No. 82 - 12/10/01
O legado francês
"One puts in the hands of each adult a ballot, but on
the back of each soldier a knapsack: with what promises of massacre and bankrupcy
for the Twentieth Century, with what exhasperation of ill will and distrust,
with what wholesome effort, by what a perversion of productive discoveries,
accompanied by what an improvement in the means of destruction, by what recoil
toward the inferior and unhealthy forms of the old combative societies, by what
a backward step toward egoistic and brutal instincts, toward the sentiments,
manner and morality of ancient cities and barbaric tribes, we all know too well."
(Hippolyte Taine)
"A inglesa e o duque", filme em virtude do qual um jornal francês propôs que Eric Rohmer fosse guilhotinado, é uma pequena maravilha, se você não se incomoda com a profusão de diálogos típica do diretor.
Do ponto de vista técnico, o filme é interessante pela forma como usa o vídeo digital para fazer as personagens interagir com os cenários: toda a reconstrução de época foi feita em painéis bidimensionais pintados, e os atores entram e saem deles como se tudo fosse tridimensional. É uma festa visual.
Mas não foi isso que irritou o jornal francês. A questão é que a "inglesa" do título é a nobre escocesa Grace Elliott, e Rohmer escreveu o filme com base em seus diários durante a Revolução - "Journal of My Life During the French Revolution." Grace se mudou para a França e "adotou" a França como seu país, e (isto é importante) o rei da França como seu rei.
Um crítico brasileiro disse que o filme alterna os pontos de vista de Grace com os do duque de Orléans, mas não é bem assim. O filme contrasta os dois pontos de vista, e nitidamente toma partido de Grace - no mínimo porque foi feito com base nos diários dela!
Duas visões da civilização
Grace é uma católica devota e uma royaliste, uma defensora apaixonada do rei da França, da monarquia francesa. Ela vê na Revolução um despertar das paixões populares mais vis, se horroriza com os banhos de sangue que testemunha, e corre - numa das mais belas cenas do filme - um grave risco de vida para salvar da fúria da massa um aristocrata de quem ela nem mesmo gostava.
Seu amigo duque, em contraste, é um homem político. Ele é primo do rei e, embora tivesse prometido a Grace não comparecer ao Parlamento para votar no julgamento de seu primo, ele não apenas comparece como dá um dos votos decisivos em favor da pena de morte. Isso era parte de um plano para que ele mesmo assumisse o comando da Revolução - razão pela qual, à medida que o Terror se agrava, ele entra na lista de inimigos pessoais de Robespierre, e a própria Grace chega a ser presa por sua associação com ele.
Esse não é um contraste apenas entre duas visões políticas; é um contraste entre duas visões da civilização. A devoção de Grace é às ligações familiares, aos laços de amizade, às relações humanas diretas e, especialmente, à religião. Ela não consegue conceber que o duque possa ter traído seu próprio primo, assim como ela não conseguia conceber a possibilidade de deixar de ajudar seu conhecido em apuros. Já o duque trai sem hesitar seus colegas e seus familiares, em nome de suas ambições políticas. Ele compartilha do horror de Grace diante do desfile da multidão nas ruas carregando espetada num mastro a cabeça de uma nobre (cena extremamente comum nos tempos da Revolução), mas vê nisso uma "oportunidade histórica", um passo em direção ao aperfeiçoamento do governo e das instituições.
Temos, pois, de um lado, a defesa da sociedade, das associações sociais espontâneas, das comunidades; de outro, a apologia do poder político, da transformação social através do Estado.
Dois tipos de "cidadãos"
Nesse sentido, o detalhe mais interessante do filme é a utilização do termo "cidadão".
Sempre que a polícia invade a casa de Grace para interrogá-la, procurar algum nobre escondido ou vasculhar seus papéis, ela é chamada de "citoyenne", em tom de voz autoritário. O tom de voz e as circunstâncias do chamamento indicam exatamente o que ele significa: a submissão do indivíduo ao Estado.
Em "The Twilight of Authority", Robert Nisbet faz observações preciosas sobre esse significado do termo na revolução francesa, e o contraste com seu significado anterior, medieval (notem, aqui, o mesmo contraste entre duas visões da civilização):
"Na Idade Média, a essência da cidadania era a libertação do homem urbano dos laços de obediência que existiam no campo, mais feudal. Era-se um 'cidadão' em virtude da livre associação na cidade, e embora a identidade individual certamente existisse nas cidades, ainda assim havia contextos substanciais de amizade, ocupação, religião e outras associações que efetivamente punham o indivíduo no centro de uma série de círculos concêntricos. Havia uma grande diferença entre o status do cidadão e o do súdito. A expressão medieval 'a cidade faz a liberdade' era, em geral, uma descrição correta do status do cidadão.
"Ao longo dos séculos, no entanto, o conceito de cidadão tendeu a confundir-se progressivamente com o de súdito político. No 'Leviatã' de Hobbes, e também no seu 'Beemoth', pode-se ver vividamente a transição que acontece. A suspeita com que Hobbes enxerga os direitos do cidadão é parte e parcela da suspeita idêntica que ele lança em relação às liberdades históricas e corporativas da cidade, da universidade, do ofício e da nobreza. No 'Contrato Social' de Rousseau, a questão inteira é resolvida pela absoluta destruição de quaisquer direitos individuais ou de associação, e pela assimilação de ambos na monolítica Vontade Geral. Na Revolução Francesa, o termo 'cidadão' tornou-se a mais elevada forma de tratamento, substituindo títulos antigos e honoráveis como pai, magistrado, sábio, padre e lorde. O patriotismo era, agora, ancorado no Estado un et indivisible. A Revolução conquistou o que a monarquia absolutista nunca conseguiu conquistar; com sua 'vassoura gigante' - palavras de Marx - ela varreu todos os patriotismos menores, deixando o indivíduo e o Estado nacional como as duas realidades ascendentes. A nova cidadania, longe de ser baseada e enraizada nos grupos sociais nos quais os seres humanos realmente vivem, era agora a propriedade exclusiva do Estado nacional unitário."
Assim, a Revolução realizou o sonho hobbesiano de absorção da sociedade no Estado, de abolir todas as esferas intermediárias de autoridade e deixar o Leviatã reinar absoluto.
Guerra e Leviatã
Hobbes imaginava - e muitos ainda imaginam - que essa era a única maneira de garantir a paz. Ele não conseguiu prever que, absorvidos todos os habitantes por uma única autoridade, as guerras daquela autoridade seriam, agora, guerras de todos os habitantes, e que isso levaria a uma escalada nunca antes imaginada na brutalidade dos conflitos militares.
Com efeito, como lembrou recentemente Lew Rockwell, ainda no século XVIII Voltaire podia dizer que "o povo é indiferente às guerras de seus governantes", porque as guerras ainda eram feitas entre exércitos profissionais - freqüentemente mercenários - e, embora os conflitos freqüentemente devastassem as cidades próximas, não envolviam ainda toda a população do país. Porque, em outras palavras, as pessoas não eram ainda "cidadãs".
Mas a absorção da sociedade no Estado soberano a partir da Revolução Francesa introduziu uma modificação decisiva na natureza desses conflitos. Nas palavras de Erik von Kuehnelt-Leddihn:
"A Revolução Francesa deixou como legado algo muito pior que a guilhotina, porque foi algo permanente: uma mudança radical na natureza das guerras, que tornou essa calamidade humana ainda mais extensiva, assim como intensiva - la levée de masses, o alistamento obrigatório."
O próprio esforço de guerra se nacionalizou, e os civis não apenas se tornaram combatentes à força (corretamente considerado, o alistamento obrigatório é uma forma de escravidão), como se tornaram vítimas diretas.
Dito de outra forma, os civis se tornaram alvo dos esforços de guerra tanto do governo inimigo quanto de seu próprio governo.
Usando a imprensa
Foi aí, por exemplo, que se percebeu a importância da propaganda de guerra, especialmente através da imprensa, a fim de unir a população contra o inimigo e fazer que ela aceite qualquer violação de seus direitos por seu próprio Estado.
Nisbet aponta a guerra entre os Estados como a origem, na sociedade americana, da politização à moda francesa. Não à toa, a imprensa da época é assim retratada por Philip Knightley em "The First Casualty" (editado no Brasil em 1978, com o título "A Primeira Vítima"):
"A maior parte dos correspondentes, de ambos os lados, via como parte integral de sua tarefa elevar o moral, tanto civil como militar. Uma escaramuça tornava-se 'uma vitória gloriosa e esmagadora', uma debandada era transformada em 'retirada estratégica diante de um inimigo grandemente superior', um soldado confederado morto não fora simplesmente liquidado em combate, mas 'sacrificado às ambições demoníacas de seus patrões implacáveis, Davis e Lee'; as mulheres confederadas tinham seus colares feitos com olhos de ianques, enquanto os 'maldosos nortistas' usavam cabeças de mortos como bolas de futebol."
A politização se agravaria durante a Primeira Guerra Mundial, quando Wilson implantou efetivamente um Estado policial, e quando a história preferida da imprensa britânica era a dos soldados alemães que jogavam bebês belgas para o ar e os pegavam com a ponta de suas baionetas.
Na guerra atual contra o Afeganistão (ou contra os árabes, como desejam os setores mais insanos do neoconservadorismo), Knightley nota, em artigo no Guardian, que já é possível identificar os traços característicos de manipulação da imprensa: as histórias de atrocidades, a demonização do inimigo e do povo inimigo, a caracterização dos pacifistas como defensores do inimigo (estes, na Primeira Guerra, foram postos na cadeia nos EUA).
Um homem de seu tempo
Infelizmente, há um traço ainda mais característico das guerras modernas na guerra atual. É que bin Laden acredita na mesma doutrina de guerra legada pela revolução francesa e praticada pelos americanos, a doutrina da guerra total. Não apenas ele deliberadamente elaborou um plano para o assassinato de civis americanos, como ele proclama todos os cidadãos muçulmanos a declarar guerra aos EUA - inclusive as mulheres (aquelas mesmas que, no Afeganistão, não podem nem entrar nas escolas).
Muito se fala do antimodernismo de bin Laden, como se ele fosse um representante de um tempo pretérito, mais bárbaro do que o nosso. Besteira. Em sua doutrina de guerra, ele está inteiramente inserido na modernidade e é, também, um herdeiro da Revolução Francesa.
Ele é parte dessa "civilização" que sonha com o Estado onipotente, que não distingue entre governo e sociedade, entre combatentes e não-combatentes, entre civis e militares, essa civilização que criou os bombardeios aéreos, a bomba atômica e os atentados terroristas.
Comentando seu filme, Eric Rohmer disse que a Revolução acabou com a vida civilizada e elegante. Num ponto ele tem razão: vivemos, com efeito, em tempos de barbárie.