No. 68 - 06/07/01

Sunshine: Espírito, comunidade e política

"Isto significa[, para o homem empenhado na defesa do Espírito,] (...) oferecer sistemática resistência à noção mesma - inerente a todas as ideologias - de que algum regime político, bom ou ruim, deva ter sobre as almas humanas uma autoridade espiritual comparável à de uma tradição religiosa."
(Olavo de Carvalho)

A cena mais significativa de Sunshine, o épico do diretor húngaro István Szábo, que estréia hoje, com dois anos de atraso, nos cinemas do Rio, é quando Ignatz, a primeira das três personagens retratadas (cada uma de uma geração da família Sonnenschein) diz a seu pai que pretende casar-se com sua prima. O pai lhe responde que também, em seu tempo, amou uma mulher com quem seu pai o proibiu de casar-se, mas que assim deve ser porque aos homens só cabe cumprir as leis de Deus, não tentar revogá-las.

O casamento prossegue apesar dessa objeção e, depois dessa traição inicial, a história que se segue é a de sucessivos abandonos pelos membros da família de sua tradição religiosa judaica, em troca dos crescentes apelos da sereia política.

Assim, Ignatz, sabendo que alguém com um nome judaico não poderia tornar-se juiz da Suprema Corte, troca seu nome para "Sors", e torna-se o mais fiel dos servidores do imperador durante a Primeira Guerra.

Seu irmão - que também trocara de nome - junta-se à oposição comunista e, quando estes tomam o poder, depois da guerra, colabora com sua opressão aos membros do governo anterior, inclusive com a prisão domiciliar do irmão, que acaba morrendo esclerosado, deprimido e decadente.

Já no regime dos militares - que derrubaram os comunsitas - o filho de Ignatz, Adam Sors, aceita "converter-se" ao catolicismo para juntar-se ao grupo de esgrima dos militares, do qual saem os membros da equipe olímpica. Ele acaba ganhando a medalha olímpica e faz empolgados discursos em favor do regime fascista. Até que, logo antes da Segunda Guerra, com a aliança da Hungria com Hitler, surgem as leis contra os judeus e, ao contrário do que ele imaginava, nem sua conversão nem seu status de herói nacional servem para salvá-lo do campo de concentração, onde ele é pendurado nu numa árvore e congela até à morte, diante de todos os outros prisioneiros - inclusive Ivan, seu filho.

Finda a guerra, Ivan, por influência do tio (que estava exilado na França), adere aos comunistas, agora no poder, e não perde para ninguém em sua sede de perseguir aqueles que colaboraram com o governo fascista. Ele rapidamente se torna uma figura importante no Partido, chegando a fazer um entusiasmado discurso em honra de Stálin.

Até que um dos expurgos internos típicos do PC atinge seu chefe de seção, e ele percebe que, como no caso de seu pai, está sendo testemunha direta e impotente de uma injustiça. Ele revolta-se contra o partido e chega a participar dos movimentos anticomunistas - participação que lhe acaba rendendo alguns anos na cadeia.

A visão do filme sobre a política e sobre os regimes que se sucederam na Hungria é sintetizada numa frase lapidar de Valerie, a prima com quem Ignatz se casou (avó, portanto, de Ivan), a única figura constante do início ao fim do filme. Ao visitar o neto na cadeia, ela lhe diz:

"Eu vi o colapso de um governo após o outro, e todos eles pensam que podem durar mil anos. Cada governo novo declara que o último era criminoso e corrupto, e sempre promete um futuro de justiça e liberdade."

Na verdade, na visão de Szábo, não apenas cada novo governo institui uma nova tirania em nome de limpar a corrupção do anterior, como essa tirania é pior a cada governo. O império tinha nítidos problemas sociais e oprimia seus súditos, mas o imperador é retratado como um homem honrado e de boas intenções, e o grau de liberalismo, tolerância e mobilidade social de seu governo é bem superior do que nos posteriores. A junta comunista que o substitui parece formada por um bando de bufões juvenis, movidos por palavras vazias e sentimentos revanchistas, e incapazes de governar. O regime fascista que o substitui tem todas as características que se espera de um governo fascista: militarismo, apelos patrióticos, e opressão em altas doses. Mas nenhum desses governos se compara em maldade e incompetência ao segundo governo comunista, com seus comissários do povo, seus generais, seus conchavos internos, suas conspirações, sua paranóia, seus métodos de tortura.

Mas este não é um filme sobre os horrores deste ou daquele regime político. É um filme sobre os horrores do abandono da religião e da comunidade em favor do Estado e da política.

Tanto que, depois que sai da cadeia, Ivan testemunha a morte de sua avó, por doença, e vai jogar fora os papéis que ela deixou. Enquanto os arruma em caixas, encontra uma carta de seu bisavô - o patriarca que começa o filme fazendo um apelo para que seu filho não abandone a religião - com conselhos para Ignatz, que estava prestes a ser nomeado juiz, para que este não se esquecesse de que Deus é o único juiz e que nossas ações só fazem sentido se o que nos norteia é a preocupação com o juízo de Deus.

Ivan resolve retomar o nome original da família (Sonnenschein), que ele nem sabia que existia, e se afasta da política. Ele parece perceber que substituir o juízo de Deus pelo juízo dos homens é vender a alma; que abandonar a comunidade e a família para submeter-se às exigências da política é abdicar da liberdade.

Como recentemente escreveu Thomas Fleming, nós estamos num tempo em que o Estado exige de nós um voto de lealdade que supera a lealdade que temos com aqueles a que nos associamos mais diretamente; um tempo em que filhos são obrigados a depor contra os pais; burocratas e assistentes sociais tomam o lugar das famílias; leis consagram o ódio à religião e às tradições; um tempo de grandes avanços na eterna luta do Estado contra as instituições intermediárias que exigem de seus membros votos de lealdade que o Estado pretende monopolizar, porque não admite que alguém tenha outro senhor que não ele, entidades intermediárias sem as quais a liberdade é impossível.

Mas "Sunshine" lembra aos espectatores que os senhores da Terra são passageiros, que suas tiranias podem destruir o corpo, mas só têm poderes sobre as almas de quem desejar submeter-se elas. Porque o homem de espírito está submetido a uma lei superior, e por mais que o oprimam, ele nunca perderá sua liberdade interior; enquanto o homem que vende sua alma para a moda política da época pode até assumir altos cargos políticos, mas será sempre escravo de uma ilusão passageira.

Não é de espantar que um filme com uma mensagem tão "subversiva" tenha demorado tanto a estrear por aqui.

 

 


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