No. 50 - 23/02/01

O recente artigo de Thomas Fleming sobre as posições que a direita pode tomar em relação à eugenia é importantíssima. O programa de eugenia do Estado nazista foi adotado, muito antes, nos EUA, pela esquerda - e o nazismo buscou inspiração nisso. Por isso:

"O caso da eugenia ajuda a definir a fronteira entre os grupos de direita revolucionários (como os nazistas) e a direita tradicional, conservadora, ou - ouso dizer - cristã (favor não confundi-la com os veículos de levantamento de fundos inventados por vários tele-evangelistas altamente bem sucedidos). Claro, há muita coisa errada tanto com o conceito quanto com o termo 'conservador' (que implica apenas uma resposta relativista às iniciativas ousadas da esquerda), e as falhas dos conservadores e do movimento que eles uma vez tiveram não serão ignoradas nesta coluna. Mas reconheçam ao menos isto ao movimento conservador: ele é anti-utópico. Os conservadores estão contentes em trabalhar com o homem tal como ele foi feito, e não se preocupam em brincar de Dr. Frankenstein com uma raça de super-homens, o Novo Homem Soviético ou, o pior monstro de todos, o Novo Homem Democrático sonhados pelos gurus futuristas [os Toffler, também fonte de inspiração para muitos políticos brasileiros, igualmente idiotas] que inspiraram a imaginação juvenil do Sr. Gingrich.

"A direita revolucionária pode chamá-los de tímidos, mas os seguidores de Burke e Oakeshott também entendiam que o Estado tem funções limitadas, definidas tanto pela tradição quanto pela natureza decaída do homem. Não é função do Estado definir a humanidade, estabelecendo parâmetros de saúde ou mesmo defendendo o casamento e a família. Os antigos conservadores (que devem ser distinguidos destes que se dizem cosnervadores mas são, no fundo, puros esquerdistas) não queriam que o Estado fizesse mais do que garantir os contratos e proteger a vida e a propriedade de seus cidadãos de inimigos externos e criminosos domésticos. Qualquer coisa que cheirasse a engenharia social era maligna; o que quer que emitisse o aroma sulfuroso de engenharia humana [promovida pelo Estado] era satânico."

É por isso que um conservador defender a bomba atômica ou a eugenia não é conservador de forma alguma, e é por isso que não se pode dizer, sem qualificativos, que o nazismo era um movimento "de direita".

De resto, parece senso comum nestes tempos de Nova Ordem Mundial e de entidades burocráticas internacionais que a função do Estado - e, logo, dos burocratas - é transformar o mundo e mudar o homem. E, quando um desses programas de engenharia social não dá certo - e eles nunca dão -, a receita que eles imediatamente produzem é... criar mais programas e expandir ainda mais o poder estatal! Este é o mecanismo infernal do progressismo.

 

SÉTIMA ARTE

Toda profissão tem suas prostitutas, e elas nunca faltaram no mundo cinematográfico. O sueco Lasse Hallström é uma das mais proeminentes delas, sempre rodando sua bolsinha perto dos irmãos Weinstein, fazendo filmes sob medida para agradar aos eleitores do Oscar e à classe intelectual middle-brow, explorando seus preconceitos anti-religiosos e progressistas.

"The Cider House Rules", seu filme anterior, era um Bildungsroman em que o protagonista virava um homenzinho ao descobrir que deve ignorar as regras "impostas por quem não conhece a vida", e o momento chave dessa descoberta é quando ele deixa seus princípios éticos de lado e resolve praticar um aborto.

Não contente em fazer um filme em que o dever de praticar o aborto é o supremo dever moral do médico, Hallström agora parte para um ataque direto ao catolicismo, que encarna todo o mal da Terra em seu novo filme, "Chocolate".

Nele, uma mãe solteira, Vivian Rocher (um desperdício do talento de Juliette Binoche), chega a uma cidadezinha francesa para abrir uma loja de chocolates, e sua presença vai revolucionar a vida na cidade, que, antes, girava em torno das missas na Igreja local.

Vivian é filha de um sujeito católico com uma mulher maia; seu pai conheceu sua mãe numa viagem expedicionária ao México, e casou com ela apesar dos avisos dos mexicanos de que ela era uma "peregrina", incapaz de permanecer no mesmo lugar por muito tempo. E, efetivamente, depois de alguns anos junto do marido, ela foge, levando a filha, para explorar novos lugares e divulgar as receitas maias de chocolate, a principal das quais é o chocolate quente com algumas pitadas de pimenta. Depois da morte da mãe, Vivian mantém suas cinzas numa urna e segue o mesmo caminho: viaja com a filha por diversos lugares, abrindo lojas de chocolate e encorajando os habitantes das cidades que visita a aproveitar os prazeres da vida.

O problema que ela enfrenta na cidadezinha francesa é a presença do prefeito, um católico ultra-conservador que fiscaliza a moralidade dos habitantes da cidade e recrimina em Vivian não apenas o fato de ela ser uma mãe solteira, como o de ela abrir uma loja de chocolates no primeiro dia da Quaresma.

Não é nem preciso acrescentar que, entre os habitantes da cidade, há o esperado desfile de velhas reprimidas, homens violentos e mulheres submissas, e que Vivian ajudará as velhas a liberar seus instintos e protegerá as mulheres de seus maridos crápulas. Também não é preciso acrescentar que as crenças do prefeito são ridicularizadas e que, no final, depois de passar por várias situações absurdas, ele acaba se adaptando aos tempos modernos. Não se deve esperar nada de diferente neste filme: todas as situações são esquemáticas e todas as personagens são caricaturas.

A horas tantas, Vivian se apaixona por um cigano, que explica com uma profundidade assombrosa por que não gosta de se fixar em lugar nenhum, preferindo viajar continuamente em seu barco: "quando você mora na cidade, você acaba fazendo o que as pessoas esperam de você."

Em outra cena de altíssimo nível intelectual, Vivian dá a uma das mulheres da cidade um punhado de chocolates afrodisíacos; ela chega a casa, meio incrédula, e deixa os chocolates num canto. Seu marido os encontra e, depois de comê-los, vê sua mulher abaixada na cozinha e fica enlouquecido.

É a isto, no fim das contas, que se reduz o cinema hollywoodiano dito "de qualidade" ou "não-comercial": piadinhas ridículas sobre o catolicismo e cenas em defesa dos instintos sexuais e das concupiscências sobre a moral católica, para fazer rir os sodomitas, as lésbicas, as meretrizes e os debilóides que se julgam superiores à religião e não admitem que possa existir qualquer restrição moral à satisfação de qualquer desejo humano.

E o pior é que não seria injusto dizer que os católicos merecem ser ridicularizados em filmes como esses, porque se tornaram incapazes de entender a própria fé e porque, no fim das contas, pensam exatamente como os produtores desse tipo de lixo hollywoodiano.

Basta ouvir a homilia conciliatória do padre da cidade, no final do filme: ele diz que devemos esquecer o lado divino do Cristo e nos concentramos no seu lado humano, e que o valor de um cristão não deve ser medido pelo que ele deixa de fazer, pelo que ele exclui, mas pela sua compaixão em relação aos outros e por seus esforços pela inclusão. Este sermão, frontalmente anti-católico, não pode ser ouvido em qualquer Igreja, hoje em dia? Não é este o tipo de sermão preferido dos padres "católicos" modernos? É bem possível, até, que em paróquias ao redor do país padres e bispos estejam recomendando aos fiéis que assistam a "Chocolate", para que aprendam sobre o novo caráter, inclusivo e tolerante, da fé católica, e para que vejam como eram horríveis os tempos em que os fiéis tinham de fazer penitência, tinham de se lembrar do sacrifício do Cristo, tinham de refrear seus impulsos e suas paixões, tinham de tentar se governar não pelas concupiscências, mas pela fé e pela razão.

Este é, portanto, um filme bem adequado a seu tempo. Os católicos não sabem mais o que é quaresma, não são mais capazes de oferecer sacrifícios para compensar seus pecados, nem mesmo acreditam na noção de pecado, e, então, como seriam capazes de reverter a onda cultural que se dedica a difamá-los e ridicularizá-los? Afinal, se nenhum deles liga para a proliferação de padres gays, para a profanação sacrílega dos sacramentos, para a perversão da doutrina em nome de modas politicamente corretas, por que ligariam para a produção em massa de obras de arte destinadas a atacar sua fé?

Não, eles não vão ligar. Ficaram burros e embrutecidos demais para isso, e, com raríssimas exceções, não podem contar nem mesmo com o aconselhamento dos clérigos, que estão mais preocupados em rodar suas bolsinhas para movimentos ecumênicos ou mobilizações comunistas (pois é, toda profissão tem mesmo suas prostitutas).

Quanto a mim, cometi a estupidez de sair numa segunda-feira à noite para assistir a esta obra suprema da torpeza humana, quando poderia simplesmente ter ficado em casa assistindo a "Ally McBeal", que de cristão não tem nada, mas não me custaria vinte reais e não me faria aturar pretensões intelectuais descabidas.

Não que não haja nada de bom em "Chocolate"; assim como em "The Cider House Rules" havia Michael Caine, aqui há Judi Dench. Mesmo no papel ridículo da velha diabética que continua a comer doces e que briga com a filha por causa da educação do neto, é um deleite ver a grande atriz inglesa. Mas é um desperdício de talento num filme tolo e entediante.

 

POLITICAGENS

A transcrição de um debate na Fox News entre David Horowitz e Julianne Malveaux, sobre reparações raciais, é uma das discussões mais engraçadas que já li.

Malveaux se irritou, se descontrolou e acabou usando o insulto de sempre: Horowitz é racista; afinal, quem quer que discorde do movimento da negritude radical é racista para essa gente.

O que eu acho espantoso é como uma idéia cretina como a de reparações raciais pode ter tantos defensores e pode virar objeto de discussões sérias.

Horowitz diz coisas simples e inegáveis: primeiro, os negros atualmente vivendo nos EUA são os negros com a melhor situação econômica no mundo, e deveriam parar de reclamar e agradecer por seus ancestrais terem sido levados aos EUA, ainda que, inicialmente, sob a forma de escravidão; segundo, é ridículo exigir hoje indenizações dos americanos por atos cometidos por seus antepassados há mais de cem anos. Ele poderia acrescentar que, se os negros americanos querem mesmo indenizações pela escravidão, deveriam pedi-las aos seus antepassados africanos, que escravizavam as tribos derrotadas e as repassavam no comércio - para a América ou para a própria África, como lembra Jim Morre, em excelente artigo sobre o que aprendeu sobre escravidão com os nigerianos.

A sra. Malveaux diz a Horowitz que "vocês" (os brancos americanos) tiraram os melhores de "nós" da África para serem escravos nos EUA, mas qualquer criança sabe que ela está mentindo: quem tirou os negros da África foram os próprios negros, e eles não eram os "melhores" das tribos africanas, mas os membros das tribos derrotadas - que, ironicamente, hoje estão em situação social infinitamente melhor do que a de seus antigos inimigos tribais.

Mas o pior nisso tudo é o papel ridículo que fazem os "líderes" negros, ao elaborar estratégias de extorsão dos brancos, com alegações absurdas e argumentações falaciosas.

Se, porém, a Sra. Malveaux fazia tanta questão de ter ficado na África, ela poderia ir morar no Zimbábue de Robert Mugabe, um grande herói da negritude radical.

Que ela tentasse trabalhar como jornalista por lá: a não ser que estivesse disposta a defender tudo o que o governo faz, poderia ser torturada, como o dono do Daily News, o jornal oposicionista cuja sede foi destruída por bombas, ou ameaçada de morte, como os jornalistas da BBC.

Sei que esse argumento é politicamente incorretíssimo, e causaria escândalo em qualquer casa de família, mas por que não dizer: será que os negros do Zimbábue não preferiam que seus ancestrais tivessem sido escravizados nos Estados Unidos?

É pouco provável que o projeto russo de defesa de mísseis venha a ser adotado pela União Européia, inclusive porque ele ainda é vago demais, como bem diz a matéria do Telegraph, mas o interessante nessa história é que a arrogância americana, que atingiu níveis absurdos durante o reinado de Madeleine Mad Dog Albright, pode acabar levando a Europa a se aproximar da Rússia e criar problemas para os EUA - como se já não bastasse a crescente oposição do mundo islâmico.

O Governo Bush assumiu com o que parecia ser uma política mais moderada, como explica Scott McConnell em artigo notável, mas as tramóias para afastar Colin Powell do centro das decisões e o recente bombardeio do Iraque são indicações de que nada essencialmente mudou na política externa americana com a nova administração.

A reação mais interessante ao bombardeio foi a do governo francês, que se disse decepcionado com o jingoísmo anglo-americano, já que eles, franceses, estavam tentando negociar - por vias diplomáticas e comerciais - com o Iraque e tentando suavizar as sanções econômicas.

Tentando perpetuar-se como policial do mundo, os EUA podem estar dando um tiro no pé.

Se não é de coisas como o protesto simultâneo de presos em presídios de mais de vinte cidades de São Paulo que o sr. Abel Monteiro está falando no impressionante artigo "Segurança essencial", eu sou o coelho da páscoa.

E, pior, segundo o "Jornal da Lilian", outras rebeliões virão e "o banho de sangue pode ser ainda maior", espalhando-se, inclusive, para os outros estados. Alguém aí vai lembrar da associação entre os movimentos organizados de presos e as estratégias de guerrilhas de esquerda, demonstradas pelo prof. Olavo de Carvalho no seu livro "A Nova Era e a Revolução Cultural"?

Lew Rockwell escreveu o artigo que eu queria escrever, quando soube do movimento dos bilionários americanos contra a abolição do imposto sobre as heranças (abolição da qual Bush já começa a recuar, segundo Bob Novak).

Diz Rockwell: "Eu suspeito que os super-ricos não estão dando suas verdadeiras razões para se opor à abolição dos impostos sobre a herança. À primeira vista, pode parecer que esses homens estão indo contra seus próprios interesses, ao apoiar esses impostos. Na verdade, os super-ricos têm um interesse pessoal em evitar que outros entrem em suas fileiras. Com os impostos sobre a herança que eles podem pagar, eles permanecerão no topo da montanha. Sem eles, sua posição econômica e social será continuamente ameaçada por novas dinastias."

Exato. Não há ninguém que goste tanto de socialismo quanto milionários que já usaram o mercado quando quiseram e, agora, querem evitar que seus inimigos enriqueçam.

Quanto à taxa sobre a herança, Rockwell diz muito bem por que ela é imoral: "A razão mais importante pela qual as pessoas poupam seu dinheiro é a de prover uma vida melhor para seus filhos. Uma sociedade que pune esse impulso com impostos é tola. Ela está drenando energia do motor mais poderoso de acumulação de capital. Se os super-ricos não desejam que seus filhos herdem seu dinheiro, ótimo. Doem cada centavo desse dinheiro para outras pessoas. Mas eles estão errados em impedir que outros exerçam sua livre-escolha."

 

MUNDO ACADÊMICO

Phyllis Schlafly aponta, em artigo recente, todos os problemas com a mania de que testes e avaliações são suficientes para resolver os problemas educacionais: os testes são menos avaliações de conhecimentos do que avaliações de ideologias; o ensino passa a ser centrado no próprio teste e não no conhecimento que o aluno deve ter dos assuntos; e a avaliação pode ser baseada em parâmetros inferiores, o que causará uma queda geral nos parâmetros das escolas.

Vemos todos esses problemas no Brasil, e já me cansei de escrever isso a respeito do "provão". Aqui ainda há agravantes: enquanto nos EUA a idéia ainda de testes para avaliar a qualidade da educação é muito discutida, aqui ela já é política oficial há tempos, e enquanto por lá a doutrinação é politicamente correta, aqui ela é também marxista. Estamos em maus lençóis.

 


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