No. 57 - 20/04/01
Inveja, igualitarismo e tirania
"When inequality is the general rule in society, the
greatest inequalities attract no attention. When everything is more or less
level, the slightest variation is noticed. Hence the more equal men are, the
more insatiable will be their longing for equality."
(Alexis de Tocqueville)
Ao que tudo indica, depois de sofrer algumas emendas que limitaram seu poder destrutivo, o projeto de lei do deputado stalinista Aldo Rebelo proibindo o uso de palavras estrangeiras deverá ser aprovado e transformar-se em lei. O Brasil sempre foi prenhe de idéias idiotas, mas temos de reconhecer que essa é ainda mais idiota que a média.
Não é minha intenção discuti-la aqui, até porque já o fiz em coluna anterior e porque, mais recentemente, gente mais competente (como Olavo de Carvalho e João Ubaldo Ribeiro) o fez também. Não, não entrarei em problemas lingüísticos que, ademais, me parecem suficientemente óbvios para precisarem ser mais uma vez analisados.
O que me chamou a atenção, durante os debates jornalísticos a respeito dessa lei foram os exemplos empregados pelos defensores da lei. Segundo eles, é um absurdo que haja, nas áreas ricas do Rio de Janeiro, um lugar chamado "New York City Center", as pizzarias prometam fazer "delivery", os centros de compra se chamem "shopping centers". Imagino que eles também objetem ao uso de termos como CDs ("compact discs"), DVDs ("digital video disks"), e que talvez até quisessem prender os editores deste "site" não só porque se referem a ele como "site", mas também porque têm uma "newsletter" (ó, horror!), mas a verdade não é que eles não costumam atacar sites obscuros e termos técnicos com a mesma voracidade com que atacam os centros de entretenimento das áreas ricas das cidades brasileiras e os empresários que, por infelicidade, escolheram termos estrangeiros para nomear suas empresas.
Não sou adepto daquele método esquerdista de debate que consiste em produzir análises psicológicas pejorativas contra os adversários ideológicos, mas é impossível não notar que boa parte da motivação para essa lei é, simplesmente, a inveja.
Sim, senhores, a inveja, aquele pecado capital destrutivo, que alguém caracterizou como uma mistura de cobiça, impotência e ressentimento niilista contra tudo que é honrado numa cultura.
Infelizmente, como Tocqueville ressaltou, quanto maior a paixão igualitária numa sociedade, mais se disseminará nela a inveja. Numa cultura em que a noção de distinção entre os indivíduos foi abolida, é normal que qualquer distinção social ou intelectual dê origem a uma furiosa onda de ressentimentos e animosidades invejosas.
No Brasil contemporâneo, nós não conseguimos mais aceitar a idéia de que alguns são mais inteligentes, mais capazes, mais hábeis, mais bonitos, mais talentosos do que os outros; nós achamos que todos são igualmente medíocres, e que, portanto, qualquer distinção social é fruto ou da sorte ou da corrupção, e que ambas - sorte e corrupção - têm de ser imediatamente abolidas pela vigorosa ação do Estado.
É ou não é essa a idéia que o brasileiro médio tem a respeito, por exemplo, da riqueza? Na nossa cultura, ninguém é rico porque está satisfazendo as necessidades dos consumidores, mas sim porque roubou muito dinheiro, porque fez falcatruas financeiras, porque explorou seus trabalhadores, ou simplesmente porque teve sorte. Ora, eu não digo que esses não sejam fatores de riqueza para algumas pessoas - mas nós simplesmente não concebemos outras possibilidades!
Ou, ainda, nossa concepção dos intelectuais. Existe um antiintelectualismo pronunciado em nossa cultura, e qualquer sujeito que se dedique com afinco a temas intelectuais, que estude determinados assuntos profundamente, ou mesmo que cultive uma linguagem culta, é considerado não apenas um esquisitão, mas um esnobe arrogante. Como escreveu Olavo de Carvalho:
"Escândalo ainda maior suscita nesses meios [da classe próspera] quem se arrisque, numa discussão de sobremesa, a alegar em favor de uma opinião divergente alguma coisa que tenha lido: dispor de informações que os interlocutores ignoram é sinal bastante de opinião inválida, como aliás é inválido levar uma discussão a sério até o ponto de desejar provar alguma coisa. O direito à expressão está condicionado, nesses círculos, ao reconhecimento de que a própria opinião é emitida apenas para fins de passatempo, podendo ser trocada amanhã por outra mais confortável. Qualquer ambição intelectual mais alta só é tolerada a título de mal necessário para o exercício de certas profissões: deve ficar restrita aos ambientes de ofício, sem perturbar a paz doméstica."
A riqueza, os privilégios, o sucesso, a argumentação coerente, a inteligência, ofendem diretamente as crenças igualitárias brasileiras, e despertam paixões destrutivas, e eles clamam pela intervenção estatal para restaurar o igualitarismo perdido.
Assim, surgem leis como a de reserva de vagas nas universidades para alunos de escolas públicas, cujos defensores não concebem que haja pessoas que não estão preparadas para entrar numa universidade (mesmo sendo o ensino universitário de nível tão baixo como o brasileiro), ou que haja pessoas mais preparadas e capacitadas do que as outras.
Surgem também leis como esta do nosso deputado stalinista; uma lei cujos defensores transbordam de ódio ao consumismo das classes ricas e à "alienação" das "elites" que preferem os produtos culturais americanos aos nossos (que "nossos"?). Não é apenas nacionalismo que os inspira; é um anticapitalismo rancoroso e igualitário que não admite nenhum sinal de ostentação, nenhum sinal de distinção de classes, nenhum sinal de elitismo.
Num país dominado por esse tipo de sentimentos baixos e grosseiros, são muito poucas as chances de subsistência da liberdade individual, porque ela é diametralmente oposta ao igualitarismo. A liberdade encoraja as diferenças individuais e a expressão dos diversos talentos; aplicada ao mundo econômico, ela permite que o público consumidor opte por aqueles produtos e serviços que melhor lhe caibam, que melhor condigam com seus valores e suas preferências - e, assim, alguns serão bem sucedidos e outros fracassarão, porque alguns atenderão às necessidades dos consumidores e outros não, assim como alguns serão mais ricos que os outros, de acordo com a valoração de seus talentos e de seus produtos pelos consumidores. Quando o igualitarismo invejoso aproveita o poder estatal para reprimir essas diferenças, a tendência será a supressão da liberdade, em nome da uniformização e da padronização.
A lei do deputado Aldo Rebelo pretende uniformizar apenas os aspectos lingüísticos das atividades sociais; a lei de quotas, no fim das contas, prejudicará apenas as universidades públicas, que nem deveriam existir. Mas ambas são preocupantes sintomas de uma patologia generalizada.
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Nota editorial
Este artigo tem relações óbvias com minhas recentes considerações sobre a estatolatria brasileira; ressalto isso para dizer que só esta semana reli o outro artigo, e fiquei horrorizado com os lapsos de revisão e os trechos obscuros. Peço desculpas e aviso que agora os retifiquei.