No. 59 - 04/05/01

Paz perpétua ou guerra total?

"And speaking of lowlifes, the Belgian foreign minister, Louis Michel, has said that the European Union should boycott Italy if, as expected, the right-wing coalition wins the elections next month. Louis Michel is a typical socialist politician, a lunch-bucket pilferer and smiling wallet-lifter par excellence. Michel is particularly exercised, as are many Euro politicians, by the fact that the leader of the Northern League, Umberto Bossi, will enter government. Bossi, according to the body snatchers, is a fascist, which is a name given to all those who do not like socialists and Marxists. Bossi is nothing of the kind; he simply believes in a Europe of the regions and not in a superstate. The Belgian is self-important, bossy and thinks he knows what’s good for the rest of us. " (Taki)

Quando, esta semana, a Alemanha anunciou planos para a formação de um superestado europeu, ouviram-se muitas críticas, mas ninguém declarou uma oposição frontal. A maioria dos líderes dos demais países disse que era muito cedo, que os alemães tinham ido longe demais, que é preciso encontrar uma proposta mais moderada, mas ninguém foi contra a idéia do superestado europeu em si, assim como ninguém é propriamente contra os poderes crescentes da União Européia.

A UE tem propostas para padronizar não apenas a moeda dos países europeus, mas também as legislações trabalhistas, a política tributária, o sistema de medidas (um vendedor recentemente foi preso na Inglaterra por ter a ousadia de não usar o sistema métrico na sua venda), as definições dos alimentos (o chocolate Cadbury, a rigor, não é chocolate; assim como o Prosecco não é champanhe). Até a liberdade de expressão é ameaçada pela UE, que recentemente ressuscitou uma lei do regime fascista italiano para condenar um sujeito que escrevera um livro contra ela. Nem as eleições locais estão seguras: da mesma maneira que sanções comerciais foram impostas à Áustria por ter eleito um primeiro ministro "fascista", há ameaças de sanções à Itália pela audácia de querer eleger Berlusconi.

Toda essa expansão do poder dos burocratas de Bruxelas está baseada em duas idéias fundamentais: a de que nós atingimos um patamar elevado da evolução humana e encontramos o modelo estatal ideal, que deve ser seguido por todas as pessoas civilizadas, e a de que a unificação política da Europa garantirá a paz no continente.

Fala-se muito em fim dos ideais, em relativismo e em fim da crença na razão humana, mas a verdade é que nunca a casta governante foi tão absolutista e tão dogmática. Durante quase toda a história ocidental, sabia-se que os arranjos políticos eram necessariamente provisórios e precários, que a organização estatal dependia das necessidades práticas dos diversos países, que a organização social dependia muito mais das tradições locais do que de um governante iluminado que "liderasse" o país. A partir, principalmente, da Revolução Francesa, começou a desenvolver-se a crença na sabedoria suprema do Estado, no Estado como fonte única dos direitos e do bem-estar social.

As manifestações mais extremas e brutais (nazismo e comunismo) dessa crença estão fora de moda, mas ela ainda está viva e atuante. Ninguém mais acredita em Deus, nem na religião, nem nas tradições familiares, nem na filosofia, mas todos acreditam piamente na possibilidade do Estado livre de imperfeições e no arranjo social perfeito que trará o "fim da História" - que significa o fim dos conflitos políticos, com a uniformização de todas as idéias políticas, o fim dos problemas sociais, o fim das guerras.

Para os burocratas da União Européia, esse arranjo perfeito é encontrado na forma européia de social-democracia. Já escrevi aqui que o social-democrata é como um vampiro inteligente, que não exaure a vítima, mas guarda um pouco de seu sangue para depois. Temos, assim, um sistema que, ao contrário do socialismo antigo, não deseja o fim do livre mercado, nem o igualitarismo social absoluto; mas é, ao mesmo tempo, um sistema que não admite que alguns setores da sociedade sejam "excluídos" e deseja, portanto, que o Estado ajude a "resgatar" aqueles que foram deixados de fora, através da redistribuição de renda. É também um sistema que crê na absoluta necessidade de o Estado prover os "serviços básicos" - saúde, educação, aposentadoria, moradia etc.

Temos, assim, o arranjo ideal europeu, as idéias políticas fora das quais não existe discurso civilizado: impostos altos para financiar o gigantesco welfare state e suas inúmeras regras, pouca intervenção estatal direta na economia para não matar de inanição o setor produtivo. Uma mistura de Miterrand e Magaret Thatcher, de Roosevelt e Reagan (não que Thatcher e Reagan fossem paradigmas da redução do poder do Estado - longe disso - mas eles são os paradigmas da relativa liberalização econômica.)

Os líderes da União Européia acham que essa solução é tão perfeita que deveria ser imediatamente imposta a todos os países do mundo - e, aliás, alguns elementos da receita exigem que assim seja. Daí, por exemplo, o advento da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, que deseja "harmonizar" os impostos em todo o mundo, deixando-os no mesmo patamar da Europa, para que se evite a formação de "paraísos fiscais" que atrairiam, injustamente, a poupança de cidadãos europeus (ou brasileiros, aliás). Daí também a obsessão européia com acordos ambientais - afinal, se o Estado tem de cuidar da saúde de seus súditos, precisa regular o tratamento ambiental ao redor do mundo inteiro.

Desse consenso social-democrata vem parte do desconforto europeu com o novo presidente americano. Bush não é nenhum liberal, mas é certamente mais liberal que seus colegas europeus e do que seu antecessor (aqui uso "liberal" na sua acepção clássica, não na acepção americana). Por isso alguns membros do governo francês dizem que Bush não deveria ser levado em conta, por isso o Guardian (jornal da esquerda inglesa) diz que Bush é uma ameaça à sobrevivência da humanidade, e assim por diante.

Em um de seus inúmeros e intermináveis discursos, Bill Clinton, depois de anunciar o superávit nas contas do governo americano, disse:

- Nós poderíamos dar esse dinheiro de volta para vocês, e esperar que vocês o gastassem de forma apropriada. Mas, se vocês não o gastarem corretamente, eis o que acontecerá: o colapso do sistema de previdência social.

E com isso, imagino, pessoas idosas morrendo nas ruas, crianças famintas sendo forçadas a se prostituir, todo tipo de desastre de que o Estado deve nos salvar, certo?

Mark Steyn resumiu bem o discurso de Clinton: ele estava dizendo que "o governo poderia deixar que as pessoas gastassem seu próprio dinheiro, mas elas não fariam isso de forma apropriada, porque no fundo, admitamos, só o governo sabe como gastar dinheiro corretamente."

E, no entanto, vem um novo presidente e diz que as pessoas têm direito a manter seu próprio dinheiro, e propõe um corte de impostos. Um corte moderado, é verdade, mas um corte gigantesco para os padrões europeus. E, justamente por isso, os socialistas da Europa, acostumados a oito anos de retórica socialista clintonista, não entenderam nada. O que é isso, um troglodita na Casa Branca? Quem esse caipira pensa que é?

Ah, mas isso é a barbárie americana, a terra do materialismo, do capitalismo selvagem, dos ignorantes caipiras. Isso não aconteceria na Europa.

E aqui vem o ponto central: e se esse desafio ao consenso europeu acontecesse na própria Europa? Digamos, por exemplo, e se William Hague, por algum milagre, vencer as próximas eleições inglesas e começar a reduzir a influência de Bruxelas na política inglesa? E se ele puser em prática seus planos de redução de impostos? Ou, mais ainda, e se aparecer um outro político, mais autenticamente conservador, e começar a reduzir o welfare state ou a reduzir o ingresso de imigrantes?

A receita de Bruxelas é simples: sanções econômicas. Eles não tolerarão oposição, não tolerarão desafios ao consenso do estado social-democrata, e eles têm os meios de impor esse consenso aos Estados-membros. Seria desastroso para a economia inglesa, por exemplo, ficar alijada dos mercados europeus, e o governo teria de fazer concessões à União Européia, assim como a Irlanda fez recentemente, quando os cortes de impostos promovidos por Charles McCreevy foram considerados inaceitáveis.

Isto é para mostrar como nós somos burros de ainda acreditar na teoria leninista da guerra. Nós somos tapados a ponto de achar, realmente, que as guerras são causadas por conflitos de interesses econômicos, que o capitalismo inevitavelmente provoca confrontos entre os países, que se os países realizarem comércio sem a intermediação de uma entidade central eles logo estarão se bombardeando uns aos outros. Nós realmente acreditamos que o caminho para a paz não é o comércio e a abertura econômica, mas a restrição "benigna" aos excessos do comércio, através de uma entidade política que regule as relações entre os países e paire sobre eles como uma instância superior.

Franz Metzger, em carta à revista Spectator, disse que a principal razão para a entusiástica adesão alemã à unificação européia é a memória das tragédias das inúmeras guerras em que o país se envolveu ao longo de sua história, e disse que a falta dessas experiências faz que os ingleses rejeitem as guerras com menos ênfase e, portanto, sejam mais propensos ao "euroceticismo":

"Eu não desejo diminuir o sofrimento e a coragem dos ingleses durante a Blitz, nem o luto dos que sofreram perdas pessoais nesse período; mas essas provações individuais não podem comparar-se com os efeitos traumáticos de uma guerra efetivamente ocorrendo dentro de seu país, os choques da derrota e da ocupação pelos quais, em algum estágio, todas as nações envolvidas têm de passar. Além das horríveis devastações, o destino de ser ocupado teve conseqüências especialmente traumáticas. O que aterrorizava não era apenas a perda da soberania e o fato de receber ordens de estrangeiros; era também a perda da distinção clara entre certo e errado, bem e mal - nem todos os colaboradores eram malignos, nem todos os ativistas da resistência eram heróis. A Inglaterra escapou de tudo isso - merecidamente, deve-se acrescentar - mas por isso ela permanece excluída de uma experiência européia comum. Esta experiência compartilhada não apenas permitiu a integração surpreendentemente rápida da Alemanha, a fonte original de toda aquela tristeza, na comunidade das nações européias; ela também está por trás de todo o movimento em direção a uma União Européia que evitará todas as guerras futuras em nosso solo (...). Questões a respeito de que dinheiro e que medidas serão usadas empalidecem diante de tal objetivo, e até mesmo a idéia de 'soberania nacional', já erodida pelas conseqüências econômicas e políticas da globalização, é vista como secundária diante do conceito de 'Nenhuma outra guerra dentro da Europa'."

Um cínico poderia responder que, depois de tentar mil vezes dominar a Europa por meio de guerras e dar-se mal, a Alemanha resolveu fazê-lo por via legislativa - o que não deixa de ser verdade, mas é injusto com Herr Metzger, que certamente é sincero em sua defesa da União Européia. E, justamente, essa crença de que a unificação política garantirá a paz perpétua está sendo disseminada não apenas pela UE, mas pela ONU e seus instrumentos (UNESCO etc.) no mundo inteiro, com planos sinistros (mas nunca ocultos e, admitamos, não muito factíveis) de realizar no mundo inteiro uma unificação política nos moldes da européia.

Essa crença na paz perpétua através da política (que foi desenvolvida por Immanuel Kant), no entanto, deixa de lado a questão que estou levantando: e se algum dos Estados-membros resolver adotar uma política diferente? E se algum povo cansar de ter seu destino determinado por entidades estrangeiras e resolver lutar pela própria autonomia, pela própria liberdade? Enfim: e se alguém desafiar o consenso "civilizado"?

Retomando nosso exemplo, e se a Inglaterra, depois das sanções econômicas, resolvesse não negociar com a União Européia, mas livrar-se dela, mesmo que isso lhe custasse a penúria econômica (penúria que, ademais, enquanto houvesse outros países fora da UE dispostos a comerciar com a Inglaterra, seria pouco provável - mas que certamente aconteceria caso se formasse um governo global)? Não haveria, aí, uma guerra para "preservar a união", nos exatos moldes da "guerra civil" americana?

Talvez essa dita "guerra civil" seja o exemplo mais conhecido - e mais deturpado - de guerra causada pela imposição à força da "democracia". James Ostrowski, em ensaio recente, cita a justificativa de Abraham Lincoln para essa guerra (colchetes e reticências de Ostrowski):

"Nós nos dividimos, [em todas as nossas controvérsias constitucionais], em minorias e maiorias. Se uma minoria (...) prefere a secessão a aquiescer [à maioria], ela cria um precedente que, por sua vez, a dividirá e arruinará; pois uma outra minoria se separará dela, sempre que uma maioria se recusar a ser controlada por tal minoria (...) a idéia central de secessão é a essência da anarquia."

Ostrowski comenta:

"Assim, um motivo substancial para a invasão do Sul por Lincoln era a preservação do princípio do governo da maioria, isto é, a capacidade de a maioria impor sua vontade sobre a minoria. A Guerra entre os Estados revelou a verdadeira natureza da democracia como intimidação. Acontece que normalmente a aceitamos, e a minoria intimidada está espalhada pela nação. Na Guerra entre os Estados, entretanto, a minoria intimidade estava reunida e disposta a lugar. A democracia, no fim das contas, é o reinado da maioria na ponta da baioneta. Tal filosofia é perfeitamente consistente com a tendência de entrar em guerras.

"A maior contribuição da democracia para a guerra é incentivar grupos minoritários a sentir-se explorados pela maioria para tentar uma secessão. A maioria intimidadora - como qualquer senhor de escravos - raramente deixa seus súditos separar-se em paz, e assim surge uma guerra. O provocador é quase sempre o Estado majoritário, e a racionalização para a briga é quase sempre a preservação do princípio da maioria. Lincoln lhes ensinou bem. Guerras lincolnianas surgiram na Irlanda do Norte, no Oriente Médio, o Timor Leste, na Chechênia, na Geórgia, nos Bálcãs, na Índia, em muitos outros lugares."

E, mesmo tendo visto todas essas guerras de independência, de secessão, de autonomia, nós ainda acreditamos que o que provoca guerra é o livre mercado, e que a centralização política trará a paz perpétua!!

Não fico bem no papel de pitonisa, mas eis, aqui, uma previsão: o consenso social-democrata que inspira a União Européia e o governo mundial não apenas não trará a paz perpétua na Europa e no mundo, como é praticamente uma receita para provocar guerras. Pode-se tentar suprimir o desejo de liberdade e de autodeterminação com propaganda, com manipulação química, com ameaças de sanções econômicas, mas, em algum lugar do mundo, na consciência de algum povo, ele subsistirá.

A promessa de paz perpétua através da política é uma promessa de paz de terra arrasada, da paz de senhores e servos. É a promessa do silêncio totalitário que cala à força toda a oposição. Ela está fadada a dar errado, nos poucos lugares e momentos em que der certo provocará choro, ranger de dentes e totalitarismo.

Por isso, é um pouco preocupante ver o oba-oba midiático quando o sr. Hélio Jaguaribe, orgulhando-se de ter sido patrocinado pela UNESCO, vem dizer-nos que o mundo caminha para a paz perpétua através da unificação política e, ao mesmo tempo, promete elaborar uma proposta política bipartidária e consensual a ser aceita pelo país inteiro.

Igualmente preocupante é ver exigências políticas incluídas num acordo econômico, como foi feito na ALCA. Os manifestantes comunistas em Quebec eram todos insanos, mas isso não torna válido e admirável o acordo a que eles se opunham. A mistura de relações econômicas com imposições políticas é a receita do totalitarismo europeu, e não é agradável vê-la desenvolver-se na América.

É certo que o sistema americano é mais flexível do que o europeu, mas, e se assumir o poder por lá um presidente democrata, e "democracia", passar a significar quotas raciais, aumento de impostos, aborto e controle populacional obrigatórios, e assim por diante? Estaríamos implantando aqui um sistema similar ao europeu, com o agravante de que as economias latino-americanas são mais frágeis do que as européias. Esse é o risco da ALCA.

 

 


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