No. 40 - 15/12/00
Caríssimos, falei semana passada da indicação do melhor e do pior do ano 2000, que esta coluna estará publicando em janeiro - continuem mandando suas sugestões. Quero dizer esta semana que uma categoria que não constará dessa indicação é a de livros.
É muito complicado indicar os melhores e os piores livros do ano, porque não tenho tempo de ler todos os melhores e não tenho paciência de ler os piores. Um filme ruim, afinal, toma de nós no máximo duas horas e dez reais; um livro ruim, no mínimo oito horas e vinte reais. Procuro, portanto, manter minha quota de porcarias a filmes, telejornais e órgãos de imprensa.
E os bons livros? Estou quase sempre atrasado neles. Provavelmente lerei daqui a dois, três anos os melhores livros do ano 2000. Só para dar um exemplo: na minha mesa, agora, repousam dois livros de Wolfgang Smith, um de 1988 ("Teilhardism and the new religion"), outro de 1984 ("Cosmos & Transcendence"). O autor lançou outro livro na década de 90 (96, para ser mais específico: "The Quantum Enigma"), e ainda estou lendo esses dois! Também estou lendo o "Penguin book of journalism", deliciosa coleção de ensaios sobre a imprensa editada por Stephen Glover em 1999, mas reeditada em paperback em 2000.
Mas, mesmo não podendo ler todos os lançamentos literários importantes que gostaria de ter lido, li livros e resenhas suficientes para apontar os livros que mais atenção merecem este ano e que, portanto, podem ser excelentes presentes de natal. Trago, então, aos leitores, este serviço de utilidade pública: os livros mais indicados para ser dados como presentes de natal, com links diretos para as livrarias virtuais onde podem ser adquiridos. Sei que só falta uma semana, mas isso em geral é tempo suficiente para o livro chegar e, se não for... paciência.
Comecemos pelos livros editados no Brasil, nunca uma fonte muito boa de lançamentos, dada a precariedade de nosso mercado editorial.
O lançamento do ano por aqui é, com certeza, a segunda edição do Jardim das Aflições, o principal livro do prof. Olavo de Carvalho. Dezenas de pessoas já me escreveram perguntando como conseguir o livro e, até agora, eu só podia responder que não era possível, que elas deveriam aguardar a segunda edição, que esta sairia algum dia. Bom, ela saiu e está uma beleza.
Este é, certamente, um dos livros mais importantes do século, uma análise da história do ocidente a partir do conceito de "império". A luta pela formação do império é definida pelo próprio autor define como "a luta pelo domínio deste mundo, pela realização da promessa da serpente". Olavo mostra como a idéia surgiu, quais foram as sucessivas tentativas de implantá-la e quais foram suas justificativas filosóficas e religiosas. E se o assunto parece complexo e tedioso, trata-se de pura ilusão: a narrativa é tão arrebatadora que se lê este livro como a um romance policial, com o fôlego suspenso, passando as páginas com uma curiosidade insuperável de saber o que vem depois. Mas não é só isso: o livro convida a inúmeras releituras e em cada uma delas se descobrirão coisas novas, porque cada página é um depósito de inúmeras informações e insights insuspeitados.
Portanto, aproveitem a segunda edição, e comprem o livro, direto na editora ou na Livraria Cultura. Mas não comprem um exemplar só. Digo por experiência própria: depois de ler esse livro, você vai querer dá-lo de presente a pelo menos uma meia dúzia de pessoas.
Outro lançamento importante é "Um longo argumento do princípio ao fim", um livro de diálogos entre o antropólogo René Girard e seus alunos João Cezar de Castro Rocha e Pierpaolo Antonello. O livro cumpre o que o título promete: expõe a teoria antropológica de Girard do princípio ao fim, com perguntas e discussões de altíssimo nível.
Girard gosta do formato de livro-entrevista para expor suas idéias, como ficou claro com "Coisas escondidas desde a fundação do mundo", considerado seu principal livro, no qual expunha os detalhes de suas teses em forma de diálogos com Guy Lefort e Jean-Michel Oughourlian (o original é em francês, mas há tradução para o inglês) e com "Quand ces choses commenceront", resultado de entrevistas com Michel Treguer, um livro breve que serve de excelente síntese introdutória da revolucionária obra do antropólogo francês (não há traduções).
A Record lançou "O babuíno de Madame Blavatsky", do jornalista inglês Peter Washington, um dos livros mais conhecidos sobre as fraudes ocultistas - talvez até pela escassez de obras no gênero. Madame Blavatsky dá título ao livro, mas não é o único assunto: o autor examina outros gurus e suas pretensões absurdas. Este é um bom presente para tentar fazer pensar aquela sua amiga "esotérica", e o lançamento deste livro é um serviço de utilidade pública, no país em que espiritismo, teosofia e similares mais têm adeptos, mas a edição brasileira está absurdamente cara (52 reais!), para um livro de 450 páginas. É provável que, pela fama do livro, a editora tenha pago royalties altos. Sugiro a edição americana - e viva o livre mercado.
De qualquer maneira, se você está realmente interessado na teosofia e em por que ela é uma fraude do começo ao fim, o livro para você é "Le Théosphisme: histoire d'une pseudo-religion", de René Guénon. É impossível respeitar Blavatsky depois desse livro. E não há motivos para preocupações: este é o livro mais simples de Guénon, uma obra puramente crítica, sem nenhuma exposição direta de doutrinas. Infelizmente, ninguém nunca se deu o trabalho de traduzi-lo para o português - talvez por que a editora que edita Guénon no Brasil seja a mesma que edita Blavatsky e congêneres...
No início do ano, a Topbooks relançou "Em berço esplêndido", de J. O. de Meira Penna, cuja condição de mais agudo observador da psicologia nacional brasileira fica evidente neste livro (relançado em edição substancialmente ampliada) e em "Psicologia do subdesenvolvimento", lançado na década de 70 e já esgotado. Indispensável para interessados no Brasil.
Outro relançamento bem-vindo - e um excelente presente - é "O Túnel", o impressionante romance em que Ernesto Sábato retrata a decomposição da alma de um pintor obcecado por uma mulher que viu por acaso na rua. A Cia. das Letras também lançou "Antes do fim", o livro de memórias de Sábato, mas é melhor esquecê-lo, apesar de alguns trechos de altíssima qualidade.
Sábato era cientista, teve uma crise de consciência e virou um esteta - experiência que relatou em seu livro "Homens e engrenagens". O problema é que ele acredita ter abandonado o ceticismo e se tornado um homem de fé, mas na verdade só foi do extremo racionalismo ao extremo irracionalismo. Seu livro de memórias, portanto, é um amontoado de espasmos de consciência, sem nenhum rigor intelectual, misturando insights brilhantes a aforismos gratuitos e tolos. Há momentos dignos de Emir Sader ou "Frei" Betto - mas pelo menos são bem escritos.
O destaque entre os lançamentos da Martins Fontes, a melhor editora brasileira, é o mais recente livro de Julián Marías, "A perspectiva cristã", em tradução primorosa de Diva Ribeiro de Toledo Piza. Marías - atualmente com 86 anos, um dos maiores filósofos vivos - argumenta que o advento do cristianismo inaugura uma nova forma de enxergar o mundo e, portanto, modifica a perspectiva do homem em relação às coisas que o cercam. Gilberto Mello Kujawski (que, como Marías, foi aluno de Ortega y Gasset) ressalta, na sua introdução, o seguinte trecho do livro: "o homem cristão, por sê-lo, atende a certos aspectos do real, estabelece entre eles uma hierarquia, descobre problemas e talvez evidências que de outro modo lhe seriam estranhos. É isto o que eu chamo de perspectiva cristã." Marías explica o conteúdo, os elementos formadores, dessa perspectiva, num pequeno grande livro.
Passemos aos livros de língua inglesa. O Indivíduo foi o único lugar da imprensa brasileira no qual você ficou sabendo do lançamento de The Catholic Martyrs of the Twentieth Century, livro indispensável de Robert Royal. Há um capítulo para cada um dos países que perseguiram cristãos no neste sangrento século XX: o México, a Rússia soviética, a Ucrânia, a Espanha, a Alemanha nazista (com capítulos específicos para Santa Edith Stein e São Maximilian Kolbe), a Albânia, a Lituânia, a Romênia, a Coréia, a China, o Vietnam, capítulos dedicados à América Latina, à África e à Ásia. É um livro impressionante do começo ao fim, que lembra aquilo que, nestes tempos de "abertura para o mundo", ficou esquecido: que este mundo, o mundo de César, é hostil ao cristianismo e aos cristãos, e que nossas esperanças não devem ser depositadas nele.
Outro livro muito importante é "The mystery of capital: why capitalism triumphs in the West and fails everywhere else", do economista peruano Hernando de Soto, certamente o melhor presente de Natal para liberais interessados em economia e direito (e existe algum que não seja?). A tese central de De Soto é que o capitalismo é um sistema baseado em direitos de propriedade legais e seguros, que dão às pessoas acesso ao crédito; a falta deles é a razão pela qual o capitalismo não está funcionando na maior parte do Terceiro Mundo.
Diz o autor: "Nesses países, os pobres não conseguem se beneficiar com o capitalismo não pela sua falta de espírito empreendedor, nem pela ação predatória das multinacionais, nem mesmo pela sua pobreza, mas pelo fato de que eles não conseguem ter reconhecimento legal fácil de suas posses." Não tendo suas posses legalmente reconhecidas, as pessoas ficam incapacitadas de obter créditos por elas e ficam confinadas ao mercado paralelo; não podendo contratar, têm seu mercado reduzido a conhecidos e pessoas próximas, sem nenhuma possibilidade de aumentar os investimentos e ampliar os negócios.
De Soto não chegou a suas conclusões encastelado em alguma cátedra universitária, mas através de pesquisas de campo no Peru, no Haiti e no Egito. Ele montou pequena firma em Lima e documentou cuidadosamente todos os custos de gerenciá-la no mercado negro e os de tentar registrá-la como um negócio legítimo. Ambas as opções eram caras e tomavam muito de seu tempo.
Segundo ele, o que os países de Terceiro Mundo precisam, para se desenvolver, não são privatizações e receitas monetárias do FMI, mas o desenvolvimento de um sistema legal que não crie inúmeros entraves burocráticos ao desenvolvimento da atividade empresarial. E algo me diz que nós deveríamos prestar atenção ao que ele diz...
Um livro cujo lançamento aguardo ansiosamente é Commies: a journey through the Old Left, the New Left and the Leftover Left, livro de memórias de Ronald Radosh, que, segundo a Amazon, devia ter sido publicado em novembro de 2000, mas ainda não saiu. Vale fazer o pré-pedido, porque Radosh, um ex-comunista, é uma das pessoas que mais entendem de esquerdismo, um grande estudioso das descobertas que a liberação dos arquivos de Moscou permitiram, e este certamente será um grande livro.
Agora que o Governo Clinton está acabando, começaram a sair livros analisando seu governo. A julgar pela síntese que Alan Bock fez dele num artigo recente, e a julgar pela qualidade das colunas do autor, o livro de James Bovard, Feeling your pain: the explosion and abuse of government power in the Clinton-Gore years, deve ser excelente. Clinton assumiu proclamando o fim da "era do Governo grande", mas essa foi mais uma de suas mentiras. Diz Bovard, citado por Bock:
"Clinton fez mais do que qualquer presidente em tempos recentes para pôr o Governo federal acima de todas as leis - acima da Constituição - e acima de qualquer restrição efetiva. Clinton ignorou decisões federais e da Suprema Corte limitando seu poder e o Congresso raramente teve a iniciativa de limitar seus abusos. Clinton explorou e expandiu o potencial ditatorial da presidência americana.
"Clinton foi o campeão do Estado-babá encarnado - a pessoa que ensinou a dezenas de milhões de americanos a buscar ajuda do Governo para aliviar qualquer irritação cotidiana - de assentos seguros para crianças nos carros a cidra não-pasteurizada a porões com goteiras. A mensagem pessoal de Clinton foi que as pessoas deveriam confiar muito mais na ação política do que nos esforços voluntários dos indivíduos para melhorar suas vidas. Clinton buscou lembrar continuamente às pessoas a grandeza do Estado e o desamparo do cidadão."
E, como se já não bastasse isso para recomendar o livro, Lew Rockwell escolheu-o como um de seus três livros preferidos do ano 2000, comentando: "Muito mais importante [do que o caso Lewinsky] são as impressionantes violações de direitos relatadas no trabalho enciclopédico de James Bovard. Bovard parecia determinado em não deixar escapara nada, embora ele seja o primeiro a admitir que isto é apenas o começo."
Ainda sobre Clinton, há o livro de Joseph Sobran, Hustler: The Clinton Legacy. É impossível não concordar com Tom Bethell em que Clinton como assunto e Sobran como autor fazem uma combinação irresistível, e é bem provável que este livro, coletando colunas sobre Clinton que Sobran escreveu ao longo de todos os oito anos de seu governo, seja uma pérola, inclusive porque Sobran é um dos mais lúcidos expositores da erosão das liberdades nas garras do Estado moderno.
Como está havendo neste momento a transição de um presidente esquerdista extremado, cheio de ambições imperiais, para outro de estilo bem diferente mas que ainda não deixa de ser uma incógnita, vale sair à procura de livros que possam elucidar alguma coisa a respeito do que se deve esperar do governo de George W. Bush, especialmente na área de relações exteriores, nossa preocupação imediata.
Como a grande estrela nessa área será o general Colin Powell, este é um excelente momento para ler sua famosa auto-biografia, My American Journey,publicada em 1995 (o paperback é de 96). Powell é um defensor da affirmative action, mas, como ele estará encarregado de assuntos externos, isso certamente não terá influência alguma no seu trabalho. O que terá é a sua idéia de só permitir intervenções militares quando há interesses americanos em jogo, o que é um avanço significativo em relação ao intervencionismo desenfreado e desajustado de Clinton e Gore. Vamos ver. De qualquer maneira, já pedi a minha cópia do livro (e o preço é bastante convidativo).
Eu só soube outro dia, através de um link na página do Jude Wanniski, da existência do livro First Son: George W. Bush and the Bush Family Dinasty, do jornalista Bill Minutaglio. Não sei muito mais sobre o livro, mas, segundo os freqüentadores da Amazon.com, trata-se de um estudo sério, bem pesquisado e equilibrado sobre a vida do próximo presidente americano. Há várias outras biografias, muitas ao estilo fofocas de tablóide, mas esta provavelmente é a melhor, ou não teria sido a escolhida por Wanniski para recomendar no seu site.
Ainda em assuntos políticos, Peter Brimelow, o polêmico colunista da Forbes, autor de Alien Nation, um controvertido livro contra a política americana de imigração, elegeu The Tirany of Good Intentions: How Prosecutors and Bureaucrats are Trempling the Constitution in the name of Justice, como um de seus livros preferidos do ano.
O livro, que Brimelow tinha resenhado na Forbes, foi escrito pelo brilhante colunista Paul Craig Roberts em associação com o advogado Lawrence Stratton e trata de um dos temas recorrentes nas colunas de Roberts: como advogados, juízes e promotores ativistas estão passando por cima de exigências de provas e de restrições legais para condenar pessoas inocentes. O livro é um interessante ponto de comparação com o Brasil, porque essa política de "prender primeiro e perguntar depois" tem grande apelo popular por aqui, e a promessa de maior repressão penal é um dos temas preferidos de nossos demagogos - mas vejam o que essa repressão penal fez ao sistema jurídico americano, um sistema no qual a população carcerária cresce de forma assustadora, no qual o número de crimes previstos em lei não pára de aumentar e no qual os promotores e juízes estão passando por cima do devido processo legal.
Por outro lado, o sistema jurídico brasileiro é tão esquizofrênico, que nele convivem leis inspiradas por esse sistema repressivo com outras inspiradas por sistemas excessivamente lenientes, e a verdade é que temos por aqui punições absurdamente altas para crimes leves e um grau elevado de impunidade para crimes graves. Qualquer debilóide é capaz de perceber que a experiência brasileira com um sistema absurdamente tolerante deu errado, mas o livro de Roberts mostra que a experiência oposta, a americana, também deu errado. Em algum outro lugar deve estar a saída, mas isso é assunto para outra coluna.
Saíram também este ano dois livros em que Murray Rothbard, o teórico maior do anarco-capitalismo, é o personagem central. The Irrepressible Rothbard: The Rothbard-Rockwell Report Essays of Murray N. Rothbard é uma coletânea, editada por Lew Rockwell, dos ensaios de Rothbard na lendária newsletter libertária "The Rothbard-Rockwell Report" (conhecida como "The 3 R's"). Rothbard detona com o mesmo vigor os neo-conservadores, que nunca encontraram uma guerra de que não gostassem, e os estatistas ensandecidos da esquerda, mas política e economia não são tudo: o livro contém até resenhas cinematográficas. Para um gostinho do livro, vale ler a coluna que Justin Raimondo publicou quando de seu lançamento.
Raimondo é o autor do outro livro, An Enemy of the State: the life of Murray N. Rothbard, a primeira biografia extensa de Rothbard, que eu não li, mas que, segundo Lew Rockwell, serve para dispersar todos os mitos e mentiras que circularam esses anos todos a respeito dele.
Dificilmente eu encontraria qualquer coisa para falar desses dois livros que já não estivessem na resenha que Joseph Stromberg escreveu a respeito, então, recomendo aos senhores que a leiam. Mas vale acrescentar que seria muito bom que alguém resolvesse editar Rothbard no Brasil (há apenas dois livrinhos, uma brevíssima síntese dos pontos centrais da obra de Von Mises e o panfleto "Esquerda e direita"), porque uma das coisas de que o movimento liberal brasileiro precisa é trocar Ayn Rand por ele.
Passemos, então, a outras biografias e destaquemos três, todas muito elogiadas e todas tendo figurado em várias listas de melhores livros do ano.
É incrível que não houvesse ainda uma biografia importante de Lord Acton, o grande historiador da liberdade e um grande pioneiro, que confrontou o estatismo do establishment católico no século XIX e argumentou diante deles em defesa do capitalismo e do livre mercado. Acton perdeu a batalha na época, e o resultado foram décadas de desastrosa "doutrina social da Igreja", que nos últimos anos o Papa João Paulo II vem tentando timidamente consertar. Roland Hill pesquisou bastante para escrever um livro que dá bastante destaque ao contexto histórico da vida de Acton e que também foi escolhido por Lew Rockwell como um dos melhores do ano. Já está na minha "wish list".
James Boswell é praticamente sinônimo de biógrafo, porque ele escreveu aquela que é considerada a melhor biografia de todos os tempos, Life of Johnson, um modelo para todos os livros do gênero. Peter Martin resolveu escrever a biografia do biógrafo, A Life of James Boswell, um livro detalhado do qual emerge, segundo resenhistas, um Boswell não apenas espectador passivo, mas com genuíno talento dramático e literário. Recomendado para fãs do Dr. Johnson (e como não sê-lo?) e para interessados na vida intelectual da Inglaterra no século XVIII.
Eu provavelmente jamais lerei Wordswoth: A Life, biografia do grande poeta inglês escrita por Juliet Barker (autora de uma celebrada biografia das irmãs Brontë), porque é preciso muito interesse no assunto para ler um livro de 990 páginas. Mas eu li poucas resenhas tão fascinantes este ano quanto a que Jane Gardam escreveu sobre esse livro na revista Spectator, em que ela comenta as várias fases na vida do poeta e a maneira como Wordsworth e os poetas seus contemporâneos conseguiam sobreviver sem um tostão no bolso, bem como a conturbada relação de Wordsworth e sua esposa com Coleridge e sua dependência das drogas. Falo desse livro porque acho que estarei perdendo muito em não o ler, e, portanto, trago-o à atenção dos interessados.
Todos sabem que os franceses não são como os outros soldados e que a expressão gaulesa c'est la guerre está no centro de sua doutrina militar. Tropas britânicas, por exemplo, se tiverem de defender um pedaço de terra, agarram-se com tenacidade a ele; tropas francesas preferem abandoná-lo depois de alguns tiros e depois retomá-lo de forma gloriosa, de preferência com trombetas. E nenhuma outra tropa se encaixa tão bem nessa descrição quanto os hussars. Os primeiros que surgiram, no exército Império Autro-Húngaro, não seriam incorporados à ordem regular da batalha, mas seriam liberados para explorar o terreno e saquear o que quisessem. Desde então, esse impulso anárquico se espalhou para hussars de todas as nacionalidades. Um hussar que vivesse mais de 25 anos, dizia-se, não era digno do nome. O motto era "aproveite a guerra, porque no tempo de paz você não estará aqui". E, ao que parece, eles realmente aproveitaram, porque eles - na descrição da personagem de Conan Doyle, o Brigandier Gerard - "sempre faziam a população correr; as mulheres em direção a nós, os homens para longe de nós".
A inspiração para a personagem de Conan Doyle foi o general Jean-Baptiste-Antoine-Marcellin de Marbot, que entrou no regimento de seu pai em 1799 aos 17 anos e logo aprendeu a "arte" dos hussars, conseguindo promoções rápidas. Marbot foi aide de camp de quatro oficiais de Napoleão Bonaparte e, ao levar seu regimento ao "Imperador" depois da fuga de Elba, foi promovido a general de divisão na véspera de Waterloo. Ele deixou, em suas memórias, não apenas uma descrição de sua carreira no Exército francês, mas uma crônica da vida militar napoleônica. Conan Doyle chamou-o de "o humano, o galante, o inimitável Marbot".
As memórias originais tinham três volumes e, agora, Christopher Summerville, com o objetivo de introduzi-las a um novo público, tomou como base a tradução para o inglês de A. J. Butler em 1892 e fez uma edição abreviada, em um volume, intitulada The Exploits of Baron de Marbot - e esta delícia será minha leitura de verão.
Agora, alguém pode perguntar pelos romances. Repito, com uma pitada de sal, a resposta de Taki quando inquirido pela Spectator a respeito de seus livros preferidos este ano: "Como o romance morreu no momento em que Salman Rushdie começou a escrever, eu tenho religo os clássicos, como A Cartuxa de Parma, a obra-prima de Stendhal sobre as intrigas na corte de Parma durante os tempos napoleônicos. Os romancistas modernos deveriam ler isso e O Vermelho e o Negro e se enforcar de vergonha."
Eu disse com "uma pitada de sal", porque é possível que existam ainda alguns bons romancistas em algum lugar, mas a verdade é que disponho de tempo ou paciência para procurá-los. Se alguém souber de algum, por favor, me avise; prometo que aviso também quando encontrar um.
Isso não é motivo para abandonar completamente os livros de ficção, de maneira alguma. Afinal, como Andrew Ferguson avisou na Weekly Standard há algumas semanas, a editora Overlook Press está relançando P. G. Wodehouse, um dos escritores mais divertidos da literatura moderna. Se você ainda não tem Right, Ho, Jeeves! ou Pigs Have Wings, aproveite a oportunidade. E, claro, esses livros são ótimos presentes, porque é difícil não ser grato a quem lhe apresenteou Wodehouse.
MUNDO ACADÊMICO
O imperador do Rio, sr. Anthony Garotinho, prometeu sancionar em breve a lei que ele mesmo bolou criando uma reserva de 50% das vagas na Universidade Estadual do Rio de Janeiro para alunos das escolas públicas.
Não é preciso ter mais de dois neurônios para saber que a medida terá efeitos devastadores sobre a qualidade do ensino na UERJ. O motivo é muito simples: metade dos alunos passará a ser admitida pela universidade não com base em méritos acadêmicos anteriores, nem com base nos conhecimentos demonstrados no exame de admissão, mas com base simplesmente no fato de terem estudado em escola pública. O critério do mérito estará sendo substituído pelo critério da origem escolar e, obviamente, a qualidade média dos alunos diminuirá, como um efeito inevitável do fato de que metade dos que estarão ali não terão feito nenhum esforço para chegar à universidade.
É óbvio também que, diminuindo a qualidade média dos alunos, a qualidade do ensino fatalmente diminuirá, porque os professores se sentirão pressionados a reduzir o nível de exigência para atender aos novos alunos.
E eu confesso que, por tudo isso, esta é uma das melhores notícias do ano. Não há nada melhor para a vida acadêmica brasileira do que a perspectiva de que as universidades públicas decaiam de qualidade e de cotação no mercado.
Até este momento, o ensino universitário privado brasileiro é constituído, em sua maioria, por um monte de faculdades caça-níqueis com vestibulares ridículos para atender aos filhos lesados da classe média alta, enquanto o ensino sério fica reservado para uma ou outra faculdade particular e as universidades do Estado.
À medida que leis malucas de reserva de vagas forem inundando as universidades públicas, é natural que essa situação se modifique e que surja uma demanda por um ensino particular de qualidade, o que pode levar à criação de uma comunidade acadêmica independente do Estado, exatamente o que falta ao Brasil atualmente.
Claro que a única maneira de solucionar mesmo esse problema é a extinção do Ministério da Educação, ou no mínimo uma redução radical de seus poderes, para que seus burocratas não possam interferir em cada detalhe da vida das universidades, mas essa solução continua sendo uma espécie de utopia libertária.
Fiquemos, então, com a solução possível: parabéns, governador. Esse é exatamente o caminho. Continue a trabalhar para destruir as universidades públicas, porque elas são a expressão de um autoritarismo que subordina a vida intelectual à vida política, uma submissão que impossibilita qualquer atividade acadêmica séria e honesta. Mantido esse esforço, é possível que surjam empreendedores dispostos a criar centros de excelência para quem não deseja mamar nas tetas estatais para o resto da vida.
ARTIGO DA SEMANA
Talvez tenha havido artigos melhores esta semana do que este que eu vou destacar; o próprio Lew Rockwell, aliás, publicou um texto mais importante, a sua análise da configuração política americana nos próximos anos. Mas eu escolhi o artigo do Rockwell no WorldNetDaily porque ele, já nos primeiros parágrafos, faz um excelente sumário das besteiras ditas pela mídia americana (e caninamente copiadas pela brasileira) depois que Gore se viu forçado a desistir de roubar a eleição por uma decisão da Suprema Corte americana.
Diz Rockwell, no seu artigo "O intento da imprensa" (tradução inteira aqui):
"Nunca foi tão fácil odiar a imprensa. Na noite da decisão da Suprema Corte, a grande mídia mostrou a vitória de Bush como se fosse um desastre ambiental. Eles estavam nitidamente com os corações partidos. E, claro, eles continuam a distorcer os fatos, deixando de assinalar que o que a campanha de Gore exigia não era apenas uma simples recontagem (isto já tinha sido feito duas vezes), mas uma reinterpretação das cédulas anuladas com a esperança de arrancar a vitória através de manipulação eleitoral.
" A mídia nos informou que a Suprema Corte que julgou em favor de Bush estava 'terrivelmente dividida'. Engraçado, eles nunca disseram isso a respeito da Suprema Corte da Flórida, que julgou em favor de Gore pela mesma margem. Também fomos informados que uma 'pequena maioria partidária' prevaleceu, uma frase que nunca foi usada para descrever a corte da Flórida. E nunca um dissenso na Suprema Corte recebeu tanta atenção no noticiário, com repórteres lendo para os telespectadores longas passagens com grande drama. E pensar que uma semana antes, o presidente da Suprema Corte da Flórida escreveu um dissenso e foi tratado como um rabugento excêntrico.
" E agora chegamos à alegação mais tola de todas: a de que a presidência de Bush está seriamente enfraquecida pela maneira como ele chegou ao cargo. Dizem que ele agora deve curvar-se aos democratas para ter alguma legitimidade. Que ele deve trabalhar para 'merecer' sua apertada vitória fazendo no cargo as coisas que Gore faria. Que ele deve 'curar as feridas' comunicando-se de forma bipartidária com 'eleitores desamparados' que acreditam que ele ganhou a presidência sem 'contar todos os votos'.
"Nonsense! Se Gore não tivesse apertado cada botão na máquina legal americana para manufaturar uma vitória, a intervenção da Suprema Corte jamais teria acontecido. Os prospectos presidenciais de Gore viveram e morreram através dos processos que ele moveu depois da eleição."
