ALVARO VELLOSO DE CARVALHO

No. 9 - 12/05/00

O que pode querer dizer o "Estado de São Paulo" quando diz (em matéria, aliás, muito interessante) que "a Igreja Católica" é uma das vigas mestras do apoio ao MST? O que pode significar o termo "Igreja Católica", nesse contexto?

É óbvio, para qualquer um, que o termo se refere apenas a bispos e padres membros da "Pastoral da Terra", um dos vários ramos da Teologia da Libertação no Brasil. Ora, mas esses fulanos não são a Igreja Católica. São apenas um setor dela - um setor que não responde por ela, que não a representa e que, se querem mesmo saber, nem mesmo faz parte dela, porque são todos uns hereges.

Não se trata, pois, da "Igreja Católica" - a Igreja Católica é muito mais que seus bispos e seus padres, é muito mais que qualquer imbecil que imagine estar cumprindo uma "função social" ajudando a revolução comunista.

O que está acontecendo no Brasil, aliás, não tem nada de novo. A Teologia da Libertação foi criada justamente para fomentar esse tipo de divisões e movimentos revolucionários nos países latino-americanos, e foi, por algum tempo, muito bem sucedida na Nicarágua. Também está trabalhando bem na Colômbia.

O que é realmente interessante na matéria do "Estadão" são as amostras de que sua ação no Brasil está muito mais avançada do que imaginávamos.

E deixo uma impressão e uma pergunta. A impressão: palavras vazias sobre "democracia" e "liberdade" não vão adiantar nada agora. A pergunta: das terras que já foram distribuídas para os ex-sem-terra, quantas são produtivas? Quem souber a resposta, me mande um e-mail.

 

SÉTIMA ARTE

A reportagem de Ana Maria Bahiana na Bravo! deste mês sobre o último filme de Oliver Stone, On Any Given Sunday, passa longe, muito longe do alvo.

A repórter baseia toda a sua resenha na premissa de que Stone fez o filme para mostrar o futebol americano como uma reencenação esportiva da guerra. Mas não foi Stone que fez isso: o futebol americano é uma reencenação da guerra. Isso não é uma impressão artística: é simples fato. Exatamente por isso, o objetivo, no futebol americano, é conquistar espaço no campo adversário, e justamente por isso o jogo é repleto de elaboradíssimas táticas e estratégias defensivas e ofensivas.

Quem não gosta do esporte deve passar longe do filme, que passa boa parte do tempo mostrando partes de partidas - em cenas de tirar o fôlego - além de tratar de um dilema que vive hoje não apenas o futebol americano, como boa parte dos outros esportes, que é o conflito entre as exigências implacáveis da "modernização" lucrativa e a abordagem mais apaixonada, "antiquada", do esporte.

Outro dos vários temas tratados (o filme tem várias histórias que se entrecruzam) - e esse é interessante até para quem não gosta de esporte - é o impacto da fama sobre um rapaz de origens pobres, com a história do jovem quarterback que vira celebridade da noite para o dia.

A repórter de Bravo! parece ter acreditado que o principal objetivo do filme era criticar a "violência da sociedade americana", e conduziu a entrevista com o cineasta nesse sentido. Mas me parece que ela errou o alvo de novo.

O que parece interessar mesmo a Stone são as qualidades dos participantes do time retratado - tanto os jogadores quanto o técnico prestes a ser demitido; são as virtudes masculinas, em baixa nessa época de feminização e viadagem: é a persistência, a coragem, a bravura, o sacrifício pelo grupo, a superação das próprias limitações e dores; virtudes "ativas", solares. Virtudes dos grandes guerreiros - e aí fica ainda mais clara a associação entre futebol e guerra, e fica clara a associação entre este filme e outro grande filme de Stone, Platoon. E é exatamente daí que vem o título do filme, parte de uma frase que Stone diz a seus jogadores: "On any given Sunday, you can either win or lose. The problem is: can you win or lose like a man?" ("Num domingo qualquer, você tanto pode ganhar quanto perder. O problema é: você é capaz de ganhar ou perder como homem?").

Com suas múltiplas histórias, sua câmera espetacular, atuações brilhantes e uma ênfase em valores antiquados, On Any Given Sunday é uma inesquecível experiência cinematográfica, mil vezes melhor que todos os filmes do Oscar desse ano juntos.

 

NA REDE

Excelente o artigo de George Szamuely sobre o futuro próximo da internet, a partir da fusão AOL/Time-Warner. Com o desenvolvimento da tecnologia de cabos, os provedores terão de gastar pequenas fortunas para se adequar, e isso fatalmente causará a desaparição dos provedores pequenos, abrindo caminho para um domínio quase completo da AOL, com todas as restrições à liberdade de expressão que esse provedor costuma aplicar.

Só para ter uma idéia do que nos aguarda, o presidente da AOL esteve em março na Colômbia para conversar com o líder das Forças Armadas Revolucionárias Colombianas (FARCs), e fez uma joint-venture com o forte grupo venezuelano Cisneros, a fim de garantir que será o provedor dominante na América Latina.

No Brasil (onde, aliás, seus negócios não vão muito bem), a AOL entrou mostrando aguda intuição da marcha irresistível da história: o primeiro site com o qual a empresa se associou foi o "Correio da Cidadania", que reúne radicais da extrema-esquerda. Aliás, os editores do "Correio" afirmaram ser essa uma prova de sua independência. Impressionante.

Leio, estupefacto, no site da BBC, que cientistas americanos descobriram, após muitas pesquisas e muito dinheiro gasto, que, para sabermos se alguém está mentindo, devemos olhar seus olhos, sua testa e suas sobrancelhas, e não a parte de baixo de seu rosto.

Só mesmo cientistas americanos podem ser burros o suficiente para precisar fazer pesquisas para descobrir isso. E só mesmo as cobaias americanas usados por esses cientistas para fazer essas pesquisas podem ser burras o suficiente para imaginar que fosse o contrário...

Excelente a matéria do Washington Times sobre os exageros dos grupos anti-racistas. Um pesquisador do assunto, diz o jornal, calculou o tamanho da temível "ameaça nazi-fascista": 5 ou 6 mil pessoas, dentre os muitos milhões de americanos. Menos gente que os membros dos próprios grupos anti-racistas, grupos sempre prontos a extorquir fortunas do governo e a cometer abusos em nome do anti-racismo, alguns dos quais também relatados na matéria do jornal americano.

 

MUNDO ACADÊMICO

Ao contrário de Christopher Hitchens, não vejo nenhuma contradição entre a obra de Allan Bloom, especialmente The Closing of American Mind (publicado no Brasil com o título extravagante de O Declínio da Cultura Ocidental, mas com belíssimo prefácio de Saul Bellow - v. seção "Fótons"), e o fato, mui tardiamente divulgado, de ele ser gay e ter morrido de AIDS.

É verdade que isso é uma mancha no movimento conservador, que, após o lançamento do citado livro de Bloom, o abraçou, tanto que ninguém se apressou em revelar o fato, e tanto que o livro de Saul Bellow cujo personagem é baseado em Bloom não foi bem recebido nesses meios.

Mas isso não é uma mancha na obra de Bloom, pelo simples fato de que Bloom não trata do assunto na sua obra. Claro, isso mostra que ele era fraco e invalida boa parte do que ele escreveu sobre amor no livro Amor e Amizade, mas não invalida as melhores partes do livro de Bloom, que são as críticas à affirmative action, à falta de liberdade acadêmica e ao currículo filistino implantado pela esquerda nas universidades americanas depois da década de 60, a descrição da "germanização" da esquerda americana, especialmente sob a influência do niilismo nietzschiano, e o estudo das causas da crescente ignorância e estupidez dos americanos.

Nada disso tem a ver com o homossexualismo de Bloom, e o comentário de Hitchens a respeito do assunto é risível: é óbvio que não há contradição nenhuma entre a crítica à affirmative action e ao radicalismo black feita por Bloom e o fato de ele ter amantes negros.

Mas o que me parece pior nessa discussão é a mostra de quão partidarizada e politizada está a vida intelectual americana (não só ela, claro, mas ela especialmente). Cada escritor passa a representar não a sua própria pessoa, as suas próprias opiniões, mas é feito porta-voz de um grupo político inteiro: fulano é conservador da linha Russel Kirk, beltrano fala pelo conservadorismo católico, um outro ali fala pelos conservadores da linha de Tocqueville; do outro lado, um fala pela "New Left", outro pela "Old Left", um terceiro por uma dissidência black da "New Left", e assim por diante, num conflito não de idéias e argumentos, mas de facções e propostas políticas.

Em parte, o escândalo do homossexualismo de Bloom vem disso. Mas como, um conservador da linha de Leo Strauss, gay? Não é possível! Sim, é possível. É possível porque ele não era uma facção política, não era uma entidade coletiva; era um indivíduo, com suas fraquezas e suas qualidades, e sua obra, idealmente ao menos, é a expressão dessa vivência individual. Que, em sua obra, ele tenha escondido uma dessas fraquezas, e tentado assumir outra persona, que agradasse a conservadores (se o fez mesmo), é certamente uma falsidade que enfraquece essa obra. Mas não é o suficiente para invalidá-la, nem para achar no caso, como acha Hitchens, uma ocasião para apologia do homossexualismo.

Agora, se o partidarismo é assim nos EUA, no Brasil é muito pior, porque, nos EUA, ao menos existem inúmeras facções; aqui, só existe uma. Quem discorda dela, ou é considerado doente mental, ou é tratado como caso de polícia.

 

ORTODOXIA

Um tal de T. R. Reid escreveu um artigo bizarro no Washington Post dizendo que a liturgia da Sexta-feira Santa é o ponto alto da liturgia católica, que é tudo muito bonito e muito solene, mas que há um grave problema: a leitura feita é a da Paixão segundo São João, evangelho que, segundo Reid, é anti-semita (porque atribui aos judeus de então, e não a Pilatos, a responsabilidade pela crucifixão do Cristo) e ultrapassado. Reid sugeriu, então, que esse evangelho deveria ser extirpado da Bíblia.

Fiquei tão abobalhado com o artigo, que nem soube reagir a ele quando foi publicado. Mas mais impressionante ainda é o fato de que ninguém, ninguém mesmo, na comunidade católica tenha se movido para responder a tamanho absurdo. O jornalista ainda dizia que tinha comentado o assunto com o padre de sua paróquia, e que o padre lhe tinha respondido que existem certos atavismos que demoram para ser sanados...

E não é que, algum tempo depois, a resposta vem não de alguém da Igreja, mas de um pastor luterano?!

E o pastor Michael Peirce disse o óbvio: primeiro, que dizer que eram judeus os assassinos do Cristo não significa que todos os judeus sejam culpados pela crucifixão, exatamente como dizer que era branco o assassino de John Kennedy não significa que todos os brancos são responsáveis pelo assassinato. Segundo, que os argumentos históricos usados por Reid eram conversa para boi dormir. Terceiro, que boa parte das principais doutrinas cristãs, inclusive a Santíssima Trindade, dependem do Evangelho segundo São João, que, ademais, é o mais belo de todos. Quarto, que criticar esse Evangelho é ofender diretamente um dos pontos principais do cristianismo, e que se essa crítica é feita por alguém que se diz cristão, e ninguém acha estranho, então é que a atmosfera anti-cristã da imprensa mundial está chegando ao seu ponto mais extremo.

Tenho restrições a algumas outras coisas que Peirce diz no artigo, mas não posso deixar de notar que é um estranho sinal dos tempos quando o único defensor da ortodoxia que sobra é justamente um pastor luterano - e, portanto, a rigor, um herege...

Enquanto isso, no Canadá, um programa de TV mostrou uma mulher repartindo a comunhão com ninguém menos que seu cachorro. Eis o ponto de abominação a que chegamos...

 

DESINFORMATZIA

Faço tantas críticas à imprensa brasileira, que não posso deixar de elogiar a diversidade na cobertura dos últimos atos do MST. Enquanto a Folha de São Paulo e O Globo fazem o papel de radicais de esquerda, divulgando notícias e artigos favoráveis ao movimento, o Estadão e a Veja publicaram matérias fortes e interessantes criticando o movimento. O que é interessante é justamente essa possibilidade de confrontar pontos de vista diferentes, quando normalmente nossos jornais e revistas repetem em uníssono o mesmo discurso.

Não faz sentido a Veja dizer, sem nenhuma fundamentação, que as acusações de pedofilia contra o filósofo Gérard Lebrun eram falsas e só serviram para prejudicar o filósofo.

Em primeiro lugar, Lebrun morreu ano passado em circunstâncias estranhíssimas cujos detalhes a polícia francesa se recusou a divulgar.

Em segundo lugar, não vejo por que o gari inventaria que tinha sido Lebrun quem lhe encomendara as fotos de pedofilia. E, afinal, que tipo de relação havia entre Lebrun e o gari? Por que é que um filósofo francês mantém relações com um gari brasileiro?

Nada disso ficou claro até hoje, o que indica que, no mínimo, o caso merecia investigações mais detalhadas.

 

POLITICAGENS

Recebi, no e-mail do "Indivíduo", uma dessas mensagens que as pessoas mandam para todos os sites de notícias cujos e-mails conhecem, reclamando do "desmatamento da Amazônia". A mensagem era assinada por uma estudante de ecologia da UNESP, e, como simpatizei tanto com o nome da menina quanto com seu jeito meio infantil de escrever, não quis responder nada.

Mas é preciso esclarecer uma coisa: toda essa área da Amazônia que é "protegida", e que os fazendeiros querem que deixe de sê-lo, é uma parte que foi literalmente tomada por governos estrangeiros e por ONGs estrangeiras. São áreas do Brasil onde brasileiros estão proibidos de entrar. E o discurso a respeito de "nações indígenas" serve para legitimar esse esfacelamento do Brasil.

Com a diminuição na área "protegida" da Amazônia, não estamos perdendo recursos: estamos recuperando áreas do Brasil que tinham sido tomadas.

 

FÓTONS

"Na maior das confusões, ainda existe uma porta aberta para a alma. Pode ser difícil encontrar, pois na meia-idade ela está coberta de mato, e algumas das moitas mais densas que a cercam brotam daquilo que definimos como a nossa educação. No entanto, a porta sempre existe e a nós cabe mantê-la sempre aberta, para ter acesso à parte mais profunda de nós mesmos - àquela parte que está a par de uma consciência superior, graças à qual podemos fazer julgamentos definitivos e considerar tudo em conjunto. A independência dessa consciência que tem força para ser imune ao ruído da História e às distrações de nosso meio ambiente: eis tudo quanto representa a luta pela vida. O espírito tem de encontrar e de manter a sua base contra as forças hostis, às vezes personificadas em idéias que freqüentemente negam sua própria existência e que repetidamente parecem, na verdade, tentar anulá-lo por completo." - Saul Bellow, no prefácio ao livro de Allan Bloom, The Closing of American Mind

 

OS IDIOTAS

"Apesar de Fidel Castro ser muito criticado por muitas coisas, não há nenhuma dúvida de que ele sente uma ligação muito profunda com aqueles cubanos que ainda estão em Cuba. Não tenho dúvida de que Fidel Castro foi sincero quando ele disse, 'escutem, nós realmente queremos que essa criança volte para cá.' " - Dan Rather, apresentador da CBS, adivinhando o que vai na cabeça de um tirano.

"Eu pensei no assunto várias vezes, e não sei de nenhuma outra maneira pela qual eu poderia ter resolvido o problema. Outras pessoas terão de decidir se eu tomei a decisão certa. Eu olho para essas fotos de Elián com seu pai, no entanto, e me sinto muito, muito feliz." - Janet Reno, o jacaré com mal de Parkinson do governo Clinton, que, depois de matar crianças em Waco, se tornou a campeã mundial de direitos dos pais.

"O projeto visa [sic] acabar com a tutela e conceder ao índio pleno direito de cidadania, exceto às tribos em fase de aproximação com os brancos. Ora, cidadania supõe direitos e deveres. Não se pode destutelar os índios sabendo que, deles, é impossível exigir deveres como ao restante da nação." - Frei Betto, finalmente contra a "cidadania" de alguém. Mas eu tenho a seguinte pergunta: o nosso pseudo-frei preferido acha que, se um índio chegasse para ele com uma flecha e o matasse, o índio deveria ser obrigado a responder por isso ou "seus valores são outros"?

"Por isso esse 1ºde Maio acabou sendo mais um momento deste grande processo de reorganização do movimento social que vem se verificando desde o ano passado. Como em 1999, será uma data a mais no calendário de lutas que levou o povo brasileiro ás ruas na memorável Marcha dos 100 Mil a Brasília, do Grito dos Excluídos, do Dia Nacional de Paralisação... Somente assumindo o papel de protagonistas de nossa história, retomando as ruas e as praças, com nossas bandeiras sinalizadoras de que estamos vivos e ativos, seremos dignos do milênio novo que se aproxima, e de transformá-lo no milênio sem exclusões que buscamos na utopia da sociedade justa e fraterna de nossa fé e de nossa esperança." - Renato Simões, o mais novo "poeta da revolução".

"A raiva que o MST desperta em uns e a admiração e respeito que desperta em outros vêm precisamente do fato de que ele não aceita a condição subserviente e atua, pacificamente, dentro dos meios de que dispõe. Uma verdadeira democracia se constrói de baixo para cima." - Editorial do "Correio da Cidadania", cujo autor parece ter estranhos conceitos de "manifestação pacífica" e "democracia".

 

ARTIGO DA SEMANA

Por incrível que pareça, o artigo que quero destacar esta semana foi publicado no "Mais!", suplemento de lixo cultural da "Folha de São Paulo". Aliás, não é bem um artigo, mas a resposta do escritor Fernando Monteiro (que eu não conhecia) a três perguntas feitas a ele pelo caderno.

Talvez por morar em Recife, Monteiro não precisa obedecer aos esquemas dos meios universitários de Rio e São Paulo - não sei ao certo. Sei que assino embaixo de sua apologia da tolerância brasileira, de sua análise do estado deprimente de nossas letras, bem como de sua afirmação de que Nabuco é melhor que Henry Adams e Jorge de Lima é mais importante do que Fernando Pessoa, e me espanto de que tais afirmações tenham sido publicadas na "Folha". Bom, aí vai a transcrição.

"1. A literatura do país vem perdendo relevância no contexto internacional?

"Resposta: Será que a nossa literatura teve, alguma vez, tal 'relevância', internacionalmente? É sabido que escrevemos num 'idioma-gueto', queimando talento que se esfuma na nuvem de indiferença orgulhosa dos povos que não nos compreendem. Não falamos espanhol - no mar ibérico da América Latina -, não temos uma cultura autóctone (como mexicanos, peruanos etc.), mas isso nunca foi uma desvantagem cultural, pois dessa lacuna fizemos um trampolim para a compreensão do outro. Nossa alma 'em branco' se tornou uma máquina de apreensão e linguagem compreensivas do universo alheio, dos planetas estrangeiros onde aterrissamos com a luminosidade de Machado de Assis escrevendo os dois romances mais refinados do Hemisfério Sul, na segunta metade do século XIX: 'Dom Casmurro' e 'Memórias Póstumas de Brás Cubas'. Só agora começam a vislumbrar alguma coisa disso, lá fora. Depois irão perceber que Joaquim Nabuco é mais escritor do que Henry Adams, que Sousândrade é mais radical do que Huidobro, que Jorge de Lima é mais importante que Fernando Pessoa... (não é ufanismo). Então, a literatura brasileira (para mim), ainda está por ser 'descoberta', do passado ao presente não muito animador, é verdade."

"2. Qual é a melhor narrativa brasileira dos anos 90?

"Resposta: Bem, a pergunta se centra na década mais lamentável: perdemos o norte. Frente ao mar, até Sarney virou 'romancista', e tivemos que passar a ler piadistas escrevendo falsos romances publicados por grandes editoras [grifo meu - A.V.C.]. Assim, em conexão com a resposta anterior, faço uma prece: que os 'gringos' nos descubram só até 1989!, porque, a partir daí, a coisa ficou preta. A pergunta só admitiria citar o 'menos ruim' dos anos 90 e, convenhamos, nem o autor do respectivo apreciaria semelhante elogio...

"3. Quais são as principais tendências hoje da literatura nacional?

"Reposta: Pelo que se vê, o piadismo ganha foros de 'literatura', na taba. Editores dão 'motes' [vide a coleção sobre os pecados capitais... - A.V.C.] e escritores escrevem, glosando o 'tema' das Casas...

"Onde está o nosso espírito? Foi baixar noutro 'xangô'? [Digo mais: nos últimos anos, sumiu do ambiente literário brasileiro qualquer possibilidade de expressão pessoal, de sinceridade narrativa. Os escritores imergiram numa linguagem artificial e tola, incapaz de expressar o que quer que seja, e isso acaba se refletindo na péssima qualidade do debate intelectual brasileiro - A.V.C.]

"Precisamos mergulhar em nós mesmos (ainda é tempo!) e tentar reencontrar o nosso espírito - ou algo daquela força de que fala Wordsworth: 'Pois, embora nada devolva/a hora do esplendor na relva,/da glória na flor, não sofreremos:/antes, encontraremos força/no que ficou para trás'."