No. 54 - 30/03/01

Moral, conformismo e educação utilitária

"É o julgamento solitário que cria a verdadeira intimidade do homem consigo mesmo e é também ele que cria a distância, o espaço interior no qual as experiências vividas e os conhecimentos adquiridos são assimilados, aprofundados e personalizados. Sem esse espaço, sem esse 'mundo' pessoal conquistado na solidão, o homem é apenas um tubo por onde as informações entram e saem - como os alimentos - transformadas em detritos."
(Olavo de Carvalho)

Na excelente matéria de capa da revista The Atlantic de abril, David Brooks traça, a partir de meses de entrevistas com universitários em Princeton, um perfil do que ele chama de "O jovem organizacional". Este jovem, segundo Brooks, é fundamentalmente um conformista, acredita que existe uma ordem nas coisas, que essa ordem é fundamentalmente justa e que tudo que ele precisa fazer para prosperar é adequar-se a ela.

"O mundo em que eles vivem parece fundamentalmente justo. Basta que você trabalhe muito, se comporte de forma agradável, explore seus interesses, participe de voluntariados, obedeça aos códigos do politicamente correto e tome as pílulas certas para balancear a química do seu cérebro, para que você seja recompensado com uma ascensão maravilhosa na hierarquia social. Você vai conseguir ir para Princeton e ter todos os tipos de experiências genuinamente interessantes abertas para você."

Esses jovens são obcecados com as próprias carreiras e com o sucesso acadêmico. Uma das meninas que Brooks entrevistou lhe disse que dormia todo dia às duas horas e acordava às sete, e que podia se dar ao luxo de "descansar tanto" porque encontrara um método de estudar enquanto dormia; um rapaz lhe disse que, para chegar a conversar com algum de seus amigos, precisava marcar um horário na sua agenda - e, quando Brooks mencionou isso para outros grupos, uma menina respondeu que acabara de ter um encontro com uma de suas amigas naquele dia, às sete horas da manhã, e que se não fizesse isso perderia o contato com as amigas.

Obcecados com os estudos acadêmicos e com as matérias da faculdade, é natural que eles não tenham tempo para trivialidades como discussão das questões morais mais graves e das questões políticas da sociedade em que vivem. "É, basicamente, uma questão de horas no dia. As pessoas não têm tempo para se envolver em questões mais amplas.", uma aluna de jornalismo disse a Brooks.

O aspecto mais interessante da matéria é, justamente, o pouco conforto que esses jovens sentem quando confrontados com questões morais.

"Conversando com alunos de Princeton sobre caráter, eu notei duas coisas. Primeiro, eles ficam um pouco nervosos com o assunto. Quando eu perguntava se Princeton ajuda a construir o caráter, eles invariavelmente mencionavam o código de honra contra colas, ou políticas de redução das bebidas alcoólicas. Quando eu perguntava sobre questões morais, eles freqüentemente fugiam de tal conversa e começavam a discutir questões legislativas."

O caso é bastante simples, mas prenhe de lições: os alunos com quem Brooks conversou não tinham nenhum tipo de vida interior. Tudo o que eles sabiam de moral era que você deve trabalhar bastante, deve fazer parte de grupos beneficentes e deve evitar fazer qualquer coisa que o meio social possa vir a reprovar. Por exemplo, sempre que os alunos discordavam entre si, eles o faziam no tom mais respeitoso possível e imaginável, quase evitando afirmar que discordavam. Mais significativo ainda é o depoimento de um professor do departamento de política, Robert George:

"George descreveu um momento em que ele e um colega estavam conclamando os estudantes a não cometer plágio. O código de honra é contra isso, George lhes disse; a Internet torna mais fácil plagiar, mas também torna mais fácil para os membros da faculdade pegar os plagiários. Ademais, ele concluiu, Deus os verá fazendo um ato errado. Subitamente, houve uma estranha movimentação de cadeiras, e seu colega objetou. A idéia de que é possível cometer um ato errado sentado sozinho em seu quarto, ainda que você não cause mal a nenhuma outra pessoa, dificilmente é entendida completamente por americanos modernos, disse George."

Acontece que, se você não concebe nenhum tipo de ato que você possa cometer sozinho e mesmo assim se arrepender, se você não concebe a possibilidade de julgar a si mesmo, de julgar os próprios atos mais íntimos, você não desenvolveu sua consciência moral - e você não tem vida interior. Como diz o autor da epígrafe (aliás, no mesmo artigo), "só aquele que, na solidão, sabe ser rigoroso e justo consigo mesmo - e contra si mesmo - é capaz de julgar os outros com justiça, em vez de se deixar levar pelos gritos da multidão, pelos estereótipos da propaganda, pelo interesse próprio disfarçado em belos pretextos morais."

É fácil entender o porquê. Embora seja uno, o sujeito humano assume diversos papéis sociais, e, no meio social, age de acordo com eles. Num momento, você é o membro do grupo de universitários com futuro brilhante em Princeton; num outro, você é o menino dos olhos de seus pais, o filho no qual eles depositam suas esperanças; num outro ainda, você é o zagueiro do time de futebol; num outro, você é o namorado da fulaninha. Em cada uma dessas circunstâncias, existe um papel a ser representado, existe um comportamento que a circunstância espera de você - mas existe também um fundo que permanece constante em todas essas situações, uma personalidade complexa que identifica o sujeito humano. O sujeito só pode assumir papéis sociais porque tem esse fundo constante, assim como personagens teatrais não podem existir sozinhos, mas dependem de um ator que os represente. Existe, porém, uma escolha fundamental para o sujeito: ele pode aprofundar-se no conhecimento e no desenvolvimento do seu eu, do seu "mundo pessoal", ou ele pode optar por viver uma vida desconexa e essencialmente vaidosa, priorizando os diversos papéis sociais e agindo como se eles fossem a parte verdadeira e valiosa do seu eu.

Uma experiência comum torna isso ainda mais claro (esse exemplo também foi fornecido pelo prof. Olavo de Carvalho). Você já se perguntou qual é a sua verdadeira voz? O tempo inteiro, sem que consigamos fazê-las parar, vozes diversas falam em nossa cabeça - é o famoso fluxo do pensamento. O som das vozes é sempre o mesmo, claro, mas o tom é diferente. Isto porque falam, no nosso pensamento, os nossos diversos papéis sociais, as diversas pressões sociais, as influências de leituras e conversas (e, com o alto grau de ruído psíquico das cidades grandes, todo tipo de influências subliminares). Mas, dentre essas vozes, existe uma que é a nossa mesma, que é a nossa voz mais íntima, a voz do nosso eu verdadeiro - esse que desenvolvemos na solidão, no silêncio, nos "atos sem testemunha". Sem esse esforço de autoconhecimento, não sabemos ouvir nem reconhecer essa voz, e não sabemos nos comunicar conosco mesmos - e, conseqüentemente, não sabemos reconhecer nossas imperfeições, julgar nossos atos, interiorizar e refletir sobre nossas experiências e sobre as informações que recebemos.

Entre os alunos de Princeton, David Brooks notou uma preocupação maior com o que se faz do que com o que se é. Isto porque, desligada da reflexão interior, a ética tende a ser apenas um espetáculo de vaidade, e a ética praticada por esses alunos é apenas um esforço para ser aceito socialmente, para "se realizar" dentro da sociedade. As opiniões que eles expressam sobre a religião, portanto, não são surpreendentes.

Ao contrário da geração que os antecedeu, eles não têm nenhuma vergonha de falar em religião, nem de se dizer interessados nela. Mas eles não estão propriamente interessados em religião, e sim em "espiritualidade".

"Os alunos de hoje estão realmente interessados em religião e em boas obras. 'Nos últimos dez ou doze anos, os alunos deixaram de se sentir envergonhados por se interessar em religião - ou em espiritualidade, como eles a chamam', diz Robert Wuthnow, o sociólogo de Princenton. 'Esta é uma mudança imensa. As pessoas costumam sentir-se como se tivessem acne, se tivessem sido criadas num lar religioso.' Menos de cinco minutos depois da minha chegada ao campus, eu já estava ouvindo sobre todos os estudantes que fazem trabalhos comunitários - ensinam numa escola em Trenton, trabalham em projetos de construção do tipo Habitat para a Humanidade, servem comida em lugares que fornecem sopa para os desabrigados. Mas a religião tende a ser mais privada do que pública para eles, e o caráter de sua fé tende a ser irrestritamente 'para cima'. 'É uma visão otimista', diz Wuthnow. 'Você nunca ouve falar do pecado, do mal, do juízo. É tudo a respeito de amor e de ser feliz."

E esse é precisamente o problema. A "espiritualidade" a que esses alunos aderem é uma espiritualidade que não faz nenhuma exigência em contrapartida, que não requer nenhum esforço de transformação íntima. É uma espiritualidade que os ajudará a subir na vida e a sentir-se bem.

"Se me aceitas, Israel, Eu sou Teu Deus", diz o Senhor no Antigo Testamento. A espiritualidade contemporânea, da qual a desses universitários é uma expressão típica, reverte a frase para "se me aceitas, Senhor, Tu és meu Deus" - isto é, eu aceitarei Deus se ele não me julgar, se ele não exigir nada de mim, se ele atender a todos os caprichos que eu expressar em "orações".

Uma das práticas essenciais do catolicismo é o "exame de consciência". Ele consiste numa série de perguntas, fundadas nos dez mandamentos, que servem de suporte para o fiel analisar os próprios pecados e preparar-se para o sacramento da Confissão. É óbvio que essa prática desenvolve a vida interior e o autoconhecimento, e que ela - ou alguma prática semelhante - é um instrumento indispensável para o aperfeiçoamento moral e para o adensamento da personalidade.

Mas a "espiritualidade" contemporânea rejeita as noções de pecado e de juízo - e, portanto, rejeita a noção de exame de consciência. O que pode surgir daí senão um simulacro de ética, uma ética utilitária para fins de acomodação social? Nesse ambiente, mesmo aqueles que se dizem católicos fazem de tudo para que sua religião não interfira em absolutamente nada de seu comportamento social.

Não é de surpreender, pois, que esses jovens sejam conformistas e deferentes para com as autoridades universitárias. Incapazes de desenvolver uma vida interior, incapazes de julgar o que quer que seja, incapazes de formar uma personalidade profunda, eles apenas seguem o fluxo, e repetem fielmente aquilo que lhes é transmitido. Todos nós conhecemos jovens desse tipo: tiram as melhores notas da classe, são cidadãos exemplares, e se orgulham de ser mais uma peça na engrenagem social. Ou, na expressão perfeita de um deles: "Às vezes nós nos sentimos como se fôssemos apenas instrumentos para processar informações. É disto que nós nos chamamos a nós mesmos - ferramentas poderosas."

O normal, agora, num artigo deste tipo, seria pôr a culpa de tudo no capitalismo e na "mercantilização da sociedade". Mas esse é um raciocínio absurdo. O mercado não é um agente em si mesmo; ele é apenas um instrumento de troca, no qual as pessoas expressam suas preferências. Essas preferências não são determinadas pelo próprio mercado, mas pelas tradições culturais em torno do indivíduo e por sua absorção crítica delas. O capitalismo, por deixar o mercado sem regulações externas, é apenas uma forma de permitir a circulação dessas trocas, de permitir a expressão das preferências individuais. Em si mesmo, pois, o capitalismo não beneficia nem o conformismo nem o inconformismo; ele dá espaço tanto para a inovação quanto para a tradição. O mercado beneficia aquilo que a população em geral deseja - e ainda dá lugar aos dissidentes. Se a maioria da população prefere Britney Spears a Mozart, os discos da Britney Spears venderão mais, mas isso não significa que os discos de Mozart deixarão de ser vendidos - ademais, nada no capitalismo impede que se desenvolva a preferência contrária, e que as gravações das obras de Mozart venham a ter mais público do que as gravações de Britney Spears. Da mesma maneira, tanto podem lucrar no capitalismo cineastas que repitam uma mesma fórmula previamente aprovada pelo público - como, digamos, os produtores dos filmes da Meg Ryan - quanto aqueles que trazem idéias novas e surpreendem o público, como Steven Soderbergh, Ang Lee, Tarantino.

A educação conformista não é necessariamente uma educação voltada para o mercado. Nada é mais conformista do que uma educação comunista. Nos países comunistas, esse tipo de educação visa a tornar os alunos mais servis ao poder estatal; nos países capitalistas, visa, sim, a que eles se rebelem contra uma determinada ordem - a ordem social capitalista - mas não com vistas a libertá-los e abrir seus horizontes, mas sim com vistas a que eles se tornem servis às determinações do Partido. Mesmo a idéia esquerdista de "dissidência democrática" (como a praticada por Lênin e, depois, por Gorbatchov) é apenas a idéia de dissidência dentro da própria esquerda: aceitos determinados pressupostos esquerdistas que não podem ser questionados, aí, sim, pode começar a "discussão".

O problema, mesmo, é que se desenvolveu, ao longo das últimas décadas - ou talvez até antes - uma concepção instrumental e segmentada da educação. Ela passou a ser concebida como útil - seja para adaptar os alunos às "necessidades do mercado" (que podem mudar a todo momento, e por isso essa concepção é absurda), seja para manter o funcionamento do Estado (a "educação cidadã"), seja para fornecer novos membros para o Partido Comunista, seja para ajudar a fomentar a revolução. Não há uma única discussão do assunto no Brasil que não recaia numa dessas concepções.

Acontece que a educação é um valor em si. Ela visa a tirar o sujeito de seu círculo de imanência e permitir que ele ascenda ao nível do legado intelectual da humanidade. Ela visa a fazer que ele seja uma pessoa melhor, a tirá-la da ignorância para revelar-lhe um mundo até então insuspeitado.

Eu disse uma pessoa melhor. Notem o termo pessoa: ele indica o ser humano inteiro, não o cidadão, não o agente econômico, não o membro do partido, não o guerrilheiro. Só há educação verdadeira quando no centro dela está o sujeito, e não os papéis sociais que ele pode assumir, porque o sujeito humano é o substrato sem o qual esses papéis não podem existir e em função do qual eles existem. O contrário, como predomina na educação contemporânea, é não apenas um incentivo à fragmentação da vida do indivíduo, mas uma grotesca inversão de valores.

 

 


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