O diabo vai ao cinema - IV
Descida aos infernos
Por Alvaro R. Velloso de Carvalho
Du point du vue de l'éternité, la partie est gagnée.
Ce que nous importe dans ce siècle, c'est de nous rendre
immédiatement participants de cette victoire.
(Denis de Rougemont)
8 mm, do diretor Joel Schumacher, encerra nossa série sobre o diabo no cinema, e o faz de modo digno. Esse é, para mim, o filme mais impressionante dos últimos anos, tão bom quanto Seven, que, em mais de um sentido, é seu antecessor.
Explico: se, em Seven, o diabo sai triunfante do embate com o herói, e este termina indo para a cadeia, em 8 mm o protagonista leva o embate até o fim e sai vencedor - o filme é uma cuidadosa descrição da luta do protagonista pela própria alma, luta da qual ele sai triunfante, ao menos num primeiro momento.
São muitos os aspectos do filme que poderiam ser analisados, mas me concentrarei nesse, que é o ponto central: como o personagem de Nicolas Cage, o detetive Thomas Welles, enfrenta as mais terríveis tendências da alma humana e, por meio de uma das virtudes teologais, sai vencedor.
Antes, uma observação cinematográfica: eu sei que é muito estranho que um filme desses tenha sido dirigido por Joel Schumacher, especialista em bobagens nem um pouco memoráveis, mas a grande virtude da obra não está na direção, e sim no roteiro. E o roteirista é o mesmo Andrew Kevin Walker de Seven, e certamente o autor de roteiros mais brilhante que surgiu nos últimos anos. A Schumacher, provavelmente coube não atrapalhar o brilho do roteiro e conduzir de forma segura a história - e isso ele faz com competência, embora eu preferisse um diretor como David Fincher (de Seven e The Game) ou Neil Jordan (de In Dreams e The Crying Game), que certamente adicionariam tensão e ritmo ao filme.
A história começa mostrando o detetive particular Thomas Welles (Nicholas Cage) realizando um trabalho para uma senadora: fotografias de seu genro com outra mulher, na Flórida.
Depois de entregar as fotos, Welles toma um avião de volta para casa, na Pensilvânia, onde o esperam sua mulher, Amy (Catherine Keener) e a filha bebê. As cenas entre Welles e a família são as cenas de uma família excepcionalmente feliz: parece haver verdadeira afeição entre os cônjuges, e ambos dividem os cuidados com o bebê. A família é, no filme, o lugar de máxima estabilidade e sanidade, o lugar onde Welles está em paz.
A chamada para um novo serviço, de certa forma, distancia Welles dessa paz, e insere um elemento de conflito: sua esposa, Amy, reclama de que ele terá que sair mais uma vez. Ele diz que, dessa vez, a cliente é muito importante, e a tarefa pode render muito dinheiro.
Então, Welles vai ao encontro da Sra. Christian, uma senhora milionária cujo marido acabara de morrer. Num cofre secreto, na sala de estudos do Sr. Christian, a velha senhora tinha encontrado um filme em 8 mm. No filme, uma jovem menina aparece, com olheiras, sentada numa cama. Aos poucos, vai se aproximando dela um sujeito forte e mascarado. Ele a beija, e bate nela. Ela chora. Ele se aproxima de uma mesa, onde existe uma impressionante variedade de facas e instrumentos de corte. Ele pega uma faca, se aproxima da menina e a mata, com requintes de crueldade.
A tarefa de Welles será descobrir se o filme é verdadeiro ou falso, isto é, se a menina foi mesmo morta ou não. Welles se mostra incrédulo, e explica que filmes pornográficos onde as pessoas são mortas de verdade são os chamados snuff, e que eles são uma "lenda urbana"(1). Mesmo assim, a Sra. Christian pede que ele encontre a menina, pede que ele lhe prove que seu marido não é um assassino.
Welles, então, parte para Ohio, onde vai vasculhar os arquivos de pessoas desaparecidas nos últimos dez anos (por uma análise técnica, ele descobre que essa é a média do tempo em que o filme deve ter sido feito). Pulando detalhes: ele acaba descobrindo quem era a menina, vai até a casa da mãe dela, onde encontra uma carta da menina dizendo que fugiria para Hollywood.
Welles segue para Hollywood, onde começa sua busca por snuff films e sua descida ao submundo pornográfico. Ele contrata, para trabalhar com ele, Max (Joaquin Phoenix), o vendedor de uma loja de pornografia. Eles vão, juntos, aos lugares mais decadentes, mais nojentos e mais grotescos que alguém pode imaginar, onde todo tipo de perversão é vendida: pedofilia, sadomasoquismo, servidão sexual, etc..
"Você vai ver coisas que ficarão grudadas na sua cabeça para sempre", diz Max a Welles. E acrescenta: "Quando você dança com o diabo, o diabo não muda; o diabo muda você".
Essa palavras serão o conflito central do filme, daí por diante. Porque, na boca de Max, elas têm uma conotação nitidamente derrotista: Max é o sujeito superior, idealista, que se deixou sugar pela indústria pornográfica, e virou um personagem do submundo. Ele se entregou ao diabo, se deixou perverter pela perversão de um meio ao qual era, de início, superior. A tarefa de Welles será não se deixar perverter também, será olhar o diabo de frente mas sem se deixar vencer - será, enfim, mudar para melhor, não para pior.
A busca por filmes de snuff no submundo pornográfico parece não dar resultado, até que Welles descobre onde a menina, Mary Anne Mathews, tinha ficado hospedada em Hollywood e, no meio das coisas que ela deixou lá, encontra o anúncio de uma produtora de filmes. Ele vai até a firma, mostra a foto de Mary Anne ao gerente, esse se mostra nervoso e diz que nunca a tinha visto. Welles resolve seguir a pista e grampeia o telefone da firma, e acaba confirmando suas suspeitas. Tinha mesmo, sido aquele o meio através do qual Mary Anne tinha ido ao encontro de seus algozes. Eles provavelmente a iludiram, disseram que ela seria uma estrela, e ela acabou sendo morta no filme encontrado na casa do Sr. Matthews. Mas Welles descobre também que o gerente da produtora, Eddie Poole, não era o diretor do filme. Ele estava ligado a um outro sujeito, mais poderoso, diretor de filmes pornográficos altamente violentos.
O nome do diretor era Dino Velvet. Max o descreve como "o Jim Jarmusch dos filmes pornográficos". Max e Welles viajam até Nova York para encontrar Velvet e lhe encomendar um filme. Esse seria o meio de pegá-lo. Welles também descobre que o mascarado que aparece no snuff film é o ator que Velvet usa em quase todos os seus filmes, Machine.
Importa lembrar, aqui, uma cena que acontece ainda em Hollywood, no meio da busca pelos produtores de snuff. Assistindo a alguns filmes que supostamente seriam snuff na casa de Max, Welles é interpelado por este: "Você gosta disso que está vendo, não gosta? O diabo já está te mudando..." Outro ponto importante para Welles: ele não poderia, por um único instante, se comprometer com aquilo. Ele estava descendo ao submundo da perversão humana, e não poderia, de forma alguma, se tornar semelhante àqueles que ele estava procurando. Esse é sempre o risco de quem duela com o diabo: acabar concordando com ele.
Mas isso não acontece a Welles. Ele vai atrás de Velvet, mas este já sabia de seu truque, porque o outro homem que tinha contribuído para a produção do filme tinha sido o advogado do Sr. Christian, Longdale. O advogado o acompanha de volta ao carro para pegar o filme e destrui-lo. Assim que Welles volta ao local, Velvet e Machine matam seu amigo Max e o amarram para matá-lo da mesma forma como a menina do filme morreu. Mas ele usa um truque inteligente: confunde o diabo, jogando-o contra si mesmo; isto é, cria uma divisão entre os outros e, com isso, escapa.
Nessa cena, morrem Longdale, o advogado corrupto, e Dino Velvet, o satânico diretor de filmes pornográficos, e Machine se fere. O ponto, agora, é o que Welles vai fazer. Ele liga para sua esposa, e a manda sair de casa e dirigir-se a um outro local, com a filha. Liga também para a Sra. Christian e conta a história toda. No dia seguinte, Welles descobre que a Sra. Christian tinha se suicidado e deixado dinheiro para ele e para a Sra. Matthews, mãe da menina assassinada. O que fazer, então? Guardar o dinheiro, e ficar em paz, em casa? Ou terminar a tarefa que começou?
Welles faz a segunda opção: "Ninguém além de mim pode fazer isso". Quer ir até o fim, e procura Eddie Poole. A cena em que ele está indeciso se mata ou não Poole é perfeita: nesse momento, seu combate está num ponto crucial. Ele precisa decidir se vai ou não exterminar aquele inimigo (inimigo da alma, bem entendido), e resolve a dúvida ligando para a mãe da menina assassinada. As palavras da Sra. Matthews são como um sopro do espírito no corpo, dando uma motivação nova e mostrando o reto caminho a seguir. Welles, então, mata Poole.
No resto do filme, Welles mata Machine, volta para a família e tenta reconstruir a paz que tinha perdido. A cena final o mostra recebendo uma carta da Sra. Matthews, que lhe agradece por ter contado o que realmente aconteceu com sua filha, e termina com a frase: "Hoje eu entendo que eu e você fomos as duas únicas pessoas que realmente amamos minha filha".
É claro que o filme é muito alegórico, e o fato de Welles ter matado seus oponentes não deve ser interpretado como uma apologia do assassinato. Importa notar que as tendências inferiores encontradas no submundo pornográfico não são mostradas como algo exterior a Welles. São possibilidades humanas, são as manifestações das regiões mais obscuras e tenebrosas da alma humana. São, mais que tudo, essas tendências que Welles precisa vencer para ascender espiritualmente.
A busca de espiritualização é, também, uma busca de personalização. Entendo "personalização" não no sentido individualista, mas no sentido de comunhão maior da pessoa com seu destino espiritual. Ora, a liberdade humana sobre o próprio destino cresce justamente quando cresce a personalização. Essa personalização é a progressiva vitória sobre as tendências inferiores - as pulsões, os impulsos, os complexos, as tendências herdadas por via hereditária, enfim, tudo aquilo que assemelha o homem aos animais. A personalização é, em última análise, a conquista da alma, a conquista do domínio do espírito sobre aquilo que o empurra para baixo. Encontrar essas tendências e vencê-las é a primeira tarefa da ascensão espiritual, e é isso que Dante denomina "descida aos infernos". Toda a parte do filme que vai do encontro com a Sra. Christian até a decisão de matar Eddie Poole é uma descrição da descida aos infernos de Welles. Ele percorre o caminho que pode levar ou à perdição ou à conquista de si mesmo, e a decisão de matar Poole e Machine é representativa da sua conquista espiritual, da sua vitória sobre as tendências infernais e sobre o Tentador.
Tentador que não aparece apenas nas sugestões de Max, que já assinalei, mas também, de forma muito nítida, no discurso de Longdale, quando Welles, desesperado, lhe pergunta: "Eu só quero entender por que vocês fizeram isso. Por que matar uma menina de forma tão gratuita?" Ao que Longdale responde demonstrando desprezo pela opção de Welles. Nessa fala, ele diz que Welles, por seguir o caminho da verdade, seria aquele que sempre estaria por baixo, e sempre iria perder. Ele, ao contrário, tinha sabido optar pelo dinheiro, pela compensação. Longdale faz a apologia da venda da alma: "ninguém quer saber dessa menina, ninguém se importa com ela, por que é que você foi se meter nisso? Você devia ter calado a boca." Ele devia ter se vendido, ter calado, tê-los deixado em paz com seu assassinato.
Mas Welles não se cala e - nessa que é uma das cenas cruciais do filme - ele volta a perguntar a Longdale por que o Sr. Matthews queria um filme daqueles. Ao que Longdale responde: "Ele fez porque podia. Porque podia."
Fez porque podia. Não há nenhuma outra descrição melhor da motivação da ação diabólica. Com efeito, só o que é incondicionado, na vida humana, é aquilo que se relaciona diretamente à divindade. O amor a Deus deve ser incondicionado, a fé, a esperança em Deus. O que faz, então, o diabo, para caricaturar isso? Fixa uma realidade temporal no infinito. Torna incondicionado o temporal; faz o homem tomar por essencial o secundário. Eis aí o poder pelo poder, o sucesso pelo sucesso, o dinheiro pelo dinheiro - todas essas coisas que a mídia exalta dia após dia. E o Sr. Matthews queria apenas isso, com o filme: o poder pelo poder. Matar por matar. Fazer algo, destruir a vida alheia, por motivo nenhum, só para satisfazer o próprio gosto de poder.
Idêntica descrição da ação diabólica é dada pelo ator que matou diretamente a menina do filme: Machine, o estranho mascarado. Quando Welles faz com que ele tire a máscara, aparece um ser humano comum, usando óculos. E ele pergunta: "O que é que você esperava? Um monstro anormal? Não. Minha mãe nunca me bateu, meu pai nunca me maltratou, sempre fui muito bem tratado. Fiz tudo que fiz porque quis." Porque quis. Não há psicologicização do mal, não há explicações econômicas, sociais, nada disso nesse filme: o sujeito matou a menina porque era mal. Porque optou pelo mal. Era um ser humano livre e livremente optou por fazer o mal, por seguir o diabo.
Ora, todas essas possibilidades maléficas - o advogado que vende a alma por dinheiro, o diretor de cinema que se compraz em explorar o mal, o produtor que lava as mãos porque estava sendo bem pago, o poderoso que mata simplesmente porque pode, e o ator que mata por prazer - tudo isso é parte integrante de tudo de pior que há no ser humano. Não são possibilidades absurdas, são horrores que inclusive vemos no dia-a-dia, mesmo que em proporções diminutas, e é isso que torna o filme tão perturbador. Welles tem que vencer cada uma dessas tendências, tem que sufocar cada uma dessas possibilidades.
Quero chamar a atenção um outro detalhe: os telefonemas entre Welles e a esposa, Amy. Nos primeiros dias da viagem, eles se falam praticamente todos os dias. À medida que Welles vai se aprofundando no caso, e descendo mais aos infernos, a comunicação vai se tornando distante e, finalmente, inexistente. Só no final, imediatamente antes de sua vitória final, ele volta a falar com ela; e só depois dessa vitória eles voltam a ficar juntos. É como a paz que, perdida, Welles precisa reconquistar. É como o paraíso, que a humanidade perdeu, e que Deus, por um Ato de suprema misericórdia, lhe restituiu - mas restituiu de forma geral, não para cada um. E a cada um cabe tornar efetivo o ato da Redenção. Como diz a epígrafe, a batalha, de forma geral, já está ganha, mas cada um de nós temos que lutar para ganhá-la também.
Como diz Louis Lavelle: "Não pode haver um retorno a Deus senão para aquele que se separou dele e que teve que se debater durante muito tempo nas incertezas do conhecimento e nas misérias do amor-próprio, antes de encontrar em Deus a luz que o ilumina e a graça que o sustenta."
O afastamento progressivo e a volta à esposa, no caso de Welles, são exatamente como esse movimento da alma que se afasta de Deus, apenas para retornar a Ele, reconhecendo Nele a única fonte de vida. É aquele que morre para viver, que deixa morrer o que é inferior para deixar triunfar o Espírito.
Esse triunfo do Espírito é, propriamente, a realização do sentido da vida. Welles mostra a plena consciência disso, quando afirma "só eu posso fazer isso". O sentido da vida, na definição de Viktor Frankl, é justamente aquilo que só o indivíduo pode fazer naquele momento exato, é aquilo que as circunstâncias praticamente exigem de você e de cuja realização depende sua realização espiritual. Voltamos, aqui, à bela descrição de Ortega y Gasset, a que fiz referência em outro artigo: a realidade se apresenta como um soneto, no qual a chave de ouro está faltando. Cabe ao indivíduo, ao poeta construtor do próprio destino, fechar o soneto. E é para fechar o soneto que Welles vai atrás dos assassinos de Mary Anne.
Voltando a citar Lavelle: "Em cada um de nós está toda a humanidade. Sem isso, não poderíamos nos comunicar uns com os outros, nem chegar a nos compreender. Mas, ao mesmo tempo, há tantas diferenças entre as disposições, gostos e dotes quanto entre os rostos. Não estamos destinados às mesmas tarefas. É preciso que a cada um se peça o que nenhum outro no mundo pode realizar."
Nesse momento, não há mais nenhuma motivação material para a realização de Welles. O dinheiro já está nas suas mãos. Mas, aquilo que começou como uma tarefa realizada pelo dinheiro, agora é uma tarefa espiritual. E qual é, afinal, a motivação? Qual é a arma usada por Welles?
A primeira versão do roteiro, que é a que tenho aqui, não deixava isso explícito. A versão que se vê na tela deixa. A explicação vem na frase final, que já citei acima: Welles aprendeu a amar a menina. Usou, contra o diabo, a única arma que ele é incapaz de compreender, porque ele se compraz nas trevas: a caridade. E, por meio de uma doação ao semelhante, uma pobre menina esquecida por todos exceto pela sua mãe, uma menina que nunca teve nada de efetivamente seu e nunca teve ninguém que a protegesse, por meio do amor a essa menina, Welles conseguiu ir até o fim e triunfar sobre o diabo.
É que a Caridade, como diz Gustavo Corção, não deixa que o homem se perca. Não consigo resistir a citar mais, gostaria de citar o capítulo inteiro de A Descoberta do Outro onde o grande escritor fala do assunto: "A Caridade é boa. O mundo pode perder a Fé e a Esperança, mas não perde a Caridade porque a Caridade não perde o mundo. Não o deixa, não lhe poupa um recanto, como dona de casa que anda solícita e cuida de todos os vãos, arrumando, varrendo, adornando.
"Não recua diante dos maiores horrores, não se escandaliza com os mais graves vícios. No tratquir infecto, onde Marmeladoff, entre arrotos de bêbado, contava como prostituíra a filha, e onde Raskolnikoff premeditava assassinar a velha usurária, ainda uma grande e viva Caridade se interpunha, se sentava na taberna, estabelecendo entre os dois decaídos um elo de simpatia, uma paciência de ouvir e uma generosidade de falar.
"E onde gente de letras discute com pedantismo literário, pelo gosto de ouvir a própria voz, a Caridade se mete; basta acontecer alguma coisa, interromper-se um momento o artifício da polêmica para que um braço se estenda ou uma boa palavra se diga.
"A Caridade está alastrada pelo mundo; pisada aqui, renasce acolá. É impossível evitar sua perseguição tenaz e branda. Se as portas estão fechadas, por medo dos ladrões, ela entra pelas frestas como um vento, instala-se num canto - criada humilde pronta para servir, mãe amorosa atenta para amparar. Fica quieta; espera; é paciente, é boa. Sabe que mais cedo ou mais tarde terá feridas para pensar. Quando é enxotada, volta. Quando é insultada, perdoa. (...)
"A Caridade é a luz que nos revela a coisa mais extraordinária do mundo: o outro. Nem sempre conseguimos essa prodigiosa banalidade, e no meio da multidão sentimo-nos isolados, únicos, como se todas as pessoas que vemos não passassem de meras sombras, de sinais saídos de nosso interior. (...)
"A luz da Caridade faz uma separação: põe-nos diante do outro. Separa-nos para livrar-nos da insuportável solidão. (...)
"Quando, num clarão de amor, reconhecemos o outro, no amigo ou na noiva bem-amada, toda nossa alma canta um aleluia, e dentro de nosso coração nos sentimos salvos. Estamos salvos. Agarramo-nos àquela tábua, seguramos o braço que se estende, abraçamos, beijamos, e com lágrimas de alegria, com gratidão de amigo ou de noivo feliz, repetimos dentro de nós o mesmo cântico dos cânticos: estamos salvos!"
E, com efeito, através da Caridade, a maior das virtudes teologais, o personagem do filme venceu o diabo, e cada um de nós somos exortados a vencê-lo também. E, afinal, há uma única definição direta de Deus dada por Seu Filho no Evangelho: "Deus é amor".
Rio, 18-19/07/99
Observação: Essa série, sobre a figura do diabo em quatro filmes, teve uma repercussão bastante gratificante. Em breve, reunirei todos os textos, mais uma introdução e mais os comentários de leitores mais interessantes que me chegaram a respeito dos artigos, num arquivo só. Fica aqui meu agradecimento a todos que enviaram correções, críticas e elogios. Também pretendo disponibilizar, neste site, os roteiros de "O Advogado do Diabo", "Seven" e "8 mm".
NOTA:
(1) No roteiro original, não havia dúvida sobre a autenticidade do filme: a proposta da Sra. Christian era, simplesmente, que Welles encontrasse a família da menina e os autores do filme. Com a mudança, a história certamente ganha uma nova dimensão. Voltar