No. 44 - 12/01/01
Escrevendo no fórum do site do prof. Olavo de Carvalho (quanto aos que me perguntam sobre minha participação nele... desculpem-me, mas, desde o finado fódum das editoras, não tenho mais fôlego para participar de nenhum fórum na internet; talvez daqui a uns cinco anos), um tal de "ragon" afirma discordar da aproximação entre o Natal e o Ramadan estabelecida pelo prof. Olavo em seu artigo de natal, porque "os dois contextos são antípodas. Incomparáveis." E, para percebê-lo, basta, segundo "ragon", "meditar sobre o que se tornou o Natal católico e o que é o jejum islâmico de Ramadan. Neste, respira-se uma atmosfera de pura espiritualidade, na qual toda uma comunidade se desvenda – contrapondo-se assim à imagem permanente da mídia que insiste num Islam selvagem! Naquele, uma verdadeira festa, com tudo aquilo que está implicado no conceito decadente de festa para o mundo ocidental."
O mesmo prof. Olavo, num ensaio de muitos anos atrás, escreveu que a regra número um, auto-evidente, para a comparação de religiões era "comparar ideal com ideal e fato com fato", e acrescentava: "O sectário, em vez disto, compara os ideais de sua religião com os fatos históricos da outra, o que vale dizer: a essência de minha religião está nas suas intenções elevadas, e os erros cometidos em seu nome são acidentes humanos que não a comprometem; a essência da outra religião está nos erros cometidos em seu nome, e seus elevados ideais são apenas um disfarce ideológico."
O nosso amigo "ragon" compara uma versão idealizada do Ramadan com a perversão do Natal nos grandes centros urbanos contemporâneos, querendo, com isso, criticar uma aproximação teórica entre as duas festas (aproximação colocada, portanto, no nível ideal). Esse tipo de proselitismo disfarçado de argumentação é não apenas um exemplo de fraqueza intelectual - porque, afinal de contas, ignora um princípio auto-evidente de comparação de religiões - como um exemplo de desonestidade intelectual - porque a regra para comparação de religiões é, ao mesmo tempo, um juízo de fato e um juízo de valor. Ela não é apenas um princípio intelectual auto-evidente; é também uma norma de conduta para quem se dispõe a comparar as religiões, norma que o argumentador honesto não pode ignorar.
SÉTIMA ARTE
Fora do Brasil, 2000 foi considerado um ano ruim para o cinema, em oposição a 1999, considerado um ano excelente. Minha lista não reflete isso, porque levei em consideração não o ano de produção dos filmes, mas o ano de sua exibição no Brasil; talvez por pegarmos justamente a produção de 1999, foi um ótimo ano para fãs de cinema.
Um ano tão bom, aliás, que prova mais uma vez que, primeiro, o cinema não acabou na década de 60 e, segundo, o cinema não está em crise nem ameaçado de morte. Talvez ele até venha a acabar, se as novas tecnologias realmente destruírem o celulóide e transformarem as salas de projeção em extensões das televisões. Por enquanto, é absurdo dizer que o cinema esteja moribundo. Vejam a lista dos melhores desse ano e me digam se, por exemplo, é possível apontarmos um número semelhante de grandes peças de teatro escritas ou encenadas este ano; digo mais: aposto que nos últimos trinta anos não foram escritas tantas peças de teatro boas quanto foram feitos filmes bons este ano. Isso dá uma medida da diferença de vitalidade entre as duas formas artísticas.
Outra peculiaridade desta lista é que dela não constará Dancing in the Dark, filme obrigatório em quase todas as listas de melhores e piores (a Time elegeu-o o pior do ano, opinião com a qual concorda o meu amigo Marcelo De Polli). Achei-o simplesmente um filme mediano. A melhor obra de Lars Von Trier continua sendo uma das primeiras, Europa; neste novo filme ele retoma o gênero de seu fraco Breaking the waves, o dramalhão naturalista, e lhe dá uma roupagem diferente, com a inserção de números musicais. O trabalho de Björk é notável, e o filme certamente é mais impactante do que seu antecessor, mas não há nada de excepcionalmente novo nem de muito profundo nele. Curiosamente, o primeiro longa de Von Trier, o sombrio The Element of Crime, era visualmente muito mais interessante e criativo do que este, que foi considerado uma revolução por alguns entusiastas.
Von Trier é um cineasta muito talentoso, capaz de criar cenas inesquecíveis e de dar um clima quase hipnótico a seus filmes, mas é muito perturbado e tem pouca substância. Mas não creio que ele leve a sério a história de Dancing in the Dark, certamente não tanto quanto seus admiradores, e, no fim das contas, ele fez uma agradável homenagem ao cinema musical.
Antes, porém, de entrarmos na lista propriamente dita, uma nota de lamentação: o crítico de cinema preferido desta coluna e maior especialista ocidental em cinema iraniano, Godfrey Cheshire, acaba de ser demitido, após dez anos assinando uma coluna no New York Press, jornal que elogiei semana passada justamente pela coragem de manter tantos escritores de qualidade, com opiniões freqüentemente díspares, e dar-lhes espaço para escreverem o quanto quiserem. A alegação de Russ Smith para a demissão de Cheshire é ridícula: segundo ele, o crítico estava lá há tempo demais, e jornais semanais não são os lugares ideais para esse tipo de associação longa. Então, qual será a próxima ação de Smith para destruir seu excelente jornal? Demitir Taki ou Chris Caldwell? Não se pode elogiar...
Os últimos artigos de Cheshire no NYP foram uma brilhante resenha do novo filme de Tom Hanks, "Cast Away" - que, segundo ele, se tivesse apenas as partes de Hanks na ilha seria o melhor filme do ano - e uma lista dos dez melhores filmes do ano com algumas inclusões merecidas e outras nem tanto. Anyway, até Cheshire arrumar outro lugar para escrever (e, infelizmente, como uma carta ao NYP ressaltou, é pouco provável que em algum outro lugar ele tenha tanto espaço para desenvolver os argumentos quanto no NYP), o crítico preferido desta coluna passa a ser James Bowman, do site da American Spectator, que pelo menos é conservador.
Dito isso, vamos aos filmes, começando pelos piores.
10) Black & White
Dir.: James Toback
Não há dúvida de que o filme tem méritos, do ponto de vista técnico, mas é um trabalho de uma pobreza mental incrível, uma apologia racista do que há de pior no movimento negro americano.
Enquanto os "líderes" dos negros americanos continuarem a dizer-lhes que sua cultura de gueto é uma maravilha, que eles têm mesmo de manter uma língua à parte da língua do resto do país, de manter valores próprios sem se preocuparem com a "cultura dos opressores", eles vão continuar a ter os maiores índices de desemprego e criminalidade entre todas as etnias americanas. (v. resenha completa do filme em coluna anterior)
9) Ghost Dog
Dir.: Jim Jarmusch
O herói do filme é um serial killer negro (interpretado por Forrest Whittaker) que segue um suposto código dos samurais e vive nos EUA atuais como um samurai no Japão do século XIX. Precisa dizer mais?
8) Tumbleweeds
Dir.: Gavin O'Connor
Mãe e filha se estabelecem numa cidadezinha, depois de fugirem do enésimo marido que gritava com a mãe e batia na filha. Todos os homens neste filme são assassinos ou estupradores em potencial, e a mãe é quase uma santa, apesar de ser incapaz de educar sua filha e de transar com todos os homens que encontra no caminho. São idiotices assim que fazem o feminismo perder a credibilidade.
7) The Green Mile
Dir.: Frank Darabont
Um "santo" débil mental, fazendo "milagres" tão imbecis que ele mesmo se arrepende deles depois e que, no fim, usa seu magnífico dom para se matar. E toda essa palhaçada em três horas de duração!
6) The Astronaut's Wife
Dir.: Rand Ravich
Rosemary's Baby em versão espacial. Agora, a menina não fica grávida do demônio, e sim de um alienígena, essa figura central das superstições modernas. Charlize Theron é um avanço considerável em relação a Mia Farrow, mas o filme não consegue nem assustar, como conseguia seu antecessor. É apenas um ridículo exercício de satanismo intergaláctico.
5) Waking the dead
Dir.: Keith Gordon
Um filme insuportável sobre um idealista candidato democrata ao senado e sua relação com uma ex-namorada morta num atentado terrorista de defensores de Pinochet nos Estados Unidos. Ele descobre - ou imagina descobrir - que ela não morreu de verdade, mas que seu assassinato foi uma farsa armada por defensores dos refugiados chilenos a fim de reverter a posição do governo americano em relação ao Chile (com uma americana sendo morta por defensores de Pinochet). É propaganda comunista e estatólatra do começo ao fim. (v. resenha completa em coluna anterior)
4) The Fight Club
Dir.: David Fincher
Freudismo e marxismo unidos para repetir a crítica marcusiana de que o capitalismo reprime os instintos básicos do ser humano e que só uma revolução liderada por terroristas pode libertá-los.
Para defender essa tese, vemos Edward Norton abandonar todas as convenções sociais em que baseava sua vida e atender ao apelo de seu id (interpretado por Brad Pitt; quem viu o filme sabe do que estou falando), tornando-se mais próximo de sua natureza animalesca e liderando um exército de zumbis num ataque terrorista contra "as grandes corporações".
O filme é muito bem feito e muito bem filmado, como todos os filmes de David Fincher, mas é de uma estupidez sem par. (v. mais comentários em coluna anterior)
3) American Psycho
Dir.: Mary Harron
Um psicopata de Wall Street, levado a matar por sua vida fútil e consumista. A moral da história é que o capitalismo mata. E quem vê o filme chega a lamentar que a diretora não seja uma das vítimas. (v. resenha completa em coluna anterior)
2) Nossa Senhora dos Assassinos
Dir.: Barbet Schroeder
Blasfêmia, violência e pederastia na Colômbia. É a história de um escritor gay que retorna à Colômbia após muitos anos e passa a namorar um garoto de rua; na sua convivência com o garoto, ele vê a violência nas ruas colombianas, em que gangues de adolescentes se matam umas às outras, e tem recorrentes pesadelos com uma igreja.
Esse filme é um excelente medidor de senso moral: se você consegue assistir a mais de meia hora dele sem sentir náuseas, é porque tem alguma séria deficiência moral. Como todos os envolvidos na produção desta excrescência.
1) The Ninth Gate
Dir.: Roman Polanski
O fato de este filme ter sido realizado com o costumeiro talento de Polanski para thrillers talvez o torne ainda pior, ainda mais detestável. Trata-se, nada mais, nada menos, do que de uma propaganda do inferno, na qual a suprema realização espiritual e intelectual é vender a alma ao diabo. E nada disso é em sentido figurado: essa é a mensagem literal do filme. (v. resenha completa em coluna anterior)
Saiamos dessa zona de obscuridade e falemos dos melhores filmes. Comecemos pelas menções honrosas. (Nota: eu ia incluir Eyes Wide Shut nesta lista, mas, embora eu só o tenha visto este ano, o filme passou no ano passado.)
Center Stage
Dir.: Nicholas Hytner
Não é brilhante, mas é o melhor filme "para jovens" do ano, uma história interessante contada de forma hipnótica, com atrizes belíssimas e cenas magníficas de dança e ballet, uma festa até para quem, como eu, não é propriamente fã dessas artes.
U-571
Dir.: Jonathan Mostow
Também está longe de ser um filme brilhante, mas é o melhor filme no estilo passatempo que Hollywood produziu este ano, ressuscitando um gênero que não se via há tempos: a aventura de guerra, na qual a guerra é apenas um pretexto para as cenas de ação. A história é bem bolada e o filme é empolgante.
Magnólia
Dir.: Paul Thomas Anderson
OK, eu sei que não pega bem gostar desse filme, porque ele foi eleito o preferido da turma "cabeça". A abordagem é um pouco pueril e superficial, e a insistência nas coincidências é meio entediante, mas, ainda assim, é um filme envolvente no que ele tem de sério, que são as observações sobre os equívocos que cometemos ao longo da vida e a possibilidade de perdão e redenção. É isto, e não as firulas do diretor, que o torna notável.
Space Cowboys
Dir.: Clint Eastwood
True Crime, o filme anterior de Eastwood, era uma belíssima história de heroísmo individual, de um sujeito que foi capaz de enfrentar tudo e todos para defender uma vítima inocente que estava prestes a ser assassinada. Este não é tão bom, mas é ainda assim uma deliciosa transposição para o espaço das antigas aventuras de cowboys e uma reflexão sobre o valor da experiência, com interpretações divertidíssimas dos atores principais - o próprio Eastwood, Tommy Lee Jones, Donald Sutherland e James Garder.
Celebrity e Sweet
and Lowdown
Dir.: Woody Allen
Duas comédias inspiradíssimas de Allen, ambas estreando no Brasil com atraso; difícil saber qual das duas é melhor. Celebrity é uma sátira genial à produção instantânea de celebridades pela mídia contemporânea e da maneira como essas pseudo-celebridades lidam com o sucesso instantâneo, recheada das costumeiras observações agudas e cínicas sobre relacionamentos e neuroses.
Sweet and Lowdown, como já escrevi, é não apenas uma homenagem ao jazz e a um de seus períodos áureos, mas também um raro filme de Allen com dimensão moral, no qual o cinismo machadiano habitual do cineasta é substituído pela admissão da possibilidade de redenção e de aperfeiçoamento moral. Tudo isso com Sean Penn e Samantha Morton em interpretações antológicas.
Curiosamente, depois dessas duas maravilhas, Small Time Crooks é um Woody Allen menos inspirado, no qual a melhor coisa é a interpretação da grande atriz teatral americana Elaine May. A sátira aos novos ricos nem sempre decola e as neuroses dos personagens não são tão brilhantes como de costume. Mas uma sátira a novos ricos ignorantes tem sucesso garantido, ao menos no Rio de Janeiro, terra de Vera Loyola.
On Any Given Sunday
Dir.: Oliver Stone
Ninguém maneja uma câmera como Oliver Stone e, aqui, ele pôs sua maneira única de filmar e contar uma história a serviço de uma apologia do heroísmo e da coragem, bem como de uma análise dos dilemas do esporte neste começo de milênio. As cenas de futebol americano são um deleite para fãs desse esporte, este que vos escreve incluído. (v. resenha completa em coluna anterior)
Man on the Moon
Dir.: Milos Forman
Forman se redime do ridículo The People vs. Larry Flynt com uma homenagem genial a Andy Kaufman, um filme, em todos os detalhes, tão maluco e tão absurdamente divertido quanto o próprio Andy, que parece ter reencarnado em Jim Carrey (uma escolha nada óbvia para o papel).
Kaufman era um comediante inusitado e original, que teve sua sanidade seriamente comprometida por sua adesão a alguns cultos pseudo-hindus, que, como é típico desse tipo de seita, atacaram duramente sua unidade de consciência. O filme mostra isso muito bem, mas o foco é o talento cômico de Andy e sua tendência a transformar tudo em piada - a tal ponto que alguns de seus amigos levaram anos para acreditar que ele realmente tivesse morrido de câncer.
In the Mood for Love
Dir.: Wong Kar-Wai
Este é provavelmente o melhor filme de Wong Kar-Wai, uma tocante história de amor entre dois vizinhos, ambos casados e traídos pelos respectivos cônjuges. Comparar este filme com a maneira imbecil como o cinema americano costuma tratar esse tipo de assunto equivale a notar a diferença entre adultos e crianças.
Buena Vista Social Club
Dir.: Wim Wenders
É um filme magnífico, para se ter em casa e assistir muitas vezes. É quase impossível não simpatizar com os músicos geniais retratados por Wenders, que o projeto de Ry Cooder retirou do esquecimento a que foram legados por um regime que considerava seu gênero musical, o son, influenciado demais pelo jazz americano e, portanto, pouco representativo das tradições locais.
Alguns reclamaram de que não há mais críticas ao regime cubano, mas a reclamação é absurda. Este é um documentário de música, talvez o melhor já produzido no gênero, e não um documentário de política. É, também, um lembrete de por que a nossa "música popular" não tem metade da qualidade da cubana: porque a deles é feita por músicos legitimamente populares, enquanto a nossa é feita ou por ridículos bonecos produzidos pelas gravadoras ou por pretensiosos ex-estudantes universitários que, em vez de fazer a música de qualidade que poderiam fazer, buscam reduzir seu status social e se fingem de favelados.
The Beach
Dir.: Danny Boyle
Ninguém percebeu, mas este é um filme anti-ecológico, anti-epicurista e anti-utópico, e a presença do ativista ecológico Leonardo DiCaprio como seu ator principal o torna ainda mais divertido.
Descontados alguns excessos, o filme de Boyle - o mais subestimado do ano - é a mais enfática condenação do epicurismo e do utopismo que já vi no cinema. Sua tese central é, pura e simplesmente, a de que não é possível construir um paraíso na Terra, e vários dos desenvolvimentos que essa tese comporta são desenvolvidos no filme: a loucura e a alienação do drogado que fala com DiCaprio, a morte dos quatro turistas, a cena final do revólver vazio e, principalmente, o abandono do personagem chamado Christo (nome altamente significativo), depois que ele é ferido por um tubarão. Tirania, morte, fingimento - todos os elementos das tentativas de realização de utopias aparecem na "ilha paradisíaca" administrada pelas personagens.
É curioso notar que deixar o Christo sofrendo longe da cabana é a metáfora perfeita para os que querem o paraíso na Terra, porque os sofrimentos do Cristo na cruz mostram, justamente, que este mundo é um "vale de lágrimas" em que os piores sacrificam os melhores e em que a única esperança é apostar na "coroa incorruptível" que a Ressurreição nos promete. Esconder a cruz, esconder o sofrimento, ignorar o drama humano real, a miséria da condição humana - eis o que prometem os utópicos e os epicuristas.
The Patriot
Dir.: Roland Emmerich
Um épico empolgante sobre a revolução americana, um tributo aos que pagaram a defesa da liberdade do povo americano com suas vidas e, ao mesmo tempo, um retrato da transformação moral (parcial, admita-se) da personagem central.
Quando o vi, escrevi que se tratava do melhor filme americano dos últimos anos, mas o filme perdeu um pouco de seu impacto, para mim. Acho, agora, que exagerei nos elogios. A história é brilhante, o filme é bem dirigido e bem interpretado, mas há alguns elementos excessivamente caricaturais (como a caracterização dos oficiais ingleses) e, se pensarmos bem, a trajetória da revolução americana acaba reduzida a uma aventura de sessão da tarde.
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Feitas estas menções, passemos aos dez melhores.
10) Snow falling on cedars
Dir.: Scott Hicks
A magnífica história do rapaz, numa cidade multirracial americana, que se vê na condição de salvar de uma condenação quase certa o marido de seu grande amor de infância. Como panorama histórico, as lembranças da marginalização dos japoneses pelo Governo Roosevelt durante a Segunda Guerra.
Recheado de imagens belíssimas, o filme não apenas ilustra - na contra-corrente da maior parte do cinema hollywoodiano - que é possível agir em função de valores mais elevados do que a simples satisfação de caprichos pessoais, como lembra que, sempre que se intromete entre as raças, o Estado cria divisões e problemas entre elas. (v. resenha completa em coluna anterior)
9) Gladiator
Dir.: Ridley Scott
Scott ressuscita e revigora um gênero esquecido - o épico romano - num filme majestoso com um protagonista de tipo raro, cuja maior preocupação é com os efeitos na eternidade do que ele faz na temporalidade.
Não bastasse ter um herói nobre e de valor moral elevado, que (e aqui está sua principal superioridade em relação a The Patriot) hesita antes de matar até seu pior inimigo, o filme ainda recorda a relação entre decadência moral e tirania e o valor da desobediência civil, quando legítima.
8) The Third Miracle
Dir.: Agnieska Holland
O grande filme católico do ano, a história de um padre descrente e profano, que perdeu a fé depois de expor como fraudulentos milagres que pareciam legítimos e, ao encontrar um milagre autêntico, tenta recolher os pedaços de sua fé claudicante para defender a suposta santa no rigoroso tribunal eclesiástico.
Os procedimentos são mostrados com extrema fidelidade, e o desfecho é magnífico. Uma obra de altíssimo valor moral e religioso. (v. resenha completa em coluna anterior)
7) Yi Yi
Dir.: Edward Yang
Um filme extraordinariamente bem dirigido e bem escrito, sobre o valor de manter-se fiel às promessas e esperanças da infância, apesar do crescimento, sem cair na repetitiva roda do tempo.
Yang traça um panorama das vidas de uma família: a mãe fraca psicologicamente que acaba caindo presa de uma seita tipo reverendo Moon, o pai tentando reviver um amor do passado, o filho mais velho recém-casado (o filme começa no casamento) às voltas com problemas de dinheiro, a filha adolescente com seu primeiro namorado (o ex-namorado da sua problemática vizinha), e o criativo filho mais novo.
O truque genial do roteiro é que, logo na primeira cena, a avó é acometida por uma doença séria, e passa o resto do filme na cama, sem conseguir falar. Cada um dos familiares, então, fica encarregado de passar um tempo com ela, praticamente monologando. É durante esses monólogos que as personagens revelam suas fraquezas e suas ansiedades, e aos poucos vão se vendo forçados, pelos incômodos silêncios, a abandonar as mentiras nas quais insistem quando estão em sociedade e a examinar suas próprias vidas de forma sincera.
E, à medida que as personagens vão se desenvolvendo, o filme ressalta o contraste entre o olhar infantil, puro e esperançoso sobre o mundo com a mediocridade dos adultos, que abdicaram de qualquer ideal e qualquer plano mais elevado de vida para viverem existências medíocres. As duas cenas centrais, nesse sentido, são a da menina adolescente vendo e ouvindo sua avó imediatamente antes desta morrer e o discurso sincero do garotinho no enterro da avó, na cena final.
Aqui está, também, o principal motivo da infinita superioridade do filme de Yang sobre Shortcuts, o filme de Robert Altman com o qual guarda algumas semelhanças. Enquanto, para Altman - como para Raymond Carver, autor dos contos em que o filme se baseia - o máximo que se pode esperar da vida é a mediocridade estúpida em que vivem suas personagens, Yang vê os membros da família que retrata como os perdedores desesperançados que são, e aposta na possibilidade de uma existência que estabeleça para si um sentido mais elevado.
6) Topsy Turvy
Dir.: Mike Leigh
Chegou com atraso ao Brasil a obra-prima de Mike Leigh, presença obrigatória em todas as listas dos melhores filmes de 1999. É o filme mais divertido do ano, uma deliciosa reconstrução dos preparativos para a produção da opereta "The Mikado", da dupla Gilbert & Sullivan.
Essa dupla é pouco conhecida no Brasil, mas eles são os pais dos musicais contemporâneos, e, na Inglaterra, suas peças - deliciosas e inteiramente inconseqüentes - são sempre reencenadas.
O filme reconstrói com perfeição a Inglaterra vitoriana, e ressalta o contraste entre Gilbert e Sullivan, o primeiro - o libretista - um aristocrata excêntrico, capaz de tiradas brilhantes, que nem mesmo compartilha o quarto com sua esposa; o segundo - o músico - um mulherengo acossado pela tristeza de não produzir obras de mais substância, e ansioso para parar de escrever a música para as tramas tolas de Gilbert. Ele muda de idéia quando vê o libreto para "The Mikado", uma opereta baseada numa exposição de cultura japonesa a que Gilbert foi, e o resto do filme é dedicado aos ensaios da opereta, com os altos e baixos da produção e extensas cenas da própria opereta.
Leigh reuniu atores tão bons, em cenas tão bem construídas, que deve ter ficado com pena de editar o filme, e ele acabou ficando com duas horas e quarenta minutos. É impossível, porém, deixar de reconhecer que sua decisão foi acerta: os 160 minutos passam como se fossem 30, e todo o mundo das ansiedades e alegrias da cena teatral vitoriana passa diante de nossos olhos extasiados. Uma maravilha.
5) A Cor do Paraíso
Dir.: Majid Majidi
O que mais posso dizer de um filme a que dediquei praticamente uma coluna inteira?
Este filme - chamado, no original, "A Cor de Deus", levanta a tradicional questão do silêncio de Deus, através de um garoto cego e seu pai cético, que, aos poucos, se transforma moralmente e acaba se convertendo. É uma brilhante obra sentimental e direta, com uma mensagem religiosa explícita.
4) The Straight Story
Dir.: David Lynch
A obra-prima de David Lynch, um filme que eu não acreditava que ele fosse capaz de fazer. Não há nenhuma das peculiaridades ou das aberrações de seus filmes anteriores; ele apenas conta, de forma simples e direta, a história de Alvin Straight, que, com mais de setenta anos e sem conseguir enxergar direito, cai na estrada dirigindo um cortador de grama com um trailer acoplado para fazer as pazes com seu irmão, que acaba de sofrer um ataque cardíaco sério (eles estavam sem se falar há mais de uma década).
No caminho, Straight encontra uma menina grávida que abandonou a família, com medo da reação dos pais, um grupo de ciclistas, um veterano da Segunda Guerra e outras personagens. Na sua conversa com a menina, ele diz a frase que sintetiza o filme: "Quando meus filhos eram pequenos, eu costumava fazer um jogo com eles. Eu dava a cada um deles um graveto, e pedia-lhes que o quebrassem. Eles, claro, o faziam com facilidade. Depois, eu pedia-lhes que amarrassem o graveto ao tronco de uma árvore, e dizia-lhes que tentassem quebrá-lo agora. E, claro, eles não conseguiam. Esse tronco, eu lhes dizia, é a família."
Num cinema que tem se dedicado a fazer apologia do homossexualismo, da infidelidade conjugal, da promiscuidade, da pornografia, da orgia, encontrar um filme com uma homenagem tão direta e emocionante à família é um evento raro e notável.
Lynch fez um road-movie, o que não é novidade em sua carreira, mas este filme inaugura um novo gênero de road-movie. Até aqui, o paradigma desses filmes era "Easy Rider": os dois motoqueiros inconseqüentes que tomam a estrada sem nenhuma finalidade definida e, como diz o título em português do filme, sem destino. The Straight Story inaugura o road-movie com destino. Estão lá todas as descobertas interiores típicas do gênero, todo o desfile de personagens interessantes que nos acostumamos a ver, mas, neste filme, a viagem representa o esforço de um homem para engolir o próprio orgulho e obedecer ao mandamento evangélico de reconciliar-se com seu irmão. O caminho que Alvin Straight toma é o da estrada tortuosa e dolorosa do aperfeiçoamento moral, da purificação da alma. E o filme retrata essa jornada com imagens belíssimas, pontuadas por uma excelente trilha sonora de Angelo Badalamenti (o compositor preferido de Lynch), e com uma interpretação soberba de Richard Farnsworth.
3) O Caminho de Casa
Dir.: Zhang Yimou
Um filme perfeito de Yimou, sobre o qual escrevi de forma um pouco mais extensa em coluna anterior. É uma bela história de amor que serve de base para uma reflexão sobre a importância da memória, da fidelidade do ser humano a si mesmo e a seus ideais, e do papel central que tem, no desenvolvimento do ego, o ato de contar para si mesmo a própria história.
2) Chunhyang
Dir.: Kwon-taek Im
O sul-coreano Kwon-taek Im é um diretor que conhecia de nome, mas jamais vira qualquer de seus filmes. Com este, deu para perceber o porquê de tanta fama.
Trata-se da adaptação de um conto medieval que todos conhecemos, em alguma versão: a história do jovem nobre que se apaixona pela filha de uma cortesã, casa-se às ocultas com ela e parte para outra cidade a fim de finalizar seus estudos. Durante sua volta, um governador tirânico chega à cidade e exige da jovem que ela se torne sua cortesã; ela se recusa e é torturada por ele. O jovem, quando é avisado, volta à cidade disfarçado, arma uma maneira de, ao mesmo tempo, denunciar o tirano e libertar sua amada, e, depois, se torna, ele mesmo, governador da cidade.
As mensagens morais são, como é costume em lendas medievais, bastante óbvias: exalta-se o heroísmo e a bravura do rapaz, a fidelidade da menina (pela qual ela estava disposta a ser até torturada), a igualdade humana, representada pelo fato de se tratar de um romance entre pessoas de classes sociais díspares, e a liberdade fundamental do ser humano para determinar a própria vida moral - representada pelo fato de a filha da cortesã não se tornar, ela também, cortesã, contrariando, assim, as expectativas dos habitantes da cidade.
Já é raro encontrar esse tipo de valores representados numa obra cinematográfica, mas mais raro ainda é encontrar uma bela história contada de forma tão perfeita. O principal recurso utilizado pelo diretor é a narração quase operística: o narrador canta a história, em vez de cantá-la, como se fosse uma apresentação teatral sua; à medida que ele canta, diante de uma platéia, as imagens vão aparecendo.
A maneira como as cores do filme representam o momento emocional da história precisa ser vista para que se acredite ser possível uma união tão poderosa de forma e conteúdo.
1) Pan Tadeusz
Dir.: Andrzej Wajda
Todo fã de cinema tem um filme marcante em sua memória, um filme que o convenceu de que era possível usar o meio cinematográfico para transmitir uma mensagem poderosa, para produzir uma impressão duradoura nos espectadores. O meu é All About Eve. Não que este seja meu filme preferido; há muitos outros superiores a ele - mas este é o filme com os melhores diálogos na história do cinema, e ele foi o filme que me convenceu de que realmente havia algo que não apenas diversão inconseqüente na dita sétima arte.
Esta impressão marcante causada por um filme é, de vez em quando, renovada por alguma outra obra, uma outra obra que nos recorda a impressão já meio esquecida e nos faz gostar de cinema de novo. Para mim, Pan Tadeusz é este tipo de obra.
Esqueçam o cinema alternativo, esqueçam Sundance, esqueçam Lars Von Trier: Pan Tadeusz é a maior ousadia narrativa que já vi no cinema. Imaginem os senhores se alguém resolvesse transformar Os Lusíadas em filme, sem efetuar nenhum corte e mantendo exatamente a estrutura do poema de Camões. Pois foi exatamente isso que fez Wajda, com o poema épico polonês Pan Tadeusz, do escritor Adam Mickiewicz.
Mickiewicz se exilou na França depois que a Polônia foi derrotada pelos russos. Este é, portanto, um poema de exílio, no qual ele recorda a situação do país imediatamente antes da guerra, quando se imaginava que a união com Napoleão seria a salvação para o país. Trata-se de uma declaração de amor a um povo e a uma cultura - uma cultura eminentemente católica, representada por um dos conflitos de consciência mais extraordinários que já se viram no cinema - o do sujeito que, por acidente, matou seu melhor amigo, criando, assim, uma cisão entre duas famílias amigas e, depois, vira monge e passa a vida inteira trabalhando para a reconstituição da amizade das famílias - o que acaba conseguindo, ao salvar a vida de um dos descendentes de seu amigo. A cena em que ele, em seu leito de morte, confessa as agruras e os dramas de consciência que viveu, pede perdão por seus pecados e relata como tentou se redimir deles, arrancaria lágrimas de pedra.
Como as rimas do poema original foram mantidas, a sonoridade do filme é extraordinária, uma união de poesia e imagens que eu nunca vi igual no cinema. Infelizmente, poucos assistiram ao filme no Brasil, porque ele passou em algumas sessões numa sala de projeção pequena em Botafogo, com legendas em francês. A vantagem das legendas em francês é que, mais do que legendas, elas são um verdadeiro trabalho de tradução do poema, com as rimas e os recursos sonoros e formais sendo mantidos - e este é, provavelmente, o motivo pelo qual o filme jamais terá um lançamento em grande circuito no Brasil; afinal, quem faria esta tradução? Pouco provável.
Uma pena, porque Pan Tadeusz é uma experiência cinematográfica única e inesquecível, uma magnífica obra de arte.
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Bom, este foi o ano 2000. Para 2001, aguardemos o lançamento por aqui do novo filme de Steven Sorderbergh, um dos bons diretores contemporâneos, "Traffic", uma crítica à totalitária "guerra às drogas" nos Estados Unidos, o novo Ang Lee, "Crouching Tiger, Hidden Dragon" (Lee é outro mestre contemporâneo, e o seu "Ride with the devil" foi um dos grandes filmes de 1999), e esperemos que alguém resolva lançar os filmes anteriores de Edward Yang e Kwon-taek Im. De resto, também deve aparecer a seqüência do "Silêncio dos Inocentes, "Hannibal", que, se seguir o exemplo do romance, vai destruir tudo o que havia de simbolismo espiritual no primeiro filme, e mais a costumeira coleção de bobagens hollywoodianas. Uma das melhores coisas que aconteceram em 2000 foi que os filmes comerciais tiveram enormes qualidades, como The Patriot, Gladiator, U-571, mas não creio que isso venha a acontecer em dois anos seguidos.
(Nota: sei que tinha prometido para esta semana os melhores e piores na política, mas, como se pode ver acima, o cinema acabou tomando espaço demais. Melhor assim, porque descansamos dos políticos por uma semana, e poderemos voltar a eles na semana que vem.)