No. 49 - 16/02/01
"Nem israelenses nem palestinos querem a paz, apenas são obrigados a entrar em acordo devido às exigências dos Estados Unidos." (Ely Cunha)
Este primor de análise política foi a frase escolhida pela revista Época para, em sua edição impressa, ilustrar as discussões que acontecem no fórum de discussões de seu site. A revista, aparentemente, não vê nada de absurdo nessa análise - o que é tão indicador do nível do debate político brasileiro quanto a própria frase do sr. Cunha.
Vejamos bem: "paz", para os palestinos, significa conquistar um lugar para morar e parar os ataques guerrilheiros aos usurpadores de suas terras; "paz", para os israelenses, significa deixar de ter suas propriedades constantemente ameaçadas por guerrilheiros que julgam ter direito a elas. Por que diabos eles não quereriam a paz?! É humanamente impossível que todos - ou mesmo a maioria deles - os israelenses e palestinos não queiram a paz, que todos estejam satisfeitos com a situação instável e confusa do Oriente Médio atual.
A própria eleição de Ariel Sharon demonstrou que os israelenses querem a paz - alguns, porque crêem que Sharon, sendo um negociador mais rígido que Barak, poderá obter um acordo duradouro com os palestinos; outros, porque querem uma paz de terra arrasada, uma paz que se segue a uma carnificina, acreditando que, graças à possível linha-dura de Sharon, os palestinos vão deixá-los em paz.
A afirmação do sr. Cunha, portanto, não é apenas ilógica - é frontalmente contrária aos fatos. Ele poderia estar querendo dizer que israelenses e palestinos não querem a paz tal como ela tem sido desenhada nos acordos intermediados pelos Estados Unidos - o que seria, agora sim, uma afirmação bastante razoável; mas não foi isso que ele disse.
Estou chamando a atenção para este caso porque as discussões políticas, no Brasil, costumam ser compostas de frases como esta do sr. Cunha: afirmações genéricas e sem a menor substância, mas proferidas com ares de grande profundidade. Ninguém mais tem o hábito de estudar um assunto antes de opinar sobre ele, e ninguém mais tem o hábito de analisar as próprias opiniões à luz da lógica.
É por isso que uma frase imbecil como a do sr. Cunha pôde ser posta em destaque pela revista: porque esse tipo de estupidez é moeda corrente no debate político brasileiro.
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Parte da culpa pela burrice explícita das discussões no Brasil é o estado lastimável da nossa educação. Não é curioso que todas as propostas educacionais no Brasil estejam nas mãos de burocratas do MEC ou de professorinhas semi-letradas que se julgam autoridades no assunto simplesmente por terem um diploma em pedagogia?
É deprimente constatar que não existem iniciativas comunitárias no Brasil, que não surge um grupo de pessoas dispostas a levar a educação a sério, que não surge um movimento de pais contrário à doutrinação marxista que seus filhos sofrem nas escolas, que não surge um empreendedor disposto a criar um centro de ensino independente das ordens dos planejadores centrais do MEC. Existem empresários da educação no Brasil, sim, mas todos eles são criadores de faculdades caça-níqueis que se orgulham de não exigir de seus alunos que saibam mais do que assinar os próprios nomes. Não é desse tipo de empresário que estou falando.
Vejamos o exemplo americano. Esta semana morreu o reverendo R. J. Rushdoony, um dos principais teóricos do movimento do "homeschooling" nos Estados Unidos - o movimento que encoraja os pais a tirar seus filhos das escolas estatais e educá-los em casa. Uma das coisas mais comuns nos Estados Unidos são faculdades e escolas criadas pela própria comunidade, com apoio da igreja local.
Ora, nós copiamos todo tipo de idiotice e de moda demente que surge nos EUA - quotas raciais, controle politicamente correto da linguagem, rock, rap, feminismo radical, cientificismo etc. - por que não copiamos os poucos bons exemplos que aquele país tem a dar para o mundo, sendo o principal deles a desconfiança no Estado?
Sei que o problema educacional é muito grave, mas não há solução para ele que não passe pela libertação das escolas e faculdades da tirania do Ministério da Educação e suas pregações marxistas e politicamente corretas.
Sem resgatar, antes de mais nada, a autonomia da vida cultural, não há chances de melhorar o nível dos debates políticos - e de todos os outros debates.
ORTODOXIA
É difícil, muito difícil, defender a ortodoxia católica no mundo de hoje, porque os próprios homens da Igreja abandonaram essa defesa.
Quando soube, ano passado, que a Rede Globo exibiria o seriado americano "Jesus", pensei em escrever ao Arcebispo do Rio - que é o menos corrompido dos bispos das grandes cidades brasileiras, porque pelo menos não adota a teologia da libertação - sugerindo a ele uma campanha para que os católicos boicotassem a transmissão da emissora. A série, afinal, é francamente ofensiva à fé católica, mostrando um Jesus exclusivamente humano e apaixonado por Maria Magdalena, na tentativa de torná-lo adaptado aos "gostos contemporâneos".
Além disso, o Arcebispo tinha feito uma condenação veemente da novela da Globo que mostrava, entre outras coisas, mãe e filha disputando o mesmo namorado, e poderia ser receptivo à carta.
Mas desisti do meu propósito inicial quando, pesquisando alguns detalhes na internet, descobri que o próprio Vaticano tinha dado seu apoio entusiástico à série, inclusive tendo atribuído a ela um prêmio por seu alto valor religioso!!
Aí, realmente, só nos resta tocar um tango argentino e pedir a Deus que nos perdoe.
NA REDE
Pouco tenho a acrescentar aos comentários de Timothy Noah (putz, eu concordando com Timothy Noah!!) sobre o novo - e muito esperado - site da New Yorker. O site está numa via intermediária entre o da Atlantic Monthly - que contém a revista inteira - e o da Harper's - que só contém o índice de matérias; traz uma parte das matérias, inclusive as seções "Talk of the town" e "The critics" e a de ficção.
É meio estranho ler a New Yorker na internet, porque as matérias da revista são bem mais longas e aprofundadas do que é comum na rede, e a fonte adotada pelo site não ajuda em nada (o que é aquilo? Times New Roman corpo 10?), mas é muito bom que eles finalmente tenham feito um site com conteúdo, e a resenha de John Updike sobre A. S. Byatt, na edição desta semana, mostra como o padrão de qualidade da revista é alto, apesar dos artigos de Hendrik Hetzberg.
Conclusão: site recomendado, mas com uma pitada de sal.
O mesmo, aliás, vale para o da Atlantic Monthly, revista mais conservadora que a New Yorker, agora sob a direção de Michael Novak, que começa sua gestão com uma análise do governo Clinton.
A idéia é um pouco infeliz, porque as críticas jornalísticas já foram todas feitas e ainda é muito cedo para uma análise mais profunda, mas a revista é de bom nível intelectual, muito bem escrita (embora não tão bem escrita quanto a New Yorker), e o site merece a visita mensal.
DESINFORMATZIA
É o cúmulo da hipocrisia: depois de anos desculpando tudo o que Clinton fez, do perjúrio no caso Lewinsky ao bombardeio de Kosovo, a imprensa, em uníssono, resolveu atacar o ex-presidente americano por causa do perdão ao sonegador Marc Rich, talvez o menos grave de todos os escândalos de Clinton.
O que houve, o Washington Post, o NY Times e suas sucursais brasileiras tomaram vergonha? Não creio. Simplesmente, Clinton deixeou de ser útil; para que serve um Bill Clinton fora do cargo?
Certamente não para implantar as políticas esquerdistas pretendidas por esses órgãos de imprensa, que, agora, preferem fazer elogios ao Governo Bush, tentando levar o novo presidente da centro-direita para a centro-esquerda (e, tendo em vista o aparente recuo de Bush em relação ao imposto sobre as heranças, parece que vão conseguindo).
Enquanto isso, em todo o blá-blá-blá sobre o caso Rich, ninguém pensa em acusar a ex-primeira dama, hoje Senadora Hillary, de absolutamente nada. Ora, se realmente houve um pagamento pela ex-mulher de Marc Rich para conseguir do presidente o perdão de seu marido, esse pagamento foi feito através da campanha de Hillary - e ela, portanto, está envolvida até o pescoço na história.
Mas Hillary está longe de ser um peso morto no cenário político da esquerda americana, e atacá-la não convém aos grandes órgãos da imprensa liberal. Repetindo: é o cúmulo da hipocrisia.
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Está ótima a entrevista da Época com Jeff Bezos, presidente da Amazon.com e grande benfeitor da humanidade. Mas a repórter precisava mesmo perguntar a ele se "a tecnologia pode reduzir a diferença entre ricos e pobres no Brasil e em outros lugares do mundo"??
SÉTIMA ARTE
Diz Matt Zoller Seitz, no seu artigo da semana passada:
"É uma ironia sem solução: filmes americanos, tanto hollywoodianos quanto os independentes, se tornam cada vez mais divorciados do mundo em que os espectadores realmente vivem. Eles são, em sua maioria, sobre os estilos de outros filmes, ou de propagandas, ou de vídeoclipes. Tradicionalmente, o antídoto é um filme estrangeiro, de preferência de um país cuja imaginação não tenha sido colonizada pelos valores da mídia americana (Inglaterra, Itália e França não se encaixam nessa descrição, e isso já há bastante tempo). Mas filmes estrangeiros de verdade não têm muita exposição, e os poucos que passam pela rede comercial e conseguem um distribuidor têm sorte de ser exibidos em um ou dois cinemas em Nova Iorque e Los Angeles, por um par de semanas, na melhor das hipóteses. Pisque e você pede as coisas boas."
Seitz está certíssimo. Não apenas os filmes americanos não são mais sobre o mundo real e se tornaram exercícios estilísticos vazios, como estão cada vez mais tolos, cada vez mais pasteurizados, mais infantis. Para assistir a filmes feitos para pessoas adultas, é preciso recorrer ao cinema oriental, ou ao de alguns lugares da Europa (como a Polônia).
Mas é só piscar que os filmes já saíram de cartaz. "Yi Yi", o magnífico filme de Edward Yang, ficou apenas duas semanas em cartaz no Rio; o mais recente Kiarostami, "O vento nos levará", chegou com um ano de atraso e passou tão rápido que não consegui vê-lo.
O pior é que seria injusto dizer que esses filmes não têm espaço, no Brasil, por causa do cinema comercial americano. Existem cinemas dedicados a filmes de menor apelo popular, o circuito "de arte", e o problema é que esses exibidores não têm a menor capacidade de discernir a qualidade dos filmes que exibem.
Desta forma, o filme de Kiarostami fica apenas uma semana em cartaz para dar lugar não ao último filme do Bruce Willis ou do Schwarzenegger, mas para dar lugar ao último exercício masturbatório de algum cineasta brasileiro, financiado com dinheiro público, ou ao mais recente filme pornográfico francês.
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Saiu a lista dos Oscars, e minha grande decepção foi ver os magistrais "Chunhyang" e "In the mood for love" (que entrará no circuito - provavelmente para ficar uma semana e meia - com o título de "Amor à flor da pele") de fora da lista dos indicados para melhor filme estrangeiro (ambos eram candidatos). A lista, aliás, deve ser bastante ruim, porque não inclui nenhum filme iraniano e inclui um filme mexicano. Nunca vi um filme mexicano que valesse mais que um tostão furado.
Já pelos menos dois dos indicados a melhor filme são um significativo avanço em relação ao ano passado, quando os dois melhores filmes do ano - "The Straight Story" e "Topsy Turvy" - foram ignorados pela academia, e filmes ridículos como "American Beauty" e "The Green Mile" lideraram as indicações.
"Erin Bronkovich" é um bom filme, extraordinariamente bem filmado, e "Gladiador" é um grande filme, e os dois são bem melhores do que qualquer um dos cinco indicados do ano passado. Pretendo ver e comentar os demais indicados assim que possível, com grandes expectativas em torno de "Traffic" e "O tigre e o dragão".
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Por que é que a Veja insiste em passar o vexame de ter Isabela Boscov como responsável pela seção de cinema?
A menina não apenas não entende nada de cinema, como escreve mal até para os parâmetros da imprensa brasileira. Vejam um trecho de sua resenha do ridículo "Psicopata americano", tranqüilamente um dos cem piores filmes de todos os tempos:
"Psicopata Americano é adaptado do romance homônimo de Bret Easton Ellis, autor também de Abaixo de Zero e autoproclamado cronista da era yuppie – os anos 80. Eis, porém, um daqueles raros casos em que o filme é bem melhor que o livro. Para começar, a cineasta Mary Harron, aqui em seu segundo longa-metragem, diminui muito o teor de violência explícita da história. Ainda há cenas fortes, mas elas são mostradas de forma breve e estilizada. Mais importante, Harron transformou um retrato circunscrito no tempo e no espaço em uma fábula perfeita para os dias de hoje, em que essa cultura ultracompetitiva e ultra-aquisitiva representada pelo protagonista se tornou contagiosa."
"Ultracompetitiva e ultra-aquisitiva"?! Quantos anos é preciso passar numa faculdade de comunicação para começar a escrever assim?
Pior ainda: como nunca consegue elevar suas resenhas acima do nível de uma matéria qualquer da revista Caras, ela é incapaz de discutir a questão levantada pelo filme. Tudo bem, o filme retrata uma era "ultracompetitiva e ultra-aquisitiva", mas não é meio absurdo retratar essa era como composta exclusivamente de jovens ocos, drogados e loucos por dinheiro, que acabam, por culpa do capitalismo, elouquecendo e se tornando psicopatas?
Existe realmente uma relação necessária entre consumismo e morticínio, entre consumismo e psicopatia? Os elogios de Boscov ao filme parecem dar por pressuposto que sim, mas ela não diz por quê.
Na verdade, o furor capitalista nos EUA dos anos 1980, que se repetiu na segunda metade dos anos 1990, foi mero produto de o Estado ter libertado forças econômicas que estavam aprisionadas por anos de coletivismo e taxação excessiva; mais pessoas entraram no mercado porque havia inúmeras oportunidades para que elas o fizessem, e elas enriqueceram porque participaram da produção ou da criação de coisas que a sociedade desejava (vejam o magistral artigo de Walter Williams, "Fontes de renda"). O capitalismo é a maneira mais eficiente de produzir e distribuir esses bens desejados pela sociedade, porque permite que o setor privado aja por conta própria, atendendo diretamente ao mercado, sem ter de enfrentar entraves estatais; quando o "ultracompetitivo" capitalismo é substituído pelo monopolismo comunista, temos Cuba, Albânia, Coréia do Norte, esses países de qualidade de vida exemplar.
Mas Hollywood é um antro de esquerdismo, e boa parte dos filmes produzidos por lá tem como vilões investidores malignos e empresários inescrupulosos, e "Psicopata americano" é o mais caricatural de todos eles.
Um adendo: Boscov ironiza Leonardo DiCaprio, que recusou o papel principal no filme, dizendo que sua recusa "poupando-se do vexame de aplicar seus limitados dotes dramáticos a um material difícil", e elogia Christian Bale, que ficou com o papel. Mais um sinal de que ela não entende nada. Bale apenas repete a mesma careta durante o filme inteiro, e quem quer que tenha visto "What's eating Gilbert Grape" sabe que DiCaprio é um ótimo ator, que deu o azar de ficar famoso por um papel bobo num filme tolo ("Titanic"). O problema é que as mesmas pessoas que têm tanto horror ao capitalismo costumam ter horror a quem quer que faça sucesso.