No. 38 - 01/12/00

A execução do bode expiatório alivia as culpas da sociedade. Todos os males que afligem a população são postos na conta de um indivíduo e, quando a turba raivosa faz com que ele pague por seus "crimes", a paz social é restaurada e as rivalidades sociais são abrandadas.

Segundo René Girard, os mitos das sociedades antigas encobrem esse sacrifício originário. No mito de Édipo, por exemplo, Édipo é culpado pela peste que quase dizima sua comunidade porque cometeu parricídio e incesto - uma acusação "típica do linchamento coletivo em períodos de crise, em períodos de peste, que surge dessa maneira no mito porque o mito emana dos perseguidores, não da vítima."

A originalidade do cristianismo é, justamente, tomar partido da vítima, e não da turba acusadora.

Em nosso tempo, a ideologia que procurou retornar à defesa dos sacrifícios dos mitos pagãos foi o nazismo. Ao contrário do comunismo, que procurava usurpar a herança cristã da superioridade da vítima, o nazismo, inspirado nas diatribes anti-cristãs de Nietzsche, não fazia nenhuma questão de esconder seu objetivo de garantir a paz social através do assassinato de vítimas preferenciais, sobre as quais lançava a culpa por todos os males da sociedade alemã.

"O indivíduo foi levado tão a sério, considerado tão absoluto pelo cristianismo, que ele não podia mais ser sacrificado. Mas a espécie não sobrevive senão graças aos sacrifícios humanos... A verdadeira filantropia exige o sacrifício pelo bem da espécie; ela é dura, ela se obriga a se dominar a si mesma, porque ela precisa do sacrifício humano. E esta pseudo-humanidade que se intitula cristianismo quer precisamente impor que ninguém seja sacrificado...", diz Nietzsche em seus Fragmentos póstumos 88-89. Comenta Girard:

"A verdadeira 'grandeza do nacional-socialismo' - expressão que Martin Heidegger efetivamente emprega em sua Introdução à metafísica - consistiu, parece-me, em combater abertamente o projeto de uma sociedade sem bodes expiatórios nem vítimas sacrificiais, isto é, o projeto cristão e moderno que Nietzsche, paradoxalmente, foi o primeiro a notar. O nacional-socialismo se esforça para tornar esse sistema nulo e sem futuro - é a volta deliberada ao sistema dos bodes expiatórios, o que é mais culpável do que a inconsciência arcaica. O neo-paganismo só pode conduzir a isso. O mito é refeito tomando-se os judeus como vítimas, e deseja-se retornar mesmo ao mito primitivo, entrar novamente na floresta germânica. (...) O nazismo é o pecado contra o Espírito. É fazer vítimas de forma consciente, e por razões quase espirituais, para refazer a sociedade nas costas dos bodes expiatórios."

Nós somos os felizes habitantes das democracias ocidentais, essas democracias que se uniram para destruir a barbárie representada pelo nazismo. E, justamente por essas democracias terem vencido o nazismo, acreditamos que elas também extirparam o nazismo e suas idéias, acreditamos que estamos livres de contaminação pelos elementos que representam um retorno a práticas sacrificiais antigas.

Afinal, temos as entidades de proteção aos direitos humanos, temos declarações fundadas no valor da vida humana, na dignidade da pessoa humana. Estamos livres de Hitler e de tudo o que ele representa - essa é a crença ingênua que os governantes contemporâneos e seus ideólogos querem que todos partilhemos.

No entanto, o vice-presidente americano Al Gore não se cansa de repetir que o aborto é um instrumento necessário de controle populacional, porque um crescimento da população pode trazer danos irreversíveis ao equilíbrio ecológico do planeta.

E um médico, Dr. John Hardwick, propõe um novo modelo bioético baseado no "dever de morrer", que ele qualifica da seguinte maneira: "Um dever de morrer é mais provável quando você já viveu uma vida rica e satisfatória. Você já teve sua quota das boas coisas que a vida tem a oferecer... Ter chegado à idade de 75 ou 80 sem estar pronto para morrer é, em si, uma falha moral, um sinal de uma vida desligada das realidades básicas da vida."

Segundo o Dr. Hardwick - que está longe de ser uma voz solitária -, "a medicina moderna e uma cultura individualista seduziram muitos a acreditar que eles têm um direito ao tratamento médico e um direito de viver, apesar do peso e dos custos que isso implica para nossas famílias e nossa sociedade."

O aborto já é aceito e adotado por quase todos os países do mundo. Agora, a Holanda - país já notório pelo alto índice de mortes causadas por médicos a pacientes idosos - acaba de seguir o exemplo da Alemanha nazista e legalizar a eutanásia, sob o argumento de que está protegendo o "direito de morrer", para o bem da sociedade e para não causar gastos excessivos à família. O idoso tem de morrer, porque sua vida causa custos à família e à sociedade. E ele tem de ser "altruísta".

E o altruísmo "verdadeiro", como dizia Nietzsche, exige o sacrifício humano, o sacrifício do bode expiatório para que o restante da sociedade possa viver em paz.

Vamos deixar de ingenuidades progressistas. Não estamos na mais iluminada das eras, porque a humanidade simplesmente não "evolui", não mantém as conquistas das gerações anteriores. As conquistas das gerações passadas, as lições dos momentos de luminosidade humana não passam de geração a geração no ADN. O esquecimento exerce um papel fundamental na história humana, e é esse esquecimento que permite que idéias antigas, refutadas ou abandonadas, periodicamente ressurjam com força total.

O cristianismo nos ensinou a valorizar o ser humano, a valorizar a vida humana, mas seus inimigos não se cansam de combatê-lo, não se cansam de repetir o apelo ao retorno aos valores pagãos, ao retorno à ordem fundada na violência e no sacrifício das vítimas inocentes.

Às vezes, esses retornos vêm mascarados em belas palavras; às vezes, não fazem nenhuma questão de disfarças suas origens, apostando no emburrecimento e no embrutecimento geral; com mais freqüência. O nazismo punha a culpa de todos os males alemães nos judeus e fizeram conscientemente os judeus de bodes expiatórios; o comunismo fez os burgueses de bodes expiatórios ao acusá-los de fazer bodes expiatórios dos proletários.

Agora, no brave new world da democracia tecnocrática global, os culpados pelos males sociais não são os judeus ou os burgueses - são os idosos e os bebês. Vítimas ainda mais indefesas e ainda mais inocentes. E uma população desmemoriada, idiotizada, hipnotizada e com o senso moral embotado assiste feliz a esses novos sacrifícios.

 

POLITICAGENS

Fazia muito, muito calor na sexta-feira, 24 de novembro, mesmo às 9:30 da manhã. Mal sabia eu que teria de agüentar esse calor enfurnado num ônibus durante mais de uma hora e meia. Quando vi a extensão do engarrafamento que praticamente parava a cidade naquela manhã, achei que o famoso "caos urbano" finalmente tinha se instalado no Rio de Janeiro.

Era quase isso, como percebi quando passei no elevado Paulo de Frontin e tive a impressão de que todos os táxis do Rio de Janeiro estavam parados ali. Foi quando eu percebi que havia um senhor nitidamente desequilibrado dando uma entrevista para um canal de televisão com um porrete na mão - e que todos os carros estavam com os vidros quebrados.

Eu não sabia do que se tratava, não fazia a menor idéia do que estava acontecendo, mas a simples idéia de um funcionário do governo quebrando vidros de carros que não lhe pertencem me dá vontade de pegar em armas.

Só depois fui saber do que se tratava, e vi que minha reação inicial estava inteiramente correta - e, como eu esperava, a reação da mídia foi inteiramente oposta à minha.

Sempre que há protestos desses moleques universitários no centro da cidade, ou passeatas de sem terra, ou passeatas de viados, os jornais e telejornais competem para ver quem vai pintar o retrato mais favorável dos "manifestantes", quem vai defender de forma mais enfática as reivindicações. E, se a polícia reage, tentando conter algum ato violento ou tentando abrir uma via de tráfego, as manchetes logo exclamam "repressão", "massacre", "volta à ditadura".

No caso do protesto dos taxistas, no entanto, nem uma única voz se levantou para defender os manifestantes. Nem uma linha na imprensa foi gasta para sugerir que, talvez, eles tivessem alguma razão para protestar.

Pelo contrário, ninguém pareceu se importar nem mesmo com o discurso do tal policial que quebrou o vidro dos carros. Segundo esse senhor, os taxistas eram "criminosos, facínoras, anti-patrióticos". Anti-patrióticos?!

É, "anti-patrióticos" porque, segundo esse senhor e segundo a mídia, os taxistas atentaram contra o sagrado direito de ir e vir da população carioca.

Eu acho que posso falar tranqüilo, porque eu estava entre as pessoas cujo tráfego foi severamente atrapalhado pelo protesto. Mas não morri por causa disso, nem tive grandes prejuízos - e, sinceramente, ninguém teve. A economia carioca não é tão espetacular que um atraso de uma ou duas horas na locomoção das pessoas crie algum rombo ou algum prejuízo significativo. Vamos deixar de frescura. O protesto certamente incomodou as pessoas e complicou o trânsito na cidade, mas não foi nada de grave. Que esse tipo de retórica absurda tenha sido usada pelo sujeito que, para parar o protesto, quebrou os vidros dos táxis, mostra apenas que esse desequilibrado não tem a menor qualificação para ocupar a posição de comando que ocupa.

Porque, se não bastasse a retórica ridícula - e, essa sim, indicadora do que havia de pior no regime militar -, a atitude de quebrar os vidros foi ilegal e ilegítima, uma indicadora do típico desprezo do Governo Garotinho pela lei.

Mas, afinal, o que queriam os taxistas? É simples: livrar-se das garras de uma perversa aliança entre governo, grande capital e sindicato, uma aliança quase invencível, por razões que, coincidentemente, expus na semana passada.

Como os governos no Brasil gostam de intervir em tudo, só podem ter um táxi quem o Governo achar que pode. Eles concedem as tais de "autonomias" - uma meia dúzia de favorecidos as obtém, chegando algumas pessoas a acumular mais de 10 delas, e alugam os táxis a que têm direito por diárias extorsivas. É possível comprar uma dessas autonomias de quem as tem? Sim, por custos que começam em 50 mil reais - mais do que um carro.

Esse sistema é um exemplo típico do que acontece quando o Estado intervém na economia, impedindo a iniciativa privada.

Mas vocês não vão ouvir isso em nenhum outro lugar, porque a única intervenção estatal que não agrada à imprensa é a intervenção na própria imprensa.

E aquele papo de ser a favor do povo, a favor do cidadão comum, a favor da liberdade etc.? Esqueçam. Nem a imprensa nem a esquerda - ops, dá no mesmo - são a favor de nada disso.

"Povo" é apenas uma palavra sem sentido que esquerda usa para embelezar sua retórica. "Liberdade", para essa gente, se aplica somente à vida sexual ou à imprensa - é a liberdade de publicar qualquer besteira ou exibir qualquer pornografia, não a liberdade de trabalhar naquilo que o cidadão quer. E isso nos leva ao terceiro termo: o "cidadão comum" é, justamente, o maior prejudicado pelas políticas que prometem favorecê-lo e ajudá-lo.

Qual é a utilidade dessas regulamentações estatais a respeito dos taxistas?

Garantir que os táxis estejam em ordem? Já existem as vistorias do Detran. Garantir a uniformidade dos taxímetros? Mas para que diabos os taxímetros têm de ser uniformes? Acabem com o tabelamento dos preços dos táxis - alguns táxis logo vão aumentar os preços e outros certamente abaixarão. Deixem as pessoas por qual dos dois vão pagar.

Algum outro fascistinha poderá argumentar que, se o governo não regular, haverá um excesso de táxis na rua. Besteira. Talvez houvesse no começo, mas o mercado logo se estabilizaria. Lei da oferta e procura - que funciona, desde que os burocratas que acham saber melhor do que as próprias pessoas como elas devem viver não interfiram.

Mas, mais uma vez, vocês não ouvirão nada disso em outro lugar - nem mesmo nos órgãos de divulgação de nossos tímidos liberais.

Só que eu não agüento mais - e nenhuma pessoa decente pode agüentar - ouvir intelectuais, políticos e jornalistas gemer contra a "tirania do mercado" ou contra o "poder econômico" e pedir como solução para isso o aumento da tirania estatal, da tirania dos burocratas iluminados.

Os taxistas têm toda minha simpatia, e não têm a simpatia nem da imprensa nem do governador nem do futuro prefeito do Rio, porque sua causa é politicamente incorreta. Ao contrário de todos os outros protestos de que esses comunas e fascistas gostam, seu protesto não foi um protesto pedindo mais intervenção estatal, pedindo mais tirania, mas foi um protesto por liberdade econômica, um protesto para que eles possam, simplesmente, comprar um carro e usá-lo como táxi, sem dar satisfação a nenhum burocrata corrupto nem aos empresários poderosos favoritos desses burocratas.

Recentemente, Gene Callahan lembrou que F. A. Hayek, no seu livro "A Constituição da Liberdade", afirma que a principal característica de uma lei compatível com a liberdade é que ela seja clara, geral e requeira o mínimo de discricionariedade por parte dos governantes.

Callahan também lembrou que essa regra não basta para garantir que o Governo não proclamará uma lei absurda, como "Todos devem usar shorts vermelhos às quartas-feiras", mas ao menos garante que os cidadãos podem conhecer facilmente as leis que regulam suas vidas. Um cidadão é capaz de saber se está cumprindo ou não uma regra como "todos devem usar shorts vermelhos às quartas-feiras", e pode se defender com base nesse conhecimento, mas ninguém é capaz de saber se está cumprindo ou não uma lei que diga que "ninguém deve fazer nada que desagrade ao Governo". Essa diferença entre regras claras e regras obscuras é essencial ao Estado de direito.

Um Estado de direito não garante, por si só, que os cidadãos serão livres e o Governo não será tirânico, mas ao menos garante que as regras do jogo serão claras e previamente estabelecidas. O fundamento do Estado de direito é o "rule of law", o reinado da lei: quem estabelece as regras na sociedade são as leis, que devem ser previamente divulgadas antes de poder ser aplicadas, e não os governantes a seu bel prazer. Claro que a história do "governo de leis" e não de pessoas é apenas ideal, porque quem faz a lei são pessoas - e essas leis podem ser, e aliás quase sempre o são, intrusivas e imperfeitas. Justamente porque legislar sobre algo é estatizar algo, a Constituição americana cita as áreas sobre as quais o Governo não pode legislar.

Os governantes brasileiros, no entanto, têm uma dificuldade insuperável para entender os conceitos de Estado de direito e de governo limitado. Não apenas as nossas leis são incompreensíveis e inexplicáveis - e feitas propositadamente assim - como mesmo as que são claras não são minimamente levadas em consideração. E a simples idéia de que existem determinadas áreas sobre as quais o Governo não pode interferir, de que existem certas coisas que o Estado não pode fazer, é inteiramente alheia à mentalidade de nossos políticos.

Tomemos um caso recente. Eu não sou nenhum fã da constituição brasileira, uma constituição centralizadora, estatizante, socialista. Mas ela é a lei máxima do país e a maior parte de seus dispositivos é bastante clara, e era de se esperar que nossos governantes, no mínimo, a levassem em consideração - até porque, se não o fazem, suas leis serão inválidas.

Agora, tentem explicar isso ao governador do Rio...

Primeiro, foi sua absurda lei contra a venda de armas - lei que todos avisaram ser inconstitucional, mas ele editou mesmo assim, e o resultado é que agora ela já foi declarada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal, e é como se nunca tivesse sido editada. Uma gigantesca perda de tempo.

Agora, o intrépido governador quer unificar as polícias militar e civil. Acontece que ele não pode fazê-lo, porque a divisão das polícias é matéria constitucional, e só pode ser mudada por uma emenda constitucional, não por uma lei estadual. E se, apesar disso, o governo do Estado fizer uma lei nesse sentido? Bom, ele terá um trabalho enorme para pô-la em prática, gastará dinheiro e tempo e, no máximo seis meses depois, verá a lei ser declarada inconstitucional pelo STF e terá de desfazer tudo que fez.

Lindo, não? Magnífico. Não é preciso ser nenhum jurista para saber que a união das polícias é inconstitucional. Basta saber ler - e não é preciso nem ler o texto da Constituição; basta ler o índice, mas talvez até isso seja um esforço intelectual excessivo para o Governador e seus assessores.

Um desses assessores, diante de um relatório do Ministério Público afirmando a inconstitucionalidade da unificação, disse que "decidir isso caberá ao STF". Isso é a mesma coisa que dizer que só o STF precisa aplicar a Constituição.

O mínimo que se pode esperar dos governantes é que eles conheçam as regras do Estado que governam e que não tentem passar por cima delas. Garotinho, porém, quer fazer jus ao nome e se porta como uma criança que não aceita a existência de regras, não aceita que seu poder é limitado, não aceita que há determinadas coisas que não pode fazer. Ele esperneia, bate o pé e faz o que quer, mesmo sabendo que não pode - para depois, quando seus pais chegam a casa, ter de desfazer.

O Governo Garotinho teve um bom momento quando estava paralisado por denúncias e mais preocupado em demitir policiais - nesse período, não pôde fazer nada, passar lei nenhuma e sua inoperância foi uma bênção para os cidadãos, como é a inoperância de qualquer governo. Agora, recuperado das denúncias, o Governador está voltando a "fazer coisas", voltando a pôr em prática suas propostas absurdas, sem nenhuma consideração para com a Constitucional. O objetivo do governo constitucional é evitar o tipo de arbitrariedade que tem caracterizado a ação desse Governo - mas o tiranete do Rio não se importa. E ainda tem ambições presidenciais. Brasileiros, preocupai-vos.

 

DESINFORMATZIA

Falando em burocratas e imprensa, a matéria da repórter Cecília Costa sobre o livro do editor de Opinião do Globo, Luiz Garcia, diz que no livro Garcia analisa "as relações entre a imprensa e o poder".

Não sei se o livro é bom ou ruim, mas essa frase não faz sentido algum. Aliás, faz sim: trata-se de uma confusão semântica que a imprensa usa de propósito para ocultar o próprio poder. Confundindo poder e governo, a imprensa leva a crer que o único poder que existe é o poder político e mandar toda a pressão popular para os políticos, ocultando a responsabilidade da própria imprensa pela difusão de idéias, pela produção de fatos culturais e pela influência em algumas decisões políticas.

Mesmo assim, a relação entre imprensa e políticos é uma questão interessante e uma discussão dela poderia começar pelo oferecimento de alguma resposta à pergunta lançada por Olavo de Carvalho em artigo recente na Época: qual a influência do sistema de espionagem petista na recente publicação de denúncias contra a Abin?

Ah, sim: quem espera que alguém na imprensa crie vergonha na cara e responda, é melhor sentar para esperar.

 

OS IDIOTAS

Como faz com alguma freqüência, o PT organizou um trem da alegria para Cuba, o paraíso dos petistas. Por que diabos eles não ficam por lá? Boa pergunta. Mas revolução comunista na terra alheia é refresco. Aliás, revolução na própria casa também é refresco - para quem está no poder.

E quem não está? Bom, esses são os ovos que os revolucionários precisam quebrar para fazer uma omelete. Como diz o bancário aposentado Marcos Pompeu, que foi sorteado na rifa que o PT fez para doar passagens para a ida a Cuba:

"Todo mundo critica o Fidel porque ele mandou meia dúzia de vagabundos para o paredão. Fidel é um ditador para o bem do povo."

Pois é. Os ditadores "para o bem do povo" precisam matar alguns milhares de vagabundos - que, suponho, não fazem parte do povo, ou nem mesmo da raça humana.

Os outros integrantes da caravana misturaram os elogios de praxe ao sistema cubano (as velhas mentiras sobre a saúde e a educação) com elogios frouxos ao "sistema democrático". Ninguém pensa em se perguntar por que, se o regime é tão maravilhoso, todo cubano que sabe nadar já pulou no oceano para, enfrentando tubarões e uma maré forte, tentar chegar aos Estados Unidos.

Mas nada disso é novidade, nada disso é surpreendente. Só um cretino ainda deposita alguma esperança nos políticos brasileiros, e só um débil mental não sabe que o objetivo dessa gente é implantar o modelo cubano por aqui e ainda acredita nesse papo da imprensa de que existe "divergências sobre a figura de Fidel". Ora, deixem de palhaçada: ninguém que nutra dúvidas sinceras sobre o regime cubano vai acompanhar Lula numa visita a Cuba.

Há, porém, um detalhe que não estava no 'script': em um de seus discursos por ocasião dessa viagem, Fidel Castro disse que a América Latina deve estar preparada para "uma nova onda de manifestações populares", marcada para breve. Ninguém achou estranhas essas palavras, ninguém pensou em perguntar como é que o Fidel sabe, porque a ninguém interessa revelar as ligações que o governo cubano mantém com a esquerda brasileira. E a verdade é que o público brasileiro está tão imbecilizado que essas palavras podem ser publicadas sem que ninguém note o que elas revelam. Impressionante.

Um exemplo típico de desonestidade intelectual, contado em e-mail pelo leitor Cláudio Avólio Rodrigues:

From: Cláudio A Rodrigues
To: <cartas@oindividuo.com>
Subject: Vale tudo para ganhar um debate?
Date: Sat, 25 Nov 2000 00:39:43 -0200

Olá Álvaro,

Venho acompanhando faz pouco tempo "O Indivíduo" e gostaria de dizer como fico feliz de ter descoberto este espaço para discussões. Só lamento ter descoberto tarde. Escrevo este e-mail para comentar como é interessante que as pessoas não querem mais discutir para chegar a solução de um problema. Tudo o que importa é ganhar a discussão e impor seu ponto de vista, custe o que custar.

Veja este exemplo:

Recentemente um leitor enviou uma carta para a coluna "Cartas" do jornal O Globo afirmando que estudos nos EUA já tinham comprovado que a pena de morte não reduz a criminalidade e que - novamente - estudos comprovam que o medo da pena não impede o criminoso de cometer o crime.

Escrevi uma carta solicitando maiores esclarecimentos sobres os estudos, pois gostaria de saber como se explica o fato de os criminosos respeitarem as leis impostas pelos traficantes que proíbem furtos nas redondezas das bocas de fumo para não prejudicar o "movimento" (esta parte foi cortada pelo jornal). Além disso, pedi maiores detalhes sobre os estudos realizados nos EUA.

O leitor, visivelmente irritado, citou como fonte estatísticas do FBI que comprovariam que, em estados que não adotam a pena de morte, os índices de criminalidade são até mesmo inferiores ao de estados que utilizam a pena de morte.

Fui ao site do FBI para fazer uma pesquisa e constatei, por exemplo, que em 1996 (foi o último ano que encontrei) tivemos os seguintes dados estatísticos de crimes:

Califórnia (adota a pena de morte): 5.200 crimes/100.000hab. e 870 crimes violentos/100.000hab.

Maine (não adota a pena de morte) 3900 crimes/100.000hab. e 650 crimes violentos/100.000hab.

Agora veja, segundo o FBI, quais os fatores que influenciam a criminalidade de uma localidade:

"Population density and degree of urbanization.
Variations in composition of the population, particularly youth concentration.
Stability of population with respect to residents' mobility, commuting patterns, and transient factors.
Modes of transportation and highway system.
Economic conditions, including median income, poverty level, and job availability.
Cultural factors and educational, recreational, and religious characteristics.
Family conditions with respect to divorce and family cohesiveness.
Climate.
Effective strength of law enforcement agencies.
Administrative and investigative emphases of law enforcement.
Policies of other components of the criminal justice system (i.e., prosecutorial, judicial, correctional, and probational).
Citizens' attitudes toward crime.
Crime reporting practices of the citizenry."

[tradução minha - A.V.C.]

"Densidade populacional e grau de urbanização.
Variações na composição da população, particularmente número de jovens.
Estabilidade da população com respeito à mobilidade dos residentes, padrões de viagens de trabalho, e fatores transitórios.
Modos de transporte e sistema de estradas.
Condições econômicas, inclusive renda média, grau de pobreza e disponibilidade de empregos.
Fatores culturais e educacionais, recreacionais, e características religiosas.
Condições familiares com respeito a divórcio e coesão familiar.
Clima. (!)
Força efetiva das agências de aplicação da lei.
Políticas de outros componentes do sistema de justiça criminal (i.e., políticas de acusação, de atuação judicial, de aplicação de penas e de concessão de liberdade condicional).
Atitude dos cidadãos com respeito ao crime.
Práticas de denúncia de crimes pela população."

Olhando os números de forma absoluta (como o leitor do Globo quis fazer) realmente Maine está em melhores situações do que a Califórnia. Agora analisando como cada estado se enquadra nos fatores acima mencionados, observamos que a Califórnia, apesar de ser muito mais propensa a ter um ambiente de criminalidade, possui índices que são pouco piores (33% a mais) do que o do tranqüilo estado de Maine.

Não sei realmente se a pena de morte é um método correto ou não, eficiente ou não (eu, particularmente, sou a favor em certas circunstâncias). Apenas achei que foi, no mínimo, desonesto o leitor camuflar dados estatísticos, analisando-os sem levar em consideração o contexto de cada estado.

Grato e um grande abraço

Cláudio Avolio Rodrigues

 

NA REDE

Com a eleição nos EUA já definida, mas Gore ainda tentando ganhar no tapetão, Clinton se recusou a dar aos republicanos o dinheiro que lhes cabe (5,3 milhões de dólares) para montar sua administração. A solução adotada pelos republicanos? Levantar fundos privados.

Ora, esse financiamento público da transição é patentemente imoral, como diz Lew Rockwell. E ele acrescenta, em artigo sensacional:

"Por que as pessoas deveriam ser forçadas a financiar a montagem de um governo para o qual não votaram? Se o dinheiro estivesse indo para Gore, os republicanos estariam irritados - com razão - por ter de pagar impostos para tais propósitos. E eu posso entender por que o pessoal de Clinton está relutante em financiar a transição de Bush, muito embora essa recusa seja bastante indecente.

"Sem dinheiro ou mesmo espaço em escritórios, aquilo que virá a ser a administração Bush está tendo de levantar fundos privados para começar sua transição. É isso mesmo: eles vão pagar aluguel e salários como todo mundo: não batendo com uma clava na cabeça das pessoas, mas persuadindo-as de que a sua é uma boa causa. Sem dúvida muitos ativistas republicanos terão o maior prazer em ajudar, dadas as circunstâncias anormais. Muitos de nós daríamos dinheiro a um circo errante se ele estivesse encarregado tirar de seus cargos os ocupantes atuais do governo."

Atenção aos próximos parágrafos do artigo:

"Mas por que esse financiamento privado deveria terminar depois da posse? Esta parece ser uma boa maneira de financiar o Executivo em geral. Apenas as pessoas que apóiam o Governo deveriam ter de pagar por ele. O partido no poder só poderia gastar o dinheiro que conseguir levantar junto a seus membros e às pessoas que apóiam suas políticas.

"Essa prática lembra a grande tradição moral medieval que exigia que 'o rei deve viver por conta própria', isto é, gastar apenas seu próprio dinheiro. Até mesmo os exércitos trabalhando para o rei eram pagos apenas com dinheiro que o próprio rei conseguisse arrumar. O sistema não era perfeito e, sim, a aquisição do dinheiro envolvia subornos de todos os lados. Mas era muito mais barato do que impostos de renda. Se o rei tivesse tentado fazer o que os presidentes hoje fazem rotineiramente, ele seria rapidamente derrubado e expulso."

 

ARTIGO DA SEMANA

Charley Reese escreveu um brilhante artigo com um apelo aos cristãos para que celebrem, no Natal, aquilo que a data realmente significa - o nascimento do Cristo - e não se deixem envolver pelo comercialismo reinante.

O argumento não é novo, mas os magníficos trechos abaixo fazem com que o artigo seja realmente extraordinário:

"Claro, o cristianismo destes dias está repleto de heresias. Há um monte daquilo que eu chamo 'cristãos de cafeteria', que escolhem que partes da religião vão seguir e que partes vão descartar. Eles descartam aquelas partes que considearm muito inconvenientes ou, porca miséria!, fora de moda ou, horror dos horrores!, politicamente incorretas.

"A idéia de que a religião tem de seguir a moda é risível. O eterno não se conforma ao temporário. Deus, até mais do que o sargento no meu regimento, vai fazer o que quiser, como quiser, quando quiser, sem pedir autorização a nenhum um de nós. Ele não dá à humanidade instruções com uma nota dizendo 'Edite estas instruções da maneira que melhor lhe convier.'

"Há um dito budista sobre o qual os cristãos deveriam meditar. Ele diz 'Se você entende, o mundo é tal como é. Se você não entende, o mundo é tal como é.' Algumas pessoas, atualmente, confundem o mundo que criaram dentro de suas cabeças com o mundo exterior. Não importa quão grande seja seu mundo imaginário, elas são pequenas e insignificantes no mundo real. Nós somos grãos temporários num planeta pequenino, girando em torno de uma estrela mediana num universo tão vasto que permanece incompreensível e imensurável. (...)

"Religião, claro, é uma questão de fé, e certamente não cabe a mim pregar. Acreditem no que quiserem. Há um Deus? Um paraíso? Um inferno?

"A realidade responderá a essas questões para nós individualmente, quando morrermos.

"Minha intenção é lembrar às pessoas de fé religiosa que elas agora vivem numa sociedade secular hostil a sua fé e a elas tanto quanto o Império Romano foi. Sua fé está virtualmente sob ataque contínuo - freqüentemente sutil e indireto - do governo, da indústria de entretenimento, da academia e da mídia.

"O estado-como-deus é invejoso. Ele aspira a que não exista nada acima dele. Ele vê com grande preocupação aqueles indivíduos cuja primeira lealdade é a algo acima e além do Estado."

 


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