ALVARO VELLOSO DE CARVALHO

No. 6 - 21/04/00

Um Código Penal representa o mínimo de valores a ser preservados numa sociedade. São aqueles valores que, se violados em larga escala, criarão o caos e a desordem - e, justamente por isso, são tutelados pela pesada mão do Estado.

Eu serei o primeiro a dizer que, idealmente, o número desses valores será o menor possível. Mas é preciso que, muitos ou poucos, a sociedade realmente acredite neles. É preciso, para que haja lei e ordem, que as pessoas acreditem no valor da lei e da ordem, e que acreditem nos valores que garantem a lei e a ordem.

Ora, é fácil perceber que, no Brasil, a percepção social dos valores foi totalmente deturpada e distorcida pela campanha pela "ética na política", aliada à gigantesca produção artística de idealização de criminosos. Assim, ladrões e traficantes são alçados à condição de heróis, enquanto qualquer político suspeito (suspeito, não necessariamente culpado) de corrupção é o inimigo público número um. Ninguém mais acredita em direito à propriedade privada, mas ninguém admite que se roube um centavo da propriedade pública.

É claro que, com essa confusão valorativa, a ênfase na punição de criminosos será diminuída - ninguém quer punir quem violou um direito no qual ninguém mais acredita.

Exatamente por isso, o líder do Movimento Sem Terra pode, em rede nacional, anunciar que, a partir de agora, "acabou a trégua com o Governo" e o MST vai intensificar as invasões, e os jornais podem pôr isso na primeira página sem que ninguém se escandalize. O sr. José Rainha pode dizer a todos os ventos que vai mandar seus subordinados praticar uma onda de crimes no país inteiro, sem que ninguém se mobilize, sem que ninguém ache um absurdo, e com o presidente da República dizendo apenas algumas doces e suaves palavras de condenação.

"É preciso sair do isolamento, do egoísmo de cada um de nós. E às vezes até mesmo do isolamento das nossas vontades organizadas", foi o que disse Fernando Henrique. Convenhamos, é muito pouco. Fica parecendo que se trata de apenas um caso de moralidade privada, e não de um caso de graves ofensas a direitos constitucionalmente protegidos, direitos que o Estado existe para resguardar.

Posso parecer alarmista ou exagerado, mas não tenham dúvidas: quando o MST ameaça radicalizar, aumenta o número de invasões, com todo mundo sabendo que o Movimento nada tem a ver com reforma agrária e tudo a ver com revolução comunista, e a imprensa e o Poder Judiciário ficam a favor deles, tudo leva a crer que estamos à beira do colapso do atual sistema de governo.

Uma foto publicada no "Globo" de 19/04 é sintomática: aos risos, numa animada conversa, vemos o presidente do Supremo Tribunal Federal, o deputado do PT José Dirceu (guerrilheiro treinado em Cuba) e um dos líderes do MST, Gilberto Pontes. A pergunta que fica é: de que eles estão rindo?

 

POLITICAGENS

Essa é sensacional: a ONU aprovou, por iniciativa da República Tcheca e da Polônia, uma moção de censura a Cuba, pelas atrocidades de Fidel. O Chile, governado por esquerdistas, votou a favor da moção (isto é, contra Cuba). E o Brasil, como votou? Não votou. Absteve-se. Nosso governo, pelo visto, "não tem opinião formada" sobre Cuba, ainda não sabe se gosta da barba do Fidel ou se prefere defender a liberdade dos cubanos.

Mais sensacional ainda é a cara de pau da ONU, que, no mesmo dia que condenou Cuba absolveu a China, com os votos de verdadeiros bastiões dos direitos humanos como Rússia, Butão, Qatar, Sri Lanka, Paquistão, Sudão - e ninguém menos que a própria ilha de Cuba!

 

DESINFORMATZIA

Como de costume, a intervenção do editorial do jornal "O Globo" nas terríveis atrocidades do governo do Zimbábue contra os fazendeiros brancos do país foi desatrosa. Nossos ditos "analistas internacionais" só sabem escrever a mesma coisa, prescrever a mesma receita: reforma agrária e "democracia".

Os problemas do Zimbábue são muito mais complexos do que a simples geopolítica de manual de nossos jornalistinhas imagina. Quem quiser uma abordagem completa e muito interessante do caso deve ler a reportagem de Anthony LoBaido no WorldNetDaily.com. Na verdade, acho que ninguém na grande imprensa brasileira está preparada para tratar esse assunto porque ninguém quer encarar a trágica constatação de que talvez a descolonização tenha sido um erro, especialmente porque as grandes potências continuaram mandando nas ex-colônias, mas usando métodos muito mais sujos e perversos, de conseqüências trágicas para as populações africanas, como o apoio a ditadores corruptos e sanguinários e o incentivo a guerras civis.

Os poucos países africanos que escaparam da tragédia foram os que se converteram ao islamismo e adotaram um modelo islâmico sunita. Mas mesmo no mundo islâmico, os que seguiram os xiitas estão agora tendo de enfrentar chacinas e perseguições às minorias religiosas, e não contam com nenhum apoio internacional - o Sudão é um exemplo.

 

SÉTIMA ARTE

Na primeira cena, vemos um terreno inóspito, praticamente em preto e branco. Aparece um soldado americano correndo. A única coisa colorida no quadro é um broche com a foto de um bebê preso no capacete do soldado. Ele se volta para trás, e pergunta, não se sabe para quem: "Ainda estamos atirando?" Nenhuma resposta. "Ainda devemos atirar nas pessoas?" De novo, nenhuma resposta. "Eu acho que ele está armado!". O soldado atira, acertando o pescoço do árabe que aparecia ao longe. Vários outros soldados aparecem e cercam o árabe morto, tirando fotos, comemorando, rindo. O soldado que atirara vai para um canto vomitar.

A cena é tão original, engraçada e ao mesmo tempo terrível, que evidentemente o filme que começa com ela não pode ser simplesmente mais um filme de guerra. E Three Kings, realmente, não é o feijão-com-arroz hollywoodiano, e sim uma interessantíssima história de como os piores instintos humanos podem se transformar nos melhores, como os vícios podem virar virtudes.

Além disso, é uma obra revisionista da participação americana na guerra do Kuwait e no combate ao Iraque. Depois de financiar Saddam Hussein, os EUA resolveram combatê-lo quando ele ameaçou interesses americanos no Kuwait. E depois?

Depois, começaram essas vergonhosas restrições comerciais, cujos efeitos foram, em primeiro lugar, matar de fome milhares de iraquianos inocentes e, em segundo lugar, reforçar o poder de Saddam, que pode fazer papel de única salvação para sua população. E os rebeldes opositores de Saddam foram abandonados à própria sorte, tendo quase todos sido assassinados, com os EUA descumprindo a promessa de ajuda.

Em Three Kings, os heróis são justamente esses opositores de um regime tirânico abandonados pelo governo que prometera ajudá-los. E é ao ajudá-los que os anti-heróis deixam de ser simples soldados motivados pela cobiça e pela avareza, e se tornam seres humanos dispostos a arriscar as próprias vidas para ajudar outros.

Não vi nenhum dos outros filmes do diretor David Russell, mas esse é um nome a anotar. A originalidade com que a história é contada, a maneira como as cores da fotografia acompanham o estado de espírito dos personagens, torna seu filme admirável.

Fico agora esperando que alguém no cinema faça o revisionismo do ataque da OTAN à Sérvia.

 

NA REDE

Poucas comemorações do "Dia da Terra", que por fatalidade este ano também é domingo da ressurreição. Praticamente não ouvi ninguém falar no assunto aqui no Brasil.

O que é interessante é que 22 de abril não é apenas dia da Terra, mas, como lembrou Alan Coruba, também dia do aniversário de Lenin, o dia que Kruschev elegeu como data para celebração do comunismo no mundo inteiro.

Se nos lembrarmos de que não existe uma única reivindicação do movimento ecologista que já não tenha sido contestada e refutada por dezenas, centenas, de livros, panfletos, manifestos científicos, revistas especializadas, pesquisas, e que, portanto, a meta do movimento não pode ter nada a ver com ecologia e só pode ser política; e nos lembramos de que a política do movimento ecológico (v. artigo de Lew Rockwell) consiste em restrições à propriedade privada (ao ponto de mais de 40% da terra nos EUA já ser propriedade do Governo), em regulamentos que sufocam a atividade empresarial e tornam os pequenos empreendimentos praticamente impossíveis, e assim por diante, talvez percebamos que isso não é mera coincidência...

Impressionante e imperdível o relato de Justin Raimondo sobre a invasão aos sites sérvios, pretensamente feita por hackers. Ele mostra que, sem a participação da própria Network Solutions, invadir um site burlando a checagem de e-mail é impossível. Isso põe sérias dúvidas sobre o verdadeiro papel da Network Solutions, a empresa responsável por garantir o registro de domínios na internet - garantindo que, se você digita "www.oindividuo.com", depois que ele foi registrado, você vai acessar este site e não outro. Evidentemente, toda a internet depende de que esse sistema funcione. A pergunta que Raimondo lança, e fundamenta, é se a Network Solutions é ligada à CIA.

Mudando para um assunto mais leve, é mesmo impressionante o número de idiotas na internet, como bem disse a colunista de informática do "Globo" Cora Rónai esta semana. Dessa vez, uns imbecis acreditaram que, passando uma determinada quantidade de e-mails, receberiam celulares grátis da Ericsson. O caso foi tão longe que a própria empresa teve de publicar um desmentido.

Todos nós já recebemos um e-mail numa corrente de algum idiota que acha que a Microsoft lhe dará dinheiro por passar aquele e-mail, ou uma mensagem no ICQ avisando que, se não a repassarmos para toda a nossa lista de contatos, teremos de pagar não sei quantos dólares por cada mensagem que mandarmos, e coisas do tipo. Tudo isso é de um infantilismo tecnológico fora do comum, e mostra que tem gente que, sem entender patavina do funcionamento das máquinas que usa, acredita em qualquer bobagem que lhe disserem.

Acabou que o melhor artigo sobre o caso do garoto Elián foi publicado depois que eu já tinha fechado a coluna da semana passada. O artigo de Cabrera Infante, republicado pelo "Estado de São Paulo", é um eloqüente apelo para que permitam que o garoto permaneça em Miami, além de um interessante esclarecimento das razões ocultistas que Fidel teve para investir tão pesado num caso aparentemente menor. Um trecho:

"Perguntam-me se acho que Elián devia ser mandado de volta para Cuba.

"Minha resposta é sempre outra pergunta. Que resposta você espera de mim, como exilado que fugiu de Fidel e levou as duas filhas consigo porque ele não queria que elas vivessem num lugar onde a vida é estúpida e breve?

"Seria o mesmo que pedir a Dante que atravessasse de novo seu Inferno.

"Enviar Elián de volta para a Cuba de Fidel é condená-lo a não ter leite para beber quando completar 7 anos, transformá-lo num "pequeno pioneiro", um rito de passagem, e forçá-lo a aprender um alfabeto que não começa com a letra A, mas com F (inicial do nome da pessoa que vocês conhecem).

"Ele vai crescer mal nutrido, ignorante e com um medo paranóico do terror predominante sob o qual sua conduta será vigiada pela polícia onipresente. A vida de Elián em Cuba será um futuro sem futuro."

 

LENDO O LEITOR

Já estava até ficando mal acostumado. Desde que recomecei a coluna, ainda não tinha recebido nenhum "hate mail", quer dizer, nenhuma mensagem propondo o fim da minha existência física. Mas esta semana, o leitor Daniel Diniz me mandou a seguinte pérola:

"Escrevo porque sou visitante assiduo da pagina do Individuo, e gostaria de me queixar do colunista Alvaro Veloso de Carvalho, que vem acabando com a reputacao do Jornal. Um extremado de direita, que em sua ultima coluna so mostrou sua aversao aos homossexuais (grupo do qual nao faco parte) e ao marxismo.

"No subtitulo "Politicagens" ele chega a confundir alhos com bugalhos ao ridicularmente dizer que Jose Carlos Dias nao poderia combater as drogas porque é a favor da legalizacao, porque ele não está lá para agir de acordo com principios próprios, mas sim para cumprir a lei.

"O que fere não são as bobagens que esse irresponsável escreve, mas a arrogância com que expõe suas idéias.

"No fim do pequeno paragrafo ele chega a cometer a heresia de dizer que praticamente toda a esquerda brasileira é a favor do crime e dos criminosos. Ora, mandem que esse pseudo intelectual faça um curso de antropologia, que leia um pouco de Hobes ou Locke, o garoto (só pode ser um garoto) desconhece a importância da esquerda para a democracia.

"O modo infantil como esse irresponsavel escreve, e com tanta arrogância, literalmente xingando aquele que lê os seus textos e não concorda com ele me deixam perplexo.

" 'É óbvio que os argumentos do tipo "ele terá uma vida melhor em Cuba" não me comovem: só um monstro moral, quase um psicopata, pode achar um negócio desses.' - O que é viver bem para esse irresponsável? Será que ele não percebe que esse conceito é totalmente subjetivo? Mande ele ler Malinowsky e verá que os americanos, e sua fome por dinheiro, são o povo mais primitivo da terra, e talvez o garoto ganhe humanamente vivendo em Cuba.

" 'Como é que alguém pode ser tão cego, tão estúpido, tão cretino? Como é que, décadas depois, ainda tem gente que acredita nas mentiras e fantasias sobre a ilha de Fidel? Quanta palhaçada!' - Não sou comunista, mas será que esse preconceituoso dos diabos já visitou a ilha, ou leu algum livro a respeito da revolucao? Ou ainda participou de alguma reuniao de quadros comunistas da UNE? Ou já assistiu algum discurso do Fidel? - Apesar de odia-lo mortalmente por acreditar que este mandou o Che para a morte na Bolivia.

" 'A atual política de privatização do saneamento básico pode ser caracterizada como uma conspiração do próprio Estado contra a sociedade." - José Dirceu. Caro Dirceu, praticamente tudo que o Estado faz é uma conspiração contra a sociedade, mas não quando ele aceita diminuir seu próprio poder.' - Por último, digam a esse canalha fascista que o Estado não diminui o poder ao privatizar, ele apenas transfere às mãos de outros instrumentos que eram seus, afetando unicamente a sua soberania.

"Morte a esse canalha!

"Desde já aviso que não voltarei a acessar o Jornal de vocês e que essa mensagem será repassada a todos os alunos da PUC - Minas - Arcos, para estudo do pessoal do curso de Jornalismo. Engraçado que vocês já tiveram um nível legal."

Não sei qual é o melhor trecho - se é aquele em que ele pede a minha morte, se aquele em que ele ameaça mandar o e-mail para "o pessoal do curso de jornalismo da PUC" ou se o trecho em que ele me manda ler Locke e Hobbes para descobrir o papel importante da esquerda para a democracia!

De qualquer maneira, eis a resposta que lhe mandei (não houve tréplica, ele deve achar que não estou no nível dele):

Caro Daniel,

É uma honra e um orgulho para este jornal e, especialmente, para este colunista, receber um e-mail tão engraçado de alguém tão claramente cheio de ódio ideológico, e é um motivo maior ainda de orgulho saber que você não voltará ao jornal. Não é para voltar mesmo - a última coisa que queremos são leitores malucos e dementes.

Não vale a pena nem mesmo começar a responder, porque você jamais seria capaz de entender.

Mas, por alto, posso dizer que é muita ingenuidade achar que um ministro seguirá estritamente a letra da lei sem que suas opiniões e ideologias pessoais interfiram no seu trabalho; é muita ignorância não saber das relações entre os presos políticos da Ilha Grande e o Comando Vermelho, e dos partidos de esquerda com o dito "banditismo social"; é mais ignorância ainda achar que em Hobbes e Locke se achará qualquer coisa sobre a importância da esquerda (termo que nem sequer existia para designar uma corrente política no tempo dos dois; aliás, também não existia socialismo), e é muita pretensão vir arrotar esse tipo de ignorância com ar tão pomposo para cima de mim.

Agora, defender Cuba com base em meia dúzia de livros que você certamente não leu, ignorando toda a vasta literatura dos exilados, que vai de Armando Valladares a Cabrera Infante (aliás, recentemente publicamos no "Indivíduo" um artigo de um repórter português que visitou Cuba; talvez você devesse pesquisar o assunto um pouco mais), e ainda chorar lágrimas de crocodilo por um assassino (além de péssimo estrategista militar, derrotado pelo pior exército da América Latina) como Guevara, já não é mais simplesmente ignorância - é burrice mesmo.

Mas nenhuma burrice é tão grande quanto a que apela ao palavrão mais à mão para lançá-lo contra uma opinião política divergente: chamar de "fascista" alguém que acaba de escrever, numa frase de evidente inspiração libertária, defendendo uma política de privatizações, que "praticamente tudo o que o Estado faz é contra a sociedade", francamente... consulte um dicionário antes de entrar em uma discussão política, porque você acaba fazendo esse papel ridículo.

Quanto à conclamação à minha morte, me deixa mais contente ainda, porque demonstra de uma vez por todas a inspiração por trás de toda a sua retórica esquerdista. Não tenho dúvidas de que, ao assumir o poder, seus comparsas políticos realizarão seu desejo. Mas não vai ser medo de gente tão mesquinha e pequena que vai me fazer parar de escrever, ou mudar de opinião.

Quanto à outra ameaça - de repassar sua mensagem para os demais alunos da Faculdade de Jornalismo - acho que o único efeito do ato vai ser transformá-lo em objeto de riso para a faculdade inteira. A não ser, claro, que seus colegas sejam tão analfabetos quanto você...

Atenciosamente,
Alvaro Velloso de Carvalho

 

FÓTONS

"Foi preciso o Brasil chegar aos 500 anos de sua descoberta para os jacobinos gratuitos despejarem sua bílis envenenada, desfazendo do feito glorioso. Cabral, quando saiu do Tejo, deveria ter seguido diretamente para a Índia, conforme determinação de el-rei Dom Manuel. O Brasil continuaria com sua 'estupenda cultura' - os nativos a 'baloiçar' suas vergonhas e as nativas a dar de mamar aos primatas..." - Thelma Calheiros, superintendente da Casa de Portugal no Rio de Janeiro, em carta do jornal O Globo.

"A diferença é a seguinte: da atividade do empresário, mesmo o mais desonesto, resultam sempre uma ativação da economia, uma elevação da produtividade, a expansão dos empregos. Esses resultados podem vir em quantidade grande ou pequena, mas têm de vir necessariamente, pela simples razão de que 'empresa' consiste em produzi-los e em nada mais. Da atividade do político de esquerda, mesmo o mais honesto, resultam sempre um aumento do ódio entre as classes, o crescimento do aparato estatal que terá de ser sustentado pelos padrões com dinheiro extraído aos empregados e consumidores, a politização geral da linguagem que transformará todos os debates em confrontos de força e, em última instância, desembocará num morticínio redentor. Esses resultados também podem vir em quantidades grandes ou pequenas, mas virão necessariamente, pois 'política de esquerda' consiste em produzi-los e em nada mais. " - Olavo de Carvalho

"Estamos numa guerra cultural, e no centro dela está uma grande ofensiva contra o Cristianismo. Quem quer que não acredite nisto está tentando fugir do óbvio. Está na cara de quem quer que leia os jornais, ouça o rádio, assista à televisão, ou vá ao cinema - e pense nas mensagens que estão sendo passadas." - Linda Bowles

"A maneira segura de restaurar e manter nossas liberdades não é ter este ou aquele político no governo, mas, como diziam os fundadores, manter um sentimento público que seja radical e implacavelmente contra qualquer tentativa da elite no poder de tomar o que não é dela." - Llewellyn Rockwell

"Mandar uma criança para apodrecer na cadeia em Cuba sob o pretexto de fazer o que é melhor para ela é uma hipocrisia criminosa." - Leonard Peikoff

"Quando a esquerda clama por 'diversidade', isso não quer necessariamente dizer que ela esteja pronta para tolerar verdadeira discordância." - Joseph Sobran

"Em sua visita, o pai de Elian teve tempo para observar cenários impressionantes aqui nos Estados Unidos, como pessoas com sapato e comida." - Craig Kilborn

 

OS IDIOTAS

"O índio foi corrompido pela 'estupenda cultura' portuguesa. Sua terra foi tomada à força. Vivia em harmonia com a natureza, devastada pelos nossos 'grandes colonizadores'. O índio 'baloiçava suas vergonhas' porque não tinha a maldade do colonizador. Dava de mamar aos primatas porque tinha sentimentos mais nobres e a alma mais pura." - Luiz Fernando Mendes de Santana, respondendo a Thelma Calheiros (v. "Fótons"). Imagino que o canibalismo também seja devido a essa 'alma mais pura'. Rousseau, lá do inferno, manda lembranças.

"Tendo como base a economia mais forte do mundo - fundada no mercado mais rico, no desenvolvimento tecnológico de ramos estratégicos, na superexploração dos trabalhadores norte-americanos, na repatriação dos lucros, na possibilidade de emissão da moeda mundial e no controle do sistema financeiro internacional - os EUA apóiam sua hegemonia na indiscutível superioridade militar e na capacidade de moldas as consciências, as formas de vida, os valores e os estilos de consumo, ao produzir setenta por cento das imagens difundidas pelo mundo." - Emir Sader. Superexploração dos trabalhadores? Emissão de moeda mundial? 70% das imagens? Só o Emir dos crentes para ter a imaginação de inventar tudo isso?

"É importante que se diga que é consenso entre os doutrinadores que a base que melhor representa a capacidade contributiva é a renda, e que sistemas tributários calcados principalmente nesta base tendem a ser os mais justos." - Roberto Mello, presidente do Sindicato dos Fiscais de Renda do Rio de Janeiro. Legislando em causa própria, hem, sr. Mello? O sr. se esquece de dizer que esse é o consenso entre doutrinadores socialistas, porque nenhum liberal que se preze vai defender a monstruosidade que é o imposto de renda, que prejudica justamente quem produz. Ah, mas fui eu que me esqueci: no Brasil, liberais devem ser considerados não existentes. Desculpe-me, sr. Mello.

"À medida que o Estado entrega nas mãos dos empresários o papel de escolher quais atividades serão patrocinadas, ele favorece os grandes eventos e prejudica setores como o teatro, que atingem um número menor de pessoas apesar de seu papel importante." - Sérgio Mamberti. Não lhe parece ter ocorrido que talvez esse "menor número" se deva ao fato de que o teatro brasileiro é muito ruim, nem que, talvez, a população prefira não financiar, com seus impostos, as idiossincrasias de diretores metidos a gênios.

"Seria muito, muito terrível para advogados se Bush fosse eleito. Para combater isso, queremos assegurar que teremos um Presidente, um Congresso e um Senado democratas. Há muito dinheiro de tabaco sendo distribuído." - John P. Coale, um advogado famoso por ganhar muito dinheiro (muito mesmo) em seus processos oportunistas contra a indústria de tabaco. Para garantir o que pretende, Coale já mandou 70 mil dólares para os democratas.

"Pegue um homem que já demonstrou tendências para ofensas sexuais. Ele está impotente, e já tentou suicídio por causa disso. Então, dê-lhe Viagra. Que efeito o Viagra vai ter em alguém nessa situação?" - Charles Salvagio, defendendo com essa base um homem no Alabama que estuprou uma criança. Está certo: a culpa é do Viagra!

 

ARTIGO DA SEMANA

Não gosto de dar lições de moral, nem me sinto em condições de dar qualquer tipo de conselho religioso. Prefiro deixar essa incumbência a quem tenha autoridade para tanto. Mesmo assim, gostaria de, mesmo depois de terminada a Quaresma e de estamos já nos três dias da Paixão e da Ressurreição de Nosso Senhor, transcrever esse belo artigo de Gustavo Corção, publicado em "O Globo" (bons tempos...) de 20 de fevereiro de 1969, e republicado na edição de março/abril de 1987 da "Permanência":

O Espírito de Quaresma

Gustavo Corção

A Igreja nos desdobra o maravilhoso panorama das várias lições que vitalmente interessam, ou deviam interessar aos seus filhos, e assim reaviva nas várias estações do ano litúrgico certas noções que deveriam ser companheiras de todos os passos de nossa vida. Assim é a Quaresma. Segundo ensina nosso pai São Bento, a vida inteira do monge deveria ser uma quaresma ininterrupta. Como isto é impossível para os fracos, e como a Regra Monástica, à semelhança da Igreja, é moderada para que os fortes possam dar mais, e para que os débeis não desanimem, representamos nesta quadra do ano o mistério da preparação da Paixão redentora do Cristo, e concitamos nossos irmãos e amigos a aproveitarem esta sabatina que reaviva o espírito de quaresma.

Qual é a lição essencial da quaresma, no que nos diz respeito? A Igreja responde com a liturgia das cinzas, e nós podemos desenvolver a idéia: o que nos cumpre aprender nestes dias, mais do que nos outros, é a doce e santa lição de nossa total dependência nas mãos de Deus. Ou como diria Santa Catarina de Sena, na sua linguagem de sangue e fogo: devemos aprender a lição de nosso nada.

Todo o mundo moderno é desatento, brutalmente desatento ao espírito da quaresma. Um humanismo insolente, grosseiro, agora reforçado com as estridências que se ouvem pela porta dos fundos da Igreja, tenta inculcar no homem uma confiança em si que o deixe esquecido de sua condição peregrinal e de sua destinação última. Vivemos dentro de uma espessa idolatria: todos querem exaltar os valores humanos em detrimento ou com esquecimento de sua total dependência de Deus. O nome de Deus é silenciado, é empurrado para a obscuridade, para que a glória do homem refulja.

Entende-se bem que o homem realize neste mundo, do melhor modo possível, sua instalação, ou melhor, sua afirmação de domínio sobre o mundo inferior. É bela a conquista da Ciência que exalta a razão e a específica superioridade do homem sobre todo o Universo visível. É confortador o progresso técnico que nos assegura um decente conforto neste trem expresso onde às vezes esquecemos a brevidade do tempo. É bela a civilização que realmente enaltece os valores humanos em contraste com a mundo inferior; mas tudo isto só se mantém em ordem razoável se ao mesmo tempo nos lembrarmos de exaltar a glória de Deus e nossa completa e total dependência. O inferior deve submeter-se ao superior: é razoável que o homem submeta os átomos, mas é loucura submeter os átomos e esquecer que devemos nós mesmos nos submeter a Deus.

A própria psicologia moderna, impregnada de empirismo, tem horror a certas categorias espirituais que fogem aos seus quadros. Assim é que combate com todo o seu vigor todos os sentimentos de insegurança. Ora, isto é uma monstruosidade a mais que se pratica neste vale de lágrimas. É claro que devemos ser corajosos, que devemos ser audazes, que não devemos ser pusilânimes, mas daí não se deduz que devamos nos sentir seguramente instalados na vida. Este sentimento é perfeitamente estúpido e grosseiramente anti-espiritual. A alma cristã, com todas aquelas qualidades de bravura e de audácia, sabe que sua vida pende de um fio que está nas mãos de Deus; e desta ciência não tira amargura nenhuma, ao contrário, tira a humildade, a ação de graças, e o infinito amor pelo Ser absoluto a que a todos nos sustenta. E em termos mais próximos da paixão de Cristo, o sentimento de fragilidade e contingência se traduz em vínculo de caridade que nos prende à videira santa, à Cruz em que pomos toda a exaltação e toda a glória.

O grande judeu Egon Friedel, em sua História da Cultura, teve a finura de sentir o valor sobre-humano do sentimento de fragilidade e de insegurança do medieval. O meio social ajudava, a ciência médica estava numa fase infantil e até caricata que levava o grande São Bernardo, que obedecia pontualmente às extravagantes prescrições de um esculápio, dizer com mansa tristeza: "Eu, que no Mosteiro tenho o encargo de dirigir e dar ordens a santos, tenho de obedecer a um asno". Toda essa pobreza de meios tinha impedido o surto do humanismo senhor de si mesmo, e o arguto judeu se admirava da espiritualidade que iluminava todo aquele povo medieval. Eles sabiam que a vida era uma grande aventura, e que a dependência de Deus se fazia sentir em todos os atos de coragem e de abandono, ou de resignação e tristeza.

Progredimos muito em veículos, em máquinas, em produção, mas no momento parece que regredimos em relação ao espírito de quaresma. Sirva-nos isto de incitamento e de lição, e procuremos nós viver mais a fundo essa presença de Deus que produz a humildade agradecida e amorosa.