No. 93 - 04/01/02

Filmes do ano

No final do ano 2000, muitos críticos americanos escreveram que aquele tinha sido o pior ano da história da indústria cinematográfica. Acho que exageraram, mas não exagerariam se escrevessem a mesma coisa a respeito do ano 2001.

Para perceber a diferença, basta comparar alguns dos principais lançamentos dos dois anos: enquanto em 2000 as superproduções tiveram ao menos alguma dignidade, e até excelência no caso, por exemplo, de Gladiador e O Patriota, 2001 trouxe um festival de porcarias. Na verdade, uma das minhas maiores dificuldades foi decidir qual filme era pior, Moulin Rouge, A. I. ou Pearl Harbour. OK - na verdade Pearl Harbour não entrará na lista abaixo porque não conseguir reunir ânimo suficiente para ir vê-lo. A mistura de Alec Baldwin, militarismo, adoração a um ditador criminoso de guerra (FDR), mentiras históricas e mais de duas horas e meia de duração é suficiente para me fazer evitar passar na calçada dos cinemas que exibiam o filme. Aliás, isso significa que provavelmente irei pouco ao cinema em 2002, já que estão sendo produzidas inúmeras peças de propaganda bélica na mesma linha, e também com patrocínio do Pentágono...

Seja como for, apresento abaixo minha seleção dos cinco piores filmes do ano e, em seguida, uma seleção de dez filmes notáveis que fugiram à estupidez geral de um ano horrível para o cinema (e não só para o cinema).

Antes, três observações. Primeiro, seria fácil incluir comédias idiotas ou filmes de terror feitos em fundo de quintal entre os piores, mas é óbvio que isso não faria sentido. É bem provável que "Tomb Raider" seja o pior filme de todos os tempos, mas não sei se é inteiramente justo chamá-lo de "filme" e não de videogame filmado. Para entrar na lista, portanto, era pré-requisito que os filmes se levassem minimamente a sério. Segundo, os leitores certamente notarão que alguns dos filmes selecionados não foram produzidos em 2001; isso acontece porque tomei como requisito a data de exibição no Brasil, com os atrasos que isso normalmente implica. Terceiro, é claro que a lista tem um pouco de arbitrário, porque não vi alguns filmes relevantes - alguns de propósito, como o referido Pearl Harbour; outros, como O Vento nos Levará (que provavelmente deveria estar na lista dos melhores), por circunstâncias alheias à minha vontade.

Piores filmes

5. Bounce
Dir.: Don Roos

Minha sensação depois de assistir a esse insuportável melodrama foi de que a Miramax seria responsável pela destruição definitiva do cinema hollywoodiano. Se dependesse da companhia, estaríamos para sempre condenados a assistir a filmes superficiais ultra-pretensiosos estrelados por gente chata e insossa como Gwyneth Paltrow e Ben Affleck.

Mas uma das delícias do livre mercado é que uma companhia pode gastar milhões em publicidade para vender um filme idiota e ainda assim não atrair ninguém ao cinema. Bouce foi um fracasso merecido - e inteiramente explicável. Quem diabos se interessa pela história de amor entre um alcoólatra egocêntrico e a viúva chorona de um sujeito que morreu num acidente de avião depois de ter trocado sua passagem com o dito alcoólatra para chegar mais cedo a casa e ver a esposa? É impossível manter a atenção num filme cujo drama central é saber se ele vai ou não contar para ela que trocou a passagem com o marido falecido e que se sente responsável por sua morte...

Ah, sim: para agradar aos anticapitalistas de plantão, ainda há uma maligna conspiração envolvendo a companhia aérea e uma agência de publicidade.

4. Sweet November
Dir.: Pat O'Connor

Como escrevi logo depois que o vi, esse é um dos filmes mais chatos já feitos, pelo simples motivo de que não se esforça nem um pouquinho para dar um mínimo de credibilidade a suas personagens. Em vez disso, temos uma hippie quase santa (Charlize Theron, outra atriz-Miramax) que dá uma lição de vida a um ultra-yuppie imbecil (Keanu Reeves, preciso dizer alguma coisa?). Até cartões da Hallmark são mais inteligentes do que as tentativas de romantismo desse filme.

3. Moulin Rouge
Dir.: Baz Luhrmann

2001 não foi apenas um ano ruim para os filmes; foi também para os críticos de filmes. É difícil pensar numa prova maior da estupidez invencível dessa gente do que o fato de que este filme entrou em quase todas as listas de "melhores do ano". Porca miséria, quão filisteu é preciso ser para deixar-se seduzir pela vulgaridade e pelos truques visuais deste filme (e, aliás, dos outros dois igualmente ridículos filmes do diretor)?

Não sei o que é pior: o mau gosto dos cenários, a tolice da "filosofia de vida" das personagens ou a tentativa covarde do diretor de fazer, ao mesmo tempo, um musical e uma sátira dos musicais.

2. Chocolat
Dir.: Lasse Hallström

Mais um filme representativo do estilo Miramax de fazer cinema pseudo-intelectual, com a diferença de que este tem atores com verdadeiro talento (Juliette Binoche, Johnny Depp, Alfred Molina e Judi Dench), inteiramente desperdiçados em papéis idiotas.

Depois de fazer uma apologia do aborto, o diretor Hallström, que é a prostituta preferida da Miramax, fez um ataque ao catolicismo, à sacralidade da quaresma e aos valores centrais de qualquer civilização sã, como a fidelidade, o autocontrole e a capacidade de autogoverno de uma comunidade. Como escrevi logo depois que vi o filme, em fevereiro de 2001:

É a isto, no fim das contas, que se reduz o cinema hollywoodiano dito "de qualidade" ou "não-comercial": piadinhas ridículas sobre o catolicismo e cenas em defesa da superioridade dos instintos sexuais e das concupiscências sobre a moral católica, para fazer rir os sodomitas, as lésbicas, as meretrizes e os debilóides que se julgam superiores à religião e não admitem que possa existir qualquer restrição moral à satisfação de qualquer desejo humano.

Infelizmente, como acrescentei na época, entre os ditos debilóides inclui-se a maior parte dos católicos, ou pelo menos aqueles que pregam um catolicismo "liberal", que não os importune com velhas admoestações sobre "sacrifício" e "penitência".

1. A. I. - Artificial Intelligence
Dir.: Steven Spielberg

Aquecimento global, destruição da natureza pelo capitalismo desenfreado, racismo contra robôs, um robô quase humano que deseja rever sua "mãe", noções pseudocientíficas sobre inteligência artificial e, at last but not at least, alienígenas! É óbvio que não pode prestar, mas o filme é ainda pior do que parece. Aliás, este é o pior filme da carreira de Spielberg, e sua mistura de sentimentalismo barato e filosofia de botequim é a prova definitiva de que ele não tem uma visão de mundo profunda o suficiente para escrever um comercial da TV, muito menos um filme inteiro.

Spielberg pretende nos comover com o drama de um robô programado para demonstrar carinho e afeição incondicionais a seus "pais" e que é rejeitado por eles; mas é óbvio que aí não existe drama nenhum, pelo simples fato de que o robô-criança foi programado para isso, isto é, ele não pode optar por não amá-los - isto é, ele não apenas não tem absolutamente nada de humano, mas, a rigor, tem menos liberdade de escolha do que um cachorro ou um gato, o que torna a história de seu relacionamento com sua "família" completamente desprovida de interesse. Como se isso já não bastasse, existem poucas cenas tão ridículas - e até constrangedoras - na história do cinema quanto as dos últimos vinte e cinco minutos deste filme interminável e abominável.

Melhores filmes

10. Sunshine
Dir.: István Szábo

Este filme tem graves problemas de narrativa e de atuação (Ralph Fiennes interpreta várias gerações da mesma família, e a única diferença entre as personagens são as roupas), mas há poucos filmes recentes que tenham abordado temas como família, tradição, religião e política com tanta profundidade.

Szábo apresenta um panorama da história da Hungria, dos tempos do império aos tempos do comunismo, a partir de uma família judia que vai abandonando sua tradição à medida que tenta engajar-se nos diversos regimes políticos, até que o último representante da família, já na década de 1960, percebe a futilidade de vender a própria consciência e abandonar os próprios valores espirituais para sucumbir à sedução estatal e à ambição de poder que é a característica central da política. Resumi a mensagem do filme da seguinte maneira, em artigo de julho:

Como recentemente escreveu Thomas Fleming, nós estamos num tempo em que o Estado exige de nós um voto de lealdade que supera a lealdade que temos com aqueles a que nos associamos mais diretamente; um tempo em que filhos são obrigados a depor contra os pais; burocratas e assistentes sociais tomam o lugar das famílias; leis consagram o ódio à religião e às tradições; um tempo de grandes avanços na eterna luta do Estado contra as instituições intermediárias que exigem de seus membros votos de lealdade que o Estado pretende monopolizar, porque não admite que alguém tenha outro senhor que não ele, entidades intermediárias sem as quais a liberdade é impossível.

Mas "Sunshine" lembra aos espectatores que os senhores da Terra são passageiros, que suas tiranias podem destruir o corpo, mas só têm poderes sobre as almas de quem desejar submeter-se elas. Porque o homem de espírito está submetido a uma lei superior, e por mais que o oprimam, ele nunca perderá sua liberdade interior; enquanto o homem que vende sua alma para a moda política da época pode até assumir altos cargos políticos, mas será sempre escravo de uma ilusão passageira.

9. L'Anglaise Et Le Duc
Dir.: Eric Rohmer

Sim, é Eric Rohmer, o que significa que há torrentes intermináveis de diálogos; e a tendência de dar preferência aos diálogos sobre a ação se agrava com o uso de cenários pintados nos quais os atores "entram" por meio de técnicas digitais. Mas quantos filmes você já viu que tomam o lado da aristocracia e da Igreja contra os humanistas sangüinários da Revolução Francesa? Quantos filmes você já viu que mostram a Revolução como nada mais que uma carnificina realizada em nome de belos ideais? Quantos filmes você já viu que retratam esses "belos ideais" como eles realmente são - pretextos para a expansão do Estado e a abolição de todas as entidades intermediárias que salvaguardavam a liberdade individual contra o apetite predatório do Estado central? E, por fim, quantos filmes você já viu em que a palavra "cidadão" é usada no verdadeiro sentido que tinha no contexto da Revolução Francesa (e que continua a ter no Estado moderno; v. meu artigo "O legado francês"), o de servo do Estado?

O filme ainda tem a melhor cena que vi no cinema este ano, a cena em que a "inglesa" do título (escocesa, na verdade), mesmo correndo risco de vida, esconde um outro aristocrata que ela detestava e que estava sendo perseguido pela polícia revolucionária.

Claro que tudo isso é sensatez demais para a França secularizada e socialista de hoje, e Rohmer quase foi apedrejado por lá - "Le Monde" chegou a sugerir que ele fosse guilhotinado, o que, aliás, é a maneira como esquerdistas costumam lidar com seus adversários.

8. Hamlet
Dir.: Michael Almereyda

Há quem seja radicalmente contrário a qualquer tipo de modernização de Shakespeare e que ache que os textos devem ser encenados exatamente como o bardo os imaginou. Não me incluo nessa corrente, e explico: o essencial é que a montagem seja fiel ao texto e a seu conteúdo espiritual, não a seus cenários ou sua localização histórica e geográfica. Por exemplo, o "Hamlet" de Laurence Olivier é bastante conservador em termos de encenação, mas Olivier fez os cortes de maneira a aumentar seu próprio tempo em cena e tirou grande parte do impacto da peça.

Existe, ainda, o problema da transposição das peças para o cinema, que é um meio diferente do teatro. Outro "Hamlet", o de Kenneth Branagh, é excelente, mas é essencialmente teatro filmado. O desafio da adaptação cinematográfica é pôr os recursos do cinema a serviço do conteúdo da peça, e não como mero suporte dos diálogos.

Qualquer adaptação de "Hamlet" para o cinema tem, pois, o duplo desafio de usar a imagem cinematográfica para contar a história da transformação espiritual de Hamlet - isto é, de não fazer teatro filmado nem inventar um outro "Hamlet" que não é o de Shakespeare. E, onde Branagh e Olivier fracassaram, Michael Almereyda triunfa, com seu esplêndido Hamlet situado em Nova Iorque no ano 2000 e brilhantemente interpretado por Ethan Hawke.

7. Harry, Un Ami Qui Vous Veut Bien
Dir.: Dominick Moll

Este filme teve um efeito curioso sobre mim: mesmo tendo-o visto depois de ler a esplêndida resenha de Álvaro Oppermann, não me impressionei muito. Mas, à medida que os dias passavam, alguns acontecimentos me lembravam cenas do filme, ou então eu de repente me lembrava com nitidez impressionante de outras cenas. Posso dizer que este é um filme com efeito atrasado, mas ainda assim é um dos mais impactantes que já vi.

A história é simples, mas meio bizarra: um sujeito saindo com a família em viagem de férias para sua casa no campo encontra Harry, um antigo amigo de escola de quem já não se lembrava, e este amigo o acompanha até sua casa e age de forma cada vez mais estranha, a fim de convencê-lo a retomar sua carreira juvenil de escritor - chegando a eliminar as pessoas que ele via como obstáculos a essa retomada.

O filme tem tanto impacto porque Harry não é um bicho-papão de thrillers banais; ele é uma verdadeira possibilidade humana; ele representa a tentação do nada, da negação, da rejeição do mundo real, da própria biografia, das próprias escolhas; ele representa a possibilidade de negar o sentido da própria vida e fugir à responsabilidade das próprias escolhas; representa a tentadora promessa satânica de "começar do zero" e "viver sem culpas".

6. Traffic
Dir.: Stephen Soderbergh

Extraordinário épico sobre o inevitável fracasso da guerra às drogas, retratando tanto as origens da atual "epidemia" de consumo de entorpecentes na decomposição da família e da comunidade quanto a impossibilidade de burocratas de controlar um negócio lucrativo gerenciado por empreendedores de imaginação fértil. O filme rejeita o proibicionismo mas não adere à panacéia do tratamento compulsório, preferindo indicar a retomada dos valores familiares e religiosos como possível solução. Esplêndidas interpretações e mais uma prova da habilidade de Soderbergh de conduzir uma narrativa de forma quase hipnótica - e, neste caso, por quase três horas! (Mais a respeito no meu artigo "A cultura do ácido e a erosão da autoridade".)

5. Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain
Dir.: Jean-Pierre Jeunet

Já está acontecendo o que eu previa: os críticos estão torcendo o nariz para Amélie Poulain, o filme de maior sucesso de público da história do cinema francês. E, de fato, o filme não tem tiradas pseudofilosóficas como A. I., não faz apologia da imoralidade como os filmes de François Ozon (o novo queridinho da crítica entre os cineastas franceses), não se baseia no mau gosto como Shrek, não propõe a abolição da Igreja Católica como Chocolat - enfim, não há em Amélie Poulain nada daquilo que os críticos gostam. Enquanto isso, as pessoas continuam a lotar as salas de projeção, e os freqüentadores do Internet Movie Database deram ao filme média 9.0, a maior média que já vi para qualquer filme recente (notem que, no momento em que escrevo, essa é a média entre 7.746 votos!) e que põe o filme em décimo-oitavo entre todos os filmes do site. E, com efeito, é preciso ser um crítico de cinema para não gostar desse filme.

Digo mais: esta comédia leve, deliciosa e surpreendente confirma a incrível capacidade imaginativa que Jeunet mostrara em seus deslumbrantes filmes anteriores (Delicatessen, Ladrão de Sonhos) e redime todos os pecados do cinema francês. Se você alguma vez sofreu por causa de algum diretor francês idiota com pretensões filosóficas, se você foi traumatizado por algum daqueles filmes franceses com "preocupações sociais" em que cada dois minutos parecem dois dias, este é o filme indicado para curar seu trauma e fazer que você fique novamente de bem com o cinema francês. Porque este é um filme para que você saia do cinema com um sorriso no rosto e voltando a acreditar em idéias antiquadas como a de que solidariedade, amor e doação são indispensáveis para uma vida feliz e plena de sentido.

4. Il Mestiere Delle Armi
Dir.: Ermanno Olmi

Magnífica produção do grande mestre italiano sobre as batalhas que culminaram na morte do "mestre das armas" do Vaticano durante a Renascença - a primeira vítima da artilharia moderna; especificamente, de um canhão. A agonia provocada pelo canhão é mostrada em grandes detalhes, mas este não é apenas um filme sobre os horrores do aperfeiçoamento dos meios de matança; é também um filme sobre a crescente disposição dos senhores deste mundo para utilizá-los em busca da consolidação de seu poder. No retrato traçado por Olmi de como senhores feudais italianos conspiram com alemães para trair o Vaticano, vemos os primórdios da emergência do Estado moderno, com suas pretensões totalizantes e totalitárias. Um filme visualmente arrebatador e extremamente relevante nestes tempos em que voltou à moda bater os tambores da guerra.

3. La Stanza Del Figlio
Dir.: Nanni Moretti

Eu nunca tinha visto um filme de Nanni Moretti, e fui ver esse sem nem saber do que se tratava. Os primeiros vinte e cinco minutos confirmavam o apelido de "Woody Allen italiano" mas sem a mesma acidez. Eles retratam uma família em quase perfeita paz, e os pacientes hilariantes do pai, psicanalista. Como eu não sabia a história do filme, e imaginei uma comédia leve, não estava preparado para o que vinha a seguir.

Num domingo, o pai e a mãe (Giovanni - o próprio Moretti - e Paola, a bela Laura Morante), durante o café da manhã, combinam de ir ao cinema, e o pai tenta convencer o filho (Andrea, Giuseppe Sanfelice) a ir correr com ele em vez de ir mergulhar com os amigos. Mas o telefone toca, e é um paciente hipocondríaco de Giovanni, que diz precisar falar urgentemente com ele. O paciente mora longe, e os planos da família são desfeitos. Cada um toma seu rumo.

Ao voltar da visita ao paciente, Giovanni descobre que, enquanto mergulhava, seu filho ficou preso numa gruta e, ao lutar para subir, desvencilhou-se de parte do aparelho de mergulho, morrendo de embolia.

A partir daí, praticamente não há mais história. É como se a vida parasse. O filme passa a fazer um retrato devastador dos efeitos devastadores da perda de um filho. Esse evento tem um impacto emocional tão grande sobre a família, que eles se desorientam, perdem a direção de suas vidas. Giovanni passa a ter reações extremas em relação aos pacientes: ou não consegue se interessar em suas histórias, ou se interessa demais e chora junto com eles. Paola não consegue mais trabalhar. Irene, a filha jogadora de basquete, cria uma confusão durante um jogo.

Mas, por favor, não me entendam mal: não se trata de um dramalhão. O dramalhão é o filme que cria situações extremadas, exageradas, a fim de despertar lágrimas fáceis e sentimentos estereotipados. Moretti não exagera, não apela - a situação já é suficientemente dramática por si mesma. O drama de "O quarto do filho" é o drama de uma tragédia inesperada, de um acontecimento tão violento que traumatiza os envolvidos - eles não conseguem superar esse acontecimento. Eles continuam vivendo aquele mesmo fato, imaginando alternativas, tentando reverter o relógio, culpando-se por eventos que estavam além do seu controle.

Na minha cena preferida, logo depois da missa encomendada pela filha, Irene, Giovanni e Paola estão sentados na mesa da cozinha, em silêncio, até que ele pensa alto em alguns dos lugares-comuns ditos pelo padre, que fez o sermão com o conhecido ar entediado de quem faz sempre o mesmo sermão, e começa a andar pela cozinha, notando defeitos nos utensílios, como falhas na pintura de xícaras, pontas quebradas de jarras, e pega sua chaleira preferida e lembra que, depois que ela quebrou, eles a reconstruíram, e agora ela está como nova. Ele então joga a chaleira na mesa, quebrando-a de novo.

A cena retata a vida das personagens depois da tragédia: a obsessão com o ocorrido, a incapacidade de comunicação e convivência, o isolamento provocado pela dor, a insistência em manter abertas as feridas, em não procurar "voltar ao normal". Giovanni e Paola estão pensam em separar-se, Irene rompe com o namorado.

Essa espiral de sofrimento traumático só pode ser curada pela introdução de um elemento externo, e esse elemento vem na forma de Ariana, a namorada de Andrea, que eles desconheciam e passam a conhecer encontrando uma carta que ela lhe enviou poucos dias depois de sua morte (da qual, morando em outra cidade, ela não sabia). Ariana os visita, traz fotos que Andrea lhe havia enviado, conta como eles se conheceram (passaram apenas um dia juntos, num acampamento; ele estava chegando e ela indo embora). Ela explica que está viajando de carona pela Europa, e que, junto com um amigo, pretende chegar à França ainda aquele dia. Giovanni, Paola e Irene levam Ariana e seu amigo para um posto, a fim de tentarem pegar carona lá. Nenhum carro aparece, e enquanto dirige para outro posto, Giovanni nota que, no banco de trás, os dois estão dormindo, assim como Irene. Ele decide levá-los até à França. Pela primeira vez desde a morte de Andrea, a família está junta de novo, e, quando chegam lá, pela primeira vez pai, mãe e filha conseguem rir juntos.

O filme termina com Ariana olhando de uma janela de ônibus os três andando na praia, ainda meio cambaleantes, ainda sem saber direito como voltar a conviver, mas já dando passos nesse sentido. Eu disse que era Woody Allen sem cinismo. Moretti não realiza um final feliz, mas o prenuncia. A caminhada na praia é o começo da reconstrução, o começo da superação do trauma. Não é um final marcado pela felicidade, mas ao menos é marcado pela esperança. É um filme na melhor tradição de simplicidade, sinceridade e singeleza do cinema italiano, e uma das representações mais emocionantes que vi no cinema da dor e do sofrimento de uma família.

2. Requiem For A Dream
Dir.: Darren Aronofsky

O filme mais perturbador do ano, esta adaptação de um romance de Hubert Selby Jr. não é para estômagos fracos, mas é a melhor representação cinematográfica do inferno do escapismo promovido pela "cultura do ácido". Como escrevi em junho:

Hubert Selby diz que retrata o lado sombrio da vida porque é mais fácil fazê-lo do que apresentar soluções. Ora, existem dois aspectos do papel da arte no desenvolvimento moral: a ilustração e exaltação das virtudes, e a exposição dos vícios e paixões da alma. Claro que este último aspecto é mais comum na cultura contemporânea, porque são parte de nossa experiência cotidiana. Mas, desde que não haja - como freqüentemente há - inversões satânicas que retratam vícios como virtudes e vice-versa, é inegável a importância de obras de arte que expõe esse lado obscuro e sombrio da alma humana, obras que dizem "este poderia ser você, porque você também pode negar o que existe de mais nobre em sua alma e pode sucumbir às paixões mais grosseiras, porque você também pode fugir do sofrimento, fugir da vida e abraçar o absurdo e o pueril", ao mesmo tempo que mostram: "e este será o resultado".

Nesse sentido, não há soluções que Selby possa oferecer, porque não existem soluções genéricas para o problema da falta de sentido: esse é um esforço individual de construir uma história que valha alguma coisa, de construir uma vida que efetivamente valha a pena, que faça sentido e que realize as potencialidades humanas. É claro que essa construção requer um penoso esforço individual e requer sacrifícios, mas a alternativa a ela é a imersão no nada, é a perda da própria condição humana. Só por nos terem lembrado disso, temos de ser gratos a Selby e Aronofsky.

E Aronofsky retrata o horror de renunciar à dignidade humana com assombrosa técnica cinematográfica - que inclui técnicas de fotografia que ele mesmo inventou - e com intepretações extraordinárias, especialmente de Ellen Burstyn.

1. Concorrenza Sleale
Dir.: Ettore Scola

Este filme tem tudo o que se pode esperar do melhor cinema italiano: personagens inesquecíveis, cenas familiares retratadas com um misto de ironia e admiração, e a característica mistura de drama e comédia.

A história é narrada pelo filho menor de um comerciante que tem uma rixa com o vizinho judeu, numa pequena rua em Roma. O mais impressionante é como Scola consegue fazer a vida da rua quase saltar da tela, tão a riqueza com que retrata suas personagens e as relações de amizade e comércio que dão vida àquela comunidade.

E, mais adiante, quando a ascensão do fascismo faz que a rixa dê lugar à amizade, ele mostra como o Estado totalitário busca interferir nas comunidades e arruinar as relações espontâneas e as instituições intermediárias - mas também lembra que tempos difíceis despertam o melhor nas pessoas; que por mais que o totalitarismo confie no medo e na inveja para minar as relações sociais, a capacidade humana de resistir e de realizar atos de sacrifício e solidariedade persiste.

Não estou exagerando: este filme é tão bom que, depois que terminou, saí do cinema, comprei outro ingresso e o vi de novo, na sessão seguinte.

 

 


Página inicial - Busca - Mapa do Site - E-mail