No. 46 - 26/01/01
Se um indivíduo, sem dominar o aparato matemático mínimo, se pusesse a expor teorias de física subatômica, ele, obviamente, seria ridicularizado e seus escritos não seriam jamais levados a sério. Por que diabos, então, achamos normal que qualquer ignorante opine sobre temas políticos e jurídicos sem demonstrar os conhecimentos mais elementares do assunto?
Instantaneamente percebemos que falar sobre, por exemplo, o problema do gato de Schrödinger sem saber o que é uma equação diferencial seria demência; porque diabos não percebemos que é igualmente demente falar da vida política sem conhecer a estrutura administrativa do Estado, sem saber o que é divisão de poderes e outras coisas básicas?
Deixo a investigação dos porquês aos interessados nela, mas o fato é que, nos dias correntes, qualquer semi-analfabeto se julga no direito de emitir opiniões sobre questões políticas ou jurídicas, sem questionar nem por um minuto as próprias credenciais para fazer tais juízos apressados.
Tomemos um exemplo do site "Primeira Leitura" (mais sobre esse site na seção "Desinformatzia", logo abaixo). Alguém - ou algo - não-identificado, tentando explicar aos pobres leitores do site a decisão do novo presidente americano de cortar as verbas estatais para os grupos de propaganda abortista, produziu a seguinte maravilha:
Primeiras medidas
de Bush mostram que face "liberal" de Ashcroft é só
jogo de cena no Senado
Novo presidente marca posição ao derrubar políticas
progressistas de Clinton
'O ex-senador John Ashcroft continua no papel de indicação mais complicada na formação do gabinete de Bush, ainda que os republicanos tenham votos suficientes para aprovar o seu nome. Mas quem estranhou as declarações do líder conservador no Senado, ao prometer o cumprimento rigoroso das leis que garantem o aborto, pode ficar tranqüilo. Nada mudou, como o casal Bush tratou de provar nestes últimos dias.
'A decisão de Bush de cortar a verba "que promove o aborto no exterior", como a nova administração define essa ajuda para grupos internacionais que admitem o aborto é mais um recuo nas políticas progressistas implantadas por Bill Clinton. Na verdade, Bush pretende ressuscitar uma proibição criada por Reagan em 1984, e revogada por Clinton em seu primeiro ano de mandato.
'Laura Bush não desafina, e enaltece as virtudes da abstinência sexual como a prevenção ideal da gravidez adolescente. É o contraponto absoluto de Hillary Clinton, que antes de ser primeira dama já militava pelos direitos das mulheres, como o direito ao aborto. É o estilo Bush de comemorar o 28.º aniversário de Roe x Wade, a decisão da Suprema Corte dos EUA que permitiu o aborto no país. Aquela que Ashcroft, sem enrubescer, jurou de pés juntos fazer cumprir "com rigor"... '
Certo, a pessoa - ou coisa que o valha - que escreveu isso não deve sequer ser capaz de escovar os próprios dentes, mas o problema não é só a estupidez do comentário. Se o problema fosse só burrice não haveria nada de notável nesse comentário - o autor poderia até, em sua defesa, dizer apenas "sou sim, mas quem não é?" -, mas o problema é que o autor resolve opinar sobre um assunto do qual ignora absolutamente tudo.
Ele cria, na sua cabeça confusa, uma associação de imagens e figuras, e cria uma associação que, simplesmente, não existe.
Não há nenhuma, absolutamente nenhuma, relação entre a decisão de Bush a respeito da mamata estatal dos grupos abortistas e a atuação de John Ashcroft como Secretário de Justiça; e também não há absolutamente nenhuma relação entre essa decisão e Roe v. Wade.
Roe foi uma decisão absurda, que derrubou direitos dos estados americanos e inventou um "direito à privacidade" que simplesmente não existe na Constituição americana e que, mesmo que existisse, só uma mente insana poderia fazer derivar dele o direito da mãe matar seu próprio filho, mas, mesmo injusta e inconstitucional, essa decisão levou ao estabelecimento de leis garantindo o aborto, e é tarefa do secretário de justiça garantir seu cumprimento. John Ascroft disse aos seus ex-colegas no Senado que, mesmo discordando dessas leis, garantiria a obediência a elas, porque esse é o seu trabalho. E é mesmo.
Mas a legalização do aborto não significa sua aprovação entusiástica, da mesma maneira que legalizar o consumo de maconha não equivale a promovê-lo ou a encorajá-lo. O governo americano tem a obrigação de fazer cumprir as leis que permitem o aborto, mas não tem a obrigação de fazer propaganda do aborto (já perdi a conta de quantas vezes escrevi isso, mas escrevo de novo: sinto-me ridículo tendo de explicar coisas tão óbvias). Qualquer pessoa com mais de dois neurônios deve, a esta altura, ter entendido que cortar as verbas estatais para grupos que, como diz O Globo, "pregam a interrupção da gravidez" (vocês não adoram a Newspeak dos abortistas?) nada tem a ver com o fim dos sagrados "direitos da mulher".
Ainda sobre Ashcroft (que vai substituir, no cargo, uma assassina que usou contra crianças gases que legislações internacionais proíbem de ser usados em guerras!), não é curioso como o ataque ao ex-senador mostra a obsessão dos grupos esquerdistas americanos com o aborto - ecoada no noticiário brasileiro sobre o assunto? O que mais preocupava esses grupos era que Ashcroft não tomasse as devidas medidas contra "fanáticos" que pusessem bombas em clínicas de aborto ou que protestassem na porta dessas clínicas.
Ora, esses ataques terroristas não acontecem com tanta freqüência assim, e as manifestações na frente das clínicas são apenas cidadãos exercendo seu direito de liberdade de expressão - esse sim garantido constitucionalmente, ao contrário do "direito à privacidade" que legitima o aborto.
O mais ridículo, porém, é notar que esses grupos de defensores dos direitos das mulheres são representados, no Senado, por ninguém menos que Ted Kennedy, o homem que, dirigindo bêbado, atropelou uma mulher, não parou para socorrê-la e ainda usou sua influência junto aos tribunais para evitar que o caso prosseguisse.
E, ainda sobre a Newspeak da imprensa, notem que, sempre que os jornais, revistas e sites se referem aos grupos abortistas, eles falam em "defensores dos direitos das mulheres" ou em "defensores do direito de escolha", mas, nunca usam o termo "pró-vida" ao se referir aos grupos defensores dos direitos dos bebês; não, estes são apenas "opositores do aborto".
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Essa questão do diletantismo no comentário político (o comentário citado acima não era apenas uma reportagem; era um comentário que prometia aprofundar o entendimento do leitor a respeito da situação política americana!) nos leva a uma outra questão.
Qualquer pessoa que escreva regularmente em qualquer tipo de publicação tem a tentação, uma vez ou outra, de escrever sobre algo que desconhece, de dar um palpite num assunto do qual não tem os conhecimentos básicos, enfim, de ir além das chinelas. O problema é que, na imprensa brasileira, isso não é uma exceção, fruto de uma ansiedade que acometa alguns jornalistas de vez em quando, mas a regra suprema do exercício jornalístico (e acadêmico também).
Eu caí algumas vezes nessa tentação, como é normal, escrevendo uma coluna semanal bastante extensa. Mas meus esforços são quase sempre no sentido de fugir dela e escrever apenas sobre assuntos a respeito dos quais eu tenha informações suficientes para emitir uma opinião razoavelmente fundamentada.
O mínimo, portanto, que posso pedir aos leitores que discordam do que escrevo é que imaginem que conheço o beabá do assunto e que, portanto, as objeções mais óbvias e mais primárias que eles possam me fazer já são do meu conhecimento.
Olavo de Carvalho escreveu, recentemente, que "a precaução mais elementar, ao ler os escritos de um filósofo, é lembrar que nossas objeções mais imediatas já devem ter-lhe ocorrido e podem estar respondidas, ao menos de maneira implícita, em alguma outra parte de sua obra."
Ao contrário do Olavo, porém, não posso pedir que meus escritos sejam lidos dessa forma, porque não sou filósofo, e não existe um sistema perfeitamente coerente por trás de tudo o que eu escrevo; mas posso pedir que, ao menos, o leitor suponha que conheço as objeções mais óbvias e mais básicas, porque, para chegar a escrever sobre algo, é normal e razoável que eu esteja inteirado dos debates existentes em torno do assunto. Freqüentemente, tomo posições me referindo implicitamente a opiniões já expressas nesses debates; em outros casos, passo por cima de algumas discussões relativas aos fundamentos, e vou direto ao assunto. Não dá para, toda vez que eu falar de capitalismo, refutar a teoria do valor marxista, nem para, toda vez que eu falar de catolicismo, explicar detalhadamente por que a reforma protestante foi um equívoco. (Aliás, tantos já falaram com tanta propriedade sobre esses temas, que uma contribuição minha seria uma mera redundância.)
É por isso que, quando as objeções trazidas por determinadas cartas são óbvias e básicas demais, não as respondo (felizmente, essas são uma minúscula minoria, algo em torno de 3% das cartas). Por isso e porque tenho mais o que fazer.
DESINFORMATZIA
Não vou propor minha candidatura para profeta, nem exigir o título honorífico de "mago do mercado", mas espero pelo menos que reconheçam o meu faro mercadológico, por ter espinafrado, na seleção dos piores e melhores da imprensa, a revista República e o boi-com-abóbora em que ela se tornara.
Pouco menos de um mês depois, a revista muda completamente de formato e estilo - e eu juro que não sabia que isso estava para acontecer. República muda não apenas porque seus editores perceberam a porcaria que ela tinha virado mas para tentar permanecer em circulação, porque ninguém a comprava mais; seus editores tentam, assim, não percorrer o caminho da Carta Capital, que está prestes a desaparecer.
Naquela coluna, escrevi que República começou como uma excelente revista de política e economia, e depois degringolou. O novo modelo, em princípio, traria uma volta ao modelo antigo: o editorial promete uma revista dedicada a análises profundas sobre política e economia.
Alas, alas, tenho de dizer o seguinte: a nova República consegue ser ainda pior do que sua antecessora imediata, e, enquanto sua antecessora era apenas uma causa de constrangimento para seus editores e colaboradores, a nova é um verdadeiro desserviço à imprensa brasileira.
Longe de trazer análises profundas ou comentários isentos e imparciais sobre o cenário político e econômico, a revista é apenas uma vitrine para o desfile de tucanos, petistas "moderados" e demais personagens integrantes do centro, da planície, aqueles de quem Michael Peirce disse, com muita propriedade, "não levaremos em consideção aqueles que se dizem centristas. Essa fantasia é representada por pessoas que não têm nenhuma crença profunda e apenas esperam que tudo vai ficar bem no final. (...) Seu papel parece ser o de reclamar, e ser usados pela esquerda (ou, na Alemanha nazista, a direita) para formar coalizões temporárias durante a construção de um movimento. Eles são dignos de nosso desprezo, mas não de muito mais." Não apenas para coalizões temporárias, mas também para bodes expiatórios nos momentos revolucionários, como no caso dos mencheviques na revolução russa.
Não corremos o risco, portanto, de encontrar nenhum esquerdista nem nenhum liberal de princípios na República. Encontraremos, como nesta edição, personagens amorfos e ridículos como Luiz Carlos Mendonça de Barros, Mogadon Suplicy, Luís Eduardo Soares e congêneres. E as matérias, longe de tratar de temas relevantes, tratam dessas personalidades patéticas.
O que há de jornalismo na revista são matérias repetindo o linguajar dos tucanos e petistas, contra a "exclusão social", a favor da "justiça social" e o besteirol já arqui-conhecido. O que ninguém parece ter percebido é que os políticos já têm espaço demais na imprensa e uma boa revista não é feita por eles, mas por jornalistas capazes de analisar objetivamente histórias relevantes; ou, se o que deseja é uma revista de opinião, articulistas capazes de expressar idéias um pouco mais profundas do que as do Jornal Nacional.
Quem for procurar algumas dessas coisas em República vai dar com os burros n'água. O Brasil continua carente de uma boa revista que acredite na inteligência do leitor e que esteja disposta a não papagaiar os partidos políticos, que tenha coragem de apresentar posições independentes e diversificar a própria pauta editorial.
Para terem uma idéia do grau de babaquice da nova República, visitem o site Primeira Leitura, citado acima. Como a revista, em sua nova encarnação, é fruto do site, o mesmo tipo de observações permeia ambos. Coisas como um "troféu" para políticos que não têm "sensibilidade social" (ACM entra na lista "porque diz um leitor, sua conversão ao social é um truque", Edward Amadeo entra porque afirmou que "pobre no Brasil seria pobre em qualquer lugar porque tem baixa qualificação técnica", Pedro Malan entra "pelo conjunto da obra") e, a minha coisa preferida no site inteiro, o seguinte conselho hilariante ao Presidente Fernando Henrique, sob o título "FHC, o flerte com o perigo e a saída":
"Fernando Henrique Cardoso pode vir a flertar com o perigo se não souber ler os sinais qualitativos que as pesquisas de opinião estão a emitir. Prestem atenção os leitores: o próximo presidente da República vai trazer estampada a marca da justiça social. E terá de ser para valer."
POLITICAGENS
Paul Craig Roberts definiu com perfeição o tipo de ação política dos grupos de "direitos civis" nos Estados Unidos: eles agem exatamente como os mafiosos que "protegem" as lojas de uma vizinhança.
Um sujeito que estabeleça uma loja numa área de atuação da máfia recebe a visita de um capanga, que lhe informa que ele deve pagar uma porcentagem de seu lucro por mês para obter "proteção". O sujeito vai entender exatamente do que o capanga está falando quando um tijolo atingir a sua vitrine: a máfia lhe oferece proteção contra ela própria.
Da mesma maneira, Jesse Jackson recebe "contribuições" das grandes empresas americanas, porque essas empresas querem qualquer coisa menos publicidade negativa e sabem que, se não colaborarem com Jackson e demais gângsteres, eles produzirão processos por "discriminação racial" ou organizarão boicotes contra os produtos da empresa.
Felizmente, os movimentos de minorias brasileiros não são tão organizados - e o nosso sistema judicial ainda não é tão corrupto quanto o americano -, talvez porque aqui tenhamos muito mais tolerância racial e porque seja muito difícil categorizar racialmente os brasileiros. De qualquer maneira, nunca é demais lembrar que os modelos americanos em que esses movimentos se inspiram não passam de mafiosos e chantagistas.
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O mais novo desses movimentos, aliás, é o dos gordos que, pobre coitados, estão se sentindo discriminados. Como diz Petra Dickenson, "os gordos estão marchando, exigindo sua fatia de direitos civis. Bem, OK, eles vão fazer uma paradinha no McDonald's primeiro..."
As reclamações são as mesmas de sempre: o padrão de beleza injusto impingido pela mídia, os olhares que prejudicam sua "auto-estima", a proliferação de dietas e academias de ginástica, as discriminatórias exigências de "boa aparência" por alguns empregadores, e blábláblá.
Como nota Dickenson, isso é uma pena, porque os gordos deveriam ser libertários, uma vez que a mais nova obsessão dos puritanos e "health nazis" é o controle da comida, e já se fala, abertamente, em controlar a gordura dos alimentos da mesma maneira que se controla a nicotina dos cigarros.
O que me parece é que alguns gordos espertos descobriram, acompanhando os demais movimentos - especialmente os de negros e gays - que essa história de direitos civis pode ser muito lucrativa e, para tentar levar o seu, vão se mirar no exemplo dos tabagistas, e mover processos milionários contra o McDonald's, o Burger King e quaisquer outras companhias que possam ser acusadas de provocar dependência de comida nessas pessoas a tal ponto que elas acabaram ficando obesas. O artigo do The Onion sobre o processo dos obesos contra a Hershey's era apenas uma piada, mas não continuará sendo por muito tempo.
NA REDE
Taki, sobre Clinton (de quem o mundo, ao menos temporariamente, ficou livre semana passada) e Monica Lewinsky:
"Clinton contaminou a presidência e o país com suas mentiras e, acreditem, eu seria o último homem na Terra a condenar alguém por receber uma Monica Lewinsky [n. t.: como se sabe, "Monica Lewinsky virou sinônimo de sexo oral, em inglês]. Se me fizessem uma pergunta semelhante, na pouco provável hipótese de Taki ser presidente dos Estados Unidos, minha resposta seria a seguinte: 'Isto não é da sua conta, e eu prefiro ser condenado por desacato a responder à sua pergunta.' "
Cito porque freqüentemente nos esquecemos de que pior do que Clinton ter feito sexo oral com uma estagiária é a existência de uma lei permitindo que ela o processe por isso. Existe uma tendência a idealizar Monica Lewinsky como uma espécie de vítima indefesa nas garras de um homem maligno, mas a atitude dela, ao processar Clinton, demonstrou a má índole da menina. E, ademais, ela comprova a frase do já saudoso Auberon Waugh: todas as mulheres que processam por assédio sexual são feias.
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Falando em Clinton, a mudança no governo americano não se sente apenas no fato de o dinheiro do contribuinte não ser mais usado para propagandistas do assassinato em massa de bebês, mas também no tratamento à imprensa. Segundo matéria de David Brooks na Forbes:
"A diferença central é o tipo de gente que George W. contrata. Administrações anteriores contratavam pessoas que eram como nós, os jornalistas; eles iam às mesmas festas, liam as mesmas revistas, namoravam jornalistas e pensavam que seria divertido virar jornalistas depois de trabalhar para o governo. Clintonistas eram ansiosos para expressar seus sentimentos em palavras e impressionar jornalistas espalhando informações internas. Membros da administração Bush, em contraste, admiram líderes de negócios e vêem jornalistas como serviçais se forem úteis e vermes se não forem. Eles não apenas não vazam informações para nós, eles nem mesmo nos bajulam."
Mais um motivo para gostar de Dubya.