FÓTONS

O diabo vai ao cinema - III

O Acusador impiedoso

Por Alvaro R. Velloso de Carvalho


Continuando a análise de filmes que têm o diabo como personagem, mesmo que de forma implícita, tratamos agora de um dos melhores thrillers dos últimos anos, Seven – os sete pecados capitais, dirigido por David Fincher, o mesmo de Alien 3, um mestre na condução da câmera, na manutenção do ritmo vertiginoso e na produção de cenas impactantes.

Mas não é só de suspense que se nutre Seven; se assim fosse, poderia ser apenas mais um dos filmes para ser vistos comendo pipoca numa tarde de tédio. Na verdade, o roteiro tem excelentes insights sobre o assunto de que trata, conforme tentarei mostrar neste artigo.

O erro de O Advogado do Diabo é corrigido neste filme. O sujeito que tenta se salvar do diabo por um ato diabólico, aqui, é mostrado justamente como vítima culpada, não como herói. A figura do diabo que predomina no filme é a do Acusador.

O diabo, com efeito, é aquele que, primeiro, nos convence de que não há juiz para nossos atos – portanto, podemos fazer o que quisermos – e depois, aproveitando-se de nossa ingenuidade, nos acusa da forma mais impiedosa. Acusa-nos até do que não fizemos. É só parar para reparar que a sociedade moderna, justamente aquela que aboliu a religião e aboliu a idéia de Deus, é a que carrega a maior consciência de culpa, o que dá ensejo ao surgimento de inúmeros grupos prontos a explorar essas consciências cheias de culpa sem nem saber bem por quê.

Daí o surgimento das teorias de "culpas coletivas", como aqueles que culpam todos os alemães pelo Holocausto, ou mesmo toda a humanidade, aqueles que querem que todos nós nos sintamos culpados até hoje por tudo que nossos antepassados fizeram de errado no passado. Surgem teses como a da "reparação", que os negros se acham no direito de exigir dos brancos como indenização pela escravidão – e assim por diante.

Ora, qualquer lei moral sempre defendeu que o sujeito só é responsável pelos próprios atos, que a mim cabe a culpa pelos meus próprios atos, e não pelos atos de outra pessoa. Também sempre se soube que o indivíduo é o agente moral, não a sociedade inteira.

Mas o ponto de que Seven trata não é propriamente o da culpa coletiva, mas o da possibilidade de redenção. Existe o pecado, existe a culpa, existe a responsabilidade, mas o pecado pode ser apagado e expiado – em suma, perdoado. É justamente negando a misericórdia divina que atua o diabo de Seven. É agindo como um acusador impiedoso, o acusador que não pondera, só condena, e depois executa a sentença por conta própria, que o serial-killer interpretado por Kevin Spacey comete seus crimes.

Os crimes têm como motivação os sete pecados capitais. São executados da forma mais brutal possível, em algumas das cenas mais violentas do cinema nos últimos anos. Os requintes de crueldade na execução de cada crime, isto é, de cada pena, são tipicamente diabólicos: o matador se compraz no mal, se compraz em infligir sofrimento, sob pretexto de fazer justiça.

O filme se desenrola a partir dos pontos de vista dos dois detetives encarregados de investigar os crimes. Aos poucos, eles vão entrando no mundo do matador; invadem seu apartamento, e o matador liga para eles quando estão lá. Ele aceita o duelo, ele quer o conflito com os policiais, especialmente com aquele que ele reconhece como mais fraco – o arrogante e ambicioso personagem interpretado por Brad Pitt.

O matador, então, faz outra vítima (a quinta) e vai direto do local do assassinato para a delegacia de polícia e se entrega a Pitt. O diabo não se importa que seus mensageiros sejam aparentemente derrotados num conflito; ele quer é fazer o máximo de vítimas possível, mesmo que, para perder novas almas, precise destruir diretamente algumas outras. O diabo sabe perfeitamente bem que a derrota no mundo não faz a menor diferença; que o plano decisivo é o espiritual. Ele age numa escala temporal muito superior à da existência biológica humana, e é justamente nesse plano que se coloca a briga entre Brad Pitt e Kevin Spacey, daí por diante.

Spacey diz que assinará uma confissão, desde que sejam aceitas suas exigências. Ele não dá o mais mínimo sinal de loucura, nem de arrependimento; também não dá uma dessas explicações psicológicas imbecis para o mal. Ele parece senhor da situação.

Estão faltando duas vítimas. Os detetives só encontraram cinco; os pecados são sete. Spacey exigia precisamente poder levar apenas os dois para o lugar onde estariam as vítimas restantes. Eles vão, no carro de polícia, o serial killer no banco de trás, os dois policiais no banco da frente. Começa um conflito verbal entre Pitt e Harris, em que este consegue confundir e irritar aquele. O diabo é excelente duelista, tem pleno domínio da lógica. Pitt percebe isso, e encerra a discussão.

Eles adentram uma área desértica, e param num determinado ponto. Ninguém está entendendo nada, e Spacey simplesmente manda-os esperar. Chega uma entrega. Uma caixa para um dos detetives, claro, o personagem de Pitt. Dentro da caixa, a sexta vítima: a cabeça da esposa de Pitt, que, aliás, estava grávida.

Estão dados os elementos do conflito: Pitt tem uma arma na mão; o serial killer se ajoelha: —"Vamos, faça de mim a última vítima. Torne-se o sétimo pecado, a ira." As opções são claras: mandar o assassino para a cadeira elétrica, pelo devido processo legal, ou fazer vingança privada e matá-lo ali. Ter um resto de piedade, ou deixar-se levar pela raiva. Matar o demônio, e igualar-se a ele, ou vencê-lo, vencendo os próprios impulsos. Pitt perde a briga, e atira no serial killer.

A equação do filme é excelente: o diabo levando, através de um de seus emissários dispensáveis, um sujeito a perder-se pelas próprias virtudes. Perverter a virtude, a ponto de torná-la um vício, um pecado. Perverter o amor de um homem por sua esposa a ponto de torná-lo ira, desprezo pelas exigências legais e morais. O emissário direto do diabo morre, mas o diabo sai ganhando – eis o resumo do filme. Vale acrescentar que a vitória do diabo aparece assim mesmo: como vitória do diabo. Nada de finais falsamente felizes por aqui.

Seven é a prova de que o cinema americano também pode ser edificante, e pode ter mensagens válidas. Quantas vezes o movimento religioso não se deixa cair precisamente nesse tipo de armadilha? É o militante anti-aborto que mata um médico sob pretexto de defender a vida; é o membro do movimento pró-vítimas (em si, uma ótima idéia) que acaba tirando todos os direitos de defesa do acusado; e assim por diante. Sinal de que, por mais ciente de ter identificado e vencido o diabo que esteja o sujeito, sempre há a possibilidade de que ele ataque por trás, e descubra um ponto fraco que será o ponto de perdição, o calcanhar de Aquiles.

Há um outro aspecto interessante em Seven, que diz respeito ao outro detetive, interpretado por Morgan Freeman. Trata-se de um detetive cético, prestes a se aposentar, investigando sua última causa. Por que o serial killer não se preocupa com ele? Por que todos os esforços são concentrados no outro detetive?

Duas respostas são possíveis; o filme não deixa claro qual a interpretação correta. O ceticismo de Freeman pode ser interpretado como desesperança, como desinteresse pela vida e apatia (ennui). Nesse caso, o diabo não poderia mesmo se interessar por ele: para que é que ele se interessaria por quem ele já conquistou?

Mas há outra possibilidade, que me parece mais interessante e mais precisa. Freeman olha tudo com um certo distanciamento, o distanciamento de quem já se confrontou vezes demais com o diabo para se deixar levar por ele. Seu ceticismo diz respeito exclusivamente a este mundo, aos sonhos de sucesso de seu ambicioso colega, ao desejo de poder, de fama. Ele é pessimista em relação à matéria, porque sabe que há coisas mais importantes e mais fundamentais. Uma das cenas que podem apoiar essa interpretação é a cena da biblioteca: ele repreende os guardas que estavam jogando xadrez na biblioteca enquanto a vigiavam, por estarem perdendo tempo enquanto havia todo aquele conhecimento potencial à sua disposição. O amor ao conhecimento pode ser a válvula de escape de Freeman aos ataques demoníacos, e a razão de sua aparente frieza. O ennui, afinal, é característico do sujeito que não tem mais nenhum propósito na vida, o sujeito que se deixou vencer pelo absurdo e perdeu as esperanças no sentido da vida. Por que Freeman estaria tão ansioso para sair do emprego, e fazer outras coisas que julgava mais importante, se não visse mais nenhum propósito na própria vida? Nesse caso, seria o próprio sujeito que perde a fé no mundo porque confia em algo superior – quer dizer, o sujeito que, de alguma forma, começou a vencer o diabo.

12/05/99 – 04/06/99