No. 53 - 23/03/01
A cultura do ácido e a erosão da autoridade
"We are prone to see the advance of power in the modern world as a consequence of the diminution of individual freedom. But a more useful way would be to see it in terms of the retreat of authority in the many areas of society within which human beings find roots and a sense of the larger whole." (Robert Nisbet)
Não creio que o leitor tenha perdido seu tempo assistindo a "Fear and loathing in Las Vegas", a insuportável adaptação de Terry Gilliam de um livro de Hunther Thompson. Por isso, vou resumi-la rapidamente.
Thompson foi caracterizado por seu amigo (hoje convertido ao conservadorismo) P. J. O'Rourke como o próprio "Mr. Hip". Seus artigos na "Rolling Stone" sobre a cultura do ácido marcaram época, e deram o tom para a apologia das drogas que marcaria grande parte da intelectualidade de esquerda ao longo das décadas de 1960 e 1970.
O filme de Gilliam, fiel à obra de Thompson, é uma quase interminável celebração do escapismo das drogas, da experimentação com substâncias diversas, da alteração da consciência por quaisquer meios disponíveis. Toda a ação se passa numa zona nebulosa entre realidade e ficção, entre consciência e inconsciência, entre vigília e sonho, e o filme encerra com uma série de reflexões sobre os aspectos libertários da cultura do ácido, culminando com a famosa frase, "o fracasso da cultura do LSD em criar uma nova sociedade é o nosso fracasso."
Ora, os esforços dos drogados que formaram boa parte da New Left (e da New Age) foram fracassados apenas se tomarmos como padrão de julgamento os objetivos ambiciosos que eles mesmos se colocaram: a formação de uma nova sociedade, de uma nova cultura, de uma nova utopia. Eles não conseguiram mudar o mundo, porque é impossível mudar o mundo. Mas eles formaram a imago mundis de uma geração inteira, eles determinaram os padrões mentais de toda uma elite intelectual.
Havia, não há dúvidas, um aspecto legítimo em sua causa: a rebelião contra o crescimento do aparato policial e militar do Estado americano, com reflexos quase tirânicos dentro do próprio país e ao redor do mundo. Mas os supostos libertários e apologistas das drogas não se contentavam em criticar o imperialismo: eles atacavam todo e qualquer tipo de autoridade, todo e qualquer tipo de restrição moral.
Os perigos desse tipo de "libertação" são arqui-conhecidos pela humanidade há tempos. Numa famosa passagem da "República", Platão comparava a mente juvenil a uma cidadela que, nas circunstâncias erradas, pode ser tomada por qualquer desejo que a tome de assalto: se a mente está drogada com o conceito de "libertação", e conseqüentemente não acredita no valor da moderação e do auto-controle, ela perde a capacidade de diferenciar entre o certo e o errado e não desenvolve suas defesas naturais contra o mal; como resultado, ela é facilmente tomada por qualquer prazer que atraia sua atenção.
Platão, ainda na "República", afirmava que a moderação necessária para o desenvolvimento das virtudes deveria ser imposta pelo Estado e, neste ponto, podemos discordar; o Estado é força pura, incapaz de ensinar moral a quem quer que seja. A consolidação das virtudes é muito menos efeito de um Estado forte do que de uma comunidade forte, muito menos efeito do poder do que da autoridade. O reforço da "cidadela" para se resguardar contra as paixões e os vícios é um conjunto de valores morais desenvolvidos numa tradição, numa cultura, numa comunidade - que, no fim das contas, sempre se origina de uma religião.
Jogando o bebê fora junto com a água do banho, os "libertários" das décadas de 1960 e 70 estenderam seu ódio ao Estado às comunidades em geral (fora das próprias comunidades "hippies"), e ajudaram a fomentar uma sociedade que corresponde exatamente aos moldes previstos por Platão, uma sociedade na qual "os pais têm medo de seus filhos e os filhos nem respeitam nem admiram seus pais; os professores temem e bajulam seus alunos e os alunos desprezam seus professores (...). E os velhos, então, adaptam-se aos jovens, imitando-os e misturando-se com eles de forma frívola, porque não desejam parecer estritos e desagradáveis."
Trinta anos depois, em plenos anos 1990, os mesmos integrantes da "cultura do ácido" se vêem no poder, no comando não apenas da cultura, mas da própria sociedade. Aqueles estudantes rebeldes, de repente, se tornam professores, reitores, editores de jornais e revistas, deputados e - no caso significativo de Bill Clinton - presidentes. Surge o curioso fenômeno da elite que foi formada desprezando as elites.
A sociedade cujo comando essas pessoas assumem é uma sociedade em franca desintegração e, para tentar agir sobre ela, não lhes resta nenhum outro recurso além daquele mesmo que elas inicialmente desprezavam: o poder estatal.
Isso porque aos poucos, e em grande parte graças aos esforços da New Left e da New Age, as comunidades tradicionais foram sendo minadas; as autoridades que se interpunham entre o indivíduo e o Estado - a religião, a família, as universidades, as associações espontâneas - foram sendo minadas e abarcadas pelo monstro estatal; perderam sua autoridade, sua força persuasiva, seu controle sobre seus membros. E as virtudes resguardadas por essas comunidades entraram em franca decadência.
Nada é mais significativo dessa desintegração social do que a cultura das drogas. Encorajado pela cultura "libertária", o comércio de substâncias entorpecentes subiu, nos últimos trinta anos, a níveis inacreditáveis.
Para combater esse comércio, um governo conservador teve a idéia da "guerra às drogas". Já que todas as autoridades sociais estavam desmoronando, o Estado interviria na questão, usando para isso toda a força de seu aparato policial. Como, a esta altura, o conservadorismo já tinha praticamente perdido a batalha cultural, mas ainda detinha o poder político, ocorreu aos conservadores procurar uma solução policial para um problema cultural.
É óbvio que não deu certo, e nunca dará. Pelo contrário: intervindo numa área que deveria ser deixada às próprias comunidades, o Estado ampliou seu poder e reduziu ainda mais o das comunidades, agravando o problema moral. Mesmo assim, bilhões de dólares foram destinados a combater as drogas, novas legislações, cada vez mais intrusivas, foram criadas, mas o consumo ou permaneceu igual ou aumentou. Para quem quer que saiba um pouquinho de teoria econômica, a explicação é fácil: de um lado, há uma empresa privada, com empreendedores buscando atender a consumidores; de outro, o aparato repressivo estatal. O primeiro tem mais incentivos para crescer, tem mais agilidade operacional, e é capaz de rapidamente criar e efetivar idéias novas; o segundo nada pode fazer senão tentar acompanhar esses avanços.
Mas, o que podem fazer os esquerdistas, ao assumir o poder? Eles encontram uma situação criada por sua própria atuação cultural, e herdam soluções inúteis de seus antecessores impotentes.
No caso de Bill Clinton, ele não só manteve a "solução" de Bush e Reagan, como a aprofundou. Ele combateu as drogas com ainda mais vigor que seus antecessores, inventou mais leis, destinou mais dinheiro para esse fim, nomeou novos "czares". E, é claro, tudo continuou na mesma.
"Traffic", o magistral filme de Steven Soderbergh, é a perfeita
ilustração de todo esse dilema, do choque da geração
de 1960 ao encarar os efeitos destrutivos de sua própria atuação:
a personagem de Michael Douglas, nomeado para o cargo de "czar das drogas",
descobre-se incapaz de resolver em escala nacional um problema que não
foi capaz de resolver nem mesmo dentro de sua própria casa.
O filme ilustra também a impossibilidade de o Estado acompanhar as mudanças
introduzidas pela indústria das drogas: assumindo os "negócios"
do marido, a personagem de Catherine Zeta-Jones logo inventa uma nova maneira
de passar a cocaína pela fronteira do México sem que a polícia
possa suspeitar, criando um boneco de cocaína. Quanto tempo levará
até que a polícia descubra essa técnica? Até que
isso aconteça, novas técnicas terão surgido!
Mas é o dilema de Douglas que forma o centro do filme, as outras duas histórias (a prisão do marido de Zeta-Jones, um magnata do tráfico de drogas nos EUA, e uma disputa de gangues de traficantes no México) servindo apenas de ilustração e complementação da história principal. Douglas é o novo "drug czar", mas sua filha e o namorado se viciam em "crack" e similares, apesar de serem os melhores alunos da classe. Alguns reclamaram da falta de verossimilhança, mas creio ser justamente o contrário: essa caracterização dos dois jovens é um dos pontos mais fortes do filme.
Afinal, se os dois estão entre os melhores alunos da classe, presume-se que absorveram bem a educação. E eles são educados, como quase todos os seus colegas de geração, na mentalidade da geração de 60. Suas conversas refletem com perfeição as idéias libertárias da "cultura do ácido", de transformação total da sociedade, de rejeição da autoridade, e não há dúvidas de que eles aprenderam isso com seus professores. Eles são responsáveis por manter viva a chama dos anos 60; e isso representa o fato de termos chegado ao ponto em que os melhores alunos são os que mais interiorizaram as piores idéias, representa a total incapacidade da geração que propagou a cultura do ácido em transmitir qualquer tipo de valor positivo ou defesa moral a seus descendentes.
O czar das drogas não consegue controlar as drogas em sua própria casa: ele é um pai ausente, não percebe que sua filha está se drogando e sua esposa é impotente para lidar com o problema (sendo, ela mesma, uma ex-drogada). Ele só cai na real quando a vê se drogando no banheiro de casa, e começa uma reavaliação de suas atitudes até ali.
Alguns viram no filme uma defesa do novo lugar-comum na luta contra as drogas - a ênfase no tratamento -, mas isso também é um equívoco. A primeira reação de Douglas é mandar sua filha para uma entidade de tratamento, mas isso não dá certo, porque ela foge.
É só depois dessa fuga que ele desiste do cargo estatal. Confrontado com o dilema de sua geração, ele reage de forma diferente da maior parte de seus companheiros e se vê forçado a reavaliar sua postura vital; ele percebe a inutilidade do poder estatal para remendar uma cultura desintegrada, desiste de tentar consertar o mundo e vai tentar consertar a própria casa.
A ênfase do filme não está no tratamento, mas na reconstrução da família e na associação das famílias de viciados (um tipo de comunidade bem diferente da comunidade de simples tratamento, estilo Alcoólatras Anônimos); ou seja, na reconstrução das autoridades intermediárias que a cultura do ácido ajudou o Estado a destruir. Na reconstrução da virtude.
A mesma idéia de reconstrução da comunidade que o Estado central destruiu está presente na praça iluminada que o policial mexicano (numa interpretação antológica do excelente Benicio Del Toro) constrói, para que os garotos da cidade joguem beisebol. Mais importante do que o jogo em si mesmo é a reunião dos membros da comunidade, a organização de uma associação das diversas famílias, porque só uma associação desse tipo tem força suficiente para sustentar a moral de seus membros, sem recorrer à força pura do Estado.
É por essa possibilidade de reconstrução que as luzes da praça brilham no final do filme. É pela possibilidade representada na frase de Douglas, quando, no grupo de recuperação em que inscreveu sua filha, lhe perguntam se tem algo dizer e ele responde que não, que ele e sua esposa estão ali para ouvir. É só pela possibilidade de reaprender o que a geração de 60 esqueceu e fez de tudo para que os outros também esquecessem, que pode brilhar algum tipo de esperança.
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Bom nível nos Oscars
Já que falamos de "Traffic", e já que a cerimônia de entrega dos Oscars acontece neste domingo, vamos a breves comentários sobre os cinco indicados ao prêmio principal, na minha ordem de preferência.
Por tudo o que falei acima, é claro que "Traffic" é meu preferido. Com um uso de câmera e cores que chega a lembrar Tarkovsky, e com um elenco soberbo, Soderbergh fez uma raridade: um filme com uma mensagem política profunda e séria, mas que nunca recorre à panfletagem ou a estereótipos. O filme mostra os equívocos da política contra as drogas, mas não oferece nenhuma solução mágica, porque não existe tal coisa, apenas, como disse, um penoso trabalho de reconstrução da comunidade (outro ponto interessante: o retrato da desintegração comunitária nos bairros negros americanos); os policiais encarregados de cumprir a política contra as drogas não são mostrados como idiotas ou corruptos, mas como pessoas sinceras e bem intencionadas, mesmo que estejam conscientes de que muitos de seus esforços serão vãos.
Logo abaixo de "Traffic" vem o mais provável ganhador, "Gladiator", de Ridley Scott, sobre o qual já escrevi mais de uma vez. Scott ressuscitou de forma digna e com claras influências cristãs o antigo gênero do épico romano, com um herói nobre que está mais preocupado com os efeitos de seus atos na eternidade do que com a transformação da sociedade, e com uma excelente descrição de como o Estado fundado na imoralidade produzirá uma tirania. Se "Gladiator" ganhar mesmo o prêmio principal, representará uma mudança na tendência dos últimos anos, porque o último grande filme a ganhar foi "Unforgiven", de 1992.
"Erin Brockovich", também de Soderbergh, é um filme interessante porque revigora o drama de tribunal, fugindo dos lugares-comuns que têm povoado o gênero nos últimos anos, e tem a qualidade de Soderbergh na direção, mas se alonga demais e a história cede a algumas besteiras politicamente corretas. Sua presença na lista foi uma surpresa, mas não foi sem méritos.
Aqui, cabe uma observação: entre os indicados deste ano, há dois grandes filmes e um filme bastante agradável, o que já é uma evolução incrível em relação à coleção de besteiras do ano passado.
Mas este ano tem suas porcarias, sendo "Chocolate" a maior delas, um filme que Mark Steyn muito bem caracterizou como "monumentalmente estúpido". Eu já disse tudo o que tinha a dizer sobre a ridícula obra do diretor de aluguel Lasse Hallström, mas me esqueci de escrever que a premissa básica (o efeito da comida sobre as paixões) foi descaradamente copiada do chatíssimo filme mexicano "Como água para chocolate". Ou seja: não se trata apenas de lixo cultural, mas de lixo cultural plagiário.
"O Tigre e o Dragão" foi, para mim, uma grande decepção, porque Ang Lee nunca fizera um filme ruim antes. Seria injusto dizer que se trata de um filme inteiramente ruim; é um filme visualmente espetacular, inclusive pela presença iluminadora de Zhang Ziyi (de "O caminho para casa"). Mas a história é bobinha, o final é decepcionante e anti-espiritual, e depois de duas cenas de lutas coreografadas com chineses voando, torna-se quase impossível conter as gargalhadas. No fim das contas, acho que James Bowman, da "American Spectator", tem razão: trata-se de uma versão de "As Panteras" para pseudo-intelectuais.
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O problema no e-mail do Indivíduo ainda não foi resolvido; agora não mais por culpa minha e sim por incompetência do provedor.
Mas não fiquem sem mandar mensagens: usem meu e-mail alvaro@avelloso.com - mesmo que a mensagem não seja para mim, eu a repassarei ao destinatário.