No. 60 - 11/05/01

Brave New Britain

"In a Western democracy persecution takes a different and more insidious form. It is politically incorrect to discriminate against sexual, racial or immigrant minorities, but there is no such protection for the original indigenous population of the British Isles. The government has legislated the breakup of the geographical entities of the country, the teaching of grammar and spelling of English has been abolished in the schools, as well as the country’s history and literature. The rural community is discriminated against, as it is more traditional and less malleable. The brainwashing, which in dictatorships was conducted by a Dr. Goebbels or the politburo, is just as effectively achieved by the inane entertainments on television, creating an electorate of addicts as pathetic as victims of heroin and crack. Dumbing down is more effective than prison in a democracy."
(Claus von Bulow)

Em recente artigo no Washington Times, Diane West se espanta com a proibição imposta por um grupo de "direitos raciais" ao debate sobre a imigração na Inglaterra. Ela não deveria surpreender-se. Lendo a Spectator da semana passada, cheguei à conclusão de que, por lá, o Brave New World já chegou, nos braços do "New Labour", o movimento liderado por Tony Blair e (no início) Peter Mandelson, que de uma pequena célula do partido trabalhista britânico virou o consenso político inglês, e que certamente sairá vitorioso das eleições que se realizarão em breve.

Na seção de resumo das notícias, fala-se no episódio comentado por West: os candidatos das próximas eleições foram forçados pela "Comissão da Igualdade Racial" a assinar uma declaração comprometendo-se a "não explorar temas raciais nas eleições", ou, mais especificamente, a não usar linguagem que possa "provocar ódio racial ou religioso ou levar preconceitos com base em raça, nacionalidade ou religião."

Depois, o assunto do editorial é o novo censo britânico, que tem mais de vinte páginas de perguntas, inclusive a estranha indagação sobre se o banheiro da casa é usado apenas pelos habitantes da própria casa, e com a polêmica ausência de distinções entre católicos, batistas e anglicanos na pergunta sobre religião (todos são "cristãos").

A colunista de linguagem, um pouco adiante, faz uma observação sobre uma das instruções do censo, que diz: "If you were to refuse to complete your form properly, you may be liable to presecution" ("se você se recusasse a completar corretamente seu formulário, você pode ser indiciado"), o que, em português ou em inglês, não apenas é sinal da intrusão estatal, é sinal de que os burocratas não sabem gramática.

Logo depois, há um artigo sobre Robin Birley, um sujeito que foi passear com seu cachorro de um ano de idade num parque britânico e, ao soltar o cachorro da coleira, o animal latiu para os cavalos de dois policiais, que, treinados (os cavalos) para permanecer impávidos diante de manifestantes armados de pedras e paus, nem chegaram a piscar. Mas não apenas o sujeito teve de ouvir um sermão de uma burocrata encarregada da "segurança dos parques", como um mês depois recebeu uma intimação para comparecer em juízo e responder sobre o perigoso comportamento de seu cachorro. No caso, o juiz acolheu a acusação contra Birley, baseando-se no testemunho falso da burocrata, segundo quem o cachorro assustara mais de dez pessoas no parque e fizera os cavalos recuar assustados. Nenhuma das tais dez pessoas testemunhou no caso, mas isso não fez diferença alguma.

Birley foi fichado criminalmente e pagou uma multa de £100 pelos custos da promotoria. Sem desejar ficar fichado por um "crime" tão aburdo, e temendo que seu cachorro fosse sacrificado em função do "Dangerous Dogs Act", Birley recorreu. No tribunal de apelação, um dos magistrados era... o mesmo magistrado que dera a sentença inicial!! (Lembro-me, aqui, da frase de algum processualista famoso que dizia que para conhecer o grau de tirania ou liberdade de um país é preciso conhecer seu direito processual; que direito processual maluco é esse em que o mesmo juiz atua nas duas instâncias?!)

Resultado: embora seu cachorro não tenha sido sacrificado, o "crime" de Birley permaneceu.

Segundo o autor do artigo, Andrew Roberts, esse tipo de caso tem sido cada vez mais comum na Inglaterra [grifos meus]:

"Tendo sido derrotado em seu recurso, Birley agora se une ao 'mártir métrico' Steve Thburn como detentor de uma condenação criminal por ter feito algo que os ingleses têm feito há séculos. Ou poderíamos mencionar a recente ação contra Christian Sweeting, o candidato conservador de Torbay, que foi inicialmente processado com base na seção 16A do 'Firearms Act de 1968' [Lei das armas de fogo] por ter simplesmente apontado um rifle descarregado e velho de mais de trinta anos a delinqüentes que estavam ameaçando invadir a casa de sua mãe e estavam causando danos - que depois custariam milhares de libras - na sua Mercedes estacionada do lado de fora."

Em suma, diz Roberts:

"O peso da lei tem sido descarregado com força total sobre ingleses respeitáveis cujos cachorros têm a temeridade de latir, ou que desejam vender suas mercadorias nas medidas imperiais [e não nas medidas métricas, como obriga a União Européia], ou que protegem suas famílias e suas propriedades, enquanto em outros lugares a polícia diz às pessoas cujos carros ou casas foram roubados que está muito ocupada para ir a cenas de crimes."

Como que para corroborar essa afirmação, logo à frente o Dr. Theodore Dalrymple (que escreve duas vezes por mês sobre suas experiências como médico em prisões inglesas), conta que foi multado por ter parado seu carro durante alguns minutos na frente de um hotel londrino (não havia nenhuma vaga próxima e ele parou temporariamente o carro ali para retirar sua mala), enquanto a polícia nada fez diante das ameaças de morte que ele recebeu, diante de duas testemunhas, de um criminoso num hospital de uma prisão:

"O Estado britânico, portanto, está mais preocupado em evitar que se estacione em linhas amarelas duplas (elas mesmas um sinal da intrusão estatal) por dois minutos do que em evitar o assassinato de seus cidadãos. Estacionar é um pecado mortal, mas assassinato é venial."

Ademais, diz ele, na sua área residencial, uma van do Sistema Nacional de Saúde distribui camisinhas, pílulas anticoncepcionais, comida e bebidas para prostitutas e demais "trabalhadores de ruas", mas a polícia, consultada a respeito, nega ter conhecimento da "indústria sexual" na região.

Como se isso fosse pouco, logo adiante há uma entrevista do Home Secretary (uma espécie de "ministro da Justiça"), Jack Straw (que ascendeu à fama mundial na época da prisão ilegal de Pinochet), defendendo a atuação da promotoria no caso da briga das crianças no pátio escolar (como um dos garotos era asiático, o outro foi acusado de "agressão agravada por racismo"), e dizendo que a definição de crimes raciais com a qual o governo britânico trabalha é a seguinte pérola: "um incidente racista é qualquer incidente percebido como tal pela vítima ou por qualquer outra pessoa."

Segundo Straw, ninguém nunca apresentou uma definição melhor, e realmente não importa que essa definição subjetiva seja um verdadeiro atentado à segurança jurídica e provoque curiosas distorções como o fato de que a agressão em massa de estudantes asiáticos a brancos em Bradford, ao contrário da agressão do garoto branco ao asiático, não tenha sido considerada "crime racial".

Por fim, a cereja do bolo do totalitarismo britânico: Ross Clark conta que um político chamado Simon Thomas está tão convencido da superioridade da comida orgânica que está disposto a forçar todos os ingleses a comê-la, propondo uma legislação que obrigará um terço de toda a produção agrícola do país a ser orgânica. Como diz Clark:

"Há muitos argumentos em favor da comida orgânica, alguns dos quais, como o de que ela é menos prejudicial ao solo, estão abertos para o debate; outros dos quais, como a afirmativa de que o gosto é melhor, são inteiramente subjetivas. Também há alguns bons argumentos contra a comida orgânica: há maior probabilidade de que animais criados em pátio aberto e amplo espalhem doenças como a febre aftosa. A comida 'orgânica' - o 'orgânico' merece ser posto entre aspas, porque qualquer comida, seja ela recém-tirada da terra adubada com estrume ou embrulhada em embalagens a vácuo e ensopada de pesticidas, é, em termos químicos, orgânica - talvez fosse menos popular se o público soubesse que ela proíbe práticas seculares como a que consiste em espalhar fosfato pelos campos, e permite práticas recentes e nocivas como a que consiste em espalhar estrume líquido.

"Mas se a comida orgânica é tão melhor, por que não confiar nos consumidores e permitir que eles façam seu próprio julgamento? Introduzir um sistema de quotas, forçando as lojas a comprar comida orgânica apenas dará incentivos aos fazendeiros para produzirem toneladas de produtos de baixos padrões que, em outra situação, os compradores desprezariam. A não ser que você deseje pagar o dobro do preço por vegetais enrugados e mofados, é melhor você desenvolver o hábito de chegar cedo às feiras de vegetais, antes que a comida não-orgânica se esgote."

Obsessão com a segurança nos parques, censura com bases raciais, obrigatoriedade da comida orgânica, perseguição racista a crimes supostamente racistas, intrusão através do censo, eficiência na perseguição a crimes insignificantes e ineficiência quase paralítica na perseguição a crimes mais graves, maltratos oficiais à língua...

Esse é o terrível panorama da vida política que se deduz da leitura de uma revista semanal, no país que foi um dos pais da democracia moderna!

E num país que nunca teve a menor preocupação com as liberdades individuais? Claro que um panorama igualmente assustador poderia ser traçado da vida no Brasil. Entrariam alguns outros elementos, característicos da nossa estatolatria; ademais, alguns dos elementos ingleses estão ainda apenas em germe por aqui, como a intrusão do censo e outros ainda são causas à espera de um grande "benfeitor", como a nobre causa da comida orgânica. Mas não veremos esse panorama em nossa impresa, porque casos de tirania estatal não costumam figurar nela. Muito pelo contrário: a ocupação preferida da nossa imprensa é solicitar o aumento dessa tirania!

 

 


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