Chorumela convincente
Uma das crenças preferidas do idiota latino-americano é aquela que atribui à "política econômica neoliberal" a responsabilidade pela pobreza e pelo desemprego nos chamados "países subdesenvolvidos".
Não obstante desmentir-se a si mesma (os países subdesenvolvidos são justamente aqueles que ainda mantêm forte intervenção estatal na economia, enquanto o liberalismo é adotado por todos os desenvolvidos), essa idéia maluca tem numerosos adeptos, desde os paradigmáticos Frei Betto e Emir Sader a qualquer professorzinho de Geografia em Segundo Grau. Como de costume, essa gente não hesita em maltratar a lógica, adulterar a História e mandar os fatos às favas.
Na verdade, essa não é a crença primitiva. Ela deriva de uma conhecida teoria marxista: a "lei de ferro dos salários". Segundo esta lei, no regime capitalista, os trabalhadores receberão como salário apenas o que for estritamente necessário para sua sobrevivência. Se os salários sobem e os trabalhadores melhoram de padrão de vida, eles terão mais filhos, os quais, quando ingressarem na força de trabalho, farão baixar novamente os salários ao nível inicial - e assim ciclicamente.
Essa teoria se baseia num conceito de trabalhador semelhante ao que os biólogos usam para se referir aos ratos. Se você aumenta a comida para um grupo de ratos, eles vão se reproduzir até o ponto que esse aumento permite; mas se você aumenta os salários dos trabalhadores, eles certamente terão outros usos para o dinheiro que não a criação de novos filhos.
É evidente que um aumento de salário não implica necessariamente um aumento da população, mas sim, antes de mais nada, um aumento do padrão de vida média. Essa melhoria só é possível como fruto do aumento do capital investido por indivíduo.
Mas seria o capitalismo responsável por esse aumento? Isso fica muito claro se observarmos as condições econômicas, por exemplo, na Inglaterra, pátria do capitalismo. Imediatamente antes da adoção da economia liberal, da população de seis milhões de habitantes desse país, um milhão não passavam de indigentes. Com a emergência das indústrias capitalistas, esse contingente foi imediatamente incorporado e empregado. A velha história de que as fábricas empregavam crianças e mulheres que, antes de virarem trabalhadores, tinham belas condições de vida, é simplesmente uma mentira. As mulheres não foram tiradas das cozinhas para as fábricas, porque não tinham cozinhas e não tinham o que cozinhar. Com a emergência do capitalismo, elas começaram a ter como se sustentar. Todo o horror atribuído ao capitalismo emergente se desmente pelos números: durante o período de 1760 a 1830, a população adulta da Inglaterra duplicou, o que prova que crianças que antes estavam morrendo, passaram a sobreviver.
A Inglaterra que, no início do século XVIII, sustentava a duras penas seis milhões de pessoas, hoje sustenta mais de cinqüenta milhões em condições muito superiores.
Sim, o liberalismo, quando bem aplicado, causa riqueza.
O progresso econômico se baseia no fato de que existe acumulação de capital. As pessoas não consomem tudo que produzem, mas poupam e investem uma parte desse montante. Quando alguém acumula determinada quantidade de capital e confia esse dinheiro para uma poupança ou para uma companhia de seguros, está transferindo dinheiro para um empresário, um homem de negócios, permitindo que esse empresário expanda suas atividades e invista num projeto para o qual faltava capital.
Uma vez arrecadado o capital para o projeto, ele será utilizado para a contratação de trabalhadores e a compra de matérias-primas. Isso ocasionará, graças a essa demanda adicional, uma tendência ao aumento no preço dessas matérias-primas e nos salário desses trabalhadores, bem como um aumento da oferta de empregos, o que quer dizer que, antes que o empresário ou o poupador tenham obtido algum lucro, o trabalhador desempregado, o produtor de matérias-primas, o agricultor e o assalariado já estarão recebendo os benefícios daquela acumulação de capital.
O quanto o empresário virá ou não a ganhar vai depender das condições do mercado e de sua capacidade de adaptar-se a ele, mas os trabalhadores e os produtores receberão as vantagens de imediato.
Um belo exemplo disso é a famosa política salarial de Henry Ford, que consistia em nada mais do que, tendo fundado uma nova indústria, oferecer a quem quisesse trabalhar nela salário mais altos do que recebiam em seus outros empregos. Entenda-se bem: isso é inerente ao capitalismo, porque é a única forma de uma empresa ingressar no mercado e, futuramente, almejar a ter lucros.
Aí está o processo capitalista: poupança, investimento em bens de capital e elaboração de novos métodos para a aplicação dos bens de capital, com o subseqüente aumento do padrão de vida e satisfação das necessidades econômicas das classes populares. Claro que isso só é possível onde existam condições para a diversidade industrial, isto é, onde a liberdade de escolha e de planejamento não seja comprometida pela intromissão estatal.
Aquela velha fábula do capitalismo como destinado a tornar os pobres mais pobres e os ricos mais ricos é apenas isso: uma fábula, um conto da carochinha. No sistema socialista, ao contrário, como o Estado tira dos indivíduos a possibilidade de funcionar como agentes do progresso econômico (em qualquer uma das três etapas descritas acima) e se arroga o monopólio do planejamento, todos exceto os membros do Estado estarão condenados ou à pobreza ou à dependência do paternalismo estatal (o que dá sempre no mesmo).
Bem sei que tudo isso vai soar bastante estranho e vai causar irritação em bastante gente. A distorção dos conceitos leva quase todos, hoje em dia, a confundir coisas tão opostas como liberalismo e fascismo e a esquecer que o nazismo é uma forma de socialismo. Defender a economia liberal no Brasil, como já escreveu o Roberto Campos, é algo visto com tanto escândalo quanto fazer sexo explícito em público.
Espero, porém, que os leitores não se deixem enganar pela chorumela socialista de "luta por um mundo melhor". O mundo melhor socialista foi a penúria dos cubanos, ou a matança dos soviéticos e chineses. As verdadeiras conquistas sociais só acontecem dentro de sistemas liberais e democráticos, que são absolutamente incompatíveis com a economia socialista.
Ninguém deve se esquecer que quando surgiu a idéia de "direitos dos trabalhadores", Karl Marx foi inteiramente contra, por serem medidas "conservadoras". Para ele, só uma mudança radical do sistema, por via revolucionária, seria capaz de trazer a justiça. A História já demonstrou a falsidade da sua assertiva, com o desastre dos regimes socialistas - desastre previsto por Ludwig von Mises em 1926, num livrinho chamado "Socialismo".
Infelizmente, a racionalidade dos argumentos e a prova dos fatos não bastam para suplantar o emocionalismo convincente das esquerdas. O sentimentalismo, aliás, sempre foi marca característica dos tiranos e opressores. Como a personagem do Garcia Marquez que chorava copiosamente ouvindo os discos que lhe recordavam a adolescência, enquanto forçava a sua sobrinha adolescente a se prostituir...
Alvaro R. Velloso de Carvalho
Rio de Janeiro, 26 de maio de 1998.