No. 56 - 13/04/01
Loucuras verdes
"Putting aside, then, these ravings, if, when we say,
Thou shalt not kill, we do not understand this of the plants, since they have
no sensation, nor of the irrational animals that fly, swim, walk, or creep,
since they are dissociated from us by their want of reason, and are therefore
by the just appointment of the Creator subjected to us to kill or keep alive
for our own uses. "
(Santo Agostinho)
Marco Arellano é um "sem teto" nova-iorquino que foi preso semana passada por jogar "algum tipo de substância fecal" em cima dos produtos do bar de saladas de uma "Gourmet Deli" em Nova Iorque. Ao que Jim Knipfel, o mais cínico dos colunistas, respondeu:
"Talvez ele não seja um 'sem teto maluco', e sim um 'hippie'. Um desses puristas da 'comida orgânica', que estava apenas, vocês sabem, fertilizando as coisas. Um amigo meu esteve numa loja de comida orgânica uma vez, e encontrou, hum, matéria fecal obviamente humana no espinafre. Talvez isso seja apenas o que essas pessoas costumam fazer."
A boutade vale menos como um comentário ao caso Arellano do que como um comentário a uma parte das insanidades do movimento verde, essa mania de "comida orgânica". Desde que algum engraçadinho inventou que a agricultura moderna tem "agrotóxicos" que podem ser letais para quem os ingere, outros engraçadinhos estão faturando com produtos "livres de agrotóxicos" - fertilizados apenas com a boa e velha matéria fecal. Isso, sim, é que é comida saudável!
Para atender às necessidades sanitárias tão elevadas dos detentores de uma "consciência ecológica", os supermercados, de uns meses para cá, estão cheios de "produtos orgânicos", que têm as grandes vantagens de ser duas vezes mais feios e dez vezes mais caros do que os produtos comuns (aliás, como os chamaremos? Não-orgânicos?).
A coisa tem implicações um pouco mais sérias. Na recente epidemia de febre aftosa na Inglaterra, alguns idiotas ecológicos quiseram pôr a culpa de tudo na agricultura modernizada e automatizada, mas logo se viu que o problema era justamente o oposto: as condições sanitárias ruins e a alimentação dos porcos com lavagem foram fatores importantes na disseminação da doença; como os fazendeiros britânicos sobrevivem de - ahem - "subsídios" governamentais, têm poucos incentivos para modernizar sua produção e torná-la mais eficiente. Preferem produzir "comida orgânica"...
Mas não é só dessa loucura do movimento verde que quero tratar. Aproveitemos o gancho da febre aftosa e vamos em frente.
Ingrid Newkirk, co-fundadora da PETA (People for the Ethical Treatment of Animals), ao saber da extensão da epidemia na Inglaterra, disse que adoraria que a mesma epidemia se repetisse nos EUA, porque "ela trará prejuízo econômico apenas àqueles que lucram provocando ataques cardíacos nas pessoas e fazendo os animais viver como se estivessem em campos de concentração. Ela será boa para os animais, boa para a saúde humana, e boa para o meio ambiente."
Para Ms. Newkirk, não há problema algum em que fazendeiros percam sua fonte de renda, e em que as pessoas fiquem sem carne para comer, porque fazendeiros são pessoas más que maltratam os pobres animais, e porque ninguém deveria comer carne. E, em defesa dessas idéias, Ms. Newkirk e sua organização não apenas estão dispostos a fazer campanhas de "esclarecimento" e a desejar que a febre aftosa se espalhe pelo mundo, mas também a apoiar atos de terrorismo contra empresas que não obedeçam aos "padrões mínimos" estabelecidos pela PETA.
Mas os alvos do movimento verde não são só as empresas que encorajam a horrível prática de comer carne. Uma outra organização de direitos dos animais, o Animal Liberation Front, chegou a publicar um guia completo de como realizar "sabotagem econômica" em laboratórios que realizem experiências em animais.
Essa gente não vê problema algum em que se fecundem óvulos só para realizar experiências de clonagem, mas basta alguém tentar aplicar uma injeção num ratinho para despertar sua cólera santa. E, seguindo essa lógica, eles preferem que novos produtos cosméticos e farmacológicos sejam testados diretamente em seres humanos ("grupos de controle") do que nos pobres ratos e coelhos.
E isso nos leva ao cérebro por trás de todas essas manifestações, o autor de "Animal Liberation", o maior clássico do movimento por direitos dos animais, Peter Singer. Leitores da minha página terão percebido que tratei da última manifestação desse rapaz admirável quase todos os dias durante a última semana, mas vale a pena falar mais um pouco, e trazer outras de suas idéias à tona.
Quando, em 1999, Singer assumiu a cátedra de ética na Universidade de Princeton, Steve Forbes retirou seu patrocínio à universidade, e não foi por acaso. Sua proposta central é a renovação do pensamento da esquerda através da substituição de Karl Marx por Charles Darwin, com algumas pitadas de Jeremy Bentham, daí ele deriva, como sempre fazem os esquerdistas, todo o plano para um "mundo melhor", para a formação de uma "sociedade ideal", inclusive a determinação de igual salário para todos (e, apesar disso, com a honestidade característica da esquerda, ele diz que seu projeto de sociedade é "compatível com a democracia liberal").
No plano ético - que, afinal, é sua "especialidade" - Singer acredita que a tradicional distinção entre animais e seres humanos deve ser substituída por outra, fundada em princípios utilitários: o que tem relevância moral, segundo ele, não é a racionalidade do ente, mas se ele pode sofrer ou não. Nesse sentido, fetos e seres humanos gravemente debilitados têm menor relevância moral - e, portanto, menos direitos - do que chimpanzés ou gorilas adultos. Daí a política do Animal Liberation Front, inspirada em Singer: laboratórios, façam suas experiências em fetos ou em idosos doentes, não em animais!
Diante dessa opinião, uma pergunta que ocorreria a qualquer um é: Mr. Singer, o senhor tem mãe? Sim, ele tem, e, ironia das ironias, ela sofre de Alzheimer. Inquirido a respeito pela revista Reason, Singer respondeu que a velhinha só permanece viva porque ele não é o único responsável pelas decisões a respeito dela, já que ele tem uma irmã. Se dependesse dele... babau.
A mais recente aplicação do utilitarismo animalesco de Singer foi sua defesa do bestialismo, publicada num site semipornográfico chamado Nerve.com, na qual ele defendia as relações sexuais entre humanos e animais com base no prazer que essas relações proporcionam. Meu parágrafo preferido (aviso às almas mais pudicas: o trecho é de baixíssimo calão, a tal ponto que aqueles que escreveram sobre o artigo de Singer em publicações mais civilizadas e respeitáveis que O Indivíduo, como a National Review e o Washington Times, evitaram transcrevê-lo - aliás, essas publicações também não forneceram um link para o artigo de Singer):
"Quem já não esteve numa reunião social perturbada pelo cachorro da casa agarrando as pernas de um visitante e vigorosamente esfregando nelas seu pênis? Em situações privadas, nem todos objetam a ser usados por seu cachorro dessa maneira, e ocasionalmente atividades mutuamente satisfatórias podem desenvolver-se."
Agora, por favor, prestem atenção ao seguinte: quem escreveu isso não foi o redator de algum site pornográfico (embora o artigo tenha sido publicado num site desse tipo); quem escreveu isso não foi um colegial rebelde; não foi um redator de revistas alternativas adolescentes sobre sexo, drogas e rock; não foi um Luvizaro, um João-ninguém. Quem escreveu essas linhas foi o homem que a revista New Yorker chamou, com certo mas não total exagero, de "o mais influente filósofo vivo", o homem cuja obra é considerada uma histórica revolução no pensamento esquerdista "pós-marxista".
E esse gênio da esquerda publica um artigo sobre as maravilhas do sexo com cachorros e gorilas (os gorilas não estão no trecho citado, mas está no artigo)! Vou repetir: um dos assuntos principais da obra desse "grande filósofo" são as relações sexuais dos seres humanos com cachorros e gorilas!
Ainda há quem queira que se discuta racionalmente essa possibilidade, que se fundamente filosoficamente por que um ser humano não deve fornicar com uma ovelha! Entre os críticos de Singer, houve um que até citou a proibição do Antigo Testamento ao bestialismo. De minha parte, acho que quem se dispõe a discutir racionalmente com um sujeito desses já entrou na loucura dele. Você não vai conseguir provar a um doente mental que ele não é Napoleão, e você certamente não vai conseguir provar a Mr. Singer que ele não é um macaco.
Não dá para ver o movimento de direitos animais como uma oposição legítima com a qual é preciso discutir e dialogar; vejo a existência e o crescimento desse movimento como um sintoma de grave emburrecimento geral da humanidade, de uma queda preocupante no nível geral de inteligência, um sintoma de que, depois de tanto enfatizarmos nossas semelhanças com os macacos, acabamos abolindo as diferenças...
Não só com os macacos, aliás. Quando se descobriu que o número de genes nos seres humanos era menor do que se imaginava, um cretino catedrático de alguma das nossas instituições de pesquisa (Fiocruz, se não me engano) escreveu que essa descoberta do Projeto Genoma era um duro golpe na teoria da evolução, porque, a partir de agora, não poderíamos mais falar em "evolução", pois não haveria mais espécies superiores e outras inferiores, e que acabaríamos descobrindo que a parte mais interessante dos seres humanos são aqueles genes que eles compartilham com as bactérias e os fungos!
A que grau de ridículo chegamos, quando não somos mais capazes de perceber distinções supremamente óbvias! Eu não vou fazer o papel ridículo de explicar a diferença entre seres humanos e micróbios, porque essa é daquelas coisas que é inútil explicar a quem já não as percebeu de antemão. Mas é absurdo que toda a complexidade humana, todo o drama humano tenha sido reduzido a produto de algumas centenas de genes. É absurdo que não concebamos mais nenhuma diferença entre as espécies que não a diferença genética.
Ora, não há explicações genéticas para a Catedral de Chartres, não há explicações genéticas para as peças de Shakespeare, não há explicações genéticas para as obras de Aristóteles, pelo simples fato de que o ser humano é mais do que um aglomerado de genes, o ser humano tem uma liberdade interior que não é determinada pela genética, e é isso que lhe dá complexidade e densidade, é isso que lhe permite inteligir e criar.
Quando perdemos a capacidade de reconhecer essa liberdade interior e de reconhecer o que há de mais nobre no ser humano, perdemos também a concepção de sua grandeza, suas maiores conquistas, sua centralidade na natureza. O movimento dos direitos animais é uma espécie de "anti-humanismo radical", se tomarmos humanismo não no seu sentido corrente - de abolição do aspecto sobrenatural da vida - mas no sentido de reconhecimento da superioridade humana sobre as demais espécies. Assim Robert Nisbet caracterizava o ambientalismo (em 1982, antes das manifestações mais radicais de direitos dos animais):
"O ambientalismo contemporâneo é uma revolta implícita contra a ética do homem e da natureza que remonta aos judeus antigos e aos gregos. 'Sede fecundos e multiplicai-vos; e enchei a terra; e subjugai-a; e dominai sobre os peixes do mar, e sobre as aves do céu, e sobre todos os animais rastejantes sobre a terra', diz Deus aos homens no Gênesis."
No cristianismo, essa dominação do ser humano sobre o restante da criação é ainda mais enfatizada pelo mistério da Encarnação, em que Deus assume um corpo humano.
É essa concepção que está sendo abolida pelo movimento ecológico, do o movimento dos direitos animais é apenas a face mais grotesca. O mesmo tipo de pensamento está posto em evidência nas discussões sobre o nefasto Acordo de Kioto: 95% das emissões de gás carbônico são produzidas pela própria natureza; apenas as demais 5% são produzidas pelo ser humano, mas são estas que estão provocando um aquecimento global que ninguém conseguiu demonstrar de forma inequívoca!
Mas o consenso em torno dessa questão é impressionante; a famosa frase de Nelson Rodrigues segundo a qual toda unanimidade é burra não é necessariamente verdadeira, mas é fato que nunca houve uma unanimidade tão burra quanto a da imprensa brasileira em torno do Acordo de Kioto. Não se publicou um único artigo, em lugar nenhum, sugerindo de longe que possa haver algo errado com pesquisas de "aquecimento global" que usam um tipo de medição para todos os séculos anteriores ao século XX e outro tipo para o próprio século XX, e que localizam a maior porcentagem de aquecimento no início desse século (entre 1910 e 1930) sem tirar nenhuma conclusão daí. Ninguém na nossa imprensa sugeriu que a posição européia é muito conveniente, porque a maior parte da Europa - principalmente a França - usa energia nuclear, e não seria afetada por Kioto, ao contrário dos EUA.
E nossos brilhantes ecologistas ainda fazem a apologia dos países que usam um tipo de energia que eles (como sempre, erradamente) deploram, enquanto criticam os EUA por desejar manter a base de seu fornecimento energético no gás e nas hidrelétricas.
Há, claro, aspectos políticos graves em torno de Kioto (a ponto de Jospin ter dito que Kioto é "indispensável" para o governo global), e para acreditar no aquecimento global provocado pela ação humana é preciso ser imbecil a ponto de acreditar que se alguém ficar pulando por tempo suficiente vai acabar influenciando a rotação da Terra, mas o mais curioso é como essa é mais uma causa ecológica destinada a atacar os próprios seres humanos.
Os homens ficarão sem energia para realizar suas atividades? Melhor para a "mãe Gaia"! Os fazendeiros perderão suas plantações e seus animais? Tanto melhor para os animais, que estarão livre da opressão! Os seres humanos precisam de remédio? Que façam experiências neles próprios, e não sacrifiquem pobres bichinhos em nome de seu bem-estar!
É esse tipo de raciocínio que inspira o movimento "verde" ao redor do mundo. Esse movimento serve para aumentar a tirania estatal em todos os lugares, ao inspirar a criação de inúmeras leis de proteção ambiental (a ponto de até donos de animais domésticos poderem ser processados por estarem, supostamente, maltratando seus animais), prejudica as economias locais, ao introduzir inúmeras regulamentações inúteis, ajuda a formação do governo global, ao criar o pânico de uma crise ecológica mundial da qual só esse Leviatã globalizado pode nos salvar. Mas, mais grave ainda, esse movimento é um ataque direto à própria dignidade humana.
Nenhum de nós quer ver animais sofrer desnecessariamente, nem quer viver em cidades ultrapoluídas. Mas isso não justifica que se ponha o bem-estar das demais espécies animais e a preservação das florestas acima do valor da vida humana.