No. 39 - 08/12/00

"8 de abril de 1944. Quatro dias depois do bombardeio, a cidade ainda está sob o domínio da loucura. Todos estão fugindo ou querendo fugir.

" Da estação de trem a Bulevardul Basarab, nem uma única casa permanece intacta. (...) A casa de Leni está completamente destroçada. Mary, a jovem manicure que costumava vir toda sexta-feira de manhã, foi morta. Ela era tão jovem, tão doce, tão honesta. Quando, entre milhares de mortos anônimos, você depara com um rosto conhecido, com um sorriso que você já viu antes, a morte se torna terrivelmente concreta."

Esta é uma passagem do diário do escritor romeno Mihail Sebastian, um judeu que estava em Bucareste durante a guerra, e testemunhou lá o crescimento do anti-semitismo. Quero chamar a atenção para a profunda observação do escritor a respeito das grandes tragédias, das grandes carnificinas.

É curioso como as tragédias anônimas podem não ter efeito nenhum sobre nós. Steven Spielberg, no filme Schindler's List, enfatizou isso numa cena em que uma menina de vestido vermelho é perseguida por solados nazistas.

O filme inteiro é em preto-e-branco, mas o vestido dessa menina é colorido - e, depois, quando ela está no meio de uma pilha de cadáveres, a identificamos, porque conhecemos o vestido. Esse foi o recurso usado pelo diretor para que a tragédia anônima se personalize.

Em princípio, não deveríamos precisar de recursos cinematográficos para, no mínimo, nos sensibilizarmos com o sofrimento alheio. Acontece que uma das características mais desumanas da sociedade moderna é a quantidade de tragédias que chegam a nosso conhecimento dia após dia, tragédias nunca personalizadas, mas quantificadas e generalizadas.

Quando repetimos a cifra do número de mortos pelo comunismo - 100 milhões - qual a nossa reação, se é que há alguma? Certamente não é de compaixão: como ter compaixão com 100 milhões de mortos? O número é tão grande, a quantidade de vidas ceifadas é de uma proporção tão inimaginável, que o número permanece apenas um número, e quase nunca captamos o que está por trás dele.

Vejam, então, a que ponto chegou a crueldade humana no século que se julga o mais esclarecido de todos os tempos. Vejam a que grau de desumanidade chegamos: uns intelectuais inventaram um modelo de sociedade e, na aplicação desse modelo ao mundo real, mataram uma quantidade tão grande de pessoas que o número se torna insignificante, torna-se um detalhe.

E porque essa tragédia nunca é personalizada, nunca é descrita em seus termos reais, os defensores do regime ainda podem dizer que ele foi um grande sucesso ou que seus ideais persistem. Podem até mesmo dizer, se quiserem mostrar sua verdadeira face assassina, que as vítimas de seus ideais totalitários mereceram morrer. E nós não achamos nada estranho nisso - desde que essas afirmações venham envoltas em embelezamentos retóricos -, porque vivemos numa época que industrializou a matança estatal (o "democídio") e que transformou as pessoas em dados estatísticos, fazendo que as encaremos como meras cifras.

 

POLITICAGENS

Muita histeria na imprensa contra o bate-boca entre Antonio Carlos Magalhães e Jáder Barbalho. É claro que nenhum dos dois merece muito respeito, mas the press doth protest too much. O bate-boca é ótimo, por duas razões: primeiro, é um hilariante confronto retórico (apesar do nível intelectual dos debatedores ser lastimavelmente baixo); segundo, mantém o senado ocupado com besteira.

Enquanto estiver com suas atenções concentradas no embate entre os dois senadores, o Senado não poderá votar mais projetos malucos e absurdos que só servirão para tolhir nossas liberdades e atravancar a economia, como esta nova sandice tucana que praticamente trará a abolição do sigilo bancário.

Aliás, um dado sociológico interessante: ninguém corre o risco de ouvir alguém na política brasileira prometendo menos intervenção estatal em alguma coisa. Não: a retórica comum de nossos políticos é aumentar a interferência estatal, acabar com a "inoperância" do Estado, regular isto e aquilo. Já nos Estados Unidos, nas últimas eleições, até um estatizante fanático como Al Gore teve de prometer que ia cortar impostos e que não aumentaria o número de agências estatais.

É verdade que as promessas de Gore mudavam de acordo com o público, mas não é curioso que até o candidato da esquerda tenha de adotar um discurso libertário?

Enquanto isso, aqui no Brasil, nós somos inteiramente apaixonados pelo Estado, depositamos todas as nossas fichas nele e no seu "aperfeiçoamento". E, como o Estado não consegue fazer nada direito, acaba usando como argumento para seu aumento justamente aquilo que faz errado: cria-se uma lei, a lei não dá em nada e cria novos problemas, e o Estado argumenta que precisa intervir ainda mais para corrigir os problemas causados pela lei anterior, e seu poder vai se expandindo cada vez mais.

É por essas e outras que temos de saudar a inoperância do Senado. É isso mesmo, senhores senadores: parem de trabalhar, continuem discutindo, e deixem que o Brasil siga seu curso, sem a interferência inconveniente dos senhores.

 

SÉTIMA ARTE

Em artigo recentemente recomendado pelo "O Indivíduo", Fred Reed escreveu uma carta imaginária de George Rockwell, um conhecido racista americano da década de 50, membro do Partido Nazista americano, para um outro racista, membro da Ku Klux Klan.

Na carta imaginária, o líder racista criava um sistema para evitar a ascensão da raça negra na sociedade americana, já que, devido à decisão da Suprema Corte em Brown v. Board of Education, não era mais possível manter a segregação racial.

O primeiro passo seria um sistema de welfare:

"Como você sabe, muitos negros vivem, atualmente, em estado de pobreza. Temos de argumentar no Congresso que a decência requer que o Governo federal garanta fundos para que os negros vivam em padrões adequados. A economia está crescendo com tanta velocidade que o país pode carregar o peso sem nenhuma dificuldade indevida. Devemos ressaltar os benefícios para as crianças, porque isso invariavelmente garante uma resposta favorável. Uma vez que o welfare tenha sido instituído, ele será aceito como normal pelos brancos e depois esquecido. Depois de os negros terem sido mantidos dependentes dos brancos por muitas gerações, eles, não tendo nenhuma experiência de auto-suficiência, perderão toda iniciativa própria."

Mas destruir a iniciativa dos negros não seria suficiente, continua o racista. Seria necessário também destruir a estrutura social dos negros, garantindo que só as mães solteiras recebessem ajuda estatal - o que certamente faria aumentar o número de crianças nascidas fora do casamento.

Depois disso, seria essencial evitar que os negros tivessem acesso a qualquer tipo de educação superior: que eles fossem encorajados a criar uma linguagem própria, sem nenhuma relação com a gramática da língua inglesa, que criassem uma história própria, que permanecessem ignorantes da matemática e dos avanços científicos, considerando isso imposição imperialista de "homens brancos europeus".

E, por fim, que desenvolvessem uma cultura própria nos guetos, glorificando a própria violência e o consumo de drogas.

A brilhante ironia do artigo é que nenhum líder "ariano" escreveu esta carta, mas, ao contrário, esse é exatamente o programa político dos líderes da comunidade negra, tipo Al Sharpton e Jesse Jackson. E esse programa dos "líderes negros" poderia ser muito bem uma conspiração de brancos racistas porque, em vez de encorajar os negros a se integrar socialmente e a se desenvolver por seus próprios méritos, encoraja o aumento da ignorância e a crescente dependência dos favores estatais, desmoralizando os negros, empurrando-os para baixo.

Nenhum outro filme deixa isso tão claro quanto Black & White. Em nenhum outro filme o estado deplorável da comunidade negra americana - especialmente a comunidade nova-iorquina - é mostrado em cores tão vivas.

Este é um filme perturbador, que leva o espectador a mergulhar num mundo de decadência moral, de desconsideração pela vida e pela dignidade humana.

Mas, apesar de ser importantíssimo - eu diria até imprescindível - como documento sociológico, Black & White é também um reflexo da podridão que retrata e contribui para agravá-la, porque não se limita a retratar a existência de um grupo de hip hop e o mundo que os certa, mas o faz dando àquele tipo de vida um valor positivo. É exatamente deste tipo de exemplo que os jovens negros americanos não precisam receber, com a idealização de personagens drogados e assassinos, que tratam as mulheres como se fossem lixo e vêem qualquer tipo de suspeita vinda dos brancos como exemplo inconstestável de racismo.

Todas as mulheres do filme - e eu não estou brincando, são todas mesmo - estão loucas para transar com um negro e os negros nem hesitam em se aproveitar delas. Para dar uma idéia: a cena inicial retrata duas meninas brancas transando ao mesmo tempo com um negro num parque nova-iorquino, ao som de um rap repetindo "look at daddy's little girl" e, entremeadas às cenas de sexo (que foram reduzidas pela censura americana), cenas do jantar na casa de classe média alta de uma das meninas.

Um dos objetivos do filme é retratar os wiggas (contração de "white niggas", sendo "niggas" a versão não-racista de "nigger"), que são os jovens brancos que adotam o estilo de vida negro - com o mesmo linguajar (a linguagem própria, chamada "ebonics"), as mesmas roupas, o mesmo gosto musical, a mesma dependência de drogas. E o diretor James Toback julga (não estou inferindo do filme; essas são palavras que o próprio diretor disse numa entrevista) que esses garotos são os grandes heróis da cultura americana atual, ao se rebelar contra o racismo de seus pais e buscar a cultura negra, que é a cultura baseada na exuberância e na experimentação - e, segundo ele, só um imbecil totalitário poderia sugerir que se restringissem essa exuberância e essa experimentação.

Agora, não pensem os senhores que estamos falando aqui de um filme insignificante. De maneira nenhuma. Um número impressionante de celebridades negras e brancas participam do filme: Mike Tyson (fazendo papel dele mesmo), Brooke Shields (como uma repórter que está fazendo um documentário sobre os "whiggas"), Robert Downey Jr. (como o marido gay de Brooke), Allan Houston (como - adivinhem - um jogador de basquete), Claudia Schiffer (como a namorada antropóloga e imbecil de Houston, talvez a única personagem genuinamente interessante do filme), Jared Leto (como um professor gay), Elijah Wood (como um whigga), Bijou Philips (namorada de Wood e a menina da cena de abertura), Ben Stiller (como um detetive fracassado), William Lee Scott (um promotor) e mais um monte de astros do hip hop, como "Power" e "Raekwon" do Wu-Tang Clan, "Method Man", "Inspecta Deck", "Ghostface" e "Sticky Fingaz".

Em suma: o filme perfeito para mandar a mensagem errada para a comunidade negra. Cedric Muhammed afirma que, no hip hop, mensagens com os mais altos ideiais defendidos pelo homem se misturam a vulgaridades e apologias do crime. Pode até ser, mas em Black & White só se vêem as vulgaridades e apologias do crime, envoltas numa retórica raivosa que só serve para marginalizar e desmoralizar a comunidade negra. E não pensem que isso tudo é problema de americano. Com o movimento negro brasileiro se radicalizando e se inspirando na cultura hip hop, essas são questões que cada vez mais nos interessam diretamente.

Waking the dead é um dos piores filmes do ano (falando nisso, nota importante: esta coluna estará, dentro de algumas semanas, elegendo o melhor e o pior de 2000. Quem tiver alguma sugestão ou alguma observação, por favor me envie, que eu tentarei aproveitar todas e publicar as melhores). Eu não vou nem explicar por quê. Vou apenas contar a história do filme (que passou despercebido pelos cinemas e, tenho certeza, a maioria de vocês não viu - no que fazem muito bem) e tudo ficará supremamente óbvio.

Fielding Pierce é um jovem político angustiado. (Não, ele não é Michael Portillo, longe disso. Está mais para Bill Bradley - como veremos adiante.) Ele é filho de um líder sindical, irmão mais novo de um editor de livros esquerdistas e está prestes a realizar aquilo para que se preparou a vida inteira: tornar-se membro do Congresso americano. Mas, quando ele está prestes a começar a campanha, começa a ser assombrado por visões de sua antiga namorada, morta há mais de dez anos.

Corta. Voltemos a 1970, exatamente 14 anos antes da referida campanha. Fielding está servindo à marinha americana (na época, ainda havia alistamento obrigatório nos EUA) e aproveita uma folga para visitar a livraria de seu irmão. A nova secretária, Sarah Williams, é uma das mulheres mais lindas que ele (ou qualquer um de nós) já viu na vida. Os três (ele, o irmão e a secretária) saem para almoçar, e ele fala sem parar. Na saída, ele a convida para jantar, no mesmo dia. Vocês já entenderam.

Assunto da discussão, no caminho para casa depois do jantar: o serviço militar.

- Mas por que você está servindo? Você não tem medo de que lhe mandem para o Vietnam?

- Não se preocupe, não há nenhuma chance de eles me enviarem para lá. Mas você precisa se lembrar de que ninguém nunca foi eleito presidente sem ter cumprindo serviço militar. Não faz sentido eu jogar minha carreira fora parafazer uma declaração política inútil. (Lembrem-se: é 1970, muito antes de Bill Clinton, "the draft dodger".)

A menina faz um apelo aos ideais dele, e ele responde:

- Mas eu acho que posso fazer alguma diferença, acho que posso usar o sistema para fazer mudanças, para fazer o bem a algumas pessoas.

A conversa termina - ainda bem! - e eles vão para casa tratar de coisas mais interessantes (aliás, há um excesso de "coisas interessantes" para um filme classificado como PG-13).

Apressemos um pouco as coisas, vamos para 1974. Eles estão morando juntos, mas ambos vivem ocupados: ele não está mais na marinha, mas está fazendo curso de direito; ela está fazendo trabalho comunitário na igreja local. Por trabalho comunitário leia-se trabalho com os refugiados das "ditaduras militares" da América Latina. Começa a ficar evidente a separação entre eles - o idealismo esquerdista dela e o pragmatismo esquerdista dele.

Ele faz alguns amigos importantes, que ele sabe que lhe servirão de conexões importantes para galgar postos no Partido Democrata; ela não consegue se adaptar. Numa das festas a que eles vão, todos os convidados estão em trajes finos e ela chega de jeans, atraindo olhares desdenhosos de todos os lados. Eles são apresentados a um senhor e, depois dos cumprimentos formais, ela não agüenta mais a raiva e começa a berrar:

- Eu li o seu artigo sobre o Chile na Newsweek. Foi o artigo mais sujo, mais desonesto, mais absurdo que eu li nos últimos tempos! Como o senhor ousa dizer que os ditadores que derrubaram o governo eleito pelo povo chileno deve ser apoiado pelos EUA?!

E por aí vai. Vocês já entenderam.

Algumas semanas depois, ela anuncia que está indo para o Chile, resgatar um casal proeminente na oposição ao "assassino governo Pinochet". Quando ela volta, anuncia que servirá de acompanhante para o casal nos EUA, ajudando-os a fazer comícios ao redor do país contra o "totalitarismo chileno". E eis que, enquanto ela está nessa excursão, aparece a notícia na TV: um grupo de terroristas ligados ao governo chileno pôs uma bomba no carro em que estavam os dois líderes oposicionistas chilenos e uma americana de nome Sarah Williams. Ela morreu "pela causa".

Entendem agora por que Fielding está angustiado? Ele acha que está fazendo concessões demais, que está se tornando político demais, e abandonando os grandes ideais que sua namorada representava.

Mas não é só isso: ele passa a ter certeza de que ela está viva, certeza confirmada no momento em que ela lhe faz um telefonema.

O ataque terrorista foi simulado, com o objetivo de tentar mudar a opinião do Governo americano sobre o Chile - já que, com uma americana morrendo, em solo americano, vítima de terroristas ligados a Pinochet, os EUA poderiam considerar reverter sua posição.

Ele é eleito deputado, e, enquanto está arrumando suas coisas na sala que ocupará em Washington, ela finalmente aparece. Ele sai dali revigorado e começa a ler as cartas que os eleitores lhe enviaram, solicitando mil e uma coisas. A cena é de um patético indescritível: pouco a pouco, vão se materializando na frente dele os eleitores - um velhinho pedindo aumento na pensão, um garoto pedindo informações sobre as leis de adoção, e assim por diante. Vocês já entenderam.

O filme termina com um solilóquio do novo deputado eleito, no qual ele confessa não ter certeza se a visita que recebeu de Sarah foi real ou foi apenas sua imaginação, mas que ele concluiu de tudo isso que é capaz de fazer o bem no Governo, que pode ajudar as pessoas e yadda yadda yadda.

Em suma: Waking the dead não é apenas um filme romântico hollywoodiano, estrelado por dois atores - Billy Crudup e Jennifer Connelly - bem próximos do estrelato, segundo os prognósticos de muitos. Não: este é um romance com uma mensagem, com uma apologia irrestrita do idealismo esquerdista. Há uma mensagem dupla até mesmo no título do filme: o amor dos dois levanta a "morta" - Sarah - e o "morto" - o idealista dentro de Fielding, a sua "criança interior"...

Então, sofremos, ao longo do filme, longas sessões de doutrinação: sobre os horrores do governo Pinochet (sem nunca lembrar os horrores do governo Allende), sobre os horrores da ação americana ao redor do mundo (sem nenhuma menção aos horrores da ação soviética) e sobre a coisa linda e maravilhosa que é o Partido Democrata americano, o partido no qual os radicais podem depositar suas esperanças, para tentar mudar o sistema "de dentro", sem nenhum idealismo inútil. Parece até propaganda de Al Gore para tentar evitar que os esquerdistas mais radicais votem em Ralph Nader...

Tudo isso é inacreditavelmente chato e mal feito. Não bastasse o evidente primarismo do roteiro (atentado de terroristas chilenos nos EUA?! Putz...), o filme, do ponto de vista técnico, é quase tão ruim quanto novela da Globo. O diretor - o desconhecido Keith Gordon - apela para truques tolos, com flashbacks desnecessários, muita neblina, muita neve, vozes evanescentes para mostrar quão atormentado estava Fielding.

O filme acaba não conseguindo a coisa mais fundamental que um filme romântico precisa conseguir: desenvolver a empatia pelos personagens centrais. Em Waking the dead, acontece justamente o contrário. Depois de vinte minutos de idas e vindas no tempo e dezenas de discussões imbecis, qualquer pessoa com o medidor de babaquice ligado quer mais é que a menina vá ser torturada nas prisões chilenas e que o rapaz vá para o hospício junto com o garotinho do "Sexto Sentido".

Leonard Goldberg, produtor tanto da série quanto do filme Charlie's Angels, disse que a série, quando surgiu, nos anos 70, marcou o início da "emancipação feminina na cultura pop." Não é bem assim. A série marcou o início da exploração dos instintos sexuais masculinos na TV. Kate Jackson, Farrah Fawcett e Jaclyn Smith corriam de um lado para outro em trajes sumários, e a platéia masculina babava com o movimento de suas, well..., carnes. A série herdeira legítima de Charlie's Angels é, sem dúvida alguma, Baywatch - sendo que, neste caso, tudo nas mulheres balança, mas os peitos continuam no lugar.

Fora tudo isso, a série era muito chata, e o filme baseado nela teve de apelar para aquilo que era seu único atrativo. E este filme não tem nenhuma ilusão sobre si mesmo: logo na primeira cena, num avião, vai começar o filme baseado na antiga série policial de William Shatner, T. J. Hooker, e um dos passageiros resmunga, "ah, não, outro filme baseado num seriado de TV antigo..."

Charlie's Angels é a tentativa de explorar o sucesso da série antiga, usando as formas magníficas de Lucy Liu, Drew Barrymore e Cameron Diaz. As formas das atrizes e mais rigorosamente nada. Aliás, Charlie's Angels nem chega a ser um filme - está mais para uma coleção de video-clipes, sem muita coisa a interligá-los.

OK, há uma história, mas ela é tão tola e tão insípida que não sustentaria nem um episódio do seriado. E, aliás, o roteirista ignora uma das regras básicas do cinema policial com reviravoltas no enredo: se há x personagens claramente "do bem" e y claramente "do mal", o número total de personagens interessantes tem de ser superior a (x + y), porque do contrário até mesmo as platéias cuja principal referência cultural são filmes como este são capazes de descobrir o que vai acontecer, e ficam se sentindo mais inteligentes do que o roteirista.

O diretor de Charlie's Angels é um tal de "McG", que se era obscuro antes deste filme, fica ainda mais depois dele. Não há, em momento nenhum, sinal de um diretor capaz de imprimir ritmo ou de fazer mais do que alguns truques de câmera ao estilo MTV.

Isso quer dizer que o filme é ruim? Não exatamente - embora eu repita que ele não é exatamente um filme. Vale a pena ir ao cinema para ver Bill Murray vestido de guru new age e para ver Cameron Diaz. Claro, Lucy Liu (de "Ally McBeal") é excelente, mas nem se compara a Cameron Diaz.

Diaz se mostra mais talentosa e brilhante a cada filme. Este filme comprova o que Being John Malkovich já anunciava: ela é a melhor atriz cômica do cinema hollywoodiano atual e, se houver alguém capaz de escrever roteiros à altura, ela pode ser a nova Carole Lombard. Há neste filme até mesmo um momento que é pura Marilyn, quando ela diz ao carteiro que ele pode "feel free to stick things in my slot", sem dar o menor sinal de perceber o duplo sentido do que está dizendo. E, no fim das contas, com todas as explosões, todas as cenas de luta coreografada, todas as reviravoltas no enredo, a única coisa que interessa no filme são as suas tentativas de dar prosseguimento ao seu namoro com um barman. É a isso que se resume Charlie's Angels - pensando bem, é muito mais do que a oferecia a série original.

 

ARTIGO DA SEMANA

A coluna de Thomas Sowell desta semana foi magnífica, trazendo observações que, com menos brilho, temos tentado fazer aqui também. A esquerda gosta de se apresentar como a defensora dos fracos, e com uma retórica melosa tão convincente que nós acabamos comprando essa conversa mole. Ninguém se pergunta, porém, qual o efeito que as políticas da esquerda têm sobre essas pessoas que dizem proteger. Quem é que realmente se beneficia com elas? Os pobres, os indefesos, ou os próprios esquerdistas, em sua louca sede de poder? Thomas Sowell responde. Traduzi o artigo inteiro, abaixo:

"As privações e os sofrimentos dos pobres têm sido, há tempos, temas centrais na visão da esquerda política. Foi isso que atraiu muitos de nós para a esquerda em nossa juventude. Mas as conseqüências reais para os pobres - e para os outros - da agenda da esquerda foi o que eventualmente levou muitos de nós para a direita. Grande parte dos líderes da oposição à esquerda, nos Estados Unidos e ao redor do mundo, começou na esquerda. Incluem-se aí Ronald Reagan, Milton Friedman e todo o movimento neo-conservador, assim como Raymond Aron na França e Friedrich Hayek na Áustria. Não há nenhum êxodo comparável da direita para a esquerda.

"Por que isto é assim? A explicação favorita daqueles que permanecem na esquerda é que seus antigos camaradas 'se venderam'. Mas ninguém se vende para quem lhe dá o lance menor. O dinheiro de verdade, ao menos para os intelectuais, está avassaladoramente na esquerda. Intelectuais negros, especialmente, podem facilmente ganhar salários de seis dígitos só para dar palestras em faculdades e universidades ao redor do país.

"Eles só precisam proferir algumas acusações raivosas de 'racismo' contra os brancos e ataques à sociedade americana em geral, com talvez algumas observações anti-semitas no meio. Em nenhum outro lugar você faz tanto dinheiro com tão pouco esforço e tão pouca habilidade. Em contraste, há muito pouca demanda por palestrantes conservadores - negros ou brancos - nos campi, e os poucos que aparecem têm grande chance de ser vaiados ou linchados.

"O jornalismo e as artes também não são grandes mercados de trabalho para os conservadores. Longe disso. Qualquer lista negra que tenha existido na era de McCarthy já foi completamente superada pela intimidação e pelas listas negras de conservadores que existem agora.

"Se o êxodo da esquerda não é devido a pessoas se vendendo a quem lhes oferece menos dinheiro, então a que ele se deve?

"Voltemos aos pobres. Por que nós nos preocupamos com eles? Alguns se preocupam porque os pobres têm pouca comida, abrigos inadequados e lhes faltam outros requisitos básicos para a vida. Outros estão preocupados por causa das desigualdades, as disparidades ou os 'hiatos' que eles representam. E outros ainda estão preocupados porque os pobres podem servir de razão para aumentar o poder político da esquerda política.

"Aqueles que têm como preocupação principal o bem-estar dos pobres provavelmente descobrirão, com o tempo, que a maior parte da agenda da esquerda não faz muito bem aos pobres, e que alguma parte dessa agenda - o extremismo ecologista, por exemplo - na verdade piora a vida dos pobres.

"Enquanto isso, nada tem um histórico de tirar milhões de pessoas da pobreza para a prosperidade como uma economia de livre mercado. A maior parte dos americanos oficialmente 'pobres' tem coisas que americanos de classe média de alguns anos atrás só poderiam sonhar em ter - inclusive TV a cores, video-cassetes, fornos de microondas, e seus próprios carros. Ademais, metade de todas as casas pobres tem ar condicionado.

"A redistribuição de renda esquerdista nunca conseguiria conquistar isso, porque simplesmente não há um número suficiente de pessoas ricas para que sua riqueza tenha um efeito tão dramático nos padrões de vida dos pobres, mesmo que ela fosse toda confiscada e redistribuída. Ademais, muitas tentativas de redistribuir a riqueza em vários países ao redor do mundo terminaram redistribuindo a pobreza.

"Afinal, os ricos podem prever o que se passará e pegar seu dinheiro e deixar o país muito antes que um programa de governo resolva confiscá-lo. Também é provável que eles levem consigo suas habilidades e sua experiência de empreendedores, que são mais difíceis de substituir do que o dinheiro.

"Aqueles de nós cuja principal preocupação é o bem-estar das pessoas comuns nem pestanejamos em abandonar a esquerda assim que adquirimos conhecimento suficiente a respeito do que realmente acontece, e não daquilo que as teorias esquerdistas dizem que vai acontecer.

"É uma história inteiramente diferente para aqueles na esquerda cujo objetivo é ou um senso de superioridade ou o poder político com o qual expressar a paixão por si próprios impondo suas opiniões sobre os outros. Aqui os pobres são um meio para um fim. Estes tipos de esquerdistas, notoriamente, mostram pouco interesse na criação da riqueza, que tem aumentado os padrões de vida dos pobres, e mostram uma obsessão com a distribuição, que não tem aumentado nada.

"Estes tipos de esquerdistas se concentram nas desigualdades com as quais podem lidar aumentando o dinheiro e o poder de pessoas como eles mesmos. Estes tipos de esquerdistas jamais deixarão as causas que lhes servem tão bem, não importando quão mal elas servem aos outros."

"Sorry, not here, mate. Have you tried next door?"

 


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