida que desenhou a cédula polêmica na qual os imbecis não encontraram o nome de Gore! - dá a autorização para a recontagem dos votos (uma recontagem fantasma, para a qual simplesmente não há critérios e que certamente produzirá muitos novos votos para Gore); uma procuradora republicana impede a continuação da recontagem; processos judiciais surgem de todos os lados (e que provavelmente serão julgados por juízes que acreditam que a lei é "fluida" e que sua função é "construí-la"); uma quantidade impressionante de mentiras - típica da administração Clinton, como bem apontaram Ann Coulter e Charley Reese - e assim por diante.
Quem quer que assuma o cargo assumirá enfraquecido e amarrado. E isso é ótimo, tanto para os americanos - que sofrerão menos com legislações para aumentar a burocracia estatal - quanto para o resto do mundo - porque um presidente enfraquecido em casa certamente não vai querer apitar as coisas na casa alheia.
O curioso é a divisão no mapa eleitoral. Dêem uma olhada nele, reproduzido nessa coluna do Joseph Farah. Gore ganhou a apertada eleição em algumas cidades populosas, mas perdeu praticamente no país inteiro. Argumento para secessão, como querem alguns sulistas? Sei lá. Mas pelo menos é um argumento contra o aumento abusivo do poder central do Estado e a favor do Colégio Eleitoral, com o qual a Hillary Clinton quer acabar. Essa, aliás, é a nova causa da nova Senadora americana - isso e a morte de Ralph Nader.
Nisso tudo, já é possível eleger a melhor frase das eleições. A menção honrosa vai para a frase de William Daley, assessor de Gore, que disse que, não importando as circunstâncias, a vontade popular só será realizada de Gore ganhar. Mas a melhor de todas é a do assessor de Gore, Paul Begala: "toda essa insistência em que os candidatos digam a verdade já está ficando fora de controle!" (relatada numa coluna de Thomas DiLorenzo).
Para mais detalhes sobre as eleições, sigam os links que espalhei pelo texto, e recomendo ainda a cobertura do site Front Page Magazine, do jornalista David Horowitz.
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Relatório dos médicos, após a separação das irmãs xifópagas na Inglaterra: "Jodie está em condição crítica mas estável. Infelizmente, apesar de todos os esforços da equipe médica, Mary morreu."
Como disse Dominic Lawson no Telegraph, essa frase deveria figurar em algum dicionário como a definição da hipocrisia. A única maneira correta de frasear o que aconteceu seria "Infelizmente, por causa de todos os esforços da equipe médica, Mary morreu." A operação não foi feita para tentar salvar as duas irmãs; foi feita para matar uma delas e salvar a outra.
Eu sei que o caso provocou inúmeras discussões, e que a maioria dos artigos a respeito começava dizendo que se tratava "de uma questão ética muito difícil." Certamente era uma questão difícil para os pais das meninas, mas não é nada difícil perceber a imoralidade na conduta do Governo.
Prestem atenção, caros amigos: assistimos na Inglaterra a um Governo obrigar um casal a matar uma de suas filhas. Os pais, a quem naturalmente cabia a decisão, certamente seguiram os impulsos mais nobres de seus corações e optaram por não matar nenhuma das meninas, e deixar a natureza seguir seu curso - mas o Judiciário deu uma ordem em contrário.
Falamos tanto de aborto, mas esse caso vai além do aborto, porque não se trata apenas da permissão para que os pais matem seus filhos; trata-se da ordem para que o façam. Esse caso marca uma nova era na monstruosidade estatal.
E, agora, pensem nas conseqüências psicológicas para Jodie, que sobreviveu, e para seus pais. Todos saberão que, para que ela vivesse, foi necessário assassinar sua irmã.
ARTIGO DA SEMANA
O artigo da semana vem da coluna de Peter Jones na The Spectator de 11 de novembro. A coluna chama-se "Ancient and modern", e toda semana tenta responder à pergunta: o que os antigos pensariam deste fato ou desta idéia moderna? A idéia é brilhante, a execução nem sempre é tão boa quanto poderia, mas a coluna desta semana foi especialmente inteligente, lembrando as críticas que Platão e Aristóteles fariam à nossa atual obsessão por pedagogos e por técnicas didáticas (e grifei um termo para que se notem as implicações estéticas dessas observações também):
"Semana passada os 'Platões' - prêmios anuais para os melhores professores do país - foram distribuídos. Platão (429-347 a.C.) reprovaria enfaticamente. O problema é que os juízes do 'Platão' mostraram virtualmente nenhum interesse em o que estava sendo ensinado. Eles estavam interessados apenas em como as coisas estavam sendo ensinadas. Como resultado, os talentos comunicativos, o entusiasmo, a imaginação, e assim por diante, foram os principais critérios para a seleção dos vencedores. Essa maneira de tratar algo tão importante quanto a educação era anátema para Platão. Para ele, a questão central era 'O que está sendo ensinado, e por quê?' Apenas quando se sabe qual é a finalidade do ensino, e por que essa é a finalidade certa, é possível ter confiança num sistema de educação.
"Platão teria enquadrado os 'Platões' na mesma categoria potencialmente desastrosa de 'talento' que a retórica, o talento para a persuasão pública. Estava tudo bem em argumentar-se que a retórica permite que um sujeito expresse seus pontos de vista de forma persuasiva e convincente, mas a questão importante era: quais eram os argumentos que mereciam vencer? Qual seria a conseqüência de pôr em prática uma política baseada naquele determinado argumento?
"Platão dá um exemplo impressionante em seu diálogo Phaedrus. Suponha que um homem pensasse que o cavalo era o animal com as orelhas mais longas; e suponha que ele então ouvisse que os cavalos eram tremendamente eficientes em repelir ataques inimigos; suponha então que alguém fizesse um discurso público em elogio aos burros (chamando-os de cavalos), dizendo quão eficientes eles eram nas campanhas militares em casa e no exterior e exortasse seus ouvintes a adquirir urgentemente uma manada deles - 'que tipo de colheita você supõe que a retórica teria como fruto das sementes que lançou?'
"Para Platão, há uma diferença crítica entre a verdade e a persuasão, e é a responsabilidade de qualquer pessoa numa posição pública, de político a professor a artista, saber a diferença entre elas. É por isso que Platão reprovaria os 'Platões'. Eles estavam dando primazia à retórica sobre a substância, à apresentação sobre a verdade. É hora, portanto, de uma nova competição para professores: o 'Aristóteles'. Assim como Platão, Aristóteles estava interessado primeiramente no propósito, no 'fim' das coisas, e o prêmio 'Aristóteles' seria dado puramente com base na qualidade do conhecimento oferecido. Seria fascinante ver se os vencedores dos 'Platões' também ganhariam os 'Aristóteles'."
