No. 83 - 19/10/01

Importação de fracassos

"If you wish to be applauded at an education convetion, vociferate sentiment platitudes about the sacred rights of the child, specifying particularly his right to happiness gained through freedom."
(William C. Bagley)

Existem dois métodos básicos na política educacional do Governo brasileiro: o método soviético/cubano de doutrinação marxista e o método americano de inclusão e apoio à auto-estima do aluno.

A doutrinação marxista é nossa velha conhecida, e recentemente mostrei como ela aparece nos livros de geografia. Uma análise semelhante poderia ser feita dos livros de História e dos livros de filosofia e sociologia que um forte lobby esquerdista pretendia tornar obrigatórios. Felizmente, a lei que obrigava as escolas a ensinar filosofia e sociologia foi vetada pelo Poder Executivo, porque o Ministério da Educação considerou que não existem professores suficientes para ministrar as matérias (eu diria que não existe um único!) e que a obrigatoriedade aumentaria excessivamente os custos de manutenção das escolas públicas (vale incluir, aqui, o devido agradecimento à Lei de Responsabilidade Fiscal).

A adoção dos métodos das escolas públicas americanas salta menos aos olhos, mas está presente em preceitos como a limitação ao número de alunos repetentes, com o correspondente incentivo a que todos os alunos sejam aprovados, e nas técnicas pedagógicas que visam mais a fazer que o aluno se sinta bem do que a fazer que ele aprenda.

As idéias de inclusão costumam aparecer mais no ensino universitário do que nas escolas públicas de primeiro e segundo graus, até porque ninguém quer entrar nessas escolas. A partir do próximo ano, por força de lei estadual, a Universidade Estadual do Rio de Janeiro será obrigada a reservar 50% de suas vagas para alunos de escolas públicas; não contentes, os deputados estaduais acabam de aprovar uma outra lei determinando que a UERJ terá de reservar 40% das vagas para negros. Esta lei ainda não passou pelo crivo do Governador, mas ficam as perguntas sem resposta: um sujeito que for negro E estudante de escola pública entrará por qual cota? Pelas duas somadas? Ou 90% das vagas terão obrigatoriamente de ser reservadas para affirmative action?

Preciso, aqui, repetir uma observação. Não chorarei nenhuma lágrima pela UERJ ou por qualquer universidade pública; não creio que seja tarefa do Estado manter universidades, as quais, por sua própria natureza, deveriam ser independentes, e também não vejo nada de anormal em que o Estado resolva destruir sua própria universidade. É em grande parte graças a essa natureza destrutiva do Estado que sou contra o ensino universitário público. Digo mais: espero que algum bem surja da inevitável decadência da UERJ nas garras da ação afirmativa, e que essa decadência incentive o surgimento de universidades particulares mais preocupadas com a qualidade do ensino do que com a concessão indiscriminada de diplomas. (E não falo aqui da PUC porque chamar a PUC de universidade privada é um exagero; a PUC depende quase inteiramente de dinheiro do governo.)

Mesmo sem lágrimas, vale a pena tratar do assunto para lembrar a capacidade estatal de arruinar instituições educacionais.

Ademais, como aqui no Brasil acreditamos que o direito de propriedade é apenas uma benévola concessão estatal e que só é do ramo privado aquilo que ainda não foi estatizado; como acreditamos que todos os donos de estabelecimentos privados são pessoas cheias de intenções malévolas e precisam do controle estatal para não matarem o restante da população de fome; como acreditamos na onisciência dos burocratas e clamamos pelo aumento nas manifestações dessa onisciência, manifestações conhecidas como regulamentações, então certamente não demorará muito até que as técnicas pedagógicas e a affirmative action passem do setor estatal para o setor privado.

Temos, afinal, currículos nacionais obrigatórios e avaliações nacionais do ensino médio e do ensino universitário, instrumentos eficazes para garantir a submissão das instituições de ensino ao todo-poderoso Ministério da Educação.

Portanto, não se iludam: não temos ainda cotas obrigatórias no ensino privado, mas as teremos em breve. Quanto às técnicas pedagógicas que procuram reduzir os esforços dos alunos e pôr sua auto-estima em alta, já há algum tempo elas não são monopólio das escolas públicas.

O curioso é que, na nossa ânsia de importá-la, nós não nos damos conta da devastação que essa mistura de populismo, integração forçada, condescendência racista e redução dos padrões provocou na educação americana.

Sabendo que, às vezes, a simples exposição de um fato é muito mais eloqüente do que uma argumentação, não aborrecerei os leitores com argumentos sobre isso; pedirei apenas que vocês examinem as questões abaixo, retiradas de duas provas. A primeira data de 1895, e foi lida em voz alta a alunos da oitava série de uma escola no município de Saline, no Kansas; os alunos a ouviram, anotaram as perguntas e escreveram suas respostas; os reprovados não se formaram. A segunda data de 2000 e traz algumas das 224 questões distribuídas a todos os alunos da oitava série do Texas, dentro do projeto de avaliações padronizadas para as escolas, adotado pelo então governador George W. Bush. O plano de Bush para a educação propõe um teste semelhante a ser adotado nacionalmente.

1895

GRAMÁTICA

1. Cite nove regras para o uso de Letras Maiúsculas.

3. Defina Verso, Estrofe e Parágrafo.

7-10. Escreva uma redação de aproximadamente 150 palavras e demonstre nela que você compreende o uso prático das regras gramaticais.

ARITMÉTICA

1. Nomeie e defina as Regras Fundamentais da Aritmética.

3. Se uma carga de trigo pesa 3942 lbs., quanto ela vale, ao preço de 50 cts. por bu., deduzindo 1050 lbs. para a embalagem?

HISTÓRIA AMERICANA

1. Cite as épocas em que se divide a História Americana.

3. Relacione as causas e os resultados da Guerra Revolucionária.

8. Nomeie acontecimentos relacionados às seguintes datas: 1607, 1620, 1800, 1849 e 1865.

ORTOGRAFIA

1. O que significam os seguintes: Alfabeto, ortografia fonética, etimologia, silabação?

3. O que são os seguintes, e dê um exemplo de cada: Trígrafo, subvogais, ditongo, letras cognatas, linguais?

10. Escreva 10 palavras freqüentemente pronunciadas de forma errada e indique a pronúncia através de marcas diacríticas e silabação.

GEOGRAFIA

1. O que é o clima? De que depende o clima?

3. Qual é a utilidade dos rios? Qual é a utilidade dos oceanos?

5. Nomeie e descreva os seguintes: Monrovia, Odessa, Denver, Manitoba, Hecla, Yukon, St. Helena, Juan Fernandez, Aspinwall e Orinoco.

2000

ESCRITA

Leia a passagem e escolha a palavra ou grupo de palavras que pertence a cada espaço. Marque a letra de sua resposta. [Nota: para que não fiquem dúvidas, porei, nesta matéria, o original em parênteses.]

Não há nada como a primavera no Texas. Flores selvagens ____________ simples campos de grama em oceanos de azul, rosa e amarelo. (There is nothing like spring in Texas. Wildflowers _____ plain fields of grass into oceans of blue, pink and yellow.)

F) estava transformando (was transforming)
G) transformam (transform)
H) transforma (transforms)
I) transformou (has transformed)

MATEMÁTICA

Tyrone comprou uma torta de cereja por $5.99, uma caixa de doughnut holes por $1.98, e 7 doughnuts por $3.43. Quanto custou sua compra, antes da cobrança da taxa?

F) $9.40
G) $10.30
H) $10.40
I) $11.30
J) $11.40

ESTUDOS SOCIAIS

Leia cada questão e escolha a melhor resposta. Então marque a letra da resposta que você escolheu.

Qual dos seguintes eventos aconteceu por último?

A) George Washington foi eleito presidente
B) Lutou-se a Guerra Civil
C) As treze colônias foram estabelecidas
D) Lutou-se a Revolução Americana

CIÊNCIA

Leia cada questão e escolha a melhor resposta. Então preencha a resposta correta no seu cartão de respostas.

Qual destes está vivo?

A) Uma pedra
B) Um peixe
C) Uma estrela
D) Um lápis

É claro que poderíamos fazer inúmeros comentários, mas creio que a diferença entre as provas fale por si mesma. Lembrem-se dela quando ouvirem algum pedagogo falar em novas técnicas educacionais ou nas maravilhas do sistema educacional público americano.

 


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