No. 84 - 26/10/01

Os mesmos erros, as mesmas mentiras

"Given the track record of the strategists we have had, if we stay on the imperial highway, sooner or later some of us will be asked to undertake, or acquiesce in, the inglorious deeds of total war, however sanitized and repackaged they may be."
(Joseph Stromberg)

Perdoem a minha franqueza, mas só consigo pensar num termo para 90% das coisas que tenho lido aqui no Brasil sobre a guerra ao Afeganistão, e é um termo americano: "moronic". Traduzindo, digamos que os artigos e reportagens parecem escritas por retardados mentais.

É sempre problemático quando um evento como esses toma as manchetes e concentra as atenções, porque surge uma carência de assuntos para colunistas, articulistas e editorialistas. Assim, gente que nunca escreveu uma linha sobre política internacional vira especialista do dia para a noite, com a ignorância e a leviandade já esperadas.

Boa parte dessas opiniões são uma repetição do discurso oficial neoconservador: qualquer sugestão de que a política externa americana tenha qualquer coisa a ver com os ataques terroristas equivale a justificar os ataques e, portanto, está absolutamente vedada; também estão vedados ataques genéricos ao Islam, porque não podemos parecer intolerantes; deve-se, em vez disso, falar que o Islam precisa ser "democratizado", e repetir as únicas explicações aceitáveis: generalidades contra os terroristas e o "extremismo" islâmico. Segundo essas explicações, os terroristas odeiam os americanos porque odeiam a liberdade e a imoralidade da sociedade capitalista, e desejam implantar a estrita moralidade islâmica no mundo inteiro.

Com essa idéia na cabeça, o repórter da New Yorker Jeffrey Goldberg foi entrevistar Motasser al-Zayyat, o líder da Gama'a al-Islamiya, o maior grupo terrorista do Egito. Vale citar o diálogo, na narração de Goldberg:

Eu tinha uma última pergunta: o que é que incita a fúria de tantos muçulmanos contra a América? Eu sugeri que eram os valores americanos, especialmente aqueles ligados ao sexo e ao papel das mulheres na sociedade, valores que os conservadores muçulmanos odeiam. "Nós fazemos sexo no Egito", al-Zayyat disse, rindo. E prosseguiu: "Nós não temos sentimentos de ódio contra as pessoas dos Estados Unidos, mas sentimentos de ódio contra o governo dos EUA surgiram porque vocês apóiam Israel de forma tão cega."

A cena me parece extremamente significativa, porque representa o quão ridícula é a ortodoxia neoconservadora, e como ela se baseia em esforços para desviar a atenção das questões centrais.

A guerra começou há dez anos

Mas operar esse desvio de atenção é fácil quando a imprensa tem cumprido com tanto esmero sua tarefa de desinformar o público. Tanto que, quando bin Laden apareceu com um discurso no qual não fazia referência ao capitalismo, à imoralidade americana, ou aos horrores da civilização ocidental, mas a três pontos específicos da política externa americana (dois dos quais eu creio, junto com a maioria dos analistas, que ele acrescentou apenas por oportunismo, já que sua obsessão é mesmo a presença de tropas americanas na Arábia Saudita), o Pentágono pediu às redes de TV que elas censurassem o discurso, e elas prontamente obedeceram.

Assim, grande parte do público - especialmente do público americano - realmente imagina que o conflito entre radicais muçulmanos e os EUA só começou agora, e realmente imagina que os ataques terroristas foram surpreendentes. Afinal, os analistas que não seguem a linha imperialista, como Joseph Sobran, Robert Higgs e Jon Basil Utley, e que há tempos vêm avisando sobre a probabilidade de ataques semelhantes, não escrevem no New York Times, nem aparecem na televisão. Assim, diz Michael Moran:

A dura verdade é que a mídia americana deixou o país tão despreparado para esses ataques terroristas quanto qualquer general da aeronáutica ou burocrata da CIA. Enquanto jogávamos bombas no Iraque por dez anos seguidos - justificadamente ou não - a mídia se recusava a tratar do assunto. Então, de repente, no dia 11 de setembro, passamos a pensar "estamos em guerra", quando, na verdade, nem um dia terminou, desde a Guerra do Golfo, sem que um avião de guerra americano tenha atacado um alvo com um míssil ou uma bomba. Nós já estávamos em guerra, mas a mídia não pensou que ela fosse interessante o suficiente para ser relatada.

A culpa é dos outros

Mas, se mentem sobre as causas e a origem da guerra, que dizer então das matérias sobre o próprio combate?

Neste ponto, uma devida referência deve ser feita aos poderes proféticos do veterano repórter Robert Fisk, que conhece o Oriente Médio e suas guerras como poucos. Dia 23/10, escrevendo no Independent sobre os bombardeios americanos, dizia ele:

E então o número de vítimas começa a subir. De Kandahar vêm histórias cada vez mais assustadoras de civis soterrados por ruínas, de crianças feitas em pedaços por bombas americanas. O Taliban - e aqui os americanos devem dar um suspiro coletivo de alívio - se recusa a deixar jornalistas ocidentais entrar no país para verificar esses relatos. Então, quando algumas equipes de TV conseguiram encontrar 18 túmulos recentes na devastada cidade de Khorum, próxima a Jalalabad, uma semana atrás, Donald Rumsfeld, o secretário de defesa americano, pôde ridicularizar as mortes como "ridículas".

Mas não, suspeito, por muito mais tempo. Porque se cada uma de nossas guerras por justiça infinita e liberdade eterna tem uma marca familiar - o blábláblá militar sobre superioridade aérea, supressão de "centros de comando e controle", capacidades de radar - cada uma tem uma característica estranha, altamente exclusiva. Em 1999, a OTAN alegava que estava fazendo a guerra para pôr os refugiados albaneses do Kosovo de volta a suas casas - muito embora a maior parte dos refugiados ainda estivessem em suas casas quando a guerra começou. Nosso bombardeio da Sérvia levou diretamente a suas expropriações. Nós carregamos uma pesada carga de responsabilidade por seu sofrimento - já que os sérvios nos disseram o que eles fariam se a OTAN abrisse as hostilidades - embora a culpa, no fim das contas, por sua "limpeza étnica" claramente coubesse a Slobodan Milosevic.

Mas a cláusula de escape da OTAN não vai funcionar desta vez. Porque à medida que os refugiados afegãos começam a aparecer aos milhares na fronteira, é evidente que eles não estão fugindo do Taliban, mas de nossas bombas e mísseis. O Taliban não está realizando uma limpeza étnica na sua própria população pashtun. Os refugiados falam de forma vívida sobre seu medo e seu horror enquanto nossas bombas caem em suas cidades. Essas pessoas estão aterrorizadas com nossa "guerra ao terror", vítimas tão inocentes quanto aquelas que foram aniquiladas no World Trade Center em 11 de setembro. Então, onde é que nós paramos? Essa é uma pergunta importante porque, uma vez que as tempestades de inverno soprem nas montanhas do Afeganistão, é provável que uma tragédia comece, uma tragédia que nenhum esforço propagandístico conseguirá manipular. Nós diremos que os milhares que estão prestes a morrer ou que estão morrendo de fome e frio são vítimas da intransigência do Taliban ou do apoio do Taliban ao "terrorismo" ou da propensão do Taliban a roubar suprimentos humanitários. (...) Com certeza, culparemos o Taliban pelas tragédias futuras."

E eis que, dia 25, dois dias depois do artigo de Fisk, O Globo produz uma manchete imortal: "Talibãs usam civis como escudo contra bombas"!

Que consciência?

Curiosamente, no mesmo dia, na página de opinião, Luiz Garcia, um dos editores do Globo comenta entrevista de Philip Knightley ao "Valor" na qual o jornalista lembrava que tempos de guerra sempre são pródigos em histórias absurdas inventadas para fins de propaganda, como o caso, contado por Knightley em artigo no Guardian que já citei anteriormente, da filha do embaixador do Kuwait nos EUA que, como parte do esforço preparatório para a Guerra do Golfo, se disfarçou de refugiada de guerra para fazer um emocionado relato aos senadores americanos das atrocidades cometidas pelos iraquianos. Perguntando-se se os jornalistas devem ou não aceitar a censura e as historinhas de propaganda dos militares, Garcia termina rogando ao "deus da guerra" que se apiede "da torturada consciência do jornalista".

Suas afirmações podem até fazer sentido genericamente, mas certamente não se aplicam aos editores do Globo, porque o jornal tem, desde o primeiro dia da guerra, repetido fielmente todas as afirmações divulgadas pelo Pentágono, desde a minimização das mortes de civis (que são mortos apenas por engano ou por culpa dos talibãs) até às pouco realistas proclamações de que os bombardeios têm sido ultra-eficientes e se dirigem apenas a alvos militares.

Promovendo a histeria

Outra ironia na cobertura do Globo foi um editorial afirmando que aqueles que fizerem "brincadeiras" com pó branco, simulando ataques de Anthrax, deveriam ser duramente punidos por "espalhar pânico". Mas ninguém tem espalhado mais pânico do que o próprio Globo, com suas notícias de "casos confirmados" ao redor do mundo, que depois são desmentidos. Será que as punições duras servem também para jornalistas que promovem a histeria popular?

De volta ao mundo real: bombardeios e tortura

Enquanto isso, no mundo real, vale repetir a pergunta de Robert Fisk: até onde vão as "mortes involutárias"? Onde é que os americanos vão parar? Não custa lembrar que, quando perguntaram a Donald Rumsfeld como é que saberíamos que os americanos ganharam a guerra, ele não soube responder. E admitamos, 1000 mortos ainda é muito pouco. Como diz Alexander Cockburn, com sua ironia brutal:

A matemática da retribuição imperial pelos crimes de 11 de setembro agora incluem algo em torno de 1000 civis mortos, de acordo com o Taliban (Rumsfeld diz que ele não os contou pessoalmente), mortos pelo bombardeio ao Afeganistão, e aqui em casa mais de 800 pessoas de descendência árabe detidos sem nenhuma acusação e mantidos incomunicáveis. Alguns dos detentos do FBI foram enviados para prisões no sul, onde são espancados sem piedade por seus colegas de cela. A campanha contra o Al Qaeda sutilmente transformou-se em campanha contra o Taliban, e também sutilmente transformou-se na familiar guerra aérea, cujas conseqüências principais são, claro, a morte e a mutilação de civis, e a criação de vastos números de refugiados famintos. Se tivéssemos incontestavelmente 20.000 civis afegãos mortos, isso estabeleceria uma paridade moral com os 5.000 mortos no World Trade Center? Concedido: uma proporção de 4-1 é provavelmente insuficiente.

No front doméstico, as investigações do FBI têm dado pouco resultado, e eles estão pensando em adotar técnicas conhecidas de longa data da polícia israelense na luta contra o "terrorismo". Cito ainda do mesmo artigo de Cockburn:

"Investigadores do FBI e do Departamento de Justiça estão cada vez mais frustrados com o silêncio de presos suspeitos de ser associados da rede al Qaeda, de Osama bin Laden, e alguns estão começando a dizer que liberdades civis tradicionais podem ter de ser postas de lado para que eles possam extrair informações sobre os ataques de 11 de setembro e os planos terroristas."

Assim começava um artigo de Walter Pincus na página 6 do Washington Post de domingo, e se você suspeita que essa é uma abertura para um argumento em favor da tortura, você está certo. Os investigadores do FBI não têm chegado a lugar nenhum com os quatro suspeitos-chaves, detidos no Metropolitan Correction Center de Nova Iorque. Nenhum desses homens falou, e Pincus cita um homem do FBI envolvido nas investigações dizendo que "pode-se chegar ao ponto em que nós poderíamos partir para a pressão... onde nós não temos escolha, e provavelmente estamos chegando lá."

Pincus relata que "entre as estratégias alternativas sob discussão estão o uso de drogas ou táticas de pressão, tais como as usadas ocasionalmente por interrogadores de Israel, para extrair informações. Outra idéia é extraditar os suspeitos para países aliados onde serviços de segurança às vezes empregam ameaças a membros da família ou recorrem à tortura."

Pena que ninguém tenha noticiado isso aqui no Brasil. Nossos fascistas, cada um assumindo o púlpito em seu website, diante de todos os seus treze leitores, iam adorar, e certamente sugeririam que os suspeitos fossem extraditados para cá. Sugerindo essa maneira brasileira de colaborar com os esforços de guerra americanos, eles uniriam duas de suas paixões: o imperialismo (especialmente quando ele age por meio de guerras, com toda a pompa, a "unidade nacional" e o "espírito cívico" desses eventos) e a tortura policial.

A incômoda realidade

No fim das contas, o incômodo fato é que, duas semanas depois de iniciados os bombardeios, os americanos não parecem estar mais próximos de seu objetivo de capturar bin Laden e destruir sua rede terrorista - se é que são mesmo esses os objetivos, nesta guerra cheia de ambigüidades e termos vazios. Ao contrário, eles já conseguiram banalizar sua justa reação a uma atrocidade, estão perto de criar um desastre humano e ainda arriscam acirrar ódios no mundo árabe, agravados pela habitual brutalidade na reação israelense ao assassinato de um ministro israelense - perto do qual, aliás, David Duke é um modelo de tolerância racial.

Expansão imperial como solução

Mas, para a imprensa brasileira, tudo vai muito bem na guerra contra o "terrorismo", e, para os neoconservadores na imprensa americana, a solução para todos os problemas é a expansão do imperialismo, com a imposição da democracia e do livre mercado em todos os países árabes (os mesmos neoconservadores, aliás, apóiam Israel em sua retaliação e julgam abomináveis os apelos do governo americano para que Israel se contenha e não prejudique a aliança antiterrorista; depois ainda têm a cara de pau de chamar seus inimigos de "traidores").

A mesma posição é tomada pelo intelectual egípcio Saad Eddin Imbrahim, para quem os americanos deveriam fazer uma "pregação robusta" dos valores democráticos.

Não sei se essas pessoas percebem a estupidez que estão defendendo. Eles querem a imposição pelos americanos de um determinado modelo de Estado em países que não têm nenhuma base cultural para a adoção desse modelo, e esperam que isso não provoque nenhum ressentimento, nenhuma reação violenta, nenhum "blowback" (para usar o termo da moda). A defesa da idéia de que um modelo de governo pode ser imposto por um país ao outro (e, no caso, a muitos outros) e que daí para a frente tudo será uma maravilha representa o auge da crença na onipotência do Estado; para defender essa idéia, é preciso acreditar que não existem forças sociais atuantes fora do governo, que a cultura local não tem importância nenhuma para a forma que a sociedade toma e que basta um decreto (ou um bombardeio) para implantar um sistema democrático e fazê-lo funcionar.

Erros repetitivos

De forma mais pragmática, com um imperialismo mais moderado, parece que os EUA caminham para a instalação de um governo liderado pela Aliança do Norte no Afeganistão, apesar do incômodo que isso causaria ao Paquistão. É provável até que logo estejamos lendo histórias sobre o heroísmo desses grandes guerreiros contra a tirania do Taliban. Supondo o melhor dos mundos - que o Taliban seja derrotado logo, que bin Laden seja morto e que o conflito não se espalhe - surgiria uma espécie de estabilidade no Afeganistão, especialmente quando começassem os habituais financiamentos americanos para a "reconstrução". Até que, dali a alguns anos, outros atos terroristas surjam, originados dos antigos aliados americanos, e alguém lembrará que, desde o início, o objetivo da Aliança do Norte era controlar o tráfico de drogas e livrar-se da concorrência, e uma nova guerra para o bem da humanidade comece. Aí os heróicos guerreiros novamente serão retratados como terroristas malignos, e nós novamente ouviremos sermões sobre a importância de apoiar os "esforços de guerra" americanos.

Parece circular e repetitivo? Aqueles que seguiram minha sugestão de segunda-feira e leram o artigo de Derek Cupold sobre o assunto sabem que assim tem sido a política americana no mundo árabe. Os erros do império, com efeito, são circulares e repetitivos.

 


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