No. 62 - 25/05/01
Extorsão globalizada
"The era of guiltlessness under our Left-Liberal culture
lasted, as I remember, about six months. Now, the entire culture is characterized
by massive collective guilt, and if anyone fails to give due public lip-service
to a long list of solemnly avowed guilts, he is literally driven from public
life. Guilt is everywhere, all-pervasive, and brought to us by the same scoundrels
who once promised us easy liberation. A brief rundown: guilt for centuries of
slavery, guilt for the oppression and rape of women, guilt for the Holocaust,
guilt for the existence of the handicapped, guilt for eating and killing animals,
guilt for being fat, guilt for not recycling your garbage, guilt for 'desecrating
the Earth.'
Note that this guilt is never confined to the specific individuals, say,
who enslaved or murdered or raped people. (There are, I dare say, very few enslavers
left in America today - say a Southern slaveholder aged 150?) Effectiveness
in inducing guilt comes precisely because the guilt is not specific but collective,
extending throughout the world and apparently for all time.
In the old days, we reviled the Nazis for their doctrine of collective guilt;
now we embrace the same Nazi concept as a vital feature of our ethical system."
(Murray Rothbard)
Segundo uma pesquisa
do jornal Chicago Tribune, 66% dos negros de Illinois são a favor
das reparações financeiras pela escravidão, com 15% deles
contra. Entre os brancos, 5% são a favor e 85% são contra.
Não há nenhuma surpresa nos números dos brancos, mas o número de negros a favor das reparações tem crescido, em virtude da intensificação da propaganda do movimento negro em torno dessa questão. De resto, esses números mostram a imensa divisão entre as raças produzida por essa idéia. E não é para menos: a proposta de cobrança de reparações dos brancos por crimes raciais nada mais é que um gigantesco esquema de extorsão de uma raça por outra, e a ninguém deve surpreender que a raça beneficiada o apóie e a raça prejudicada o rejeite.
A ONU entra em cena
Só que esse esquema extorsivo não é mais um problema interno americano: ele está se globalizando. Os países africanos pretendem, na conferência mundial sobre "Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerâncias Relacionadas" a ser promovida pela ONU, apresentar uma proposta para que a escravidão promovida pelos países ocidentais no continente seja considerada um "crime contra a humanidade", para que, a partir daí, esses países, pobres vítimas da escravidão, possam cobrar vultuosas reparações dos norte-americanos e europeus.
Acho curiosíssima a omissão da América Latina do rol dos que devem pagar pela escravidão, porque aqui houve tanta escravidão quanto na América anglo-saxônica, e o argumento de que os escravos foram trazidos aqui pelos europeus não justifica nossa exclusão, porque o mesmo argumento teria de ser aplicado à América do Norte. Não, não há motivos históricos para essa exclusão: é que de bobos os africanos não têm nada, e eles sabem bem onde está o dinheiro...
Curiosamente, também se excluem da proposta dos países africanos o fato de que os próprios africanos colaboraram e enriqueceram com o comércio de escravos, porque as tribos vencedoras vendiam os vencidos para os comerciantes internacionais, e o outro fato de que mesmo antes da colonização européia na América as tribos africanas vencedoras tinham esse hábito - com a diferença de que nessa época os escravizados trabalhavam para os próprios vencidos, não para compradores do outro lado do Atlântico. Como, aliás, continua acontecendo no Sudão e em outros lugares da África.
Mas, não, essa discussão não tem lugar na conferência da ONU. Segundo os países africanos, os EUA estão querendo enfatizar a escravidão que existe hoje só para desviar a atenção do mundo para sua própria história de horrores. Isso me deixa ainda mais intrigado. Como é que na ONU, o palco do progressismo, os problemas de dois séculos atrás são considerados mais importantes do que os problemas de hoje, do século XXI?! Parece que o dinheiro faz mesmo o mundo girar: por ele, alguns iluminados políticos estão dispostos até a esquecer, provisoriamente, seu adorado progressismo!
Reação americana
Os ânimos, porém, esquentaram. Os EUA ameaçaram boicotar a conferência caso a proposta de reparações vá adiante, ao que o cérebro por trás da proposta, Dr. Vicente Magombe, respondeu que a conferência ficará mais interessante sem os EUA. Mas os EUA parecem ter ameaçado mais: a retirada de todo seu apoio financeiro aos países africanos. Não sei qual foi a reação do Dr. Magombe a essa ameaça, mas tenho certeza de que ele não a levou na brincadeira.
Reação européia
Do lado europeu, os ingleses estão liderando a ofensiva contra a idéia de reparações. E não é para menos: é em grande parte graças aos esforços dos ingleses que não existe mais escravidão no mundo ocidental, e seria ridículo exigir deles que paguem reparações.
Mas Mary Robinson, ex-presidente da Irlanda e atual Comissária de Direitos Humanos da ONU, está pronta para atacar os ingleses (e o que é que se poderia esperar de uma irlandesa?), e já anunciou seu apoio à proposta de reparações.
Portugal, Espanha e França propõem, junto com os ingleses, que se modifique a declaração final de que "o tráfico de escravos foi uma tragédia única na história da humanidade, particularmente contra os africanos" para "a escravidão e o tráfico de escravos foram uma horrível tragédia na história da humanidade", ponto. Assim, a declaração não abriria espaço para exigências de reparações contra os "antigos poderes coloniais", e só declararia o óbvio.
O erro fundamental do movimento de reparações
Mas, afinal, além dos aspectos históricos e políticos já apontados, o que é que torna essa idéia de reparações raciais tão repugnante, o que é que a torna tão indigna de um debate político sério?
A idéia de reparações não é apenas repulsiva por ser um esquema de extorsão destinado a distribuir, à força, a riqueza dos brancos para os negros - e, principalmente, para os líderes do movimento negro. Ela é repulsiva em seu próprio fundamento.
No fundamento da idéia de reparações está aquilo que Michael Levin chama de "reificação" e que Olavo de Carvalho qualifica como "o mais trágido erro de perspectiva moral em que a humanidade caiu ao longo de toda a sua História."
"Reificação" é a tomada como substância daquilo que não tem substância alguma, é a atribuição de poderes causais àquilo que não pode causar diretamente nada. Como diz Levin, em seu ensaio "How philosophical errors impede freedom" (detalhadamente comentado na minha página, dia 20 de maio):
"Esta é a crença de que a palavra 'sociedade' nomeia uma entidade com seus próprios poderes causais, e de que as pessoas são como são porque a 'sociedade' faz que elas sejam."
Levin ainda enfatiza que "a reificação alivia os indivíduos culpados de toda responsabilidade. Não ponham a culpa por um comportamento mau, desleixado ou improdutivo na minúscula peça, mas na grande máquina social da qual ela é uma parte indefesa."
Olavo de Carvalho, em sua magnífica introdução ao ensaio de Schopenhauer sobre a dialética erística ("Como vencer um debate sem precisar ter razão"), atribui à influência de Hegel a mudança no foco do debate filosófico das questões centrais sobre Deus e o destino da alma individual para a ênfase no destino do Estado e da sociedade; e vê nessa substituição das questões metafísicas pela disputa entre ideologias e modelos de organização social a origem da "reificação":
"Está aí a raiz do mais trágico erro de perspectiva moral em que a humanidade caiu ao longo de sua história: a convicção de que é a sociedade, e não os indivíduos concretos, o verdadeiro sujeito da responsabilidade moral - pressuposto que está na base de toda a atual ideologia 'politicamente correta'."
É óbvio para quem quer que analise de perto a questão que o pressuposto da ação coerente - e, portanto, da responsabilidade - é a unidade individual, com as três características ressaltadas por Olavo de Carvalho: a unidade física ou corporal, no tempo e no espaço; a unidade autoral; e a unidade subjetiva ("cujas condições são a memória independente de registro externo, a capacidade reflexiva e as duas condições anteriores").
Eu posso agir coerente e conscientemente porque tenho o mesmo corpo, que permanece uno no tempo e no espaço; porque sou sempre eu o autor de meus próprios atos; e porque eu sei que fui eu que agi, porque eu me lembro de minhas ações e sou capaz de, refletindo sobre elas, elaborar meu curso de ação seguinte.
Só por isso, porque eu preencho essas três condições, eu posso agir conscientemente e, portanto, posso ser considerado culpado por minhas ações. Não há tribunal penal no mundo que vá punir um esquizofrênico que agiu sem saber o que estava fazendo, nem que vá punir uma entidade abstrata por ações concretas. Ou há?
No que depender do movimento de reparações raciais, há sim: esse movimento deseja que o tribunal internacional da ONU puna a "raça branca" ou as "nações ricas ocidentais".
Isto apesar de nem a raça branca nem as nações ricas ocidentais terem unidade autoral, muito menos unidade subjetiva, e apesar de não poderem agir por si sós, mas apenas através de indivíduos concretos que podem até invocar como justificativa para suas ações a raça ou a nação - mas essa invocação será sempre uma figura de linguagem.
Não foi a "raça branca" que escravizou os negros; foram determinados indivíduos que, por acaso, eram brancos - e, aliás, também outros indivíduos que, também por acaso, eram negros. Não foram as "nações ricas européias" que escravizaram os negros; foram determinados indivíduos dessas nações, e nem mesmo a maioria deles.
Embora raça e nação tenham algo que se assemelha à unidade física - um padrão genético comum, no caso da raça; um território comum devidamente delimitado no caso na nação - essa unidade não é suficiente para que raça e nação ajam independentemente e tenham poderes causais próprios.
E é isto o mais repugnante na idéia de reparação racial: nação e raça são responsabilizadas pelas ações de indivíduos, de tal forma que descendentes seriam obrigados a pagar por crimes de ascendentes - apesar de esses crimes, na época em que foram cometidos, não serem considerados crimes, e mesmo que os ascendentes em questão não tenham cometido crime nenhum - e que populações inteiras seriam penalizadas por atos de seus governantes ou de alguns de seus membros.
Teríamos, então, não apenas a situação imoral de um descendente de família escravagista pagar pelo simples fato de ter nascido nessa família, como as ainda mais bizarras situações de descendentes de defensores do abolicionismo terem de pagar reparações raciais pela escravidão, e de a população inteira da Espanha, ou da Inglaterra, ter de pagar reparações porque seus governantes de séculos atrás apoiaram o comércio de escravos - mesmo que, como no caso da Inglaterra, governantes posteriores o tenham enfaticamente condenado!
Receita de tragédia
É de causar consternação que tantos negros se deixem envolver pela retórica absurda de seus autoproclamados líderes (que, nunca custa lembrar, são, diz Thomas Sowell, tão amigos dos negros quanto Iago era de Otelo) e apóiem a idéia de reparações raciais.
Essa idéia tem forte potencial destrutivo, porque parece feita de propósito para agravar as tensões raciais e as animosidades entre negros e brancos: afinal, trata-se de nada menos que um projeto de redistribuição forçada de renda de uma raça para outra!
Mas não é só isso. Ela perverte o senso moral de todos os envolvidos. A escravidão não é mais culpa de indivíduos, mas de entidades abstratas; e os problemas e dificuldades dos negros, mais de um século depois da escravidão, não são mais de responsabilidade de cada negro, mas são provocados pelos sofrimentos impostos a seus antepassados.
Assim, para a retórica insana do movimento das reparações, os brancos passam a ser responsabilizados por atos que não cometeram e os negros deixam de ser responsabilizados por seus próprios atos - repito: uma inversão brutal do senso moral de todos os envolvidos.
Post Scriptum:
Um exemplo brasileiro
Não discutirei as tradicionais acusações de racismo levantadas contra críticos das reparações raciais, porque não creio que elas sejam dignas de pessoas capazes de assinar o próprio nome e resolver 2+2. Mas citarei um exemplo brasileiro para mostrar até onde pode ir a desonestidade dos defensores das reparações:
"Não é preciso ser negro para ser anti-racista e propor ações compensatórias para os descendentes dos escravos. Há também negros que, por razões singulares, driblaram sozinhos a barreira da exclusão, e que negam-se, numa postura individualista, a perceber a questão como um problema coletivo. Afinal, todos nós, professores, funcionários e estudantes da UnB nos beneficiamos, em nossas trajetórias de vida, da desigualdade racial generalizada que eliminou competidores pretos e pardos. Já é tempo de que ofereçamos uma compensação concreta por essa vantagem injusta que nos possibilitou chegar até onde chegamos."
Esse parágrafo de um artigo do prof. José Jorge de Carvalho (professor da UnB e pesquisador financiado pelo CNPq - adivinhem quem paga o salário dele?) tem tantos absurdos que seria preciso outro artigo para desmenti-los todos, mas notem como, na primeira frase, ele desonestamente iguala anti-racismo e exigência de reparações raciais, como se um plano que encoraja os membros de uma raça a pôr a culpa por todas as suas dificuldades nos membros de outra raça não fosse obviamente encorajador do racismo. Mas não importa o absurdo: escrevendo assim, fica fácil rotular os opositores da reparação de racistas, e insinuar que aqueles que não acham justo pagar pela escravidão sem que nunca tenham escravizado ninguém tenham planos ocultos de restaurar a escravidão.
Notem ainda como o "professor" insulta os negros que ascenderam socialmente por esforço próprio e, ao fazê-lo, reconhece o absurdo da própria causa. Afinal, se alguns - e não são mais "alguns", são muitos - são capazes de furar a tal "barreira racista", é porque essa barreira não é determinante, é porque outros fatores podem ter maior influência na vida social dos negros. Mas isso é tão prejudicial para a causa do nosso professor que ele parece preferir que esses negros ou calem a boca ou desistam de ascender socialmente e se tornem devidamente subjugados e submissos a seus novos patrões e senhores - os líderes do movimento negro, que resolverão todos os problemas extorquindo a raça branca. Não consigo deixar de pensar que é o sr. José Jorge o verdadeiro racista em questão: ele parece achar que os negros são tão estúpidos que não podem ascender por esforços próprios, só pelo paternalismo de seres superiores como ele próprio - e aqueles que desmentem sua tese auto-enobrecedora são "individualistas" e "egoístas"!
Pois são cretinos desonestos como esse professor/burocrata que se autoproclamam os campeões das causas negras e se outorgam o monopólio do anti-racismo. Porca miséria.