No. 52 - 16/03/01

Elite, proletariado e decadência

"Porque Deus não nos chamou para a imundície, mas para a santidade"
(I Tess 4; 7)

Uma discussão surreal aconteceu na página de Opinião do Globo ao longo dessa semana; uma discussão que seria inteiramente irrelevante se não revelasse alguns traços distintos do mundo em que vivemos, da cultura que forma as consciências neste século que já começa com um inegável cheiro de putrefação, como se já nascesse moribundo.

Luciano Trigo, o editor do caderno "Prosa & Verso" - o suplemento literário do Globo - escreveu um artigo conclamando as mulheres a rebelar-se contra o funk, movimento musical que as pinta como "cachorras" e as reduz a objetos sexuais. Afinal, perguntava ele, onde está o movimento feminista agora?

São observações precedentes, e eu já notara que, teoricamente, os movimentos de minorias tenderiam a se destruir uns aos outros: afinal, o movimento negro enfatiza a cultura do gueto, uma cultura que produz o funk e o hip hop - cujas músicas estão repletas de insultos aos homossexuais e às mulheres, chegando a descrever e celebrar estupros - e isso o coloca nas antípodas os movimentos feminista e gay. Mas o fato é que, por alguma proeza do gênio político esquerdista, eles não se destroem, nem mesmo se atacam.

E, assim sendo, o artigo do Trigo causou uma reação indignada na escritora (de que livros? Sei lá!) Angela Carneiro, que ficou especialmente irada com a utilização, por Trigo, da expressão "moça de família":

"Dançar é uma forma de comunicação, um misto de exercício com sedução. A diferença, talvez, é que, hoje, coisas como a dança da garrafa escancaram a motivação. Dão o nome devido, sem disfarces, sem discursos de livre expressão artístico-cultural (sic). Desde que o mundo é mundo, a libido o move e estimula, e cada época teve seu tapinha. Somos todos do século passado. As idéias enferrujadas é que devem ser por lá deixadas.

"Daí me revoltar quando um jornalista quer saber o que uma moça de família pensa ao latir como uma cachorra. Moça de família? Quer dizer que existem moças que não são de família, meu senhor? E, existindo, podem latir? E o senhor clama pelas feministas?"

Porca miséria, quem diria que veríamos uma escritora defender o "direito" de as mulheres serem tratadas como objetos sexuais? Seja como for, a réplica do Trigo, apesar do estilo capenga, respondeu direitinho aos pontos centrais de sua argumentação:

"A professora Angela Carneiro gasta os dois primeiros parágrafos para defender premissas falsas. Por exemplo, a de que a dança só serve para expressar um 'desejo horizontal'. Não, professora, a dança é uma arte que expressa muitas outras coisas, e nem sempre a vontade de ir para a cama. Ou de que é somente a libido que move o mundo. (...) Ou a de que é uma 'idéia enferrujada' considerar obsceno seja o que for. Não, professora, a obscenidade existe, e quando ela envolve meninas de 14 anos alguma coisa vai mal.

(...)

"Estranho o estado a que chegamos: a professora não se incomoda vendo uma adolescente latir ao ser chamada de cachorra, mas se escandaliza com a expressão 'moça de família', como se fosse uma ofensa ou xingamento. Lamento informar à professora que existem, sim, moças de família, da mesma forma que existem 'tchuchucas' e 'cachorras'. Vou além: as que são sabem que são, e as que não são sabem que não são. E isto não é preconceito."

A resposta da professora beira o demencial, e vou poupá-los de detalhes. Basta dizer que, como se poderia esperar, os termos "autoritarismo" e "moralismo" são os mantras repetidos ad nauseum.

Mas, afinal, como foi possível que chegássemos a discutir seriamente um baile em que meninas simulam atos sexuais ao som de músicas sem melodias e repletas de palavrões e insultos?

Para tentar responder, vou remontar a outra discussão, esta iniciada por um artigo do sociólogo americano Charles Murray (sim, aquele mesmo do "Bell Curve") no Wall Street Journal.

Murray apanhou da esquerda e da direita por um artigo que comentava a "proletarização da elite americana":

"Eu desejo acrescentar uma terceira voz à mistura [de críticos da vida moral americana], a do historiador Arnold Toynbee, que não veria nenhum mistério em nossa história recente: nós estamos testemunhando a proletarização da minoria dominante.

"A linguagem e o pensamento são tirados de um capítulo de 'A Study of History', intitulado 'Um Cisma na Alma', no qual Toynbee discute a desintegração das civilizações. Ele observa que um dos sintomas de desintegração mais consistentes é a imitação pelas elites - a 'minoria dominante', na linguagem de Toynbee - daqueles nos níveis inferiores da sociedade. O argumento se desenvolve assim:

"A fase de crescimento de uma civilização é liderada por uma minoria criativa com um sentido forte e auto-confiante de estilo, virtude e propósito. A maioria sem criatividade acompanha a minoria por mimese, 'uma imitação superficial e mecânica dos criadores originais.' Numa civilização em desintegração, a minoria criativa se degenerou em elites sem auto-confiança e incapazes de servir de exemplo. A 'queda na indolência' (uma rejeição, com efeito, das obrigações da cidadania) e a 'rendição a um sentido de promiscuidade' (vulgarização dos modos, das artes e da linguagem) são algumas das reações 'que costumam aparecer primeiro nas classes proletárias e espalhar-se daí para a minoria dominante, que normalmente sucumbe à doença da 'proletarização'."

A análise de Murray/Toynbee tem bons insights, e fornece uma descrição adequada do fenômeno, mas ela ainda é incompleta.

Certo, estamos numa cultura em que as classes superiores já não se distinguem mais das classes inferiores e em que houve uma degeneração total na moral sexual, na arte e na linguagem; mas, alguém pode perguntar, que tipo de liderança é essa que as classes superiores exercem na sociedade? Que "criatividade" é essa que funda civilizações e, quando se perde, sinaliza a decadência? Essa "minoria dominante" que forma as classes superiores é uma elite de que tipo - econômica, política ou cultural?

Sem entrar agora em discussões que poderiam nos levar a intermináveis minúcias, podemos dizer que toda civilização é baseada em uma "paidéia", e que o conjunto delas forma, na descrição sintética de Olavo de Carvalho, "os ideais educativos que vieram, de época em época, orientando e cristalizando os sucessivos esforços da nossa civilização rumo a um modelo ético habilitado a conciliar a organização prática da sociedade com as exigências da dignidade espiritual da espécie humana."

Um determinado grupo se destaca em relação aos demais na sociedade porque ele é o guardião da vida espiritual da sociedade, porque ele encarna a consciência da "paidéia", do ideal ético que inspira aquela cultura, e porque ele é capaz de educar o restante da sociedade. Esse grupo é a verdadeira elite, animada apenas, nas palavras de Otto Maria Carpeaux, "pelo espírito filosófico, antiutilitário, desinteressado" - pelo amor à verdade, em suma.

É essa elite, guiada pelo amor à verdade, que pode oferecer à sociedade uma orientação segura, é essa elite que pode resguardar os ideais supremos da civilização e revigorar a cultura em torno. Mas é forçoso reconhecer que, em nosso admirável mundo novo, essa elite praticamente desapareceu, sua presença luminosa foi obscurecida pela multiplicação daquilo que o mesmo Carpeaux chama de "proletariado intelectual", num trecho arqui-conhecido de seu ensaio "A idéia da universidade e as idéias das classes médias":

"Eles, porém, os iletrados, têm sempre razão, porque são muitos e ocupam um lugar de elite, esse 'proletariado intelectual', sem dinheiro ou com ele, isso não importa. Julgam tudo, e tudo deles depende. Lêem os livros e decidem sobre os sucessos de livraria, criticam os quadros e as exposições, aplaudem e vaiam no teatro e nos concertos, dirigem as correntes das idéias políticas, e tudo isto com a autoridade que o grau acadêmico lhes confere. Em suma, desempenham o papel de elite. São os nouveaux maîtres, os señoritos arrogantes, graduados e violentos; e nós sofremos as conseqüências, amargamente, cruelmente."

O importante é que se perceba que, antes de haver a proletarização da moral das classes superiores - e aqui, tanto em sentido econômico quanto em sentido intelectual - houve a proletarização da vida intelectual; os ideais supremos da cultura foram substituídos por banais preocupações subjetivistas ou utilitaristas.

Com efeito, os próprios intelectuais abdicaram de seu papel de guardiões da cultura e da ética, e, ao mesmo tempo que criaram bloqueios para qualquer tipo de influência vinda de cima, abandonaram suas defesas contra as influências vindas de baixo; o desprezo pelo superior veio acompanhado do culto do inferior.

Assim, os ideais de desinteresse, desapego e amor à verdade de que falava Carpeaux deram lugar, nas elites, a obsessões mesquinhas com a conquista de cargos públicos, com a tomada do poder político, com a satisfação de desejos sexuais.

É graças a um dos fenômenos anti-intelectuais típicos do século XX - a psicanálise - que a professora Angela Carneiro pode, agora, dizer que a libido move o mundo e que a preocupação central das pessoas é a satisfação dos próprios impulsos sexuais. É graças, ainda, a outro desses fenômenos - o relativismo cultural - que o funk pode ser considerado pela mesma professora como uma manifestação cultural no mesmo nível dos grandes monumentos religiosos e das grandes obras da música clássica.

E, como ao longo desse tempo a inteligência foi deprimida e atacada, ao mesmo tempo que a religião cristã foi solapada (em parte por culpa de membros da própria Igreja, em sua sanha novidadeira), a cultura ocidental perdeu sua base de sustentação, perdeu sua consistência.

O resultado é a criação de uma massa de ignorantes, que não são mais capazes nem de educar a si mesmos, muito menos de educar seus filhos - e, conseqüentemente, perderam de tal maneira sua autoridade sobre eles que apelar para o poderio estatal é a única forma que têm de impedir que eles freqüentem as verdadeiras orgias modernas que são os bailes funk. Que valores podem transmitir aos filhos pessoas que não têm mais valor nenhum, que não têm mais crença nenhuma?

Não é de surpreender, portanto, que os filhos da classe média e da classe alta se inspirem no modo de vida e na "cultura" dos morros e das favelas, e se vistam, dancem e falem como os favelados: é que, simplesmente, a distância cultural entre eles foi abolida. Os ideais igualitários dos revolucionários franceses e russos foram, de certa forma, realizados da única maneira possível: através do nivelamento mais baixo possível.

Então, com toda razão, reclama Charles Murray do estado da linguagem, das artes e da moral sexual, reclama A. N. Wilson dos palavrões e da falta de educação das crianças e adolescentes, reclama Luciano Trigo da degradação das meninas nos bailes funk. Mas essa decadência moral tem origens mais remotas que nenhum deles aponta; essa podridão espiritual começou quando a sociedade ocidental abandonou "a única coisa necessária", abandonou a busca pelo céu para tentar conquistar a terra.

Acesso fácil e e-mail difícil

Já é possível acessar meu site pessoal - com atualizações quase diárias - através do endereço www.avelloso.com ou, simplesmente, avelloso.com

Essa é a boa notícia. A má é que o e-mail do Indivíduo continua com problemas - as mensagens enviadas não se perderão, mas não poderão ser respondidas ainda. Podem, portanto, continuar escrevendo, mas não esperem resposta em breve. Peço desculpas de novo.

 

 


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