FÓTONS

O diabo vai ao cinema - II

A serviço do mal

Por Alvaro R. Velloso de Carvalho


"L'or n'est qu'un simulacre, une imposture,
un piège de celui qui se dit l'idole du monde
."

(Georges Bernanos)

Continuamos nosso estudo dos filmes que mostram, de um jeito ou de outro, o mais antigo inimigo da humanidade. Depois do holandês Caráter, trata-se, agora, do filme americano O Advogado do Diabo, dirigido por Taylor Hackford em 1997.

Pode-se dizer que O Advogado do Diabo é o oposto de Caráter. Nada de advogados pretensamente bonzinhos aqui, nada de culto do emprego, nada de mundanização. O filme trata os advogados – e especialmente os advogados excessivamente ambiciosos – com o desprezo que eles merecem.

A história é bastante simples. Começa com Keanu Reeves, um advogado numa cidade do interior, no meio de um julgamento, ouvindo o depoimento da vítima de seu acusado. A menina de 12 ou 13 anos de idade descrevia com detalhes o abuso sexual que seu professor de Matemática cometeu contra ela. Terminado o relato, há uma pausa. Reeves vai ao banheiro lavar o rosto. Está diante de uma crise moral: é evidente que seu cliente é culpado, é evidente que o que ele fez é inexcusável. Deverá defendê-lo?

Um jornalista entra no banheiro. "E então, como será perder sua primeira causa? Alguma declaração?" A simples idéia de perder a causa é um golpe forte demais no ego do jovem advogado. Ele volta ao tribunal, e pinça fatos isolados da vida da vítima, até desacreditá-la perante o júri. Reasonable doubt. O professor pedófilo é inocentado.

Essa atuação lhe rende um convite para trabalhar em Nova Iorque, com todos os benefícios financeiros que um trabalho desses pode conceder: o escritório lhe dá um apartamento enorme, um salário fantástico, e a oportunidade de trabalhar para alguns dos clientes mais ricos e influentes da metrópole americana. Reeves julga estar entrando no paraíso.

O filme começa, então, a mostrar o erro desse julgamento. O trabalho começa a consumir sua vida de casado: sua esposa vai, aos poucos, enlouquecendo, sem agüentar a solidão e a pressão psicológica do convívio com pessoas que nem conhece direito. O amor entre os dois desmorona, e qualquer vestígio de privacidade ou vida particular acaba para Reeves.

Agora, ele é um funcionário de um grande escritório, uma peça num complexo jogo de interesses. Seu primeiro caso é para um sujeito que mata bodes para fazer ritos mágicos. Ele inocenta o cliente com base na liberdade religiosa – equiparando os ritos sangrentos com o judaísmo e o cristianismo. O segundo caso é o de um poderoso empresário que matou a esposa, o enteado e a empregada. No começo, ele acredita na inocência do cliente, mas logo descobre a verdade – e o defende assim mesmo. A defesa é feita com base num testemunho falso da secretária, que serve de álibi. Reeves sabia que o testemunho era falso – mas foi em frente assim mesmo.

Enquanto toda essa trama de casos se desenvolve, Reeves vai se tornando íntimo do chefe da empresa, interpretado por Al Pacino. Aos poucos, Pacino vai tecendo uma teia em que Reeves se enreda sem nem perceber. Ele vai dando lições a respeito da vida em Nova Iorque ("mantenha-se nas trincheiras, aprenda a usar o metrô"), sobre a moral dos advogados ("nosso trabalho é ganhar causas, não nos preocupar com moral"), sobre o modo de agir ("faça como eu: mantenha-se incógnito, pareça humilde, não deixe que percebam seu jogo ao olharem para você").

Esses elementos combinados vão se fundindo quando o final vai se aproximando: depois de vencer a causa, Reeves vai para casa e não encontra sua esposa. Ela tinha ido à Igreja rezar. Ele a encontra envolta num cobertor, que, quando aberto, revela seu corpo todo machucado. Ela acusa Pacino de tê-la estuprado. Impossível, responde ele, porque Pacino estava comigo agora há pouco, no tribunal. Ela entra em desespero, e é levada para o manicômio. Lá, ela acaba se suicidando.

No exato momento do suicídio, Reeves recebe a visita de sua mãe, uma típica carola interiorana, filha de um pastor evangélico, mãe solteira. Ela finalmente lhe conta quem é seu pai:

— Eu vim a Nova Iorque uma vez antes desta, numa excursão da Igreja. No restaurante do hotel, conheci um garçom. Ele conhecia a Bíblia inteira de cor, fiquei encantada. No último dia, ele veio até o meu quarto se despedir, e eu estava chorando, e ele se aproveitou daquele momento. Eu era apenas uma garota caipira, não conhecia nada do mundo.

E a revelação: o garçom era Pacino.

Ao mesmo tempo, o filme nos revela quem é Pacino, de fato: ele manipula a natureza para matar um dos diretores da firma, seu inimigo. Na missa de corpo presente, ele chega perto da água batismal e enfia o dedo nela. Parte da água evapora. Estamos, de fato, lidando com o diabo.

Reeves sai da clínica, e vai ver Pacino, que abre o jogo, lhe conta tudo, e lhe faz o convite final: transar com uma outra advogada da firma, também filha de Pacino, para fazer nascer o anti-Cristo. O ato sexual deveria se dar sobre um altar que é o típico altar de missas negras: velas pretas, um pano preto cobrindo o altar. Reeves promete realizar o ato, mas volta atrás: em cima da hora, dá um tiro na cabeça.

O filme continua, mas paremos um pouco. Talvez, no cinema moderno, só O silêncio dos inocentes tenha mostrado o diabo com tanta precisão quanto este filme. A ação diabólica é representada com precisão.

Começa pela forma de tentação, neste caso dupla: o diabo não pega a vítima apenas pelos vícios, mas também pelas virtudes. É verdade, Reeves era um excelente advogado, tinha uma retórica precisa. Isso, em si, não é um mal. Mas a virtude pode ser desvirtuada, isto é, pode ser desviada desde a origem, e ser usada para o mal – tornando-se, propriamente, um vício. O advogado do filme se vicia em vencer. Vencer por vencer, sem preocupações pela legitimidade, pela justiça, ou pela moral. Mente conscientemente, por desejo de poder e glória. Entre a verdade e a glória mundana, opta por esta.

Essa opção é mostrada exatamente assim: como uma opção. No embate final, Reeves diz a Pacino que este o manipulou. Ele responde: "eu não manipulo ninguém. Eu só crio as oportunidades." Cria as oportunidades e permite que a vontade individual aja. Com efeito, só podemos pecar porque somos livres – livres para escolher entre fazer a vontade de Deus ou seguir nossa própria utopia, nosso próprio delírio de poder. O diabo sempre conta com esta última hipótese, e sempre dá os meios para que possamos optar por ela – negando a Deus e negando o verdadeiro sentido da vida.

Também é muito precisa a descrição do papel da esposa de Reeves (por favor, leitoras, falo do princípio feminino, não das mulheres em si): o papel feminino(1) em sua nobreza maior é a passividade em relação ao Eterno, cuja representação máxima é Nossa Senhora; a perversão dessa atuação é a rebelião contra Deus, rebelião que cede à tentação e arrasta para ela o homem, como Eva. Reeves diz à esposa: não vou para Nova Iorque se você não quiser. Ela faz um longo discurso convencendo-o a ir.

Claro que essa rebelião acaba se voltando contra ela própria: ela logo descobre o vazio da vida em que estão entrando, e percebe o horror da situação. Percebe, mas não tem força para combatê-la: cede às tentações do diabo, e acaba não suportando a própria fraqueza, e se suicida.

Alguns detalhes também saltam aos olhos: o "macumbeiro" que matava bodes é mostrado como amigo íntimo do diabo, e o discurso de Reeves colocando no mesmo plano esse tipo de atrocidade e as religiões tradicionais (exatamente o mesmo discurso dos antropólogos) é devidamente mostrado como diabólico. O diabo também diz a excelente frase: "alguém pode duvidar seriamente que o século XX foi inteiramente meu?" Realmente, no século de duas guerras mundiais, de nazismo, fascismo, comunismo, globalismo neo-fascista, de Concílio Vaticano II, de negação da culpa individual (2), ninguém pode mesmo deixar de ver o dedo do príncipe deste mundo.

Até porque, este também é o século dos tribunais. O século em que se criou a ilusão de que uma injustiça cometida numa corte é menos injusta, e de que bastaria a criação de leis para dizimar as injustiças. O século que viu, sob o pretexto do aumento dos direitos, um aumento sem precedentes da tirania, porque, com a intenção de "regular" e "democratizar" tudo, o Estado se meteu em áreas que nunca antes tinha sonhado em se meter, tornando-se o grande vigia, a pairar sobre todos nós, em todos os atos de nossas vidas. Muitos acreditaram sinceramente que a simples divisão do Estado em três poderes que se controlariam uns aos outros bastaria para diminuir o poder estatal – sem se dar conta de que os três poderes continuam sendo o próprio Estado, que, quanto mais se auto-fiscaliza, mais forte fica. Daí a presença dos tribunais em tudo, daí uma sociedade como a americana, em que tudo se resolve no fórum, em que todos estão processando todos o tempo todo – incapazes de se relacionar entre si, os cidadãos entregam seus problemas nas mãos do Estado e esperam dele a resposta, a solução. Sem poderes sobre o outro mundo, sem poder alcançar a eternidade, Satã se dedica a conquistar este mundo, e nos tiranizar no tempo. É verdade, a eternidade é que dá alma ao tempo, e o mundo em Satã reina é um mundo que perdeu a alma. Mas alguém duvida de que este é precisamente o mundo em que estamos hoje?

Nesse mundo desalmado, os tribunais acabam desenvolvendo uma moral própria, uma moral secularizada, uma moral de conveniências, de formalismos. Até porque, o declínio moral da sociedade leva ao aumento de leis: incapazes de controlarem as próprias paixões, os indivíduos pedem que o Estado mande neles de qualquer jeito. Os advogados se tornam cada vez mais prepotentes, mais independentes do resto do mundo.

Esta é a mensagem do filme: os advogados agem precisamente como o diabo quer que ajam. São os agentes do Estado moderno, o Estado que se substitui à religião e a submete ao seu jugo. Ainda há pouco, um juiz brasileiro dizia que não podia julgar como católico. A lei estatal superando a lei de Deus. Esse um dos frutos da ação diabólica no século XX, não importando o quão lindos e maravilhosos os propagandistas desse legalismo se sintam por dentro. No fundo, são todos uns inconscientes, que não sabem a quem servem.

Pois Reeves, no final, descobre a quem estava servindo. Descobre quem era seu pai, e a quem aproveitam os frutos de suas ações até ali. Mas aqui vem o grave defeito do filme, defeito que o torna inconscientemente satanista, apesar de todas as qualidades e todas as boas intenções. Quando confrontados com a verdade, por mais terrível que ela seja, há duas opções a tomar: podemos nos recusar a vê-la, fugir dela, e podemos aceitá-la, com todas as suas conseqüências, com toda a carga de comprometimentos que essa aceitação traz. Da mesma forma, quando descobre que está servindo ao diabo, o sujeito pode aceitar isso de duas maneiras: pode compreender a situação e recusar o diabo, isto é, enfrentá-lo confiando na misericórdia divina e na Redenção, e pode também recusar a Misericórdia, pode preferir enfurnar-se nas trevas e servir conscientemente ao diabo, levando a contra-iniciação às últimas conseqüências. E o sujeito também pode se negar a ver a verdade, fugindo.

Num filme antigo chamado O homem que odiava as mulheres, Tony Curtis faz um assassino de mulheres que sofria de personalidades múltiplas. No final do filme, após ser submetido a algumas sessões de tratamento, ele percebe o que tinha feito. Resultado: entra em estado catatônico, do qual não sai nunca mais. Ele recusa a realidade, não consegue agüentar a verdade. Aí é que está: a reação de Reeves no filme é precisamente a mesma. O filme mostra seu suicídio como uma vitória sobre o demônio, mas nenhum suicídio pode ser uma vitória. O suicídio é o ato máximo de covardia, de negação do real, de fuga da realidade.

É justamente por isso que o epílogo do filme fica meio ridículo. Segundo o filme, Reeves consegue fugir de Pacino ao se matar (grande bobagem, como vimos), e lhe é dada uma segunda chance: o tempo volta ao julgamento inicial, onde ele pela primeira vez decidiu conscientemente pelo mal. Mais uma vez, ele pode escolher se vai contribuir para a absolvição do estuprador ou não. Ele opta por não ajudá-lo. Larga o caso no meio do julgamento.

Ao sair, é seguido por um repórter, que tenta convencê-lo a contar a história para a imprensa. "Um advogado com crise de consciência! Essa história é fantástica! Você vai ficar famoso." Ele hesita. Sua esposa o incentiva: o mundo precisa saber disso, precisa conhecer seu exemplo. Ele aceita.

À medida que Reeves e a esposa vão se distanciando da cena, o jornalista fica sozinho e seu rosto vai se transformando no de Pacino: "A vaidade é meu pecado favorito".

Moral: o sujeito acabou se perdendo, ainda que de outro jeito. Se não foi pelo dinheiro, foi pela fama. Reeves continuava um inconsciente, incapaz de perceber a ação diabólica. Seria uma mensagem muito interessante, se o simples fato de o suicídio ser mostrado como uma fuga legítima da ação diabólica já não tivesse posto tudo a perder. Além disso, há um outro dado diabólico no filme: parece que o suicídio confere a Reeves uma segunda chance.

Ora, não há segunda chance. É pegar ou largar. Ganhar ou perder. A vida não é brincadeira: por mais gasta que essa frase tenha ficado, continua sendo verdadeira. O risco de perder a alma, de trocar as coisas fundamentais por caprichos secundários, de se deixar enganar pelo diabo, está sempre presente e é um risco real. Na verdade, é o maior dos riscos. É aquilo com que o ser humano realmente tem que se preocupar. Perto disso, todos os outros medos parecem tolos, meras ilusões juvenis.

É preciso lembrar que a escolha faz o destino, no sentido de que, quando optamos efetivamente por um caminho, cortamos outras possibilidades. Podemos optar por subir ou não uma montanha, mas, uma vez no meio da subida, se resolvemos nos jogar, a queda é inevitável – não dá mais para desistir no meio. Depois de feitas as opções essenciais, o caminho vai se afunilando – eis por que é preciso estar atento. Esse detalhe, infelizmente, O Advogado do Diabo tenta esconder.

Apesar dessa fuga, o filme é também uma obra desesperançada. Não há uma única pessoa capaz de enfrentar o diabo no filme. Quando Reeves diz a Pacino que, na Bíblia, ele perde o confronto, este responde ironicamente: "considere quem escreveu o Livro..." A resposta parece irônica, mas na verdade é melancólica: Satã sabe que vai perder no final, que sua ação é limitada, que tudo o que lhe resta é se contentar com alguns sucessos provisórios. Mas o filme não mostra nada disso: todo mundo sucumbe ao Maligno.

Reeves, já vimos, apesar de alguns momentos de sanidade, se mata. Sua esposa também. A outra personagem que, teoricamente, mantém a dignidade é a mãe de Reeves, a beata protestante. Ela sabe o que está acontecendo, sabe os riscos que o filho corre, mas, quando vai visitar o filho, fica apavorada ao ver Pacino e logo vai embora da cidade. Ora, que raios de heroína é essa que foge do combate quando ele se apresenta, sem nem explicar ao filho por que o fez? Mesmo mais tarde, quando toma coragem e conta toda a história a ele, deixa que ele vá desprotegido ao encontro de Pacino, não lhe dá nenhuma instrução, nada. Parece tão ou mais perdida quanto ele, e tão ou mais perdida quando a esposa dele, que o diabo seduziu exatamente como a tinha seduzido. A freqüência ao culto protestante acaba sendo, para ela, nada mais que uma fuga, uma válvula de escape – enfim, um ato de covardia. As três vítimas principais do diabo no filme, portanto, acabam capitulando, e tentando fugir – fuga inútil, porque enfrentar o mal tentando fugir dele ou tentando negá-lo é, propriamente, sucumbir a ele.

19/05/1999 - 21/05/99

NOTAS:

(1) A mulher pode, freqüentemente, encarnar não o princípio feminino, mas o masculino: vide Santa Joana d'Arc. Não se trata, pois, de papéis sexuais, mas de princípios de ação espiritual. Voltar

(2) Veja-se, por exemplo, a cena em que uma das servas do diabo vira-se para Reeves e diz: "você tem muita culpa e dor nesses olhos. Ele vai tirar a culpa de você." Voltar