No. 79 - 21/09/01

Como eles aprenderam a parar de se preocupar e amar o império

"Tio Sam, eu quero
Tio Sam, eu quero,
Tio Sam, eu quero mamar..."

(D'après popular marchinha de carnaval)

Existem poucas surpresas na cobertura americana do atentado e da operação "Justiça Infinita". Quando acontece uma coisa dessas, a gente já sabe como a imprensa de lá vai reagir: a centro-direita, no Washington Times, no New York Post, na National Review, na Weekly Standard, e a centro-esquerda, no New York Times, no Washington Post, na New Republic - em suma, os membros do establishment - vão unir as mãos e exigir mais guerras, mais intervencionismo, mais bombardeios, mais restrições às liberdades domésticas.

E, efetivamente, esse tipo de apelo não faltou. Na esquerdista Slate, Timothy Noah celebrou o "bem-vindo impulso keynesiano" que o atentado daria à economia, repetindo a velha falácia da janela quebrada; na direitista National Review, Howard Kurtz propôs, menos de vinte e quatro horas depois do atentado, a volta do alistamento militar obrigatório; na sua coluna sindicalizada (i.e., distribuída para inúmeros jornais e revistas), a direitista Ann Coulter sugeriu uma guerra contra todos os países árabes, no curso da qual os americanos invadiriam os países, matariam os presidentes e converteriam à força toda a população ao cristianismo; os exemplos poderiam continuar ad nauseum.

Enquanto isso, na esquerda radical (The Nation, CounterPunch), as críticas se voltaram para o imperialismo americano, e vários escritores lembraram que os EUA não devem bombardear os países alheios e ainda assim contar com o amor e a compreensão desses países. Mas esses mesmos escritores repetiram a mesma análise falaciosa das origens do imperialismo que repetem há mais de um século, atribuindo-o ao capitalismo, aos direitos de propriedade, ao liberalismo etc. Na direita capitalista e isolacionista (Mises Institute, Chronicles), repetiram-se, desta vez sem a análise econômica falaciosa, as advertências sobre os riscos do imperialismo, e foram lembradas as antiquadas noções de guerra justa e respeito aos direitos individuais.

Nada de novo aí, nada de estranho ou surpreendente. Temas como imperialismo, gastos militares, coletivismo e militarismo são assunto freqüente na imprensa americana e formam, como eu disse semana passada, parte importante das distinções ideológicas por lá.

As surpresas mesmo surgiram no tratamento desses temas na nossa imprensa; ou, mais especificamente, no tratamento dos temas pela nossa esquerda.

Como nossa esquerda está mais para The Nation do que para New Republic, achei que leria por aqui o mesmo tipo de análise parcialmente correta do imperialismo americano que li na revista americana. Qual o quê.

Nenhum colunista proeminente nos nossos jornais se dispôs a discutir as mais recentes intervenções militares americanas. Em termos gerais, eles se dividiram em dois grupos: aqueles, como Leandro Konder, que culparam o neoliberalismo - mas não o militarismo - e aqueles, como Arnaldo Jabor, que culparam o isolacionismo do governo Bush, que teria traído os princípios de cooperação e diplomacia defendidos pelo governo Clinton. Foi raro, em todas essas análises encontrar a palavra "Israel" (e analisar os atentados sem fazer referência a Israel só pode ser uma brincadeira), mas encontrar as palavras "Sérvia" e "Iraque" não foi raro - foi efetivamente impossível.

Falemos rapidamente do primeiro grupo, porque o realmente interessante é o segundo. Esse primeiro grupo - que infelizmente é bastante numeroso entre nós - é formado pelos paleomarxistas que acham, como os autores do bizarro "Livro negro do capitalismo", que os americanos são diretamente responsáveis por qualquer pessoa que morre de fome na África, e que os atentados são produtos das "estruturas sociais injustas" e constituem a nova versão da luta de classes, agora em escala planetária. Por mais que digam o contrário, deve ser muito difícil, para eles, não soltar um sorrisinho maroto diante da demolição do World Trade Center, exatamente como Antônio Callado admitia não conseguir deixar de admirar a União Soviética por ter tido "coragem" de "enfrentar os americanos".

Mas como entender o segundo grupo, formado por social-democratas como Arnaldo Jabor, Zuenir Ventura (para quem o último crime militar americano foi o Vietnã) e Elio Gaspari?

Aliás, Gaspari é um caso ainda pior - v. apêndice 1 - porque ele, como certos setores da direita, parecia estar dizendo que os americanos não fizeram nenhum mal nos últimos anos, que sua política externa tem sido inteiramente condizente com os interesses nacionais americanos e tem sido favorável ao bem-estar mundial. (Sim, existe uma direita brasileira; ela não tem nenhuma projeção na mídia, mas tem meia dúzia de sites e listas de discussões, e está, mais do que nunca, declarando seu amor a qualquer tipo de ação militar americana. A única explicação que encontro para o amor que certas pessoas inteiramente sensatas subitamente desenvolveram em relação ao intervencionismo americano é que elas esperam que os americanos nos ajudem a livrar-nos do comunismo, se algum dia houver uma revolução por aqui. Se o Haiti e a Macedônia são bons exemplos, essas pessoas devem esperar sentadas.)

Mas voltemos a nossos social-democratas. Como é que a esquerda brasileira (refiro-me aqui e nos parágrafos seguintes ao que identifiquei como o "segundo grupo"), embora mantendo seu horror a George W. Bush, de repente resolveu cair de amores pelo imperialismo americano?

A resposta é que, embora seja quase imperceptível - porque o assunto raramente vem à tona - o amor é antigo, e pode ser explicado por uma interessante pergunta feita por Graham Stewart em seu artigo de alguns meses atrás sobre o Tribunal Internacional de Crimes de Guerra. Diante das alegações de que o Tribunal é independente e imparcial e de que o Tribunal Penal Internacional será um freio ao imperialismo americano, ele perguntou: tudo bem, mas quantas soldados a seu serviço tem Carla Del Ponte (a promotora mão-de-ferro do tribunal da Haia)?

Fazer essa pergunta é já respondê-la, e fazê-la é ao mesmo tempo perceber que não apenas o imperialismo está mais vivo do que nunca, como também que a esquerda "moderada" tem bons motivos para amá-lo.

O que a esquerda brasileira rejeita é aquilo, em Bush, é menos imperialista. Ela não protestou quando, na sua primeira semana de governo, Bush seguiu o rito de iniciação dos presidentes americanos e comandou mais um bombardeios ao Iraque. Ela protestou porque, na mesma semana, ele cortou o financiamento americano a grupos internacionais de promoção ao aborto. Ela não protestou porque, com o governo Bush, os americanos deixaram de ser um intermediário não muito imparcial, mas ao menos um intermediário, entre palestinos e israelenses, e passou a apoiar incondicionalmente o governo de Israel, com algumas doces admoestações públicas "aos excessos dos dois lados" enquanto ideólogos neoconservadores defendiam que os americanos soltassem Ariel Sharon como um cachorro louco contra os palestinos. Ela protestou porque Bush se recusou a assinar o protocolo de Kyoto.

Em suma: nossos social-democratas descobriram que, para realizar seu sonho de aumentar aquilo que Fernando Henrique Cardoso chama de "instrumentos de governança global", eles precisam dos americanos; descobriram que o apoio dos americanos é essencial para promover a utopia do governo mundial social-democrata.

Pode-se dizer que, com Clinton, o imperialismo americano chegou ao seu apogeu no século XX. Nenhum outro presidente comandou tantas intervenções militares ao mesmo tempo, e financiando simultaneamente grupos de promoção da ideologia social-democrata ao redor do mundo. Mas não se vêem críticas ao militarismo clintonista, porque esse militarismo é exatamente do tipo que nossa esquerda deseja: feito para "punir o mal", para extirpar da face da terra quem quer que minimamente desagrade às sensibilidades social-democratas - e promovendo, ao mesmo tempo, as entidades globalistas.

É verdade que o imperialismo à moda Bush é um pouco diferente, e por isso é compreensível que ele desagrade à esquerda. Clinton também não assinaria o tratado de Kyoto ou o tratado do Tribunal Penal Internacional (essas simplesmente não são decisões que dependam do presidente: não há votos no Congresso americano para aprovar esses tratados) e também tinha um projeto de escudo anti-mísseis, mas ele pôs todo o peso americano por trás da conferência da ONU sobre a "superpopulação" mundial, com o financiamento a todos os tipos de planejamento familiar que a conferência defendeu, e ele inaugurou uma "nova era" na OTAN, na qual apenas a entidade cresceu, como adquiriu o poder de realizar intervenções militares mesmo que nenhum de seus países tenha sido atacado - "intervenções humanitárias" a fim de impor a paz e a liberdade - e isso bastou para que ele conquistasse a admiração de nossa esquerda. A política externa de Bush, antes da tomada do poder, era um mistério, porque havia um conflito entre um grupo razoavelmente isolacionista, representado por Colin Powell, e um grupo imperialista, liderado por Donald Rumsfeld e Paul Wolfowitz. A balança pesou a favor do segundo grupo, e, tendo sido eleito com a promessa de tirar as tropas americanas dos Bálcãs, Bush acabou apoiando uma nova intervenção, dessa vez na Macedônia.

O próprio Bush, a rigor, nunca foi isolacionista. Durante os debates eleitorais, o moderador deu a Bush e Gore uma lista de recentes intervenções americanas e perguntou com qual delas eles concordavam. Granada, Panamá, Golfo Pérsico, Bósnia, Haiti, Kosovo - todas contaram com a aprovação entusiástica dos dois. Ambos também foram unânimes em expressar "reservas" à intervenção na Somália, e o único de divergência foi a intervenção no Líbano, que Bush aprovou e Gore rejeitou. Notem, ademais, que a recente briga do governo Bush com a ONU não foi em função da própria conferência sobre o racismo (até porque a maior parte das políticas promovidas pela conferência foram inventadas pelos próprios americanos, e algumas delas têm sido aplicadas no próprio governo Bush, que instituiu cotas raciais para a ocupação de alguns postos burocráticos), mas em função das críticas a Israel, que os republicanos não aceitam.

Mas Bush tem algumas reservas conservadoras ao avanço da social-democracia global, como demonstra sua rejeição do apoio a grupos abortistas e seu pouco entusiasmo em relação a impostos altos (embora seu plano de corte de impostos seja pouco mais do que uma picaretagem e embora, como todo bom neoconservador, isso mude de figura logo que aumentos nos gastos militares entram em questão), e isso basta para que a esquerda o odeie. Ao contrário de Clinton, ele não é um dos nossos, os globalistas parecem dizer.

Talvez não continuem a dizê-lo por muito tempo. Sua proposta de retaliação contra bin Laden parece feita sob medida para torná-lo tão amado quanto Clinton. Na sua "análise" dos atos terroristas, Bush não dizia que eles eram dirigidos contra o império americano, mas contra toda a civilização ocidental. Agora, em seus planos de retaliação, ele não fala em perseguição a determinados terroristas, como punição a determinados atos; ele fala na extirpação do mal no mundo. Ele não fala numa ação militar retaliatória; ele fala numa operação em favor da "justiça infinita". Essa é a linguagem vazia e utópica, que usa belos ideais para esconder o exercício de força bruta, na qual Clinton era mestre e que é adorada pelos globalistas.

Com o globalismo clintonista, os esquerdistas "moderados" brasileiros descobriram que o imperialismo americano podia favorecer seus ideais - perderam suas inibições e passaram a amar o império em público. Depois de um breve período de brigas e afastamento, eles ainda estão indecisos e vacilantes (afinal, para eles o cara é um jeca e um filhinho de papai...), mas é provável que eles logo estejam voltando a chamar o Tio Sam de meu bem, e caiam nos braços do globalismo bushista.


APÊNDICES:
(Textos publicado no avelloso.com)

I. República e império

Elio Gaspari faz bem em criticar Celso Furtado por ter aderido à insana hipótese conspiratória segundo a qual o atentado foi cometido pela "direita americana", a fim de aumentar seu poderio militar.

Mas, ao criticar as teorias que põem no "neoliberalismo" a culpa pelos atentados, Gaspari vai mais longe e classifica de "paraterrorista" qualquer tentativa de explicar (e não justificar!) o terrorismo como efeito colateral da política externa imperialista americana:

"A astúcia analítica que coloca na porta das vítimas de atentados como o da semana passada algum tipo de responsabilidade pelo que lhes aconteceu é paraterrorismo. É paraterrorismo porque, num raciocínio inverso, o país que é vitimado por um atentado deveria pensar duas vezes antes de ter uma política que possa provocar a destruição traiçoeira de uma parte de sua principal cidade. Portanto, esse país deveria colocar o medo do terrorismo entre os fatores de inibição da defesa do que julga serem os seus interesses e até mesmo do seu modo de vida. Se isso vale para países, vale também para as relações entre as pessoas. Daí a se concluir que os seqüestrados têm parte da culpa nos seqüestros vai um passo."

A comparação é falaciosa, antes de mais nada porque se baseia na típica confusão esquerdista entre "governo" e "país", ou entre Estado e sociedade. Vamos deixar este ponto bem claro, até porque a repetição obsessiva dessa cantilena de que quem quer que pretenda analisar o atentado para além da dicotomia anjos americanos vs. demônios árabes está "culpando as vítimas" mostra que esta é uma obviedade de difícil compreensão. As vítimas do atentado terrorista foram americanos inocentes, pessoas comuns. Os responsáveis pela política externa americana são políticos, burocratas e estrategistas militares; nenhum deles foi atingido pelo terrorismo. Afirmar que o imperialismo incentiva esse tipo de atentado não é culpar as vítimas; é apontar que os americanos inocentes não foram vitimados apenas por terroristas (supostamente) árabes, mas também por seus próprios governantes, que, com suas guerras assassinas, põem em risco a segurança dos próprios americanos. Vale, aqui, repetir (quantos neurônios serão necessários para entender isto?): ninguém comete atentados terroristas contra países isolacionistas, que estão simplesmente cuidando dos próprios negócios (e que não transformam a guerra, o policiamento do mundo e a "hegemonia" em "interesses nacionais").

Isso nos leva ao segundo ponto: o imperalismo americano não é uma manifestação legítima do "modo de vida" americano e dos "interesses nacionais" americanos, a não ser que, como a centro-direita e a centro-esquerda americanas têm feito (pensem na Weekly Standard e na New Republic), estes sejam definidos de forma tão ampla que passem a abarcar o policiamento do mundo e a imposição à força da "liberdade" e da "democracia" no mundo inteiro. Esse imperialismo militar, na verdade, é uma traição do "modo de vida" americano, é uma afronta aos valores de liberdade, paz e comércio (e não "livre mercado" imposto na ponta da baioneta - ou da bomba atômica) que fundaram os Estados Unidos.

Numa contraposição cara à direita isolacionista americana (notem que o próprio termo "isolacionismo" se tornou pejorativo!), o "império" americano é contrário à "república" americana. Essa contraposição não apenas ressalta a distância entre o imperialismo e os ideais americanos, como entre os valores do povo americano e a política externa de seus governantes. Como diz Ed Cobb, em artigo com o significativo título "Bipolar America":

"Os americanos são um povo de estilo vive-e-deixe-viver. Os EUA não são mais um país com o estilo vive-e-deixe-viver porque nosso governo e seus acólitos desejam governar o mundo. De minha parte, não creio que os americanos queiram governar o mundo. Você acredita? Certamente, o mundo não deseja ser governado pelos EUA. Você desejaria? Os americanos precisamos aprender a nos ver como os outros nos vêem e a tratarmos as pessoas do resto do mundo como gostaríamos que elas nos tratassem.

"Se essa grande tragédia pode nos acordar de nosso estado de sonho bipolar, de forma que reconheçamos a diferença entre aquilo em que estamos nos tornando e aquilo que nós desejamos ser, talvez possamos ainda criar o melhor memorial possível para nossos mortos. Nós talvez possamos ainda pôr um fim no Império Americano que bombardeia e mata de fome nossos vizinhos. Nós talvez possamos ainda reconstruir a República Americana que vive em paz com seus vizinhos."

 

II. A mentalidade terrorista

"Ideals Are Terrorists' Most Deadly Weapons" é um soberbo artigo de Wendy McElroy sobre a característica específica da ação terrorista: a consideração de uma "culpa coletiva" por um determinado ato.

Assim como os anarquistas russos punham bombas em restaurantes caros para lutar contra "a burguesia" - já que ninguém que pudesse comer em um restaurante poderia ser inocente - os terroristas árabes consideram "os americanos" em geral como culpados pelas ações malignas de seus políticos:

"A estratégia de punir a culpa coletiva remonta no mínimo ao ativismo bolchevique na Rússia pré-soviética, quando anarquistas comunistas punham bombas em restaurantes lotados, sob o pressuposto de que somente capitalistas teriam recursos para comer em tais estabelecimentos. Qualquer pessoa que morresse era um membro da classe que oprimia os trabalhadores. Mulheres, crianças, convidados acidentais, garçons - quem quer que estivesse no restaurante era parte do problema e, portanto, culpado.

"A estratégia era chamada 'propaganda através de atos'.

"De forma similar, os fanáticos que se lançaram contra o WTC não acreditavam que estavam matando americanos inocentes. Para eles, não existia tal categoria. Americanos médios - a mulher numa loja de doces, a criança na escola primária, seu vizinho cortando a grama - são coletivamente responsáveis por cada ato do governo americano. Cada um é considerado pessoalmente culpado pelo bombardeio de hospitais no Iraque, a causa dos palestinos... virtualmente qualquer problema global.

"Todos os americanos são culpados simplesmente por serem americanos. Para os terroristas, não havia pessoas inocentes nas torres do WTC."

Escrevendo na Fox News, é compreensível que ela não comente que exatamente esse tem sido o plano de ação do governo americano, e que a banalização do bombardeio de civis no século XX é um outro aspecto dessa mentalidade terrorista. Mas ela aponta os riscos de que, em sua retaliação, os americanos sejam novamente movidos pela noção de culpa coletiva, e punam árabes inocentes - perpetuando, assim, o ciclo de violência que originou o terrorismo:

"Na cólera justificada e saudável que se seguirá ao assassinato de americanos comuns inocentes, eu espero que a fúria seja voltada contra aqueles que são individualmente responsáveis, e não contra classes de pessoas. Não árabes em geral, nem os cidadãos comuns e inocentes de outras nações. Fazer isso somente perpetuaria o ciclo vicioso do qual se originou o terrorismo."

 

 


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