No. 37- 24/11/00
Tirando situações extraordinárias de reserva de mercado, é possível que um empresário "impopular" permaneça no seu negócio? Claro que não, porque a função do empresário é atender às demandas populares. Ele deve comercializar um produto que tenha aceitação popular, isto é, que atendam aos anseios de consumo da população. Se seu produto não é desejado por ninguém, não interessa a ninguém - quer dizer, se seu produto é "impopular" - ele vai à falência, porque o mercado é a instituição mais democrática que existe: os consumidores expressam diretamente suas preferências, definindo o sucesso e o fracasso das empresas.
Como diz o economista Hans Hermann-Hoppe, ecoando lições da escola austríaca, em artigo recente no LewRockwell.com (embora as ache interessantes, não subscrevo as propostas anarquistas de Hermann-Hoppe, por vários motivos que poderão ser discutidos em outra ocasião): "Homens de negócios (capitalistas) e seus empregados não obtêm renda alguma a não ser que produzam bens e serviços que são vendidos em mercados. As compras dos consumidores são voluntárias. Comprando um bem ou um serviço, os compradores demonstram que dão mais valor a este bem ou serviço do que à soma de dinheiro que têm de despender para adquiri-lo."
Agora, vamos repetir a pergunta inicial, mudando o sujeito: é possível que um político impopular permaneça no seu negócio? A resposta também é clara: não só é possível, como é a experiência milenar da humanidade. No sistema democrático, que tenta amenizar essa situação, o político ao menos poderá ser deposto nas próximas eleições. Mas mesmo na democracia, entram aí diversos outros fatores. Por exemplo, pode não haver uma alternativa que expresse melhor os anseios do eleitorado, e os eleitores optarão pelo mal menor de deixar o político impopular permanecer no cargo, ou pode ser que o político seja eleito prometendo uma coisa e cumprindo outra.
Acontece que, populares ou não, atendendo aos anseios da população ou não, os políticos terão direito ao dinheiro da população e serão sustentados por esse gasto obrigatório e involuntário. Voltando a citar Hans Hermann-Hoppe: "Em contraste [com os empresários], políticos, partidos e funcionários públicos não produzem nada que seja vendido em mercados. Ninguém compra 'bens' ou 'serviços' do governo. Eles são produzidos, e há custos para produzi-los, mas eles não são nem vendidos nem comprados. Por um lado, isso implica que é impossível determinar seu valor e descobrir se este valor justifica seus custos. Porque ninguém os compra, ninguém realmente demonstra que considera que os bens e serviços do governo valem o que custam e, na verdade, ninguém demonstra se dá algum valor a eles."
Exemplificando isto: ao pagar cem reais por uma consulta médica, ou ao pagar vinte reais por um almoço, o sujeito está demonstrando que, para ele, a consulta médica e o almoço valem mais do que o dinheiro que ele está gastando, e que ele está disposto a pagar por esse serviço; se o mesmo almoço custasse cinqüenta reais, pode ser que o mesmo consumidor não pagasse por ele - e o restaurante poderia ir à falência. Por outro lado, ninguém paga voluntariamente um salário ao ministro da saúde, ninguém diz quanto vale seu trabalho: o custo do salário é pago por uma imposição coercitiva do Governo sobre o cidadão.
Continuando a citação:
"Por outro lado, quanto às implicações práticas, os subsídios financeiros a políticos e funcionários públicos são um subsídio à produção de bens e serviços com pouca ou nenhuma consideração ao bem-estar dos alegados consumidores, e com muita ou total consideração ao bem-estar dos produtores, i.e., políticos e funcionários públicos. Seus salários permanecem os mesmos, quer o resultado de suas atuações satisfaça os consumidores ou não. Da mesma maneira, como resultado da expansão dos empregos no setor 'público', haverá um crescimento na preguiça, no descuidado, na incompetência, no desperdício e até na destruição - e ao mesmo tempo sempre mais arrogância, demagogia e mentiras ('nós trabalhamos para o bem do povo')."
Isso quer dizer que o poder de um político é infinitamente superior ao poder de um empresário, e que o peso do poder político sobre o cidadão é infinitamente superior ao peso do poder econômico.
Se um consumidor não quer os bens de uma empresa, ele simplesmente deixa de comprá-los (repito, desde que não haja reserva de mercado, caso em que o poder econômico da empresa se uniu - e se fortaleceu enormemente, em prejuízo do cidadão comum - ao poder político); se um consumidor não quer os bens do governo, ele pode até reclamar, mas continuará a ter de pagar impostos.
Os meios de se fazer obedecer que dispõe o Estado são muito superiores aos meios de que dispõe a empresa. Mesmo que consideremos a empresa não diante do consumidor, mas diante de seus empregados, tudo o que ela pode fazer a eles é tirar-lhes o sustento material, mas ela não pode impedir que eles, se demitidos, trabalhem em outra empresa. Já o Estado tem a sua disposição todo tipo de multas e penas para aplicar sobre quem lhe desobedece, porque ele detém o monopólio da violência (e o concede em ocasiões extraordinárias, como as de legítima defesa).
As conclusões que podemos tirar daí são inúmeras. Olhando as coisas desta maneira, vemos, por exemplo, que a tirania não é acidental ao socialismo e ao fascismo, mas faz parte de sua essência. No caso do socialismo, o que se prega é a abolição da propriedade privada e, portanto, a abolição do poder econômico independente, que será absorvido no poder político, o que deixa o cidadão inteiramente à mercê do Estado; no caso do fascismo, há uma aliança estratégica entre esses dois poderes e eles pesam sobre o cidadão.
Também percebemos que a atual exaltação do sujeito "idealista" que quer o poder político para "mudar o mundo" e a execração do empresário que simplesmente quer ganhar dinheiro é uma aberração moral. O sujeito "idealista" busca controle direto sobre a vida das pessoas e elas terão de sustentá-lo quer estejam satisfeitas com ele ou não; o sujeito que quer ganhar dinheiro simplesmente não conseguirá sobreviver se não produzir algo que as pessoas queiram e sem aumentar, em conseqüência, o fluxo de recursos na sociedade e número de empregos disponíveis.
E, para tratarmos de uma questão recente, vemos como são imorais os esforços do Ministro da Saúde e do Congresso Nacional para proibir a propaganda de cigarros. Ora, sr. Ministro, as empresas não podem forçar o consumidor a consumir seus produtos e, se suas propagandas forem mentirosas, há medidas que podem ser tomadas contra elas. O mesmo não se pode dizer do Ministro: todos somos forçados a aturá-lo e a acatar suas medidas absurdas, ao mesmo tempo que provemos seu sustento.
Portanto, em vez de proibir propaganda de cigarros, mais justo seria proibir propaganda do Governo.
POLITICAGENS
Três observações sobre as eleições americanas e os esforços do Partido Democrata para fraudá-las:
1) As cédulas que os americanos usam para votar não foram feitas para ser contadas à mão, e simplesmente não há critérios para a recontagem manual que está acontecendo em alguns distritos da Flórida.
Essa cédula funciona da seguinte maneira: há espaços ao lado dos nomes dos candidatos, e o eleitor puxa uma alavanca para, fazendo o furo, marcar sua opção. Esses furos, depois, são contados por máquinas criadas para esse propósito, e que descartam as cédulas nas quais há mais de um furo ou nas quais o furo não é claramente identificável. Essas máquinas, como é óbvio, não favorecem um ou outro partido, porque suas regras de funcionamento são mecânicas.
Já os responsáveis pela recontagem à mão têm a instrução de procurar "identificar" o desejo do eleitor - o que quer dizer que precisam fazer de tudo para identificar o voto naquelas cédulas nas quais o furo não foi identificado pela máquina, inclusive, como disse uma porta-voz do Partido Democrata na Flórida, pôr as cédulas contra a luz. É por isso que a mídia americana está reclamando tanto - e com razão - da "chuva de papeletas" que se vê em alguns dos locais de recontagem, entendendo-se por "papeletas" os pedacinhos da cédula que deveriam ter sido furados pelas manivelas, mas não foram - e, justamente por isso, não foram levados em consideração pelas máquinas de contagem. Mas agora votos estão sendo descobertos - e inventados.
É evidente que esse processo de furos na cédula contados por uma máquina é imperfeito e sujeito a uma margem de erro maior do que a desejável, mas também é evidente adotar uma maneira de contar os votos incompatível com a maneira de votar não soluciona essa imperfeição e, pelo contrário, abre a porteira para inúmeras possibilidades de fraudes. O único processo de voto completamente transparente - e mesmo assim sujeito a fraudes - é o que o Brasil adotava há alguns anos e que ainda é adotado no estado americano de New Hampshire: cédulas de papel, nas quais os eleitores marcam o voto a caneta, com a contagem feita na presença de fiscais de todos os partidos. Quanto ao voto eletrônico, podemos acreditar na lisura do processo, mas é uma crença sem nenhuma evidência concreta dela, porque não sabemos exatamente como os votos são processados e contados - não conhecemos o programa, nem seus produtores e, curiosamente, a mídia nunca se interessou pelo assunto. Já o voto pela internet é uma idéia ainda pior, que seria a maior felicidade dos hackers.
De resto, os democratas parecem estar usando como inspiração para sua atuação na Flórida uma frase atribuída a Joseph Stálin: "Aqueles que votam não decidem nada. Aqueles que contam os votos decidem tudo."
2) Essa eleição americana já serviu para trazer à tona um caso clamoroso de desonestidade intelectual de um acadêmico de direito, o professor da Harvard Law School Philip Heymann.
Antes de contar o caso, lembro aos leitores que um advogado, no tribunal, não expressa sua própria opinião, mas apenas a opinião que serve à defesa de seu cliente. Sua função no tribunal é defender seu cliente, não dar uma opinião isenta sobre uma questão jurídica. O raciocínio exatamente oposto se aplica ao advogado quando emite um parecer, ou quando escreve um artigo de jornal na condição de "especialista". Neste caso, o que se espera do advogado é uma opinião isenta e científica. Exatamente por isso, o eminente tributarista Ives Gandra Martins, em recente artigo no "Jornal da Tarde", afirmou que jamais expressa em artigos de jornal opiniões que tenha defendido no tribunal.
Acontece que a argumentação que o sr. Philip Heynmann usou num artigo no "Washington Post" seria considerada desonesta e ilegítima mesmo num tribunal, mesmo que Al Gore e o deputado palhaço que fez o escarcéu todo na Flórida sobre a "cédula ilegal" fossem seus clientes. Ele afirmou que a famosa "cédula-borboleta", com nomes dos candidatos em ambos os lados e o espaço para o voto no meio, usada em Palm Beach é uma "clara violação de preceitos legais", porque a lei requer que os eleitores "votem em um candidato cujo nome está impresso na cédula marcando uma cruz (x) no espaço em branco à direita do nome do candidato."
Claro que as pessoas que leram o artigo e o levaram a sério deveriam ter percebido que há algo errado com o trecho da lei que fala em "marcar uma cruz (x)", porque na cédula tipo borboleta não é possível marcar "x" em lugar nenhum, apenas fazer um furo com a manivela. O problema, como ressaltou Ann Coulter, é que o trecho citado por Heynman faz parte de uma seção da lei eleitoral da Flórida intitulada "Votos em cédulas de papel", e a cédula-borboleta não é de papel e, portanto, as regras dessa seção simplesmente não se aplicam a ela!
Os dispositivos que regulam a cédula-borboleta estão numa seção posterior, intitulada "Votos em cédulas para máquinas", e eles indicam apenas que a localização do furo - ou coisa que o valha - para a marcação do voto na máquina deve "indicar ao eleitor qual o candidato a que o furo se refere" - como se vê, nenhuma referência à que os furos devam estar "à direita" dos nomes dos candidatos.
Como diz Ann Coulter: "lembrem-se disso na próxima vez que ouvirem um professor da Escola de Direito de Harvard explicar a lei."
3) Segundo relata James Ostrowski, a legislação da Flórida diz o seguinte: "O Departamento de Estado terá supervisão geral das eleições e administrará as leis eleitorais", o que significa que Katharine Harris, chefe desse departamento, tinha poderes discricionários sobre a eleição, e, portanto, sua decisão de não aceitar a recontagem dos votos depois de um determinado prazo é perfeitamente legal.
Diz decisão de 1983 da própria Suprema Corte da Flórida: "Começamos notando o escopo estreito dos poderes de revisão desta Corte... Nós apenas temos de determinar se a ação [da agência] está de acordo com os requisitos essenciais da lei e é sustentada por evidência competente substancial. O ônus de superar a presunção de correção atribuída a ordens de agências cabe aos apelantes... Há muito tempo nós reconhecemos que a construção administrativa de um estatuto por uma agência ou um corpo responsável pela administração do estatuto tem direito a grande consideração e não deve ser revogada se não for claramente errônea." (Pan American World Airways Inc. V. Florida Public Service Comission)
E vejam o que diz o Estatuto da Flórida: "Se os resultados do condado não são recebidos pelo Departamento de Estado até as 5 p.m. do sétimo dia após uma eleição, todos os condados faltantes deverão ser ignorados, e os resultados mostrados no arquivo deverão ser certificados." (Estatuto da Flórida 102.111.) "Se os resultados não são recebidos pelo departamento até o tempo especificado, tais resultados podem ser ignorados e os resultados arquivados até aquele momento podem ser certificados pelo departamento." (Estatuto da Flórida 102.112.)
Estão vendo que maravilha? A secretária de Estado simplesmente cumpriu o que dizia a lei, e os juízes democratas (alguns deles financiadores de campanhas democratas) da Suprema Corte da Flórida negaram a lei e a sua própria jurisprudência. Esse caso serve para mostrar como o ativismo judicial está destruindo a democracia americana e a que ponto de corrupção chegaram os juízes de lá. É provável que Gore acabe ganhando no grito.
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Tive o desprazer de assistir a alguns pedaços do depoimento de Zagallo à CPI da Câmara dos Deputados que pretende investigar as relações entre a Nike e a CBF.
A mesma pergunta, que caberia muito melhor numa mesa redonda sobre futebol, foi feita por pelo menos sete deputados diferentes: sr. Zagallo, se o Ronaldinho estava jogando tão mal na final da Copa, por que é que o senhor não o substituiu no intervalo do jogo?
Um tal de dr. Rosinha, um desequilibrado eleito pelo PT em algum lugar infeliz deste imenso país, quis saber se Zagallo consultou a equipe médica para liberar o Ronaldinho para jogar na final. O treinador respondeu que o jogador chegou de uma clínica com exames que garantiam sua liberação, e que a comissão técnica não o vetou e, portanto, ele resolveu escalar o jogador. Fica obviamente subentendido aí que, no futebol, basta a aprovação tácita da equipe médica - isto é, a ausência de veto - para que um jogador entre em campo, sem necessidade de aprovação explícita.
Mas o "dotô" disse que os médicos estavam errados e usou sua autoridade médica para justificar essa opinião. Bobagem, porque se dr. Rosinha fosse bom médico, não ia ter abandonado a profissão para faturar seus trocados em Brasília. Mas não eram só os médicos que estavam errados: aos berros, o deputado disse ao Zagallo que ele errou na escalação e, por isso, "perdemos uma Copa do Mundo".
Depois, o José Genoíno achou estranho que o treinador não conhecesse o contrato entre a CBF e a Nike. Nem lhe ocorre que estranho seria o contrário: que o treinador conhecesse um contrato que simplesmente não lhe diz respeito. O mais engraçado foi que, quando o Genoíno estava falando, eu notei que ele estava olhando para o lado, e não para a frente, onde estava a testemunha que ele inquiria. Só depois me dei conta que o lugar para onde o eminente deputado petista olhava era onde estava a câmera! Genoíno leva o prêmio de campeão em auto-promoção.
Um outro deputado, com ridículos óculos de leitura (tenho certeza de que o seu salário de deputado, pago com dinheiro coletado junto ao povo brasileiro lhe permitiria comprar uma armação mais moderna, dessas que, graças à abertura de mercado que tanto desagrada aos nossos deputados anti-capitalistas, inundaram o mercado brasileiro), chegou a insinuar que o Zagallo foi contratado pela Portuguesa e pelo Flamengo porque esses clubes também têm contratos com a Nike - só que a Portuguesa não tem contrato com o Nike e o contrato do Flamengo com a Nike diz respeito apenas ao vestuário usado pelos jogadores...
Mas o momento mais espetacular foi quando um deputado petista carioca mostrou que aprendeu muito bem a lição de seus mestres soviéticos, e quis não apenas fazer as perguntas como dar as respostas. Depois de perguntar alguma coisa e de não deixar o treinador dizer mais de duas frases em resposta, ele se dirigiu ao relator e disse: "eu quero que fique formalmente registrado que a testemunha respondeu que a CBF descumpriu o contrato com a Nike." Mas a testemunha disse apenas que não conhecia o referido contrato...
Na imprensa, a repercussão desse circo foi a esperada: como a maior parte dos colunistas de esportes é bem mais inteligente do que seus companheiros colunistas de política, eles reconheceram que aquilo tudo foi uma gigantesca perda de tempo. A única - e esperada - exceção foi um artigo ridículo do jornalista Juca Kfouri num jornal esportivo, mas a verdade é que o Kfouri tem tanta isenção para falar de Zagallo quanto eu tenho para falar de Cláudio Cordovil, ou quanto a Suprema Corte da Flórida tem para julgar o recurso de Al Gore.
Para os brasileiros em geral, fica a observação: é para financiar esse tipo de coisa que serve o dinheiro de seus impostos...
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Não foi comovente a passeata contra a privatização do Banespa? Todas aquelas mulheres andando e chorando, porque sabem que passam o dia inteiro nas agências do banco sem fazer nada, e morrem de medo que a nova administração resolva parar de financiar seu ócio? Tive vontade de chorar junto...
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A nova juíza do Supremo Tribunal Federal afirmou, na audiência com o Senado, que, por ser católica, é contra o aborto, mas que jamais deixaria isso interferir nos seus julgamentos, e que "os avanços da ciência podem provocar a legalização do aborto em determinadas condições."
A opinião da juíza sobre a legalização do aborto é inteiramente irrelevante, porque a ela cabe aplicar a lei e não criá-la. Mas, mesmo assim, que papo é esse de "avanços da ciência"? Avanços da ciência tornarão legal e legítima a morte de bebês no mesmo sentido em que o "avanço" que levou à criação da bomba atômica tornou legal e legítima a morte dos japoneses? Confesso que não entendi essa peculiar argumentação.
OS IDIOTAS
É difícil conter o riso toda vez que o dr. Emir Sader se põe a dar lições de economia. Vou poupar os leitores da discussão das "propostas econômicas" do Emir em seu artigo de quarta-feira no "Globo", mas sua análise da eleição americana é digna de nota, porque mostra que o eminente sociólogo é incapaz de completar um silogismo.
No primeiro parágrafo do artigo, ele diz o seguinte: "A maior novidade [das eleições americanas] é que o ciclo mais longo de crescimento da economia do país não foi o fator decisivo na eleição ou reeleição de um presidente dos EUA."
Nesse ponto, ele tem toda razão, e o feito de Gore - de perder (ou ter de ganhar roubando) uma eleição representando um Governo de um período de grande prosperidade é notável por só ter sido igualado antes em tempos de guerra.
Há dois motivos que se podem apontar para isso: ou os eleitores não deram importância à economia, e votaram em Bush por causa da personalidade repulsiva de Gore, ou os eleitores perceberam que o Governo nada tem a ver com crescimento econômico - basta que não atrapalhe (e as denúncias e brigas com o Congresso republicano simplesmente não deixaram que Clinton atrapalhasse).
Mas Sader tem outra opinião: ele reconhece que a economia não foi o fator decisivo para a eleição americana, mas acha que o fator decisivo foi... a economia!
Segundo o sociólogo, os americanos consomem demais e estão em depressão porque não têm tempo de ver suas famílias (supõe-se que por estar nos shopping centers), e porque precisam trabalhar demais para conseguir consumir tanto. Mas, ao mesmo tempo que estão consumindo demais, os americanos estão mais pobres, porque a diferença de renda nos EUA cresceram muito nos últimos anos. E foi em razão desse quadro que os americanos não votaram em Gore, por estarem insatisfeitos com a economia!
Nesse ponto, o leitor que tiver recuperado seu espanto com essa sucessão inacreditável de incoerências pode fazer a seguinte pergunta: tudo bem, esqueçamos por um instante que o sociólogo uerjiano diz que os americanos estão consumindo como nunca apesar de não terem dinheiro para comprar nada, mas é possível que eles tenham expressado sua insatisfação com a economia votando no candidato da oposição? Isso só é possível se o candidato tiver baseado sua campanha na promessa de mudar a economia - de parar o crescimento da economia ou de distribuir a renda ou de, como quer Sader, "romper o modelo de equilíbrio fiscal". Acontece que Bush não prometeu nada disso, não falou nada disso, e não é possível que ninguém tenha votado nele por isso.
A grande discussão na eleição americana, como todo mundo menos o Sader sabe, foi o que fazer com o superávit fiscal, com Gore prometendo investir mais dinheiro em programas governamentais e Bush prometendo cortar impostos - uma clara divisão entre um candidato estatizante e um liberalizante - mas nunca se discutiu mudar o modelo econômico, ao contrário do que tenta demonstrar Sader em seu desarrazoado.
O pior é que o sociólogo tenta, da suas conclusões absurdas, tirar conseqüências para o Brasil: segundo ele, o Brasil tem de aprender com os eleitores americanos que o modelo de crescimento econômico não funciona e "só cria desigualdades".
Então, eu faço uma proposta: comparem o nível de vida dos americanos e seu modelo "liberal" (decorrente, na verdade, dos cortes de impostos do Governo Reagan) com o nível de vida dos canadenses e seu modelo socialista. E vejam qual dos dois deve servir de exemplo para o Brasil. É preciso ser o Emir Sader para não entender.
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Depois me perguntam por que não gosto de William Buckley e por que a National Review não está entre os sites recomendados na seção de links...
É verdade que normalmente não entendo uma palavra do que o poderoso chefão da direita americana escreve, mas as palavras iniciais de seu artigo de segunda-feira são perfeitamente compreensíveis - e repulsivas:
"Você já ouvi falar de cientistas puros? Eles são os criadores dos pensamentos puros que dão origem, uma geração depois, a produtos práticos e 'lifesaving' tais como bombas atômicas, lâmpadas e penicilina."
Não interessa o que vem depois no artigo (generalidades sobre a eleição americana): que tal esta introdução? Como é que alguém pode ser leviano e inconseqüente a ponto de dizer, numa cândida introdução de um artigo, que a bomba atômica é um produto prático e "lifesaving"?!
Deixei, inclusive, o termo "lifesaving" no original, porque ele tem um poder de síntese inexistente em português e tem mais impacto do que "salvador de vidas". Agora, um sujeito que não vê problema nenhum em dizimar duas ilhas inteiras, matando 200.000 japoneses, e que, além disso, diz que o instrumento usado para cometer essa atrocidade é um produto prático e "lifesaving" deve ser um sociopata!
Antes que algum conservador de mentalidade militarista semelhante diga que jogar a bomba salvou 500.000 vidas americanas (adoro essas cifras oficiais que passam de boca em boca e de mente em mente, como um herpes mental), respondo que, segundo dados publicados por Barton Bernstein no "Bulletin of Atomic Scientists" de 1986, o próprio exército americano estimava as possíveis perdas de vidas americanas, no caso de uma invasão completa do Japão, em 46.000. Mas poucos acreditavam na necessidade de uma invasão, já que o poder aéreo e marítimo do Japão já havia sido destruído nesse momento. O General Eisenhower, quando soube que a bomba seria usada contra o Japão, respondeu que "o Japão já estava derrotado e que jogar a bomba era completamente desnecessário" (fonte: Gar. Alperovitz, "Atomic Diplomacy: Hiroshima and Potsdam", citada, como as demais citações desta nota, por Joseph Stromberg - este sim um colunista altamente recomendado - em artigo de agosto deste ano).
Mas a que ponto chegamos na decadência do conservadorismo, graças ao movimento "neo-conservador" de que Buckley foi o grande patrono. Segundo Joseph Stromberg, em 1945, Felix Morley escreveu no "Human Events" (principal jornal semanal conservador americano) que a bomba atômica representava "o retorno ao nada", um repúdio à toda a herança ocidental cristã. Morley disse mais ainda: "A medida da nossa perda [moral] pode ser vista, por exemplo, na farsa miserável produzida por aqueles que tentaram reconciliar o assassinato em massa de 'crianças inimigas' com uma adesão verbal à doutrina de que Deus criou todos os homens à Sua imagem."
ARTIGO DA SEMANA
Escrevi, na coluna de 20 de outubro, que existe um desvio de perspectiva na academia brasileira, que dá mais importância aos diplomas do que ao conhecimento. Só agora fiquei sabendo que, na Veja de 04 de outubro, o economista Cláudio de Moura Castro fez uma argumentação semelhante. O artigo começa com o seguinte exemplo:
"Engravidou a filha do titular de obstetrícia de uma excelente escola de medicina. Ficou com o caso o seu assistente mais sênior, também abarrotado de títulos acadêmicos e publicações. Lá pelo meio da gravidez, configurou-se o perigo de uma eclampse (patologia ligada à gravidez). O pai chamou o assistente e comunicou-lhe que estava passando o caso para outro médico. Pergunta então o assistente: por que trocá-lo por outro de clínica popular, com um mero diploma de medicina, sem outros títulos e publicações? A resposta é incisiva: 'Porque ele já tratou mais de 500 casos de eclampses e você não'."
Esse tipo de experiência, o conhecimento existencial do indivíduo, não é levado em conta em nenhuma avaliação acadêmica, em nenhuma avaliação profissional. Por causa disso, diz Moura Castro, "o pintor Portinari, o pianista Jacques Klein e o violonista Turíbio Santos não poderiam ser professores em universidade federal; Pelé poderia ensinar futebol porque tem diploma de educação física (e não pelo seu passado desportivo), mas não poderia ser chefe de departamento, pois não tem mestrado; o compositor Bruno Kiefer só era chefe do departamento de música da UFRGS porque tinha um doutorado em matemática, e não pela qualidade de suas sonatas."
Moura Castro acredita que o problema da supervalorização do diploma se deve mais ao corporativismo das profissões do que às cúpulas estatais. Eu diria que o problema se deve à união perversa de ambos. Sem sanção estatal, sem uniformização centralizadora dos critérios de avaliação das universidades, a influência das corporações não seria tão sentida, e não teríamos essa absurda reserva de mercado para os diplomados - e a conseqüente supremacia da incompetência.
