No. 51 - 08/03/01
Linguagem, expressão e silêncio
"Eu já escrevi, com toda a moderação que pude, que
de todos os fenômenos modernos, o mais monstruoso e ameaçador,
o mais manifestamente doente, o mais tristemente profético da destruição,
o mais inequivocamente inspirado por espíritos maus, o mais instantaneamente
provocador da ira dos céus, o mais próximo à loucura e
ao caos moral, o mais vívido de desespero e satanismo, é a prática
de ter de ouvir música alta enquanto se come uma refeição
em um restaurante. Esse fenômeno tem em si aquele tipo de distração
que é pior que a dissipação. Pois, embora falemos alegremente
em fazer isto ou aquilo para distrair a mente, continua tanto real quanto verbalmente
verdadeiro que estar distraído é estar perturbado. A palavra latina
original não significa relaxamento; significa ser despedaçado
por cavalos selvagens (...). Pensar em uma coisa de cada vez é o melhor
tipo de pensamento; mas é possível, num certo sentido, pensar
em duas coisas de uma só vez, se uma delas é realmente inconsciente
e, portanto, realmente subordinada. Mas lidar com uma segunda coisa que, por
sua própria natureza, se lança agressivamente à frente
da primeira coisa é encontrar a própria cruz da crucificação
psicológica."
Para sua sorte, Chesterton, o autor das linhas acima, morreu em 1936 e, portanto, não teve de ver até que ponto se propagou esse fenômeno que ele bem notava ser um indicador de barbárie e caos moral.
As coisas são até um tanto piores: não apenas somos submetidos à tortura psicológica da música no último volume em quase todos os lugares públicos, mas agora também começa a se difundir a prática de ter uma televisão ligada em bares, restaurantes, consultórios médicos etc.
Vivemos numa época de paixão pelo barulho, pelo ruído, como se todos sentissem a necessidade de um "fundo musical", para não serem obrigados a encarar o silêncio.
Até mesmo as Igrejas, lugares propícios à introspecção, à reflexão, ao silêncio, foram tomadas por instrumentos musicais barulhentos e por cantores frustrados prontos a mostrar seus supostos dotes; não se faz mais silêncio nem na hora da Consagração.
E não só o barulho é onipresente, como as pessoas são tagarelas incontroláveis, sempre dispostas a relatar detalhes de suas vidas psíquicas ou amorosas, ou passar adiante o último boato, ou a proferir opiniões estúpidas e levianas sobre qualquer tema.
Basta ligar a televisão, esse intruso inescapável, e em quase todos os canais estarão "especialistas" ou "intelectuais" em programas apresentados por jornalistas analfabetos ou em documentários sem nenhum documento, divulgando ao mundo suas opiniões sobre todos os assuntos, celebrando a própria confusão mental ou expondo o próprio vazio espiritual.
No cenário cultural presente, a linguagem se tornou um instrumento de obscurecimento, uma forma de tornar opaco o mundo real, que ela pretende substituir. Os intelectuais - e as pessoas comuns - se encantam com a própria linguagem, com as próprias palavras, e pretendem que elas se substituam às coisas mesmas.
É que o esforço necessário para expressar algo, principalmente em um país inculto como o nosso, é tão grande que o "expressar" acaba assumindo primazia sobre o "algo".
O nosso amor ao barulho, ao "fundo musical", é claro indicador da nossa dificuldade expressiva; é mais fácil viver imerso em ruídos, com a psique dispersa, do que tentar o esforço unificador necessário para fazer que as palavras nos obedeçam. É impossível expressar a si mesmo sem antes tentar entender a si mesmo e isso requer silêncio, concentração e reflexão; requer um temporário abandono do mundo do ruído.
Como diz Chesterton, é impossível pensar numa coisa se existe uma outra coisa se intrometendo de forma incontrolável em seu pensamento; a maioria das pessoas prefere que exista essa intromissão, porque assim elas evitam confrontar o próprio vazio. Isso explica por que adoram a postura passiva a que a televisão os obriga ou a desconcentração a que a música ambiente alta os obriga.
Alguns - e esses formam as nossas classes letradas - conseguem ir além do "barulhinho bom" e lidar com a linguagem, com o pensamento. Isso, porém, não basta. Vale repetir: a dificuldade de chegar a este estágio, num país confuso e inculto como o Brasil, é tão grande, que o simples poder expressivo tende a deslumbrar quem o desenvolve. A linguagem tende, então, a se rechear de lugares-comuns vazios e de truques erísticos, e tende a substituir as impressões autênticas do escritor.
É possível, pois, distinguir entre o escritor ou orador sincero e o insincero; é possível saber se ele está falando daquilo que realmente sabe e que, portanto, é parte dele (ou porque ele pensou aquilo sozinho ou porque refez os atos cognitivos necessários para apreender aquilo e torná-lo parte dele) ou se ele está apenas fazendo impostação de voz, deslumbrado com o próprio poder expressivo.
Uma das marcas inconfundíveis do orador insincero - embora não necessariamente desonesto - é o uso de conceitos em sua forma vazia, nunca em sua forma "cheia", i.e., com a apreensão simultânea de todas as suas propriedades. Só é possível falar de um conceito em cheio quando se apreende a realidade por trás do signo, as coisas por trás das idéias. Mas é óbvio que o conceito é sempre expresso da mesma maneira e não há meios de, simplesmente olhando sua expressão escrita pura, saber se quem o escreveu o compreende realmente ou não. Só é possível saber isso pela análise de seu emprego pelo autor, seja com referência ao restante do texto ou da obra do autor, seja com referência às coisas mesmas de que fala o autor; o contexto - entendido nesse sentido amplo - sempre denuncia se o autor realmente entendeu as implicações existenciais de seus conceitos, se realmente apreendeu a realidade que eles expressam. Os autores insinceros podem até resistir ao teste da coerência interna do texto, mas não resistem ao de sua coerência externa, da relação dos conceitos ali utilizados com o mundo a que, supostamente, eles se referem.
O orador - ou, simplesmente, argumentador - insincero é diferente do argumentador desonesto, que até tem idéias próprias, mas usa expedientes para convencer o leitor de seus argumentos sem que ele possa analisar seu conteúdo. Por exemplo, a técnica desonesta preferida do prof. Leandro Konder, um dos especialistas nisso, é a de usar o discurso poético como se fosse dialético. Por isso ele recorre às crônicas: é mais difícil dialetizá-las, i.e., discutir com elas, porque elas apresentam imagens, não argumentos, e são direcionadas à imaginação, não ao raciocínio. Quem tem o hábito de pensar por associação de imagens e persuadir-se por elas fatalmente cairá nas artimanhas pueris do Konder como um pato pateta.
É em parte por isso, aliás, que desenvolver o hábito de só se deixar persuadir pela argumentação lógica é uma excelente defesa contra influências subliminares e contra artimanhas erísticas, influências e artimanhas estas amplamente difundidas por aqueles instrumentos do barulho de que falávamos no início.
Em outro caso, diferente do argumentador insicero e do desonesto, está o argumentador inexpressivo. Neste caso, o sujeito pode até ter idéias pessoais, pode até ter se concentrado e realmente aprendido com a realidade, mas, freqüentemente por falta de intimidade com as grandes obras literárias de sua língua (e a diversidade de estilos dessas grandes obras), falta-lhe o domínio da linguagem. Quando tenta expressar suas próprias idéias, acaba recorrendo a chavões ou lugares-comuns que leu ou ouviu em algum lugar, normalmente na mídia; surge, então, uma dissonância entre o sentido pretendido e o sentido produzido.
Eis, portanto, a dificuldade que enfrenta quem se propõe a escrever, sobre qualquer assunto, se não quiser apenas aumentar a tagarelice da cultura que o cerca: ele tem de dominar a linguagem para que ela efetivamente expresse seu coração, para que ela efetivamente expresse suas impressões mais autênticas, para que ela ilumine o mundo em vez de obscurecê-lo.
Ademais, como diz Saul Bellow, no seu belíssimo prefácio ao livro de Allan Bloom, "The Closing of American Mind":
"Na maior das confusões, ainda existe uma porta aberta para a alma. Pode ser difícil encontrar, pois na meia-idade ela está coberta de mato, e algumas das moitas mais densas que a cercam brotam daquilo que definimos como a nossa educação. No entanto, a porta sempre existe e a nós cabe mantê-la sempre aberta, para ter acesso à parte mais profunda de nós mesmos - àquela parte que está a par de uma consciência superior, graças à qual podemos fazer julgamentos definitivos e considerar tudo em conjunto. A independência dessa consciência que tem força para ser imune ao ruído da História e às distrações de nosso meio ambiente: eis tudo quanto representa a luta pela vida. O espírito tem de encontrar e de manter a sua base contra as forças hostis, às vezes personificadas em idéias que freqüentemente negam sua própria existência e que repetidamente parecem, na verdade, tentar anulá-lo por completo."
Nenhum esforço de escrita vale a pena se não for um esforço para se manter fiel a esta "parte mais profunda de nós mesmos". Por isso, aliás, não há escrita sem silêncio.
![]()
![]()
![]()
Novidades na coluna
Pois é, não foi só a foto que mudou, depois de meia centena de colunas. É o seguinte: acabaram as colunas quilométricas. Não vou mais reunir numa coluna só dezenas de notas sobre dezenas de assuntos; em princípio, as colunas passarão a ter apenas um artigo. Mas isso não quer dizer que eu esteja abandonando vocês, meus caros catorze leitores.
Muito pelo contrário. Depois de meses tentando encontrar a melhor fórmula, finalmente produzi minha página pessoal (salve, Blogger!), e as notas que costumavam aparecer aqui na coluna serão deslocadas para ela, com uma vantagem: em vez de aparecerem todas juntas na sexta, aparecerão ao longo da semana, fresquinhas, o que significa que o site será atualizado várias vezes por semana.
As notas continuarão sendo de todos os tipos que costumavam aparecer aqui: comentários a cartas de leitores, anotações a artigos, breves análises de notícias, recomendações de sites.
Mas nem só de notas viverá a página. No primeiro menu, os senhores encontrarão as indicações para os arquivos de quase todos os meus artigos, separados pelos temas que também costumavam separar esta coluna ("Mundo acadêmico", que renomeei "Akademia", "Desinformatzia", "Os Idiotas", "Ortodoxia", "Politicagens" e "Sétima Arte"), acrescidos de uma seção com os artigos sobre cultura em geral ("A Coisa-em-si"), uma sobre o mundo literário ("Literárias" - duh!) e outra com as minhas cartas a jornais e revistas ("Sr. Editor").
São "quase" todos os meus artigos (digamos, 60%), porque ainda não tive paciência para transformar em artigos boa parte das notas desta coluna; os artigos de "fótons" e as "idiotices da semana" estão todos lá, mas só uma parte do que saiu nesta coluna está lá. À medida que eu for atualizando, vou pondo os avisos na primeira página. Os artigos que já pus lá estão revisados e em alguns fiz observações adicionais.
Os senhores também encontrarão lá os "links" para meus sites de notícias preferidos e meus colunistas preferidos. Preciso esclarecer a presença da Slate na primeira lista: tapando o nariz, acesso esse site uma vez por semana para ler o resumo das revistas, que é feito com bastante competência (o que, aliás, até um computador faria). Outro esclarecimento, quanto à divisão entre "Electronic Telegraph" e "Daily Telegraph": o primeiro é o site do jornal propriamente dito; o segundo, o da página de opinião (com editoriais e obituários incluídos), por isso pus os dois separados. De resto, pretendo, em breve, fazer um artigo sobre os meus "bookmarks" preferidos, a exemplo do que Justin Raimondo fez recentemente.
O endereço, por enquanto, é oindividuo.com/avelloso e não avelloso.com, mas dentro de algumas semanas este endereço mais simples deverá estar ativo, embora o site vá continuar hospedado no provedor do "Indivíduo" (e, portanto, o endereço atual continuará valendo).
![]()
![]()
Mil desculpas
Peço perdão aos que enviaram e-mails para O Indivíduo nas últimas três semanas; houve um problema técnico e não estou podendo verificá-los. Por isso eles não foram respondidos. Espero que tudo esteja resolvido dentro de, no máximo, uma semana.