ALVARO VELLOSO DE CARVALHO

No. 5 - 14/04/00

O deputado Carlos Minc, justificando seu novo projeto de lei que proíbe estabelecimentos comerciais de se recusar a vender a gays, e proíbe empresas de não contratar gays, invocou o artigo da Constituição que diz que todos são iguais perante a lei.

Nunca vi tanta ignorância. Quando o Estado diz que todos são iguais perante a lei, está dizendo que todos são iguais perante o próprio Estado. Quer dizer, o Estado não pode proibir que alguém ingresse num cargo público por ser mulher, ou ser branco, ou ser gay, nem pode criar uma lei que discrimine em função desses fatores.

Mas essa declaração nada tem a ver com o que podem ou não podem fazer os indivíduos. Um empresário que se recuse a ter funcionários gays em sua empresa não está ferindo a igualdade constitucional, por mais que sua atitude pareça antipática ou detestável ao deputado Carlos Minc e seus similares. Ele tem todo direito de decidir quem vai ou não trabalhar na empresa dele, e o Estado é que não tem direito de se meter nisso.

Quando, porém, o Estado se propõe não apenas a não exercer discriminações espúrias, mas exige que todos sigam o mesmo padrão de conduta, ele está saindo da esfera de ação que determinou para si próprio, e, com isso, está aumentando desmesuradamente seu poder de ação. Com essa nova lei, até mesmo um caixa de supermercado que lançar um olhar de desaprovação para um cliente gay estará sujeito a sofrer uma ação penal, e a ser execrado publicamente pelo deputado Carlos Minc. De minha parte, digo logo: não gosto de gays, mas gosto menos ainda de deputados com vocações tirânicas...

Outra pergunta que alguém deveria fazer é a respeito da necessidade dessa lei: alguém já ouviu falar de algum gay que não tenha sido promovido, ou que tenha sido discriminado de qualquer forma no trabalho ou no supermercado, só por ser gay? Duvido que exista algum caso - a não ser, claro, se o cara tiver por aí passado cantadas a torto e a direito...

 

MUNDO ACADÊMICO

A Universidade Federal de Goiás, UFGO, propôs em seu vestibular de História a seguinte questão: "A reforma protestante (séc. XVI) respondia às necessidades de mudança ideológica de sua época. Justifique essa afirmativa."

Porca miséria, que raio de coisa será "necessidade de mudança ideológica de uma época"? Que fantasmagoria é essa? Inevitavelmente, caminharemos no sentido do marxismo de botequim: a "burguesia" estava em ascensão, e precisava de uma justificativa ideológica para suas ações, e o protestantismo forneceu essa justificativa.

Os sábios autores da pergunta não parecem ver nenhum problema no fato de que a expansão capitalista só se deu mesmo alguns séculos depois, nem no fato de que Lutero estava aliado não à burguesia, mas à aristocracia alemã, nem mesmo no fato de que, se o protestantismo serviu mesmo para impulsionar o capitalismo, isso aconteceu principalmente na Inglaterra e nos Estados Unidos, e o surgimento do protestantismo nesses lugares nada teve a ver com a reforma de Lutero.

Mas o fato de a pergunta ter uma base factual totalmente absurda nem mesmo é a pior coisa a respeito dela. O pior é que ela serve para desenvolver nos estudantes o cacoete mental do marxismo. Esse cacoete consistirá em enxergar na história a preponderância dos fatos econômicos, das "relações de produção". Em tudo, eles verão uma ação mágica da economia para produzir as mudanças culturais, religiosas, intelectuais, políticas etc.

Se surgiu o protestantismo, foi por causa do capitalismo; se a Igreja católica condenava a usura, foi por causa de sua "aliança com a nobreza"; se os jesuítas vieram para as colônias portuguesas catequizar os índios, foi para "legitimar a ação do Estado português em busca de metais preciosos"; e assim por diante, em explicações que conhecemos bem. Não serão oferecidas explicações de nenhum outro tipo, nenhuma outra visão do movimento da história chegará ao conhecimento dos estudantes, nada além do reducionismo economicista do marxismo. Notem que a questão nem mesmo permite que o estudante discuta a afirmação, devendo simplesmente "justificá-la". Se isso não é imposição ideológica, o que é?

Isso, claro, tem um aspecto demencial, e serve para diminuir radicalmente a esfera de percepção do estudante, enchendo sua cabeça de concepções pueris. Essa lavagem cerebral, feita em grande escala, tornará os estudantes praticamente incapacitados para entender o que quer que seja na história humana. Mas certamente os deixará mais predispostos a aceitar a revolução em nome das "reivindicações populares" e das "forças econômicas da História".

***

Enquanto isso, na Universidade de Michigan, acaba de ser criado o curso "How to be gay: male homossexuality and initiation" ("Como ser gay: iniciação e homossexualidade masculina"), que vai "examinar o tópico geral do papel que a iniciação desempenha na formação da 'identidade gay' através da literatura gay, da 'cultura do músculo', dos musicais da Broadway e da decoração de interiores."

Não é deprimente para a inteligência humana que a academia esteja preocupada com temas tão baixos, tão rasteiros, tão tolos?

 

POLITICAGENS

Não sei como pode ser responsável por combater o tráfico de drogas um sujeito que é a favor das drogas. Que incoerência é essa, a desse sr. José Carlos Dias? É igual ao sr. Luís Eduardo Soares, que, encarregado de elaborar políticas de segurança no Rio, não conseguia fazer nada que prestasse, simplesmente porque é a favor do crime e dos criminosos. Ele e praticamente toda a esquerda brasileira.

Pelo menos, Dias e Luís Eduardo foram demitidos de seus cargos antes que acontecesse alguma catástrofe. A catástrofe, no caso de Dias, seria o novo código penal, com liberalização geral para abortos, casamento gay e invenção de proibições politicamente corretas absurdas (proibiria a "manifestação pública de desapreço em razão de raça, opção sexual, etnia e credo religioso", mamma mia!). Ele saindo do governo, a comissão que estava elaborando o código, com "luminares" do direito penal como Luís Cernicchiaro e René Dotti, também pediu demissão. Já vão tarde.

Mas preciso deixar claro que sou a favor da descriminalização de crimes há muito caídos em desuso, como adultério e sedução, bem como da substituição da pena de prisão para crimes menores (o tal "direito penal mínimo"). Quando vejo conservadores defendendo com tanto vigor a pena de prisão, não consigo deixar de me lembrar da frase de Bernanos, segundo quem os conservadores vivem tentando conservar o que era para ser mudado e os progressistas vivem tentando mudar o que devia ser conservado.

A pena de prisão não é uma prática consagrada pelo uso em toda a história; é um tipo de pena recente, que nunca atingiu seus objetivos e é, freqüentemente, muito mais desumana e cruel que os tão detestados castigos corporais. Respondam rápido, o que é pior como pena por roubar quinze reis do caixa da esquina: tomar quinze chibatadas em praça pública e nunca mais ouvir falar do assunto, ou passar seis meses na cadeia, sendo submetido a práticas homossexuais, longe de qualquer vida social e com o prospecto de, depois que sair, ficar estigmatizado para o resto da vida? Acho que a resposta é óbvia.

Estou comemorando a saída de Dias, mas não vejo motivos para saudar seu sucessor. José Gregori é o maior especialista do país no linguajar ambíguo e pegajoso da Nova Ordem Mundial e do politicamente correto. Sem querer, Franklin Martins, da Rede Globo, acabou definindo bem: o perfil político dos dois ministros da justiça é idêntico, apesar de seus temperamentos opostos. O que Franklin jamais teria coragem de fazer é dizer abertamente que perfil político é esse. Eu digo: é o perfil da extrema esquerda, essa que acha bonito dar dinheiro para traficante e alegar estar tentando reabilitá-lo.

 

NA REDE

Demorei um pouco a formar uma opinião a respeito de Elián González, o menino cubano que, miraculosamente, sobreviveu ao naufrágio de sua mãe e ficou com familiares em Miami, enquanto seu pai pedia sua volta para Cuba.

É óbvio que os argumentos do tipo "ele terá uma vida melhor em Cuba" não me comovem: só um monstro moral, quase um psicopata, pode achar um negócio desses. Mas existe uma questão realmente relevante nessa história: é um direito estabelecido há muito tempo que, na falta de um dos pais, a guarda do filho fica com o outro. O caso seria, então, uma simples aplicação do direito familiar: já que o garoto não tem idade suficiente para decidir seu próprio destino, quem tem o direito de fazê-lo, na falta de sua mãe, é seu pai.

Esse foi o argumento usado pelo governo americano para mandá-lo de volta a Cuba. Não deixa de ser engraçado ouvir esse argumento da esquerda americana, que provavelmente foi, no mundo, quem mais trabalhou para acabar com qualquer tipo de valor familiar, mas a mensagem é mais importante que o mensageiro (ou a mensageira, no caso, a criminosa de guerra - v. Waco - Janet Reno).

Por outro lado, os conservadores alegavam que a vida de Elián seria muito melhor nos Estados Unidos - e, com certeza, ela seria mesmo. Mas isso não seria, como acusou Mark Steyn, colocar a política acima dos valores familiares? E mais: não seria inventar uma exceção legal sem cabimento?

Fui convencido por um artigo de Don Feder, onde ele argumenta o seguinte: é um absurdo falar em direitos familiares nesse caso, porque não existem direitos familiares em Cuba. Ninguém tem direitos sobre os próprios filhos na ilha de Fidel; as crianças são uma espécie de propriedade do Estado, e serão educadas pelo Estado a seguir, rigidamente, a cartilha marxista-fidelista. Do contrário, estamos cansados de saber o que acontece.

Então, ao defender que Elián fique nos Estados Unidos, ninguém está colocando a política acima da família; trata-se apenas de não aplicar um conceito onde ele não cabe. A família e o pátrio poder, tal como os entendemos, não existem em Cuba. Existe, sim, a supremacia do laço político sobre qualquer outro laço, seja familiar ou religioso.

E não se estaria criando uma exceção: apenas, um caso excepcional estaria sendo tratado de forma excepcional. Nem mesmo a opinião do pai de Elián pode ser considerada como uma manifestação livre de vontade, porque ele não tem liberdade de expressão, mas está subjugado à versão oficial de Fidel - o mesmo Fidel que costuma mandar afundar barcos de refugiados e matar os filhos na frente dos pais, como fez com o navio de refugiados de 1994.

Mas saiamos do plano jurídico, onde a legalidade da permanência de Elián é suficientemente clara, e olhemos o assunto do ponto de vista moral: não seria uma imoralidade, depois que sua mãe se sacrificou para tentar dar-lhe uma vida melhor, devolver Elián à tirania e à miséria da Cuba de Fidel? Só mesmo a esquerda, com sua característica insensibilidade moral, pode imaginar o contrário. Uma leitora de O Globo chegou a dizer que a mãe do garoto foi irresponsável ao lançar-se ao mar. Tristes tempos em que o heroísmo é confundido com a irresponsabilidade.

Que fique claro que não se trata também de defender, abstratamente, "princípios democráticos", como fez outro leitor de O Globo respondendo à leitora que mencionei. Democracia é apenas mais um sistema de governo, e nada tem a ver com liberdade. A liberdade Elián merece, e que lhe será negada se voltar para Cuba, não é a de votar para presidente - isso, no fim das contas, não vale nada. A liberdade que ele merece é a de poder pensar e escrever o que quiser, mesmo que isso desagrade ao Governo, é a de professar uma religião sem que ninguém vá matá-lo por isso, é a de trabalhar no que quiser e comer o que quiser - essas liberdades básicas que ninguém tem em Cuba.

A leitora de O Globo disse que, em Cuba, ele não verá trabalho escravo. Mal sabe essa senhora que é justamente o contrário: em Cuba ele só verá escravos e será um escravo do "comandante Fidel". E, por mais sagrados que sejam os laços de paternidade, não vejo como um pai pode ter o direito de transformar o filho em escravo.

B. Piropo, do caderno de informática do Globo, disse que, nesse processo da Microsoft temos de torcer não pela Microsoft ou por seus oponentes, mas por aquilo que for mais favorável ao consumidor.

Pois o consumidor já escolheu há muito tempo: quer a Microsoft e seus produtos. E o motivo é simples: esses produtos foram feitos tendo em vista o consumidor, e não meia dúzia de nerds que passam o dia inteiro trabalhando em programação. É por isso que o Windows é mais popular que o Linux, que o PC é mais popular que o Mac. E o Explorer se tornou mais popular que o Netscape pelo simples fato de que, com o tempo, ficou muito melhor.

Mas, segundo o absurdo veredicto da justiça americana, aplicando a antiquada lei anti-truste, a Microsoft "se impôs" aos consumidores, só porque juntou Windows e Explorer. Não é nada disso: ela simplesmente facilitou a vida dos consumidores, até porque, como lembrou Walter Williams, uma empresa não tem sobre os consumidores os meios de coerção que, por exemplo, o Estado tem sobre os cidadãos.

Inclusive em pesquisas internet afora, a opção dos consumidores pela Microsoft ficou clara: mais de 60% dos participantes de uma pesquisa da rádio CBN votaram a favor da empresa, e mais de 55% dos americanos inquiridos pela ABC disseram o mesmo.

Causou verdadeiro escândalo o fato de a Polícia Militar do Rio ter, no seu site, links pra sites sobre armas e contra o desarmamento (O link para o site da PM que tenho é este, mas estranhamente está fora do ar). Um ridículo editorial do Globo trata o caso como se os links fossem para sites nazistas que pregassem o extermínio de toda a população judaica do mundo. Por que diabos a PM não pode ter o direito de ser a favor das armas?

 

ORTODOXIA

Lew Rockwell respondeu, em um artigo, à pergunta: o que próximo Papa deve fazer? A resposta de Rockwell é um primor.

Antes de mais nada, o próximo papa deve, segundo ele, restaurar o papel do papado - que é o de representar e difundir a fé católica, tal como entendida há dois mil anos, no mundo. Realmente, o papa não é, como tem parecido nos últimos anos, uma autoridade mundial e absoluta em todos os assuntos e tem infalibilidade garantida apenas em assuntos de moral e doutrina e, mesmo assim, para repetir a doutrina e a moral de seus antecessores. Um papa não tem nenhum direito de criar doutrinas novas.

Estabelecido isso, diz Rockwell, o próximo papa deve fazer valer sua autoridade sobre seus bispos e enquadrá-los no catolicismo. Os níveis de apostasia, de heresia, de imoralidade e de burrice atingidos pelos bispos no mundo inteiro nas últimas décadas são impressionantes, e são, em grande parte, responsáveis pelos frangalhos em que se encontra a Igreja.

A outra ação urgente, diz Rockwell, é esquecer o desastroso Concílio Vaticano II: "Pare de tratar o Vaticano II como um 'novo Pentecostes' e passe a encará-lo como mais um concílio ecumênico, apesar de ter sido um concílio pastoral que ocorreu na constrangedora, mas felizmente passada, Era de Aquário. É compreensível que o Vaticano não reconheça logo que o Concílio e sua seqüência foram desastrosos para a Igreja e para a fé. Nem mesmo é necessário que ele o faça. Basta deixar o concílio desaparecer no passado, e reafirmar o que sempre foi considerado verdadeiro."

Essa excursão para fora do Vaticano II implica, claro, conceder anistia para os tradicionalistas e permitir que qualquer padre que quiser volte a celebrar a missa tridentina, o pilar da fé católica. Como diz Rockwell: "Permita que a missa tridentina e o calendário antigo voltem! Promova a reunião entre o Vaticano e a Sociedade São Pio X, junto com todos os outros grupos independentes que preferiram a fé à obediência administrativa."

A última sugestão de Rockwell pode parecer prosaica, mas não é: "Aumentem o site do Vaticano. Tudo na biblioteca do Vaticano deveria estar na rede, dos escritos do primeiro papa até o presente. Cada carta, cada bula, cada catecismo, cada encíclica, os escritos dos santos e mártires e bibliotecas de escritos teológicos e espirituais, e tudo mais que se refere ao Catolicismo, incluindo obras de arte e manuscritos."

Isso é importante, digo eu, porque é uma forma de promover a reunião da Igreja de hoje com a Igreja de sempre. O site do Vaticano tem uma série de futilidades e meia dúzia de notícias exclusivamente sobre o papa atual. Parece até que nunca houve nada antes, que tudo começou ontem. E a sensação dos católicos modernos é, realmente, que tudo começou no Vaticano II. Já passa da hora de mudar essa situação, e as recomendações de Rockwell são um excelente começo. Ele dá até a receita para arrumar dinheiro para fazer o site: cortar esse monte de comissões pontificais inúteis, diminuir radicalmente a receita dos bispos e das burocracias católicas e cortar dinheiro da assessoria de imprensa do Vaticano.

Eu teria outras recomendações a fazer, como, por exemplo, a divulgação de um "listão dos excomungados", o fim das alianças diplomáticas espúrias, a reformulação das universidades católicas... Mas acho que tudo isso são penas de amor perdidas: não parece haver mais ninguém na Igreja disposto a ouvir recomendações assim. Aos homens de boa fé, resta, como diz o Montaigu, rezar para que seja breve.

Uma prova de que a assessoria de imprensa do Vaticano faz um péssimo trabalho é que dificilmente ficamos sabendo de distorções contra a Igreja como as que estão acontecendo em Cuba por ocasião do caso Elián, noticiadas pela rádio EWTN.

A imprensa cubana está tratando o caso como se o garoto tivesse sido seqüestrado e estivesse sendo mantido prisioneiro pelos Estados Unidos. Como há uma freira e um padre envolvidos com a família de Elián, a imprensa considera a Igreja responsável pelo "seqüestro" do garoto.

Fotos do Papa são mostradas junto com a pergunta: "como ele pode permitir isso?"; fotos do Cristo são mostradas junto com a pergunta: "se Ele existe, como pode deixar que façam isso com Elián?", e assim por diante.

A hostilidade oficial contra a Igreja e contra os católicos recebeu injeção de sangue novo com esse caso, e novas perseguições estão acontecendo.

Extraordinário o artigo de Joseph Sobran sobre a hipocrisia dos críticos do catolicismo, quando dizem que o catolicismo é responsável por inúmeras guerras e atos violentos, e não se lembram de que, graças à Igreja, o nível moral da humanidade subiu imensamente, desde a promiscuidade e barbárie do Império Romano. Subiu, mas agora está decaindo de novo, graças ao ódio anti-cristão e suas inúmeras manifestações.

 

DESINFORMATZIA

A seção "papel impresso" muda de nome a partir desta semana, já que não tenho falado apenas de jornais, mas de televisão também. Duas notinhas essa semana.

A ABC está em séria crise moral (nota: para ler esse link, não é necessário fazer o download solicitado pelo site) por dois episódios recentes. Imaginem vocês o que é uma rede de TV com crise moral, senão um festival de hipocrisia. O primeiro motivo das lágrimas de crocodilo é a entrevista com Elián González: não seria "ético" levar ao ar o depoimento de um garoto de seis anos. Tanto que eles (e os demais canais) acabaram cortando a parte da entrevista em que ele dizia que queria ficar nos EUA. Imaginem se fosse o contrário, se o garoto tivesse dito que queria voltar para Cuba. Alguém é ingênuo o suficiente para duvidar que o trecho da entrevista seria exibido inúmeras vezes ao dia, e ninguém ia estar com nenhuma dor na consciência?

O outro motivo é que o ator Leonardo DiCaprio entrou na Casa Branca para o que seria apenas um passeio para observar os objetos do local feitos com material reciclado, e acabou entrevistando o presidente Bill Clinton. Segundo os jornalistas da rede, DiCaprio não tem "credibilidade" para fazê-lo. Ora, não creio que a entrevista do ator com o presidente (que é ainda melhor ator!) venha a ser uma peça de grande jornalismo, mas tenho certeza de que nenhum jornalista da ABC faria coisa melhor. Este é um caso de corporativismo da pior estirpe. Recomendo a leitura do ótimo comentário de Mark Steyn a respeito.

Não é absolutamente ridículo a imprensa ficar tratando o Luís Eduardo Soares como um "exilado"? Ora, o sujeito foi para os Estados Unidos porque quis, certamente está vivendo melhor lá do que aqui. Luís Eduardo não tinha nenhum motivo concreto por temer por sua vida, pelo simples fato de que nenhum bandido é idiota o suficiente para tentar qualquer coisa contra ele ou contra sua família, sabendo da comoção midiática que isso causaria. Ademais, fora do Governo, que importância ele tem?

 

OS IDIOTAS

"Eu ainda acredito na cidadania" - José Carlos Dias, ex-ministro da Justiça, vencedor do prêmio para a frase mais vazia.

"Sua mãe [a de Elián González], ao arriscar-se na travessia pelo mar, irresponsavelmente pôs em risco a vida do garoto, que só não morreu como ela por puro acaso. Em Cuba, ele não encontrará meninos de rua; todas as crianças têm escola e esportes, todas são vacinadas e tratadas com competência e gratuidade. Quando Elián voltar a Cuba vai estranhar e sofrer, naturalmente, a perda de todos os lindos bens materiais que lhe enfiaram goela abaixo[imagino que em Cuba terá bens espirituais!!!]; mas certamente não terá nenhum amiguinho fazendo trabalho escravo, nenhum morrendo em fila de hospital ou por falta de atendimento [nos EUA teria???], nenhum atirando metralhadoras e matando por conta da overdose de videogame." - Rosana Piereck Bevilaqua. Como é que alguém pode ser tão cego, tão estúpido, tão cretino? Como é que, décadas depois, ainda tem gente que acredita nas mentiras e fantasias sobre a ilha de Fidel? Quanta palhaçada!

"A atual política de privatização do saneamento básico pode ser caracterizada como uma conspiração do próprio Estado contra a sociedade." - José Dirceu. Caro Dirceu, praticamente tudo que o Estado faz é uma conspiração contra a sociedade, mas não quando ele aceita diminuir seu próprio poder.

"É surrealista a atitude das casas noturnas e das autoridades. A lei impede que menores entrem em boates. Esses, de 16, 17 e 18, que hoje em dia são muito mais preparados que os de nossa geração, não se conformam e ficam comprometidos com a máfia das boates e se expõem a práticas do submundo, do ilegal. Ou pagam propinas para entrar nas festas ou, como a maioria, falsificam documentos, com uma simplicidade espantosa." - Francisco Alencar. O senhor já chegou a pensar que talvez a culpa pela desonestidade dos jovens seja dos próprios jovens, e não das boates?

"Um exame superficial dos sites deixaria claro que não era conveniente incluir links que levassem a eles." - Editorial de O Globo, defendendo a censura ao site da Polícia Militar. É incrível: estamos proibindo policiais de informar a população sobre armas, por determinação das ONGs e da patrulha politicamente correta de plantão.

"Eu amo as Nações Unidas." - Ted Turner, respondendo por que há uma bandeira da ONU no prédio da CNN e por que ele proibiu os editores e correspondentes da CNN de usar, nas notícias, a palavra "estrangeiro".

 

FÓTONS

"Eu me sentiria constrangido em dirigir um Estado que desse prejuízo." - Olavo de Carvalho, respondendo a Olívio Dutra, que dissera que se sentiria constrangido em dirigir uma empresa que desse lucro.

"Controle governamental de empresas do setor privado costumava ser chamado de fascismo. Hoje é chamado de 'administração Clinton'." - Geoff Metcalf (também é chamado de "Terceira Via")

"A Previdência Social assegura o direito à enfermidade coletiva" - candidato no vestibular da UFRJ

"O Estado socialista requer graus de força cada vez maiores para funcionar. Se recursos e riquezas são alocados não em função da produção, mas da necessidade, as pessoas vão competir para ser mais necessitadas do que produtivas." - Linda Bowles

"Você pode embrulhar com uma embalagem perfumada chamada 'direitos dos pais', mas isso ainda fede. A administração Clinton mostra-se disposta a trocar a liberdade de Elián pela cooperação de Fidel Castro. A esquerda, que não consegue conceber que alguém escolha a América em vez de um Estado progressista, sacrificará Elián no altar de sua ideologia." - Don Feder

"Janet Reno mostrou em Waco que, às vezes, você tem que matar crianças a fim de salvá-las..." - Wesley Pruden

"Sem dúvida os caras na HCI (Handgun Control Incorporated) preferem que uma mulher peça ao estuprador que use camisinha, em vez de defender sua vida e sua saúde com uma arma de fogo." - Dr. Michael S. Brown

 

ARTIGO DA SEMANA

O último artigo de Olavo de Carvalho na revista Bravo!, "500 anos em 5 notas", é um belíssimo chamado à auto-consciência dos brasileiros, um texto muito bem escrito que aborda questões cuja profundidade está a léguas do horizonte mental dos "especialistas" que inundam os jornais e as revistas deste pobre país afora.

A primeira das cinco notas diz respeito à Independência do Brasil, e à farsa que ela foi - reconhecimento que já devia ter sido feito por nossas elites intelectuais há muito tempo:

"Os 500 anos não são de Brasil: são de um império português de ultramar que se desmembrou sob os golpes da diplomacia inglesa, prestimosamente auxiliada por intelectuais nativos que achavam estar fazendo um grande benefício para as gerações vindouras. O que representaria no mundo de hoje um bloco econômico Portugal-Brasil-África era coisa que não podiam imaginar, mas que os ingleses imaginaram perfeitamente bem e por isso mesmo temiam como à peste."

A segunda nota diz que, como a sociedade civil brasileira nunca conseguiu se integrar e se articular, tudo o que se fez neste país sempre partiu da iniciativa oficial, especialmente militar. Reconhecendo o fato, os intelectuais de esquerda o aproveitam para pregar a revolução - e é evidente que uma coisa não se segue da outra, e que uma revolução será apenas o ponto de partida para mais baderna e confusão, e posteriormente criando um governo muito mais poderoso do que os anteriores. De que, então, precisaria um povo para se integrar na história? Olavo responde: "Precisa de paz e tempo, lei e ordem. E intelectuais honestos, que discutam as coisas com franqueza, sem segundas intenções políticas. É a única esperança."

Esperança frágil porque "o que mais falta no momento é o último item da lista". E são as desonestidades da classe intelectual brasileira que ocuparão as últimas três notas.

Esses intelectuais, lembra Olavo, confundem de forma desonesta "poder" e governo. Ora, o poder não é formado exclusivamente pelo Governo; o poder não é o Fernando Henrique e o Congresso Nacional. O poder é "um vasto sistema de conexões que abrange as instituições da cultura, a mídia, os diretores de empresas, as igrejas, os partidos, o establishment educacional etc. etc." Mas ninguém lembra esse fato ao falar em poder, o que acaba ocultando o poder imenso da própria classe intelectual. E, invisível, esse poder não pára de crescer.

Poder que se manifesta na utilização de certos valores para atingir seus objetivos políticos, como aconteceu na campanha pela ética, que Olavo examinou com muitos detalhes no livro "O Jardim das Aflições", e que é abordada na quarta nota. Seria possível fazer um livro inteiro para cada uma das distorções operadas pela intelectualidade esquerdista nos valores positivos, resquícios de nossa educação católica:

"Não foi só a ética. Iguais reciclagens sofreram as noções de caridade, de paz, de direito, de história. Todas as palavras que expressam as aspirações mais altas foram prostituídas, rebaixadas, moídas na máquina do oportunismo. E a aliança do banqueiro com o assassino brilha no altar da 'solidariedade'. A destruição da linguagem precede o embotamento das consciências. Para elevar a moralidade de um povo é preciso aguçar o seu senso de valores, não embotá-lo. Quem, a pretexto de punir políticos corruptos, destrói as bases mesmas da moral pública, ou é um idiota irrecuperável ou tem uma agenda secreta. A diferença é que a idiotice sente alguma vergonha de si mesma; a ambição política, não."

E a última nota é um retrato deprimente da geração intelectual atualmente no poder. Fico me perguntando, cético, se, mudando a geração, a coisa vai melhorar:

"Sim, os jovens letrados dos anos 60 não acreditavam em nada, exceto em tomar o poder. Riam de Deus, do bem, da moralidade, prosternavam-se de adoração ante os mais mínimos desejos e caprichos de suas almas egoístas, embelezados por uma moral ad hoc fornecida por charlatões franceses e americanos. Eram cínicos, perversos, aproveitadores ingratos, exploradores de seus pais. Cada um deles, quando dava uma transada ou fumava um baseado, se acreditava merecedor da gratidão da humanidade: estava fazendo a revolução, pombas! Hoje essa gente tem o poder e refaz o Brasil à sua imagem e semelhança. Por isso, em 500 anos de história, nunca estivemos tão baixo."