No. 42 - 29/12/00
Em março deste ano, quando comecei esta coluna, criei para mim mesmo a seguinte regra: "Toda sexta feira estarei aqui, trazendo as notícias que julgar relevantes e fazendo comentários breves, ou um pouco mais demorados - mas não muito. Textos mais profundos, ficam para a outra coluna, aperiódica."
Quem acompanhou a coluna até aqui sabe que desobedeci a essa regra, e acabei pondo neste espaço praticamente tudo o que tinha para dizer: comentários breves e textos mais longos (profundos ou não). A única vez que mexi na coluna "fótons" foi para publicar uma versão revisada de um texto de 1999, "Onipotência e servidão".
Talvez no próximo ano haja algumas modificações, talvez não. Em princípio, tudo ficará como está. Mas como esta é a última coluna do ano, resolvi rever as colunas que escrevi ao longo de 2000 e pretendia publicar abaixo aquilo de melhor que saiu nelas. Só que quando estava na coluna número 15 (de 23 de junho) já havia reunido mais texto do que qualquer outra coluna. Para não entediar ou afastar os leitores, para que os senhoes não gastem páginas demais em suas impressoras, resolvi parar por aí mesmo. Algum outro dia continuo a compilação.
Noto, antes de ir ao que interessa, que não faço isso por orgulho nem por propaganda, mas apenas para relembrar observações que podem ter ficado esquecidas ou ignoradas no meio de tantas outras; e, afinal, se eu um dia as publiquei é porque elas me pareceram relevantes, apesar de escritas no meu estilo capenga e tosco.
Os "debates" no Brasil
Uma característica impressionante dos debates intelectuais brasileiros é que, de uma forma geral, nenhum dos debatedores parece ter qualquer interesse em se referir a coisas reais, ou a aceitar provas concretas e factuais. Sempre predomina a imaginação. Daí, quando apresentamos certos fatos, ouvirmos argumentos como "isso não é possível".
Isso, claro, é um indício patológico de medo da realidade, de falta de coragem de encará-la de frente e desmentir os próprios preconceitos ideológicos, liberais, religiosos ou esquerdistas. É um infantilismo que impede a discussão a sério de várias coisas. Alguns exemplos: a reação católica a certos fatos da crise da Igreja do Concílio Vaticano II para cá; a reação liberal quando mostramos a eles que a Nova Ordem Mundial nada tem de liberal e, no fim das contas, será deletéria para todas as liberdades; e a reação esquerdista à discussão de qualquer coisa. (31/03/00)
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Um dos traços que identificam o sujeito que só tem besteira a dizer é o fato de ele acusar seus críticos de não serem moderados o suficiente, de não proferir afirmações "ponderadas".
Outro traço inconfundível é o uso do argumento de autoridade: eu possuou diplomas tal e tal, e meu oponente não possui diploma nenhum, e não tem "familiariadade" com a temática, isto é, não pertence ao grêmio. (23/06/00)
Maioria silenciosa?
Lá [nos EUA] como cá, não existe "maioria silenciosa" nenhuma. A maioria é estúpida, como é em qualquer lugar e como, matematicamente, não tem como deixar de ser. A maioria tem suas idéias formadas pelos chavões e lugares-comuns esquerdistas de novelas, telejornais, filmes, músicas populares etc. Como diz [Charley] Reese:
"Infelizmente, isso é um mito. Não há nenhuma maioria lá fora. Por que as pessoas persistem em sua crença nela? Não percebem os efeitos trazidos por 50 anos de entretenimento esquerdista [ele usa o termo "liberal", que, para um americano, é, grosso modo, o que esquerdista é para nós], mídia esquerdista, políticos esquerdistas e educação pública esquerdista?
"A verdade é que os americanos [e os brasileiros] de hoje são, no geral, mais burros que os americanos de 50 anos atrás. Eles podem ter um monte de credenciais e ótimos currículos, mas têm uma educação pobre e são especialmente ignorantes de qualquer filosofia política que não seja o socialismo. E um número excessivo deles está chupando as tetas do Governo." (31/03/00)
O Vestibular
Trocando em miúdos: ninguém vai precisar sabe quem foi Napoleão, nem por que ele invadiu Portugal, mas vão precisar repetir direitinho o discurso do PT contra o Governo Fernando Henrique; ninguém vai precisar identificar a localização geográfica do Mar Mediterrâneo (façam essa pesquisa um dia com conhecidos ou filhos de conhecidos que estudem no Segundo Grau: aposto que a maioria não vai saber; já fiz a experiência), mas todos serão obrigados a ter na ponta da língua as razões dadas pela UNESCO para a existência de fome no mundo, ou os motivos da famosa (e inexistente) "concentração fundiária" no Brasil.
E se acham que estou exagerando, faço notar que, no programa de História, não há um único tópico de história mundial, todos são relativos exclusivamente ao Brasil. O mais engraçado deles diz o seguinte: "Organização política do Estado republicano brasileiro: a república oligárquica, a construção e crise do populismo, a modernização autoritária e o Estado neoliberal." Existe todo um tratado de História do Brasil segundo o PT resumido nessa simples organização do tema.
Mais ainda no tema seguinte: "Conflitos socioeconômicos rurais e urbanos no contexto do Brasil republicano."
Em nenhum lugar, no programa da prova, se faz referência à organização política do Brasil quando era reino unido a Portugal, ou à influência portuguesa no nosso modo de vida. Não contentes em falar apenas de Brasil, ainda fazem escolhas arbitrárias de temas, escolhidos não de acordo com sua verdadeira relevância histórica, mas de acordo com sua relação com o noticiário midiático. Estamos, realmente, em maus lençóis, quando os temas principais a serem estudados no ensino médio são determinados pelas manchetes dos jornais e televisões, e não por sua relevância para a formação cultural do aluno.
Pois bem: é nesse contexto de estupidez incalculável que se desenvolvem os programas das aulas dos diversos colégios cuja função maior é "preparar para o vestibular." É para esse verdadeiro teste de fidelidade ideológica que as escolas do país afora estão preparando, e não é de espantar que temas absurdos como os relativos ao racismo no Brasil sejam cobrados em redações escolares.
A coisa é ainda pior: o vestibular é a porta de entrada para a universidade. Se a porta está desse jeito, imaginem o estado das próprias universidades: já não é segredo para ninguém que elas se transformaram em antros de facções políticas esquerdistas, que exercem uma verdadeira tirania cultural onde, supostamente, deveria reinar a liberdade de pensamento e expressão, condição quase imprescindível para o florescimento de uma verdadeira cultura intelectual. (07/04/00)
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A Universidade Federal de Goiás, UFGO, propôs em seu vestibular de História a seguinte questão: "A reforma protestante (séc. XVI) respondia às necessidades de mudança ideológica de sua época. Justifique essa afirmativa."
Porca miséria, que raio de coisa será "necessidade de mudança ideológica de uma época"? Que fantasmagoria é essa? Inevitavelmente, caminharemos no sentido do marxismo de botequim: a "burguesia" estava em ascensão, e precisava de uma justificativa ideológica para suas ações, e o protestantismo forneceu essa justificativa.
Os sábios autores da pergunta não parecem ver nenhum problema no fato de que a expansão capitalista só se deu mesmo alguns séculos depois, nem no fato de que Lutero estava aliado não à burguesia, mas à aristocracia alemã, nem mesmo no fato de que, se o protestantismo serviu mesmo para impulsionar o capitalismo, isso aconteceu principalmente na Inglaterra e nos Estados Unidos, e o surgimento do protestantismo nesses lugares nada teve a ver com a reforma de Lutero.
Mas o fato de a pergunta ter uma base factual totalmente absurda nem mesmo é a pior coisa a respeito dela. O pior é que ela serve para desenvolver nos estudantes o cacoete mental do marxismo. Esse cacoete consistirá em enxergar na história a preponderância dos fatos econômicos, das "relações de produção". Em tudo, eles verão uma ação mágica da economia para produzir as mudanças culturais, religiosas, intelectuais, políticas etc.
Se surgiu o protestantismo, foi por causa do capitalismo; se a Igreja católica condenava a usura, foi por causa de sua "aliança com a nobreza"; se os jesuítas vieram para as colônias portuguesas catequizar os índios, foi para "legitimar a ação do Estado português em busca de metais preciosos"; e assim por diante, em explicações que conhecemos bem. Não serão oferecidas explicações de nenhum outro tipo, nenhuma outra visão do movimento da história chegará ao conhecimento dos estudantes, nada além do reducionismo economicista do marxismo. Notem que a questão nem mesmo permite que o estudante discuta a afirmação, devendo simplesmente "justificá-la". Se isso não é imposição ideológica, o que é?
Isso, claro, tem um aspecto demencial, e serve para diminuir radicalmente a esfera de percepção do estudante, enchendo sua cabeça de concepções pueris. Essa lavagem cerebral, feita em grande escala, tornará os estudantes praticamente incapacitados para entender o que quer que seja na história humana. Mas certamente os deixará mais predispostos a aceitar a revolução em nome das "reivindicações populares" e das "forças econômicas da História". (14/04/00)
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Outras boas questões [na prova de vestibular da UERJ], essas à moda antiga, são a 17, que pede a explicação do termo "mais" no subtítulo da reportagem de Veja ("Histórias de um Brasil com mais de 500 anos"), e a 23, que exige do aluno a compreensão do objetivo do Nelson Rodrigues ao narrar um encontro entre um milionário brasileiro e uma menina miserável no interior da China.
É exatamente esse tipo de coisa que deve ser cobrada de quem pretende entrar numa universidade. Saber ler e saber argumentar são os requisitos mais rasteiros que se podem exigir de quem pretende ser universitário, mas, infelizmente, nem esses requisitos nosso público universitário atende - nem alunos, nem professores. Pelo contrário, eles são mestres na arte de ler o que não está escrito e só sabem argumentar de forma tosca. Basta ler qualquer jornalzinho universitário para perceber isso.
Aliás, não precisa nem ser jornalzinho universitário: leiam os jornais, e notem as idades dos articulistas e repórteres. Verão como, quanto mais jovens forem, mais desconexos serão seus textos, e pior o nível de sua linguagem. É esse tipo de gente que as universidades andam produzindo - analfabetos funcionais. E esse analfabetismo funcional começa num vestibular mal elaborado e de proposta absurda. (26/05/00)
Holocausto cristão
Na mitologia midiática e, conseqüentemente, na imaginação contemporânea, a Igreja Católica e seus membros ocupam um lugar destacado na categoria dos "opressores". A Igreja, diz o consenso geral, é detentora de grande poder, influencia dos governos do mundo todo e cria repressões de todos os tipos para os cidadãos, numa postura anacrônica e ultrapassada, já que a década de 60 deveria ter libertado a todos de qualquer tipo de opressão.
Esse mito, como praticamente todos os mitos midiáticos, é mentiroso. Aliás, não só é mentiroso, como perverso. Infelizmente, ao pedir desculpas por erros que não cometeu, o Papa João Paulo II nada mais faz do que reforçá-lo e dar mais munição aos inimigos da Igreja que estão interessados em propagá-lo.
A verdade é que não só a Igreja não tem influência praticamente nenhuma nos rumos do mundo contemporâneo, como foi a instituição mais atacada e perseguida nos últimos duzentos anos.
Nenhum outro grupo étnico ou religioso sofreu tantos martírios quanto os católicos, ou como os cristãos de modo geral, no último século. Esse é o "holocausto cristão", nunca contabilizado, nunca notado, nunca lamentado - enquanto, pelo holocausto judeu, chaga-se ao ponto de culpar a humanidade inteira.
Estão errados os judeus em culpar a humanidade inteira pelo Holocausto? Claro que sim, porque isso atenta contra a regra elementar da responsabilidade individual. Mas estão errados em chorar seus mortos, em lembrar seus sofrimentos, em insistir em que não esqueçamos as atrocidades que sofreram? Claro que não.
Pelo contrário: estão errados, sim, os cristãos, que também acreditam na mentira de que fazem parte do poder, e nunca choram seus mártires, nunca lembram as perseguições que seus irmãos de fé sofreram. Não são os judeus que têm de parar de lembrar o seu holocausto: são os cristãos que têm de começar a lembrar que também sofreram um holocausto, e de proporções ainda maiores do que o holocausto judeu. (02/06/00)
A imparcialidade e a "superioridade" da imprensa
Em O Globo, o jornalista Carlos Alberto Di Franco publicou um artigo com dois detalhes interessantes. O primeiro deles, uma observação discreta que ele não chega a desenvolver: segundo Di Franco, a pauta da imprensa não é determinada pela própria imprensa, mas pelos políticos. Só que Di Franco deixa as coisas pela metade: afinal, que políticos são esses? Certamente não se trata dos políticos do PFL, que a imprensa odeia. Será, então, o PT? Será o famoso sistema de informações do PT, esse que está por trás de tantos grampos, tantas falsas denúncias, tantas campanhas moralistas encampadas pela imprensa? Ficamos sem saber.
O outro detalhe não é bem um detalhe, e sim o assunto principal do artigo. Di Franco quer que, para que o cidadão possa votar bem, a imprensa investigue cada um dos candidatos, e depois faça um dossiê com os resultados. Eu proponho inverter a sugestão: por que não investigamos a própria imprensa? Por que não investigamos suas ligações com partidos políticos (ligações sugeridas pelo próprio Di Franco!), seus "desvios éticos" (para usar a expressão que jornalistas usam para falar de políticos), suas distorções e ocultações propositais?
A imprensa, no Brasil, virou uma instância suprema de julgamento, que julga a todos e não é julgada por ninguém. Virou a monopolizadora da ética, a reserva moral da nação, sem que ninguém se lembre de perguntar quais são suas credenciais para fazer isso. E por isso ninguém acha estranha a proposta de Di Franco, que resultaria em aumentar de forma desmesurada um poder que já é desmesurado. Aliás, no Brasil de hoje, é o único poder que conta. (17/03/00)
O crescimento do nazi-fascismo
O segundo tema [para redação num colégio carioca de classe média alta] era meio enigmático: "Por que ideologias nazi-fascistas estão crescendo?" Se eu fosse aluno nesse colégio, responderia que as ideologias nazi-fascistas não estão crescendo, e que a professora de redação devia se instruir um pouco mais. Claro, existe nazismo - em movimentos que põem a raça acima da unidade cultural e nacional (alguém consegue encontrar menção a algum deles neste mesmo artigo? Um doce para quem conseguir!), em movimentos que proíbem o porte de armas, em movimentos de proibição de cigarros. Mas nenhum desses movimentos se diz nazista, e nem é visto como tal pela maioria - não, não, essas determinações vêm direto da ONU, que, afinal, é a campeã mundial de democracia. O que cresce, portanto, é um monstrengo com cara de democracia e alma de nazismo.
Mas eu duvido que seja a isso que o tema de redação se refere - com certeza, a professorinha se referia à meia dúzia de skinheads e lutadores de jiu-jitsu que são pintados com cores tão horríveis pela mídia. Agora, achar que isso é exemplo de crescimento do nazi-fascismo só pode ser piada. Como eu mesmo disse muito tempo atrás, é temer um ovo de codorna quando o ovo de serpente está crescendo bem debaixo de nossos narizes. (31/03/00)
"Hate crimes"
Mas o mais falso de tudo, nessa história, é que determinados crimes sejam considerados "mais hediondos" só porque as partes envolvidas eram de raças diferentes ou porque a vítima era gay. Um branco matar outro branco, um negro matar um negro, um gay matar outro, tudo isso é tão terrível quanto qualquer crime que possa ser chamado de "hate crime". Não há nenhuma razão ética ou lógica para criar uma categoria especial de crimes, sob pretexto de proteger "minorias", exatamente como não há nenhum mérito em fazer centenas de filmes, seriados de TV e artigos de imprensa endeusando essas minorias e retratando-as como as pobres vítimas de uma sociedade opressora, quando a simples existência de todo esse aparato midiático é a prova do contrário. (07/04/00)
A Igreja moderna
A Igreja, a partir do Vaticano II, e sob o comando dos últimos três papas (sem contar João Paulo I), passou a ser uma outra instituição totalmente diferente daquela que o mundo conhecia até então, ao ponto de, como diz o cardeal Ratzinger, tornar proibido o que antes considerava sagrado. Veio outra missa, outro tipo de arquitetura das igrejas, outro código de direito canônico, outro discurso. Aos poucos, tudo o que havia de católico foi sendo extirpado, seja em nome do ecumenismo, ou da democracia, ou do ajuste aos novos tempos.
Esse pedido de perdão de João Paulo II vem agravar essa cisão; vem aprofundar o rompimento da Igreja com seu passado. Não é de surpreender que cada vez menos pessoas acreditem nela.
O aspecto irônico é que, por mais que a Igreja ceda no seu intuito de agradar a gregos e a troianos, no fim das contas, nem gregos nem troianos se dão por satisfeitos, e querem cada vez mais concessões. Vários rabinos (liberais, claro; os rabinos ortodoxos nunca se metem nessas coisas, e nem são considerados judeus pela ala esquerdista-sionista) já foram a público reclamar de que o papa não foi "suficientemente enfático", ou não condenou diretamente Pio XII, ou não mencionou expressamente o holocausto. E vão reclamar cada vez mais, e, pelo andar da carruagem, acabarão sendo atendidos... (17/03/00)
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Depois, liguei de novo e a missa [pelos 500 anos do Brasil], rezada por Mons. [Angelo] Solano [secretário de Estado do Vaticano], estava justamente na hora da comunhão. Bom, os leitores que não são católicos provavelmente não sabem (os católicos têm obrigação de sabê-lo) que a comunhão recebida na mão do fiel é uma abominação, condenada por toda a Igreja, e que essa condenação foi renovada nos anos 80 pelo próprio papa atual. E eis que lá estava o enviado oficial do Vaticano para a missa dos 500 anos do Brasil dando a comunhão... na mão! Passavam todas aquelas figuras absurdas lá de Brasília (quantos deles se confessaram antes de ir comungar, aliás?), estendiam a mão (e de pé, o que é outro absurdo, porque se há mesmo a presença real de Cristo na hóstia, é claro que a maneira correta e adequada de recebê-la é de joelhos) e recebiam a hóstia consagrada (se é que a missa era válida). Fiquei assistindo, pasmo, esperando para ver se alguém pediria a hóstia na boca, e eis que surgiu um sujeito que realmente pediu. Mas, mostrando a falta de intimidade com o ato não sei se tanto da parte do sujeito quanto da parte do Mons. Solano, a hóstia foi direto para o chão.
Agora, presto novo esclarecimento: no chão ou não, a hóstia continua sendo hóstia. É a coisa mais preciosa da Igreja, e nenhum padreco, muito menos uma autoridade do Vaticano, tem o direito de ignorá-la ou de deixá-la caída no chão. Pois bem: o sujeito, vendo que tinha errado, pediu agora a comunhão na mão, e Mons. Solano recusou, fazendo um gesto irritado para que ele saísse e deixasse que o próximo viesse. E a hóstia ficou ali, no chão, onde provavelmente depois foi pisada e varrida para junto do lixo.
E é esse mesmo o tratamento que Nosso Senhor tem recebido das autoridades de Sua Igreja: tem sido pisado e varrido para junto do lixo. Aí está o Mons. Solano, que não me deixa mentir. (28/04/00)
Os valores nacionais
Ora, é fácil perceber que, no Brasil, a percepção social dos valores foi totalmente deturpada e distorcida pela campanha pela "ética na política", aliada à gigantesca produção artística de idealização de criminosos. Assim, ladrões e traficantes são alçados à condição de heróis, enquanto qualquer político suspeito (suspeito, não necessariamente culpado) de corrupção é o inimigo público número um. Ninguém mais acredita em direito à propriedade privada, mas ninguém admite que se roube um centavo da propriedade pública.
É claro que, com essa confusão valorativa, a ênfase na punição de criminosos será diminuída - ninguém quer punir quem violou um direito no qual ninguém mais acredita. (21/04/00)
Criem escolas cristãs!
Discussão jurídica no Canadá: uma faculdade cristã quer ter o direito de formar professores para escolas públicas, porque seus alunos fazem o curso nela até o último ano e então se transferem para outra escola só para obter o diploma. A comissão de faculdades responsável por determinar quem terá esse direito negou-o a essa faculdade católica, porque ela "se opõe ao homossexualismo".
O interessante na discussão é que a comissão alega que o homossexualismo é um "direito humano" garantido pela Carta de Direitos canadense, mas a faculdade alega que a liberdade religiosa também é garantida. E cá estamos diante de uma escolha de Sofia: que direito é mais importante, o de professar sua religião, ou o de um macho praticar a sodomia com outro macho? Putz, difícil mesmo, né?
Eis os tempos malucos a que chegamos, em que a crença religiosa de alguns é nivelada ao prazer sexual de outros, em que a religião que fundou a civilização ocidental deve dar lugar à religião do tesão anal.
Eu sei que a resposta tradicional dos "democratas" moderninhos a esse dilema é que a religião deve se adaptar aos tempos modernos e "democráticos" e, democraticamente, abrir mão de sua condenação da sodomia, para não ferir o "Estado de direito". Só que essa resposta é tão boba que não merece nem ser discutida a sério.
Mas parte da culpa desse problema canadense deve recair também sobre os responsáveis pela tal faculdade cristã. Afinal, já deveria ser bem óbvio para qualquer cristão que o Estado moderno nada tem a ver com cristianismo e que, muito pelo contrário, foi criado para substituir-se a ele. Já devia estar bem claro que um Estado que confere à sodomia o mesmo status da liberdade religiosa é um Estado do qual religiosos devem manter distância. Para que diabos, então, formar professores de escolas públicas?! Danem-se as escolas públicas! Criem escolas cristãs, e esqueçam o Estado! Essa, aliás, é a única postura sensata que educadores religiosos deveriam adotar em todo lugar, inclusive no Brasil, onde todos são forçados pelo stalinista Ministério da "Educação" a ensinar marxismo e a espalhar o ódio ao cristianismo. (05/05/00)
A demissão de Luís Eduardo Soares
A choradeira na imprensa já começou. Uma leitora, por exemplo, mandou uma carta para um jornal carioca dizendo que ele era o único homem capaz de reformar a polícia porque "não era policial", esquecendo-se de explicar a razão para esse preconceito anti-policial. Até mesmo os débeis mentais autores de uma coluna diária de fofocas reclamaram de que "foi demitido o único responsável por dar uma cara à política de segurança".
Mas os policiais estão comemorando a saída daquele que todos, com razão, viam como promotor da ineficiência. Os bandidos é que não devem estar gostando muito. (24/03/00)
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A maneira como "O Globo" relatou o caso Luís Eduardo Soares foi digna do antro de esquerdismo em que esse jornal se transformou, com a complacência da família Marinho.
A manchete no dia da demissão foi "Garotinho demite subscretário após denúncias", dando a entender que o fato de Luís Eduardo ter feito as denúncias tinha sido a razão de sua demissão.
Depois, publicou artigos e mais artigos de puxa-sacos e acólitos do ex-subsecretário, sem procurar dar espaço para uma única voz discordante que fosse. (24/03/00)
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Não é absolutamente ridículo a imprensa ficar tratando o Luís Eduardo Soares como um "exilado"? Ora, o sujeito foi para os Estados Unidos porque quis, certamente está vivendo melhor lá do que aqui. Luís Eduardo não tinha nenhum motivo concreto por temer por sua vida, pelo simples fato de que nenhum bandido é idiota o suficiente para tentar qualquer coisa contra ele ou contra sua família, sabendo da comoção midiática que isso causaria. Ademais, fora do Governo, que importância ele tem? (14/04/00)
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Não sei como pode ser responsável por combater o tráfico de drogas um sujeito que é a favor das drogas. Que incoerência é essa, a desse sr. José Carlos Dias? É igual ao sr. Luís Eduardo Soares, que, encarregado de elaborar políticas de segurança no Rio, não conseguia fazer nada que prestasse, simplesmente porque é a favor do crime e dos criminosos. Ele e praticamente toda a esquerda brasileira. (14/04/00)
Escolas de ignorância
Opinar sobre um assunto a partir apenas de impressões vagas, sem conhecê-lo em profundidade, eis uma das práticas mais difundidas nas páginas de opinião dos jornais. Quando quem incorre nela é diretor de jornalismo da maior rede de televisão do país, é sinal de que a coisa virou patologia gravenete já bem patológico país.
Mas foi exatamente isso o que fez o sr. Evandro Carlos de Andrade, em seu artigo no Globo no dia 21/06.
Evandro reclama de que, na escola, ele aprendeu história antiga demais e história contemporânea de menos, e acha que esse é um dos motivos pelos quais as pessoas não entendem o país em que vivem e sofrem de "debilidade de cidadania" (sempre esta palavra fatal).
O pressuposto não declarado é que o ensino nas escolas hoje em dia continua idêntico ao de, sei lá, cinqüenta anos atrás, quando ele próprio estudo nelas. Mas é preciso ser um ignorante total do que acontece no ensino de História no Brasil de hoje para acreditar nesse pressuposto.
Não sabe o sr. Evandro, mal adaptado ao papel de palpiteiro, que a inversão que ele propõe, de ensinar mais história contemporânea e deixar o resto para depois, já é seguida a risca pelas escolas, a tal ponto que nenhum estudante, hoje, saberia dizer o que foi a guerra de Cartago, quem foi Carlos Magno, ou qualquer outra coisa anterior à Revolução Francesa.
A História, para os vestibulares e, conseqüentemente, para os professores de história do ensino médio, começa na Revolução Francesa, ou, na melhor das hipóteses, na Reforma protestante.
E, exatamente ao contrário do que supõe Evandro, é justamente porque só conhecem (e mesmo assim muito mal, porque sempre pelas lentes marxistas) história contemporânea que os "cidadãos" brasileiros não são capazes de se situar no panorama histórico, não são capazes de olhar para si mesmos como participantes do drama cultural e civilizacional humano, que não começou ontem, nem anteontem, mas se estende a tempos imemoriais.
Essa concentração excessiva na história moderna ou contemporânea fecha as portas a inúmeras possibilidades de compreensão e empobrece consideravelmente a vida intelectual dos jovens. Propor um aumento dessa concentração não é reforçar a "identidade nacional": é abrir caminho para uma redução ainda maior do nível intelectual nacional. Como se ele já não estivesse baixo o suficiente. (23/06/00)
Anti-cristianismo hollywoodiano e congêneres
Ridículo é o mínimo que se pode dizer de The sixth sense, exploração altamente lucrativa de crendices populares. O mais engraçado é que, numa época que se acha tão "esclarecida", todo mundo se emocione com a história kardecista do garoto que vê e conversa com almas ambulantes que não sabem que morreram. Não deixa de ser divertido que o garoto busque inutilmente conforto nos santos que rouba da igreja; em outros tempos, isso seria anti-catolicismo do brabo, mas fato é que, realmente, hoje em dia a Igreja não dá mais consolo e esclarecimento para ninguém mesmo. Daí, inclusive, a onda de espiritismo e pseudo-misticismo que assola o mundo, e que tem um de seus principais centros aqui no Brasil.
Já The Cider House rules não tem nada de engraçado: é um filme descaradamente abortista e, o que é pior, feito com muito talento e brilhantemente atuado. Se o ponto culminante da história fosse qualquer outro, seria um grande filme; mas não se pode separar uma obra de arte de suas implicações morais e culturais. Qualquer obra de arte feita para embelezar o feio e tornar bom o mau deve ser encarada como a paródia satânica que realmente é.
O filme acompanha a passagem da adolescência para a idade adulta de um garoto, e o encontro do sentido de sua vida. O momento exato dessa passagem, que coincide com o encontro com o sentido, é o momento em que ele resolve fazer um aborto na menina que fora estuprada pelo pai. É a partir daí que ele resolve ser, como seu mestre, um ginecologista abortista. O símbolo dessa passagem é a cena em que ele rasga as regras da casa onde trabalhava, mostrando que as regras foram feitas por quem "não conhece" a vida, e que a vida adulta precisa fazer suas próprias regras.
Esse é o choque para o garoto que, em discussões com o mestre que cuidou dele no orfanato e lhe ensinou tudo o que sabia, dizia que não fazia abortos para não descumprir a lei - isto é, as regras humanas. Só que a proibição do aborto não é uma simples questão de regras humanas; é uma derivação direta da sacralidade da vida humana, sacralidade que está inscrita na natureza das coisas e que independe de determinações humanas. (24/03/00)
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Extraordinário o artigo de Joseph Sobran sobre a hipocrisia dos críticos do catolicismo, quando dizem que o catolicismo é responsável por inúmeras guerras e atos violentos, e não se lembram de que, graças à Igreja, o nível moral da humanidade subiu imensamente, desde a promiscuidade e barbárie do Império Romano. Subiu, mas agora está decaindo de novo, graças ao ódio anti-cristão e suas inúmeras manifestações. (14/04/00)
"Homossexualismo"
Ah, porque ficou feio não gostar de homossexuais. Ficou feio até mesmo chamá-los de "viados" - termo que nada tem a ver com o animal, mas é uma redução de "transviados". Ficou feio achar que a prática da sodomia é moralmente errada, apesar da opinião em contrário das três mais abalizadas fontes de ensinamentos e mandamentos morais da humanidade. Aliás, não ficou feio achar ou pensar tudo isso: ficou feio dizer. Não pega bem socialmente. Ficou tão feio que, já contei aqui, as agências internacionais de notícias, que fizeram tanto escândalo pelo assassinato brutal do rapaz gay Matthew Shepard, assassinato que nada teve a ver com fatores sexuais, e sim com uma briga por causa de dinheiro, essas mesmas agências fizeram de tudo para esconder o assassinato muito mais brutal de um menino de 13 anos por um casal gay, que matou o menino por asfixia depois de tê-lo dopado e submetido a diversos "jogos sexuais". E um dos irresponsáveis disse, chorando, que eles estavam "apenas brincando".
Não, isso não é "notícia". Não é notícia porque o estilo de vida gay assumiu um status sacrossanto, sob as bênçãos de ONGs, entidades internacionais, filmes e séries de TV. Não é notícia porque a repugnante prática da sodomia entre machos ganhou ares de "opção sexual" no mesmo nível da prática que garante a continuidade da espécie. E antes que algum imbecil responda que ninguém faz sexo pensando apenas em procriar, explico: a motivação subjetiva do sexo heterossexual pode não ser a procriação, mas sua motivação objetiva é; acabem com o intercurso heterossexual, e acabará a humanidade; acabem com o "homossexualismo", e não fará a menor diferença.
Neste ponto, acho que devo prestar um esclarecimento, válido especialmente no Brasil, onde ninguém concebe nada fora da ação estatal e onde toda idéia é vista como um projeto de lei em potencial. Não estou dizendo que as práticas homossexuais devam ser proibidas pelo Estado, ou que o Estado deva criar uma secretaria de treinamento psicológico obrigatório para gays; muito menos estou dizendo que alguém deva sair às ruas batendo em gays. O Estado não tem nada a ver com o assunto, e um erro moral não é justificativa para agressões físicas.
Estou dizendo apenas que eu e qualquer pessoa de bem estamos de saco cheio dessa transformação de um tesão anal numa religião leiga, com direito a panteão de santos e lista de excomungados. Já estou de saco cheio das políticas de privilégios para gays, de sexólogas dizendo a adolescentes que eles devem "experimentar de tudo", das manifestações ridículas de "orgulho gay", quando é óbvio que não há nada de que se orgulhar no caso. Já estou de saco cheio de ver os pacientes de AIDS ser tratados como vítimas de um vírus, e não do próprio estilo de vida promíscuo. E, principalmente, estou de saco cheio dessas passeatas e manifestações que pretendem que a Igreja negue o Evangelho para atender a cretinos que não conseguem conter o próprio tesão anal - cretinos que, inexplicavelmente, apesar de ser gays não vêem a hora de entrar para uma religião que condena os gays, ou que escolhem um pedaço da religião para acreditarem e jogam fora todo o resto, e mesmo assim querem que a religião os aceite. (28/04/00)
Salvem a Amazônia
Recebi, no e-mail do "Indivíduo", uma dessas mensagens que as pessoas mandam para todos os sites de notícias cujos e-mails conhecem, reclamando do "desmatamento da Amazônia". A mensagem era assinada por uma estudante de ecologia da UNESP, e, como simpatizei tanto com o nome da menina quanto com seu jeito meio infantil de escrever, não quis responder nada.
Mas é preciso esclarecer uma coisa: toda essa área da Amazônia que é "protegida", e que os fazendeiros querem que deixe de sê-lo, é uma parte que foi literalmente tomada por governos estrangeiros e por ONGs estrangeiras. São áreas do Brasil onde brasileiros estão proibidos de entrar. E o discurso a respeito de "nações indígenas" serve para legitimar esse esfacelamento do Brasil.
Com a diminuição na área "protegida" da Amazônia, não estamos perdendo recursos: estamos recuperando áreas do Brasil que tinham sido tomadas. (12/05/00)
É hora de fechar a CNBB!
Eu quero propor o seguinte: vamos fechar a CNBB. Vamos destituir os bispos de seus cargos, porque eles já não são mais bispos mesmo, e só servem para encher o saco. "Oh, como ele pode dizer isso?!", diz a beata de Igreja apavorada com tanta "ofensa à hierarquia". "Alvaro, menino, você ainda não aprendeu que, de trinta anos para cá, os 'conservadores' católicos dão mais importância à obediência do que à fé?", diz uma outra, também escandalizada.
Mas, se é para continuar com esse joguinho de aparências, podem ir todos esses "conservadores" para o inferno, e suas mães também. Porque quem quer que continue obedecendo a algum dos bispos signatários dos dois últimos comunicados mais divulgados da CNBB está pintando em si próprio um nariz de palhaço. E não peço perdão nem pela dureza da minha linguagem, nem por ser eu a estar dizendo isso, porque, primeiro, é exatamente essa a linguagem que essa quadrilha de "bispos" e seus seguidores merece, e, segundo, porque, se não tem ninguém mais para falar, sobra para a mais débil e incapaz das vozes mesmo.
Primeiro, a "Pastoral Afro" (porca miséria 2!) da CNBB entrega ao Secretário de Estado do Vaticano (aquele mesmo que deixou cair a hóstia) um documento sobre a condição do negro na Igreja brasileira, pedindo adoção da "affirmative action" na Igreja, porque afirma que há poucos padres negros e bispos negros (como se o Vaticano tivesse qualquer coisa a ver com isso). No mesmo documento, a tal Pastoral propõe uma "reflexão sobre a realidade da comunidade negra", chegando às propostas que apresenta ao Vaticano. Eis algumas delas: reserva de vagas nas escolas católicas para comunidade negra; maior diálogo com as religiões afro-brasileiras; utilização dos "centros de direitos humanos" organizados pela Igreja para a denúncia de práticas de preconceito racial; apoio a iniciativas destinadas a melhorar a ascensão política, social e econômica do negro; maior divulgação dos nomes de santos negros; e estudo da possibilidade de criação de um "rito católico afro-brasileiro" (porca miséria 3!).
Isso tudo é tão absurdo, tão surreal, que me recuso a explicar o que há de errado nessas propostas. Vou apenas dizer o seguinte: se existe uma entidade que nunca teve nada a ver com discriminação racial, esta entidade é a Igreja Católica. Ela nunca fez restrições raciais de nenhum tipo, e tem santos de todas as cores em seu panteão, sem nenhuma preferência pelos brancos ou pelos negros.
E uma mentira do movimento negro brasileiro já passa da hora de ser desmentida: as religiões africanas NUNCA foram perseguidas no Brasil. Muito pelo contrário: elas foram incentivadas pelos senhores de escravos, porque eram ritos mágicos sem nenhuma contrapartida moral e, portanto, não incitavam os escravos a se rebelarem. A religião perseguida era o cristianismo, e os jesuítas tiveram inúmeros conflitos com senhores de escravos, porque o cristianismo tinha (e tem) noções pouco agradáveis de valorização da pessoa humana, o que levava seus adeptos a rejeitar a escravidão, e criava sentimentos de rebelião nos escravos. Não acreditem na minha palavra: leiam o recente "A Formação do Brasil", do historiador português Jorge Couto, lançado ano passado.
Ah, sim: a rebelião de escravos mais importante foi a dos malês, que não tinham nada a ver com macumba: eram muçulmanos, e, como tais, rejeitavam a macumba como coisa demoníaca. E não creio que ninguém vai dizer que o islamismo é "religião afro-brasileira".
É claro que, se esses cretinos da CNBB servissem para alguma coisa, eles estariam dizendo tudo isso. Mas os imbecis já chegaram a um grau de cinismo e de apostasia tão grande que só conseguem pensar em transformar o catolicismo em um braço religioso do movimento negro.
E aí vem o segundo documento, sobre "evangelização". Várias vezes ouvimos a CNBB falar com grande autoridade desse assunto, defendendo suas maneiras de "levar o Evangelho" às comunidades carentes etc. E é muito bom que a CNBB fale disso, porque, enfim, espalhar o Evangelho é função essencial dos homens da Igreja. Mas eis que, nesse documento, a CNBB pede perdão pela cristianização de índios e escravos (repito: foram poucos os escravos cristianizados, porque os senhores de escravos não gostavam da idéia). Bom, então, repito, vamos fechar a CNBB, porque, se era errado evangelizar no passado, por que é que no presente é certo?
Não: se os jesuítas estavam errados, se Anchieta, Nóbrega, Vieira eram "criminosos culturais", também o são os bispos atuais (aliás, infinitamente menos brilhantes), e devem também estes parar de evangelizar. Ou acham estes senhores bispos que, quando um pai manda uma criança para uma escola de catecismo, pergunta antes se a criança quer mesmo se católica, ou prefere a religião dos gnomos, ou a bruxaria, ou o satanismo light, e assim por diante, num rol de opções enorme? (05/05/00)
O monotemático mundo universitário
Liguei a TV outro dia e vi que estava rolando, no GNT, um debate sobre ensino universitário no Brasil, envolvendo vários luminares acadêmicos e o nosso caro ministro Paulo Renato.
Não escutei nem quarenta segundos do debate, porque já sabia de antemão quais seriam seus tópicos, e quais seriam os argumentos apresentados.
O ministro diria que cobrar mensalidades nas universidades não é privatizá-las, os demais participantes diriam que sim. O ministro diria que o provão serve para avaliar também as universidades particulares, os demais participantes diriam que esse é o caminho para privatizar as universidades públicas.
Desafio qualquer um que tenha assistido ao debate a me dizer que os temas centrais foram outros. Os temas são sempre os mesmos, onde quer que se debata ensino universitário: privatização e verbas.
Agora, pensemos bem, não é simplesmente surreal que todo debate sobre as universidades se concentre nisso?
Temos um dos piores ensinos do mundo, os estudantes universitários não conseguem completar um silogismo e ler qualquer coisa mais profunda do que jornais e revistas, os professores são, em sua maioria, desonestos, pouco cultos e repetidores de chavões aprendidos há muito tempo, mas ninguém parece achar que nada disso é importante. Não: o importante é dar mais dinheiro para esses professores charlatães e mais dinheiro para os alunos semi-analfabetos. Como diria o Agamenon Mendes Pedreira, "no princípio, era a verba".
Isso ainda se camufla sob o nome bonito de "autonomia universitária". Essa é a principal bandeira das universidades públicas brasileiras. Esse nome bonito significa que as universidades poderão gerir os recursos que recebem do Governo da maneira que quiserem, sem prestar contas a ninguém - como crianças irresponsáveis. Só mesmo com um nome bonito, que traz consigo uma referência vaga ao ideal esquecido de liberdade acadêmica, é que uma patifaria dessas pode ter tanta aceitação.
Estou devaneando, e fugindo dos dois temas do debate. Na verdade, não estou devaneando, apenas dizendo que esses dois temas são secundários demais para ocupar o centro de qualquer debate sobre a universidade. (09/06/00)