No. 74 - 17/08/01

Religiosidade morna

"Everywhere there is the persistent and insane attempt to obtain pleasure without paying for it. Thus, in politics the modern Jingoes practically say, 'Let us have the pleasure of conquerors without the pains of soldiers: let us sit on sofas and be a hardy race.' Thus, in religion and morals, the decadent mystics say: 'Let us have the fragrance of sacred purity without the sorrows of self-restraint; let us sing hymns alternately to the Virgin and Priapus.' Thus in love the free-lovers say: 'Let us have the splendour of offering ourselves without the peril of committing ourselves; let us see whether one cannot commit suicide an unlimited number of times'."
(G. K. Chesterton)

Jamais pensei que escreveria um artigo tomando como base a mensagem de um seriado de TV; pior ainda, jamais pensei que, se viesse a fazê-lo, seria um seriado do qual nem mesmo gosto.

Como a tentação foi irresistível, sinto que preciso começar com uma advertência, para que não me venham cobrá-la depois: não recomendo que ninguém assista a "Arquivo X", e tenho objeções políticas, religiosas e culturais ao seriado. Do ponto de vista político, ele serve à idolatria do Leviatã americano e de um de seus principais instrumentos, o FBI, uma agência policial inconstitucional que não pára de crescer e não pára de ameaçar as liberdades civis. Do ponto de vista religioso, o seriado promove todo tipo de sandice, superstição e absurdo New Age, enquanto os religiosos retratados normalmente são malucos e/ou malignos. Do ponto de vista cultural, o seriado promove um dos aspectos mais deprimentes da cultura contemporânea: a crença nos OVNIs e a paranóia a respeito de conspirações alienígenas.

Mas toda essa bobagem vem muito bem embalada, e é difícil começar a assistir a um episódio do seriado e não assistir até o fim, porque tudo nele é muito bem feito - texto, direção, montagem, atuações. É por isso mesmo que não recomendo que se assista ao seriado: a tendência a continuar a assistir e acumular lixo mental é grande.

Dito tudo isso, vamos ao episódio a que, por acaso, assisti recentemente (numa reprise), o nono episódio da sétima temporada (a de 1999/2000), "Signs & Wonders".

Nele, as personagens principais da série, os agentes Mulder e Scully, investigam um estranho acidente no Tennessee, em que um rapaz, Jared Chirp, foi morto por um ataque de cobras. Chegando à cidadezinha em que ele vivia, eles descobrem que ele freqüentava uma igreja liberal local, a do reverendo Mackey.

O reverendo tem grandes suspeitas sobre o acidente, porque antes de juntar-se à sua igreja o rapaz era membro de uma seita fundamentalista local, dirigida pelo reverendo Enoch O'Connor, que, em seus cultos, utiliza cobras como uma espécie de teste de fé: o reverendo faz os fiéis segurar cobras e pedir a proteção do Espírito Santo; os impuros e pecadores perecerão, os homens de fé sobreviverão.

Para os dois agentes do FBI, parece que O'Connor causou de alguma maneira a morte do rapaz, a fim de demonstrar que, por ter deixado sua igreja, ele era um pecador. As suspeitas são realçadas quando o próprio O'Connor declara que Jared "falhou no teste", e mais ainda quando eles descobrem que Gracie, a namorada grávida de Jared, é filha de O'Connor, que a expulsou de sua casa e sua igreja quando ela engravidou.

Uma senhora que falou com Jared na noite de sua morte também morre picada por cobras, e, quando os agentes descobrem no fundo da igreja de O'Connor um trailer com dezenas de caixas contendo cobras de todos os tipos, finalmente resolvem prendê-lo.

Na prisão, enquanto ele reza, ele também é atacado por inúmeras cobras, e é hospitalizado, com feridas graves. Sua filha não deseja que ele receba tratamento médico, alegando motivos religiosos. Desconfiando que ela esteja usando esse pretexto para vingar-se de seu pai, o reverendo Mackey a aconselha a permitir o tratamento; do contrário, diz ele, seria a doutrina do Deus vingador e intolerante de seu pai que triunfaria, e não a doutrina de paz e compreensão universais que ele prega e que ela veio a aceitar.

No momento em que o reverendo sai da sala do hospital para comunicar ao médico que Gracie mudara de idéia, as feridas de O'Connor começam a sarar, e ele acorda e a seqüestra, levando-a para um ritual na sua igreja.

Chegando à igreja algumas horas depois, Mulder e Scully encontram Gracie desmaiada, e um rastro de sangue de cobras no chão. Neste ponto, eles já sabem que o filho de Gracie não é de Jared - o reverendo Mackey lhes dissera que o filho é do próprio O'Connor. Imaginando que O'Connor tenha ido matar a última testemunha desse fato, Mulder corre à igreja de Mackey para salvá-lo - e lá encontra O'Connor armado com uma faca, pronto para matar o reverendo.

Mulder atira no braço de O'Connor, e pede a Mackey que chame uma ambulância. Enquanto isso, Scully conversa com Gracie numa ambulância e, ao dizer-lhe que Mulder fora capturar seu pai, recebe uma resposta que a espanta:

- Não, você não está entendendo. Ele me salvou.

Enquanto tenta observar os ferimentos de O'Connor, Mulder ouve dele palavras semelhantes.

- Você não está entendendo. Você é esperto aqui (aponta para a própria cabeça), mas é de inteligência aqui que você precisa (aponta para o coração).

É só neste momento que Mulder percebe o que se passa, e corre à sala lateral, na qual Mackey está ao telefone, nitidamente fingindo chamar uma ambulância. Mulder aponta sua arma para ele, e diz que sabe que ele é o responsável pelas mortes. Mackey lança um ataque de cobras contra Mulder, e escapa, enquanto Scully chega para resgatar seu companheiro.

O comentário de Mulder, enquanto se recupera das picadas de cobras num leito hospitalar, resume a mensagem do episódio:

- Nós sempre esperamos o diabo numa figura feia e assustadora, e não num reverendo tolerante que não exige nada de nós e nos diz aquilo que queremos escutar.

O contraste entre os dois reverendos é muito bem ressaltado numa cena que contrapõe os dois cultos. Na mesma noite, ambos estão comentando a mesma passagem da Bíblia - os versículos 15 e 16 do capítulo 3 do Apocalipse:

"Conheço as tuas obras: Não és nem frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Mas como és morno, nem frio nem quente, vou vomitar-te."

O culto de O'Connor é barulhento e cheio de exortações. Ele se levanta, berra, e manda que seus fiéis se convertam, ou Deus os rejeitará. O de Mackey é, propriamente, morno: os fiéis estão sentados em forma de círculo, e ele, em voz pausada, diz que essas palavras parecem duras, mas que precisam ser entendidas em seu contexto histórico, que dizem respeito a um povo específico ao qual São João estava falando, e que não devem ser tomadas ao pé da letra, porque não dizem respeito diretamente a nós.

Alguém aí já ouviu discurso semelhante a este último? Talvez fosse melhor perguntar de forma diferente: alguém tem ouvido da boca dos sacerdotes qualquer coisa que não seja semelhante a este último?

Pois é exatamente por isso que o episódio é brilhante: porque foi capaz de perceber e de criticar duramente um dos aspectos mais malignos da "religiosidade" contemporânea: o fato de que, como diz Chesterton, os fiéis desejam prazer sem dor; desejam servir ao mesmo tempo a Deus e a Baco.

É isso que se exige da religião hoje em dia: que ela seja "consoladora", que ela seja fonte de belas palavras para acalmar as almas e fazê-las "sentir-se bem".

"Nossa igreja foi criada para aceitar pessoas de todas as crenças e para perdoar todas as atitudes", diz, no episódio, o reverendo que encarna o diabo. Que bela síntese daquilo que o homem contemporâneo busca na religião!

Nessa nova "espiritualidade", não importa como você age, não importam os detalhes de sua fé; importa que você tenha uma crença genérica e difusa em algo que você mesmo diz não entender mas que você chama de Deus.

O pior é que esse não é apenas um traço religioso de infiéis que se crêem fiéis; é um pressuposto de toda análise de religião na mídia.

Como ousa a Igreja não mudar sua doutrina para adaptar-se aos novos tempos?, dizem os porta-vozes da modernidade. Como ousam os padres insistir com os fiéis em doutrinas antiquadas que não condizem com os anseios do homem moderno? Não sabem que assim estão se distanciando dos fiéis? Não sabem que o mais importante é encher as igrejas, mesmo que para isso precisem abandonar tudo o que a religião tem de mais sagrado?

Podem vasculhar a mídia; só se encontrarão elogios aos religiosos que se esforcem em adaptar-se aos caprichos e frescuras da própria mídia, aqueles que não insistem nas partes mais duras e mais incômodas da Bíblia - aqueles que, como o reverendo do seriado, dizem aquilo que os outros querem ouvir (normalmente em defesa de paixões vis e do aumento do socialismo).

Esse, afinal, é o sonho da espiritualidade contemporânea: religião sem mandamentos nem dogmas; "iluminação" sem disciplina nem virtude - a espiritualidade do subjetivismo egocêntrico, em que o "fiel" faz exigências a Deus e ameaça abandoná-Lo se Ele não as cumprir.

"Se Me aceitas, Israel, eu sou teu Deus", diz o Antigo Testamento. A versão modernista teria de dizer exatamente o contrário: "Se me aceitas e se não me fazes nenhuma exigência, Senhor, podes ser meu Deus."

Mas a resposta de Deus aos adeptos dessa espiritualidade do não-comprometimento, dessa espiritualidade de fuga do dever humano de aperfeiçoar a própria alma, já estava dada no próprio trecho do Apocalipse citado acima:

"Conheço as tuas obras: Não és nem frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Mas como és morno, nem frio nem quente, vou vomitar-te."

 

 


Página inicial - Busca - Mapa do Site - E-mail