No. 8 - 05/05/00
O presidente Fernando Henrique Cardoso confidenciou à colunista do Jornal do Brasil Dora Kramer que teme uma "ruptura da ordem democrática" nos próximos anos, ou talvez nos próximos meses. Segundo o presidente, essa ruptura pode vir por dois motivos: ou pela ação do MST, ou pela indignação popular com as seguidas denúncias de corrupção dos políticos.
Acho muito bom que Fernando Henrique finalmente tenha dito em público a mesma coisa que analistas políticos mais acordados têm dito há algum tempo. Confesso, de minha parte, que fiquei surpreso de a "ruptura" - ou o golpe de Estado, para falar mais claramente - já não ter ocorrido. As ocasiões para isso foram muitas, e as sementes da "revolução" estão por toda parte à nossa volta, graças à estratégia gramsciana.
Em nenhum outro momento essa estratégia foi tão bem utilizada como na campanha pela "ética na política", como bem demonstrou Olavo de Carvalho em vários lugares, especialmente nas páginas finais de "O Jardim das Aflições". Fernando Henrique não chega a dizê-lo diretamente, mas é evidente que é a isso que ele se refere quando diz que a indignação popular com a "corrupção" (sempre mais denunciada do que propriamente comprovada) pode ser capitaneada para dar apoio a um golpe popular.
Da mesma forma, o Movimento Sem Terra é claramente um movimento revolucionário, e seus líderes nunca esconderam isso. Nessas últimas semanas, suas ações chegaram ao extremo absurdo, de tal forma que o próprio presidente - um entusiasta de primeira hora do MST - finalmente parece ter resolvido se opor ao movimento com mais firmeza, ao menos dizendo em público que o movimento é "fascista" (isso é pouco, claro: o MST é muito pior que fascista; é comunista, e ser comunista é muito pior que ser fascista). De qualquer maneira, é muito brando dizer, como disse o secretário de justiça do Amazonas Zeno Veloso, que o MST é um lobby político que às vezes faz propaganda enganosa. O MST é muito mais que isso: é uma guerrilha armada, cheia de ideologia na cabeça, e pronta para tomar o poder a qualquer momento. Todos sabemos como esse tipo de coisa acaba, e é provável que estejamos prestes a presenciar um derramamento de sangue em proporções inéditas em nossa história (ainda sobre revolução, não deixem de ler este comentário do ex-ministro Jarbas Passarinho no Estadão).
O jornalista Carlos Soulié do Amaral, que já feito aquelas famosas reportagens para o Estadão relatando o que se ensinava nas escolas do MST, fez, no mesmo jornal, um comentário muito interessante sobre essa "tomada de consciência" do presidente Fernando Henrique, num artigo intitulado "O fascismo vermelho e o presidente" (trechos transcritos a seguir). Nesse comentário, fica claro que, para quem vê as coisas direito, o MST já "ultrapassou a barreira da legalidade" há muito tempo, e seus objetivos nunca tiveram nada a ver com reforma agrária:
"Com certeza foram os árduos compromissos da rotina, os dias programados minuto a minuto por secretárias, acessores, chefes de cerimonial e agentes de segurança. A necessidade de atender urgências, cumprir protocolos, fazer discursos convencionais em cerimônias marcantes, entrar e sair de aviões guardando o zumbido de motores na cabeça, a atenção sobre alerta às intrigas das ante-salas, o esforço contínuo de afogar bocejos em sorrisos, a substituição de ministros, os 500 anos e, de novo, a substituição de ministros. Tudo isso cansa, tudo isso pesa e o presidente, frágil criatura como todos nós, não escapou das conseqüências. Sua percepção, antes atilada e rápida, dá sinais de embaçamento e de cansaço - dizem uns e outros. Foi no 22 de abril que tudo começou. Ao comentar as depredações, invasões, tumultos e pornofonias desencadeadas pelo Movimento dos Sem-Terra (MST) no Brasil inteiro, com o olhar circunvagando entre o pasmo e o perplexo, o presidente indagou: 'Essa gente tem mentalidade fascista?' A data do descobrimento teve o condão de levar o presidente, intelectual neo-hegeliano, dedicado por formação e temperamento à indagação metódica e à constatação científica dos fenômenos, a esse recente descobrimento. Ainda que interrogativo, ele percebeu, finalmente, que o MST 'está descambando para a baderna' e 'tem mentalidade fascista'. Ocupadíssimo sempre, o presidente, que não é sem-terra, é, seguramente, sem-tempo. Talvez por isso não tenha tomado conhecimento dos cursos de capacitação de militantes que o MST organiza e desenvolve em todo o território nacional. Nesses cursos, as apostilas e os mestres ensinam que 'apenas ocupar a terra para trabalhar é uma posição já superada', esclarecem que 'a disputa fundamental não se dá mais entre os sem-terra e fazendeiros, mas, sim, entre os sem-terra e o Estado', e avisam que 'o MST tem um projeto político revolucionário cuja meta é a conquista do poder'. Os mestres insistem que o objetivo do movimento 'é ocupar os espaços que se conformam na superestrutura da sociedade' e advertem: 'se alguém disser que esses espaços não devem ser ocupados por nossa organização, pois esses temas não nos competem, digamos, sem receio de equívocos, que os audazes sempre prevalecem sobre os medrosos!' Este é o velho MST, paroleiro e quebrador, perfeitamente enquadrado na configuração do "fascismo vermelho" detectado pelo cineasta comunista Pier Paolo Pasolini, como um grupo de pressão que violenta a sociedade e o direito instituído por não ser capaz de conseguir representatividade democrática. (...) As necessidades do MST, apoiadas pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), braço político-rural da Igreja Católica no Brasil, concentram-se agora em 'pegar o Malan', como determinou Gilmar Mauro, um dos coordenadores nacionais do movimento, ao lado do ex-seminarista João Pedro Stétile (que dizem ser cunhado do bispo Tomás Balduíno, presidente da CPT). A nova meta leva os militantes a ocupar e depredar prédios do Ministério da Fazenda e do BNDES para atingir o setor financeiro do governo, espaço 'que os conforma na superestrutura da sociedade'. Na organização militarizada do MST, as ordens de comando ressoam de forma idêntica a dos nazistas antes da conquista do poder: pegar, quebrar, invadir, forçar, marchar, bloquear ou - como aconteceu em Belém, na depredação da Secretaria da Segurança Pública - 'matar, matar!' O pretexto de Hitler foi o mesmo do MST, ou seja, espaço vital: terra e mais terra e mais terra. (...) Mas o presidente demorou a entender. Tempos atrás o deputado Francisco Graziano Neto alertou o general Alberto Cardoso sobre os cursos de formação de militantes. Nenhuma providência foi tomada. As milícias se ampliaram e agora o presidente declara: 'O MST ultrapassou o limite da legalidade.' Bom sinal. Os árduos compromissos da rotina e do cerimonial já não conseguem embaçar a lucidez do presidente."
POLITICAGENS
O que mais impressiona nas reações da esquerda ao regime militar é que, quanto mais o tempo passa, mais a esquerda fica raivosa, e mostra cada vez menos capacidade de enxergar as coisas na sua devida moldura histórica. A raiva irracional chega a tal ponto que, imagino, ter dado um aperto de mão em algum general durante esse período já deve ser motivo para execração na mídia.
Pois a nova "acusação" que estão trazendo contra o secretário de segurança do Rio de Janeiro, Josias Quental (por quem eu também não morro de amores), é que ele foi um baixo funcionário do DOI-Codi, e, por isso, não deve permanecer no cargo. Sim, alguém pode perguntar, mas ele torturou alguém? Deu ordens para torturar alguém? Não chegou nem perto disso - coisa que mesmo seus acusadores admitem (o líder da acusação, aliás, é o sociólogo popstar Luís Eduardo Soares, até hoje rancoroso por ter sido demitido do Governo).
É óbvio para quem quer que tenha mais de dois neurônios que usar essa acusação para tirar o homem do cargo não é postura digna de quem tenha um mínimo de vergonha na cara. Mas ainda assim estratégia quase colou, e gerou intenso debate na imprensa carioca. O plano só não deu certo porque o governador Garotinho interveio e foi logo anunciando que não demitiria Quental por essa bobagem.
Mas não tenham dúvida de que, em breve, a imprensa usará essa besteira rancorosa para atacar Garotinho. Aliás, triste sina a do governador do Rio: de darling a bête noire da imprensa, e tudo por causa de um cineasta protetor de bandidos...
MUNDO ACADÊMICO
Discussão jurídica no Canadá: uma faculdade cristã quer ter o direito de formar professores para escolas públicas, porque seus alunos fazem o curso nela até o último ano e então se transferem para outra escola só para obter o diploma. A comissão de faculdades responsável por determinar quem terá esse direito negou-o a essa faculdade católica, porque ela "se opõe ao homossexualismo" (mais detalhes do caso aqui).
O interessante na discussão é que a comissão alega que o homossexualismo é um "direito humano" garantido pela Carta de Direitos canadense, mas a faculdade alega que a liberdade religiosa também é garantida. E cá estamos diante de uma escolha de Sofia: que direito é mais importante, o de professar sua religião, ou o de um macho praticar a sodomia com outro macho? Putz, difícil mesmo, né?
Eis os tempos malucos a que chegamos, em que a crença religiosa de alguns é nivelada ao prazer sexual de outros, em que a religião que fundou a civilização ocidental deve dar lugar à religião do tesão anal.
Eu sei que a resposta tradicional dos "democratas" moderninhos a esse dilema é que a religião deve se adaptar aos tempos modernos e "democráticos" e, democraticamente, abrir mão de sua condenação da sodomia, para não ferir o "Estado de direito". Só que essa resposta é tão boba que não merece nem ser discutida a sério.
Mas parte da culpa desse problema canadense deve recair também sobre os responsáveis pela tal faculdade cristã. Afinal, já deveria ser bem óbvio para qualquer cristão que o Estado moderno nada tem a ver com cristianismo e que, muito pelo contrário, foi criado para substituir-se a ele. Já devia estar bem claro que um Estado que confere à sodomia o mesmo status da liberdade religiosa é um Estado do qual religiosos devem manter distância. Para que diabos, então, formar professores de escolas públicas?! Danem-se as escolas públicas! Criem escolas cristãs, e esqueçam o Estado! Essa, aliás, é a única postura sensata que educadores religiosos deveriam adotar em todo lugar, inclusive no Brasil, onde todos são forçados pelo stalinista Ministério da "Educação" a ensinar marxismo e a espalhar o ódio ao cristianismo.
NA REDE
O excelente Jude Wanniski escreveu a única coisa original, no meio de chatíssimos artigos reencenando as mesmas discussões de sempre sobre a Guerra de Vietnã, nessa semana em que o confronto completou 25 anos.
Wanniski, em mensagem dirigida ao senador John McCain (aprisionado pelos vietcongues, mas há sérios indícios de que ele tenha funcionado como agente duplo), disse que, ao procurarmos os culpados pela guerra, não podemos apontar apenas os vietnamitas, mas também aqueles burocratas da administração Kennedy que forçaram reformas econômicas keynesianas na economia do Vietnam do Sul (a mesma receita que o FMI costuma usar hoje em dia). Os efeitos desastrosos que essas reformas sempre têm, argumenta Wanniski, trouxeram grandes problemas políticos para o governo vietnamita e aumentaram enormemente o número de rebeldes comunistas no sul:
"À medida que a economia [do Vietnam do Sul] entrava em depressão, os economistas americanos exigiram que houvesse devalorização da moeda, para tornar os produtos exportados mais baratos, e a inflação começou. Na contração econômica, as tensões cresceram entre budistas e católicos, e o católico [presidente do Vietnam do Sul] Diem foi forçado a usar medidas autoritárias para manter a ordem. Por volta de outubro de 1963, Diem havia sido demonizado, e a opção que o presidente Kennedy escolheu para dar aos miltares do Vietnam do Sul foi que estaria tudo bem se eles tirassem Diem do cargo. Diem, então, foi assassinado pelos generais no dia 1o. de novembro. No dia 22 de novembro, Kennedy foi assassinado."
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Voltando a um assunto que, a essa altura, já ficou meio velho, mas que ainda assim é interessante: quem quiser saber o tamanho das distorções e das mentiras do filme Hurricane deve visitar o site "The Other Side of History", que tem a documentação completa (e impressionante) do caso. Esse deve ser um dos filmes mais mentirosos de todos os tempos.
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Não vi em nenhum jornal, mas juro que ouvi no "Hourly news" do canal "EPR" (disponível no "Real Player"): um garoto mandou e-mails para vários colegas e professores em Columbine dizendo que o morticínio do ano passado seria "apenas o começo", e que ele "continuaria o serviço". Levado ao tribunal, o garoto confessou ter mandado as mensagens, e disse tê-lo feito em sã consciência. Acabou sendo condenado a uma pena leve (afinal, o crime não era grave). Mas seu advogado ficou desesperado,porque já tinha toda uma linha de defesa pronta: diria que o garoto sofria de "internet intoxication", uma doença a que "todos os que usam a internet estão sujeitos".
Eu já ouvi advogados pôr a culpa em drogas, em bebidas, em insanidade temporária, até mesmo em armas. Mas acho que deve ter sido a primeira vez que alguém foi cara de pau o suficiente para tentar pôr a culpa na internet por e-mails que um maluco mandou porque quis mandar. A que distância da responsabilidade individual estamos indo!
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Sempre fui contra o embargo norte-americano a Cuba, pelo simples argumento de que bastaria uma abertura do mercado para a ilha de Fidel, que o governo comunista se esfacelaria, incapaz de conter a onda capitalista. É interessante como às vezes a gente se deixa levar por argumentos totalmente irracionais, com aparência de racionalidade.
É óbvio, percebo agora, especialmente depois de ler um extraordinário ensaio de Mark Falcoff sobre as relações EUA-Cuba, que não existe "onda capitalista" incontrolável. Basta pensar no caso chinês: todo mundo comercia com a China, mas o governo de lá é o mais repressor e rígido que existe. Basta lembrar, também, que outros países fazem comércio com Cuba e abriram empresas na ilha, mas isso não melhorou em absolutamente nada as condições de vida do povo cubano, porque essas empresas funcionam em esquema de "joint-ventures", em que o Estado cubano decide quem as empresas contratarão, e expropria até 90% dos salários dos trabalhadores dessas empresas. Ademais, o exercício de profissões liberais em Cuba é extremamente limitado, e nenhum cubano tem o direito de criar um negócio próprio, com exceção de alguns restaurantes. Fidel não precisaria abrir mão de nada disso para fazer contratos com empresas americanas - e provavelmente as empresas iam gostar, porque a mão-de-obra seria barata e não causaria nenhum tipo de problema (seria, claro, empresas que não necessitassem de mão-de-obra qualificada, inexistente em Cuba).
Muitos liberais mantêm a ingênua crença em que basta criar laços de comércio com os países, que eles, por um passe de mágica, se renderão às graças do capitalismo. Não há nenhuma base factual para essa crença, mas ela, como toda crença ideológica, tem forte poder de contaminação - como acabei de dizer, eu mesmo estava contaminado por ela até recentemente.
DESINFORMATZIA
Arthur Dapieve é um daqueles colunistas de jornal que escrevem sobre todo tipo de banalidades - desde fast food a rock brasileiro - com ar profundamente intelectual. Às vezes, é divertido, mas o problema é que se criou um certo culto em torno dele, e ele acabou se acreditando um verdadeiro intelectual, uma espécie de sábio da cultura "pop" (como se tal coisa fosse possível).
Não vejo muita graça em discutir com ele, mas ele escreveu algo em sua coluna da semana passada que é tão sintomático da anomalia mental de nossos intelectuais (verdadeiros e falsos), que vale a pena o registro, mesmo que para isso eu tenha de começar fazendo o que não faço nunca - falando de futebol.
Pois bem: no domingo de Páscoa, corria no Maracanã o jogo Vasco X Flamengo, na verdade sem nenhum valor para o resultado do campeonato, que já havia sido ganho pelo Vasco. Mesmo assim, os antecedentes do jogo tinham sido meio tensos, com provocações de lado a lado, e, aos 30 e poucos do segundo tempo, o Vasco já vencia por 5 a 1. Nesse momento, o habilidosíssimo meia vascaíno Pedrinho recebeu a bola no meio de campo e, no esforço de dominá-la, manteve-a no alto com os pés, fazendo como se fossem embaixadinhas em progressão, até encontrar o lateral Paulo Miranda escapando pela direita.
Mas o Paulo não chegou a receber a bola, porque um dos grosseiros beques do Flamengo (acho que era o Juan) tentou aplicar uma tesoura no Pedrinho, revoltado com o lance, e logo se desencadeou uma confusão entre os jogadores dos dois times (estou aqui escrevendo isso e pensando em como Nelson Rodrigues faria miséria com um lance desses).
O que interessa é o seguinte: a atitude de Pedrinho foi comparada por alguns a uma outra atitude do também habilidoso (mas muito menos objetivo) atacante corintiano Edílson, na final do campeonato paulista do ano passado. Edílson matou a bola no meio de campo, parou, fez embaixadas, passou a boa pelas costas, dominou-a com a cabeça, até que algum daqueles trogloditas que povoam o meio de campo do Palmeiras veio chutá-lo.
A opinião da esmagadora maioria da crônica esportiva (com a estranha exceção de Armando Nogueira) sobre os dois lances foi que não havia termos de comparação entre eles, pelo simples e óbvio fato de que Pedrinho pretendia dar continuidade ao jogo, enquanto Edílson parou tudo para fazer palhaçadas no meio de campo. Quem quer que tenha visto os dois lances sabe perfeitamente a diferença entre eles, sem precisar entender nada de futebol para isso.
Mas, para Dapieve, não havia diferença nenhuma. A única diferença era a seguinte: Edílson é negro e baiano; Pedrinho é branco e carioca. Então, o famoso "racismo inconsciente" (porca miséria!) agiu nas consciências de praticamente todo mundo que assistiu ao jogo,e fez com que desculpassem Pedrinho, ao mesmo tempo que acusaram Edílson, porque de negros sempre se espera "alguma safadeza".
A opinião de Dapieve seria uma opinião sem nenhuma importância num caso com menos importância ainda, eu sei, mas é incrivelmente sintomática de como o intelectual brasileiro, popular ou não, adota explicações absurdas e estratosféricas em detrimento das mais simples obviedades. É uma amostra de quão entorpecidas e enlouquecidas estão as consciências neste país, prontas a apelar a qualquer lugar comum sociológico e negar o testemunho dos próprios sentidos. Isso é sintoma grave de doença, e não é, nem de longe, um caso isolado. É, apenas, um caso mais pitoresco.
Ah, sim: de toda essa confusão mental que ele mesmo fez, o Dapieve ainda tirou uma conclusão sobre a relatividade da moral. Inconseqüência filosófica é isso aí.
ORTODOXIA
Eu quero propor o seguinte: vamos fechar a CNBB. Vamos destituir os bispos de seus cargos, porque eles já não são mais bispos mesmo, e só servem para encher o saco. "Oh, como ele pode dizer isso?!", diz a beata de Igreja apavorada com tanta "ofensa à hierarquia". "Alvaro, menino, você ainda não aprendeu que, de trinta anos para cá, os 'conservadores' católicos dão mais importância à obediência do que à fé?", diz uma outra, também escandalizada.
Mas, se é para continuar com esse joguinho de aparências, podem ir todos esses "conservadores" para o inferno, e suas mães também. Porque quem quer que continue obedecendo a algum dos bispos signatários dos dois últimos comunicados mais divulgados da CNBB está pintando em si próprio um nariz de palhaço. E não peço perdão nem pela dureza da minha linguagem, nem por ser eu a estar dizendo isso, porque, primeiro, é exatamente essa a linguagem que essa quadrilha de "bispos" e seus seguidores merece, e, segundo, porque, se não tem ninguém mais para falar, sobra para a mais débil e incapaz das vozes mesmo.
Primeiro, a "Pastoral Afro" (porca miséria 2!) da CNBB entrega ao Secretário de Estado do Vaticano (aquele mesmo que deixou cair a hóstia) um documento sobre a condição do negro na Igreja brasileira, pedindo adoção da "affirmative action" na Igreja, porque afirma que há poucos padres negros e bispos negros (como se o Vaticano tivesse qualquer coisa a ver com isso). No mesmo documento, a tal Pastoral propõe uma "reflexão sobre a realidade da comunidade negra", chegando às propostas que apresenta ao Vaticano. Eis algumas delas: reserva de vagas nas escolas católicas para comunidade negra; maior diálogo com as religiões afro-brasileiras; utilização dos "centros de direitos humanos" organizados pela Igreja para a denúncia de práticas de preconceito racial; apoio a iniciativas destinadas a melhorar a ascensão política, social e econômica do negro; maior divulgação dos nomes de santos negros; e estudo da possibilidade de criação de um "rito católico afro-brasileiro" (porca miséria 3!).
Isso tudo é tão absurdo, tão surreal, que me recuso a explicar o que há de errado nessas propostas. Vou apenas dizer o seguinte: se existe uma entidade que nunca teve nada a ver com discriminação racial, esta entidade é a Igreja Católica. Ela nunca fez restrições raciais de nenhum tipo, e tem santos de todas as cores em seu panteão, sem nenhuma preferência pelos brancos ou pelos negros.
E uma mentira do movimento negro brasileiro já passa da hora de ser desmentida: as religiões africanas NUNCA foram perseguidas no Brasil. Muito pelo contrário: elas foram incentivadas pelos senhores de escravos, porque eram ritos mágicos sem nenhuma contrapartida moral e, portanto, não incitavam os escravos a se rebelarem. A religião perseguida era o cristianismo, e os jesuítas tiveram inúmeros conflitos com senhores de escravos, porque o cristianismo tinha (e tem) noções pouco agradáveis de valorização da pessoa humana, o que levava seus adeptos a rejeitar a escravidão, e criava sentimentos de rebelião nos escravos. Não acreditem na minha palavra: leiam o recente "A Formação do Brasil", do historiador português Jorge Couto, lançado ano passado.
Ah, sim: a rebelião de escravos mais importante foi a dos malês, que não tinham nada a ver com macumba: eram muçulmanos, e, como tais, rejeitavam a macumba como coisa demoníaca. E não creio que ninguém vai dizer que o islamismo é "religião afro-brasileira".
É claro que, se esses cretinos da CNBB servissem para alguma coisa, eles estariam dizendo tudo isso. Mas os imbecis já chegaram a um grau de cinismo e de apostasia tão grande que só conseguem pensar em transformar o catolicismo em um braço religioso do movimento negro.
E aí vem o segundo documento, sobre "evangelização". Várias vezes ouvimos a CNBB falar com grande autoridade desse assunto, defendendo suas maneiras de "levar o Evangelho" às comunidades carentes etc. E é muito bom que a CNBB fale disso, porque, enfim, espalhar o Evangelho é função essencial dos homens da Igreja. Mas eis que, nesse documento, a CNBB pede perdão pela cristianização de índios e escravos (repito: foram poucos os escravos cristianizados, porque os senhores de escravos não gostavam da idéia). Bom, então, repito, vamos fechar a CNBB, porque, se era errado evangelizar no passado, por que é que no presente é certo?
Não: se os jesuítas estavam errados, se Anchieta, Nóbrega, Vieira eram "criminosos culturais", também o são os bispos atuais (aliás, infinitamente menos brilhantes), e devem também estes parar de evangelizar. Ou acham estes senhores bispos que, quando um pai manda uma criança para uma escola de catecismo, pergunta antes se a criança quer mesmo se católica, ou prefere a religião dos gnomos, ou a bruxaria, ou o satanismo light, e assim por diante, num rol de opções enorme?
OS IDIOTAS
"A Igreja Católica me ensinou muito em termos de comunicação. Se meu trabalho choca, o que eles fazem é ainda mais chocante. Colocaram na cruz o filho de Deus, fizeram-no nascer de uma Virgem, fazendo trabalhar os maiores artistas do mundo, Michelangelo, Bernini. Enfim, um ótimo trabalho de comunicação." - Oliviero Toscanni, mostrando uma compreensão tosca, para dizer o mínimo. Imaginem só: 2 mil anos atrás, um bando de gente maquiavélica bolou um plano de dominação mundial através do marketing e aí surgiu o cristianismo!!
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"Os 25 anos da expulsão dos americanos do Vietnam e a unificação do país constituem um marco glorioso para a Humanidade, não obstante o terrível custo que o povo vietnamita teve de pagar." - Guaracy Gouvêa. A que custo será que ele se refere - o custo da guerra, ou o custo, muito pior, do regime comunista que se lhe seguiu?
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"Notoriamente, perdura na imprensa internacional certa má vontade com a China, e suas conquistas sociais e econômicas. (...) O mais grave nessa deplorável atitude é que são omitidas do grande público informações de grande interesse geral sobre o desenvolvimento da China em sua marcha acelerada para a plena economia de mercado." - Carlos Tavares de Oliveira. Por que será que há essa má vontade, né, seu Oliveira? Será porque na China não há liberdade de imprensa? Será porque eles matam dissidentes políticos? Será porque eles matam bebês a torto e a direito? Será porque eles continuam tiranizando o Tibete e agora querem tiranizar Hong Kong? Será porque o povo chinês ainda é obrigado a venerar um psicopata? Por que será, seu Oliveira, que todas essas "grandes conquistas" passam despercebidas?
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"(...) Marilena [Chauí] anunciou um segundo volume sobre o filósofo holandês Baruch Espinosa, cujo complexo pensamento é entendido por apenas 80 filósofos em todo o mundo." - Antônio Gonçalves Filho. Inacreditável. Como é que ele chegou a esse número, 80? Cabala? E, pelo que ouvi do calhamaço de dona Xuchauí, ela não está entre esses 80...
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"Finalmente, uma boa notícia para a fisionomia do Rio e o bem-estar de seus moradores e visitantes: é cada vez maior o número de cariocas que, numa atitude de respeito ao próximo e à cidade onde vivem, limpam a sujeira que seus cães fazem na calçada." - Editorial de "O Globo". Mas isso é de uma relevância ímpar!
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"Mais uma vez, o lobby das armas e seus aliados no Congresso estão atravancando o caminho do progresso. Nós lutamos não apenas pela segurança de nossas famílias, mas pela saúde de nossa democracia." - Bill Clinton, que bem que poderia ler um pouquinho sobre a relação entre armas e democracia. Poderia começar aqui mesmo.
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"A Suprema Corte vai determinar se os estados têm o direito de forçar uma mulher a sacrificar sua vida e sua saúde para promover uma agenda política extremista que visa a criminalizar o aborto." - Janet Benshoof, falando desta prática. Abordei essa discussão semana passada.
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"Comunismo ainda é considerado um mal pelos cubanos de Miami" - Manchete do "New York Times". "Ainda"?!?!
FÓTONS
"Quando o Império soviético desmoronou, parecia que até mesmo os esquerdistas finalmente percebiam que a visão de Reagan sobre o comunismo era compartilhada por todos que haviam vivido sob o comunismo. Não deveria ter sido necessária a destruição do Muro para provar isso; o Muro em si mesmo era testemunho suficiente. O comunismo é um sistema que tem de aprisionar as pessoas, ameaçando-as de morte se elas tentarem escapar de sua 'utopia'." - Joseph Sobran
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"Várias pessoas me dizem: 'Clinton realmente criou uma economia maravilhosa.' Eu respondo que não, ele não deve levar o crédito. Eu dou o crédito a Monica Lewinsky, porque ela o manteve tão ocupado que ele não teve tempo para bagunçar nossa economia." - Walter Williams (Essa vale também para certos "liberais" brasileiros que ficam babando por Clinton e seu inexistente "gênio econômico")
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"Do ponto de vista social, histórico e cultural, a Nação brasileira teve seu início no ato mesmo da descoberta, no primeiro encontro entre índios e brancos. Foi no século 16 que aprendemos a falar o português e nos convertemos à religião católica, desencadeando-se o processo de miscigenação que povoaria o País e seria o substrato de nossa realidade nacional. No século 17, tomam vultos os engenhos de cana, a base da primeira riqueza brasileira (depois do pau-brasil); os holandeses se estabelecem em Pernambuco, depois são expulsos, no primeiro vislumbre de sentido nacional, enquanto mais ao sul os bandeirantes paulistas talham nosso território muito além do meridiano de Tordesilhas, sem falar no início do artesanato nordestino, na retórica barroca do padre Vieira e nos versos satíricos de Gregório de Mattos retratando com rara perfeição a sociedade da época no domínio do profano e do sagrado. Será que nada disso conta? E que dizer do século 18, com a pujança do barroco mineiro, a genialidade patética do Aleijadinho e o estremecimento da Inconfidência, com toda sua repercussão simbólica? A verdade histórica é que "nós" nunca deixamos e nunca deixaremos de ser também "eles" porque temos muitas raízes em comum. A metrópole se prolonga na colônia, a colônia se alonga no Brasil-Império e este contamina a República. Precisamos superar a mania iluminista de pensar a História como uma sucessão de rupturas, de revoluções, como se estas não somassem uma continuidade entre si." - Gilberto de Mello Kujawski
ARTIGO DA SEMANA
Há algumas semanas, fiz breves comentários sobre o equívoco dos conservadores na defesa da pena de prisão. A pena de prisão é uma das invenções mais grotescas que a humanidade já produziu, e, em pouco mais de um século de sua adoção geral, o resultado é desastroso: devassidão moral, famílias devastadas (dos presos e dos guardas), taxas de reincidência de mais de 70%, tudo isso sem nenhum efeito negativo sobre as taxas de criminalidade.
Quem quiser conferir essa opinião mais de perto, não pode deixar de ler a reportagem de Chris Wright no Boston Phoenix.
Com espírito investigativo quase inconcebível hoje em dia, Wright fez muito mais do que uma simples visita a um presídio (experiência também didática): combinou com o delegado de Cambridge que passaria dois dias na prisão de Billerica, como preso. E fez o arrepiante relato no referido jornal.
Billerica é um presídio de penas leves, no máximo dois anos e meio, e é administrado por um sujeito que sabe que sua função não é tratar os presos como animais (a entrevista com esse administrador também faz parte da reportagem), portanto, trata-se de uma experiência muito leve. Se uma experiência leve causa uma impressão tão profunda, fico só imaginando experiências semelhantes em presídios mais rígidos. Aliás, prefiro nem imaginar, porque, nesses casos, a redução do ser humano à condição animalesca é tão brutal, que repugna a imaginação de qualquer um.