No. 61 - 18/05/01

Fugir da responsabilidade é fugir do mundo

"C'est une grande peine de se dire: en prenant un chemin, j'en abandonne mille."
(A.-D. Sertillanges, O.P.)

Uma das promessas mais falsas da cultura contemporânea é a promessa de que o ser humano pode escapar das conseqüências de seus atos.

Mesmo flagrantemente falsa, essa promessa é muito atraente, e por isso mesmo é muito difundida, chegando a constituir uma premissa básica de boa parte dos juízos éticos e políticos contemporâneos.

Ora, o ser humano, enquanto está apenas pensando, pode ir para a frente e para trás e testar inúmeras hipóteses. Ele pode elaborar um curso de ação, deduzir suas conseqüências, julgá-las, e resolver voltar atrás, testar outra hipótese, com outras conseqüências; ele pode ficar em dúvida entre diversas hipóteses, e transitar seguidamente entre elas, incapaz de escolher uma. Enquanto ele está apenas pensando, nada impede que ele apague o caminho que percorreu e percorra outro completamente diferente.

A ação não tem essa mesma flexibilidade, não tem a mesma fluidez do pensamento. Agir é escolher uma dessas hipóteses, e essa simples escolha tem efeitos que não podem ser revertidos. Você pode optar entre pular do alto de um prédio ou não, mas não pode, depois que pulou, mudar de idéia no meio do caminho.

No entanto, o que boa parte da nossa cultura promete é, justamente, a possibilidade de pular do alto do prédio e não cair no chão. O que se promete é que se possa seguir um curso de ação e que se possam evitar as conseqüências desse curso, revertendo de alguma maneira mágica o transcurso do tempo.

Por exemplo, nós achamos que é possível criar um sistema rígido de regras ambientais, usar essas regras para impedir a construção de hidrelétricas ou usinas nucleares, ao mesmo tempo em que aumenta o consumo de energia, e mesmo assim continuarmos todos a desfrutar normalmente de energia elétrica, como se ela se produzisse por milagre.

Em São Paulo, há um sujeito ocupando a secretaria do meio ambiente, um engenheiro. Da aprovação dele depende a construção de qualquer nova hidrelétrica; ele leva mais de dois anos analisando a compatibilidade de qualquer novo projeto com as regras ambientais e, suponho, cuida para que essa construção não viole os direitos das árvores, dos rios e dos mosquitos que vivem nas florestas.

E, mesmo tendo construído um sistema desses, nós ainda esperamos que a produção energética nacional continue eficiente e supra toda a demanda.

Mas nós também esperamos estimular o crescimento econômico instituindo impostos progressivos e penalizando as grandes fortunas, isto é, esperamos penalizar o crescimento econômico e estimulá-lo ao mesmo tempo. Nós também esperamos desenvolver uma cultura que extermine toda a idéia de virtude, de autocontrole, de obediência às normas morais, e ao mesmo tempo impedir que adolescentes usem cocaína. Nós também esperamos abolir o crime instituindo o monopólio das armas para a polícia e para os bandidos, isto é, os dois grupos responsáveis pelo maior número de crimes violentos. Nós também esperamos implantar no Brasil o único modelo de comunismo do mundo que não trará nem miséria nem tirania.

A lista de casos em que nós esperamos que nossas ações não tenham conseqüências poderia continuar indefinidamente. E estes são apenas os casos públicos, casos em que esse desejo de negar a realidade se manifesta socialmente, no debate político. Todos conhecemos manifestações particulares desse desejo, pessoas que são incapazes de projetar as conseqüências mais óbvias dos próprios atos e, depois, ficam surpresas quando elas acontecem; se desesperam, choram e blasfemam, chegando a atribuir a Deus a culpa pela própria estupidez e pela própria perversidade.

Uma expressão que eu ouvia na minha infância era "depois você vai chorar na cama, que é lugar quente". Nunca entendi direito por que é que se dizia que a cama era lugar quente num contexto desses, mas a mensagem era claríssima: você até pode, agora, fingir que não percebe os efeitos mais desagradáveis que seus atos causarão; esse ato lhe parece tão atraente, tão interessante, tão divertido, tão prazeroso, que você prefere fingir para você mesmo que ele é a coisa mais certa a ser feita e você prefere fingir ignorar as conseqüências desastrosas que ele trará. Mas, não adianta fugir delas, cedo ou tarde elas vão te alcançar: e aí haverá choro e ranger de dentes.

Incrível como toda essa lição se resumia na expressão "depois você vai chorar na cama, que é lugar quente". Pouco tempo depois, ouvi nos filmes americanos a expressão "você não pode ficar com o bolo e comê-lo ao mesmo tempo", e logo vi que havia uma relação entre as duas. Não apenas suas ações têm conseqüências, como elas são irreversíveis. Depois que você agiu, babau: não dá mais para fazer a ação contrária. Voltando ao exemplo do começo: não apenas depois que você se atirou do prédio não há mais como evitar sua queda no chão, como não é possível, ao mesmo tempo, pular e não pular do prédio. Essa, aliás, é precisamente a diferença entre pensar e agir.

No entanto, aí estão duas lições básicas que uma cultura inteira insiste em ignorar e, até mais, em negar. E não são apenas políticos progressistas que insistem em prometer a renovação do mundo e a irresponsabilidade geral (esse puerilismo, aliás, é da própria essência do progressismo); é uma massa inteira de psicólogos sugerindo que as pessoas "esqueçam suas culpas"; é uma outra massa de autores de livros de auto-ajuda promovendo a obsessão com o presente e o esquecimento do futuro e do passado, promovendo o "viver o hoje, viver o momento", como se o hoje não incluísse o ontem e o amanhã, como se o momento não trouxesse imbricadas todas as ações precedentes que levaram a ele e não trouxesse em germe todas as conseqüências futuras das ações presentes.

Essa negação da responsabilidade humana por seus atos, essa negação da inevitável obrigação de arcar com as conseqüências das próprias ações, essa mentira existencial é tão atraente, segundo Olavo de Carvalho, "justamente por seu próprio caráter inelutável." É impossível não sofrer os efeitos das próprias ações, é impossível negar o princípio de autoria ("eu fiz o que fiz"), que está na base da noção de responsabilidade, e, justamente por isso, diz Olavo:

"Ele se impõe a você como um peso que te esmaga, e há momentos nos quais você desejaria que isto não fosse verdade. Em que momentos? Naqueles momentos em que você não deseja responder por seus atos, não deseja responder por seu passado, não deseja responder por sua própria biografia, ou seja, na hora em que você mais se odeia. Como é muito fácil o homem se odiar, como é muito fácil ele ter errado muito e desejar suprimir todo o seu passado e começar do zero."

Se, do ponto de vista político, essa negação da realidade é o ponto de partida para toda tirania e para todo empreendimento de enganação da população, do ponto de vista psicológico ele é a negação do próprio eu, a desconstrução da própria identidade e o início de uma imersão psicopatológica no reino da mentira e da falsidade.

Aceitar a autoria e, portanto, aceitar as conseqüências dos próprios atos é um ponto de partida para que o ser humano reconheça que ele é ele, e para que ele possa ter uma consistência existencial e, portanto, um sentido, um plano de vida. E se esse é um ponto de partida para a vida moral, é também um ponto de partida para a vida intelectual, porque reconhecer a autoria é também reconhecer que eu pensei o que pensei, que eu vi o que vi, que eu percebi o que percebi, e que eu só vou ser capaz de dizer a verdade se for fiel a mim mesmo, se for fiel àquilo que eu testemunhei. É por isso que os defensores de uma vida intelectual completamente desligada da vida moral não fazem a menor idéia do que seja nem uma nem outra.

E é por isso que a negação das conseqüências dos próprios atos é a negação do próprio senso de realidade, é a imersão na fantasia. É por isso que a promessa da eterna infância não é apenas falsa, é também perigosa e desastrosa, tanto social quanto individualmente. Nas palavras de Olavo de Carvalho:

"Nós temos dois caminhos. Um é este da plena aceitação das condições da vida em que nós estamos, a começar pela aceitação desse princípio: quem fez meus atos fui eu, somando todos um a um, dá no que deu, dá no estado presente e não em outra coisa, não há nenhuma possibilidade de mudar isso num relance e daqui para diante eu vou continuar existindo no tempo e, pior ainda, a cada dia que passa estou cometendo mais atos e eles vão se acumular e os seus efeitos vão continuar se empilhando numa torre cada vez mais alta, cada vez mais pesada, de modo que a cada dia eu tenho menos possibilidades, a cada dia a esfera do que eu posso fazer se estreita, e o meu horizonte vai ficando cada vez mais estreito, mais estreito, até o momento em que não se passa mais nada e eu morro. Um dos caminhos é aceitar plenamente isso, e esta plena aceitação da morte é, curiosamente, o que nos dá coragem de viver.

"Existe a outra alternativa, que é viver na esperança de uma transfiguração momentânea que me devolverá, já agora na idade adulta, todas as possibilidades da inocência infantil, ou seja, eu terei a inocência de uma criança junto com os poderes de um adulto. Todas as pessoas que vivem nesta esperança querem viver totalmente sem culpas, querem viver sem ter de responder por seu passado, e vivem nos prometendo um mundo melhor."

 

 


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