As eleições e a Nova Ordem Mundial





Com alguma relutância, resolvo escrever algumas coisas sobre as últimas eleições. Os resultados não estão todos prontos ainda, mas já podemos fazer alguns diagnósticos.

Digo "com relutância" porque não é meu objetivo, neste jornal, fazer campanha política nem muito menos representar qualquer tipo de movimento político. Já disse aqui que a politização da vida intelectual é um dos males que afligem nosso país, responsável pela total inanidade dos intelectuais tanto à esquerda quanto à direita (embora esta praticamente inexista).

Dito isso, são necessárias ainda algumas observações preliminares. Costuma-se dizer que as eleições definem "quem vai ter o poder" no Brasil. Isso é absurdo. O poder não se reduz à esfera política. Não é possível achar que todas as decisões importantes serão tomadas exclusivamente por políticos. Ninguém elege professores universitários, nem empresários. Estes continuarão nos seus lugares e continuarão tendo enorme influência no nosso dia-a-dia. Existem várias fontes de poder; o Estado é apenas uma delas.

A velha divisão de Montesquieu, Legislativo, Executivo e Judiciário, deixou de levar isso em conta. Ele tomava o poder político como o único poder existente: ora, os três poderes são o Estado, todos eles podem ser absorvidos numa entidade que lhes é anterior. Essa divisão não basta, de forma alguma, para limitar o poder do Estado, porque significa que o Estado se limitaria a si mesmo - um nonsense, obviamente, porque se um poder limita o outro, imediatamente adquire mais poder, e se todos os poderes são o Estado, é este que fica mais poderoso, de um jeito ou de outro.

Se a sociedade funcionasse como acreditava Montesquieu - e como crê a maior parte de nossos intelectuais - estaríamos inevitavelmente condenados ao totalitarismo.

O que pode limitar o poder do Estado são as outras entidades. São os empresários, são os intelectuais, são as ONGs, são as Igrejas, são as organizações da sociedade. É preciso que todas essas entidades se limitem umas às outras para que a liberdade se mantenha.

Mas não nos distanciemos muito. Voltemos ao poder político. Há alguns fatos, no mínimo, estarrecedores a respeito da configuração desse poder no mundo de hoje.

O principal é que a organização política e econômica não é determinada pelo próprio país, mas por organismos internacionais. Muito antes de ser realizado, o Plano Real já estava decidido por esses organismos; já tinha sido pensado por think tanks no mundo afora.

O que o presidente Fernando Henrique fez foi, simplesmente, aplicar as receitas. E não teria conseguido fazer diferente, porque só assim obtém o financiamento necessário a determinadas aplicações.

Isso nos leva a uma conclusão inacreditável: se Lula fosse eleito, não faria a menor diferença. Ele não poderia agir contrariamente aos interesses dos organismos internacionais, porque do contrário o país entraria numa crise insolúvel. Se já estamos perdendo investimentos externos com o FHC, imaginem com o Lula...

Alguém pode argumentar: outro modelo é possível. Não é. Não foi realizado em lugar nenhum do mundo, e não deu certo em lugar nenhum. Ninguém é capaz de combater os capitais internacionais e sobreviver economicamente.

Fernando Henrique sabe perfeitamente bem disso, e por isso realizou as reformas econômicas que realizou. Sua reeleição satisfaz a esses capitais, porque é a garantia de realização dessas reformas, é a garantia de uma certa estabilidade. O Lula não conseguiria realizar nada diferente, mas poderia tentar - e isso custaria tempo e dinheiro demais.

De forma que nada mais previsível e consolador que a vitória do Fernando Henrique.

Aqui, alguém poderia achar que estou aderindo ao discurso do dr. Emir Sader de que estamos nas mãos dos capitais estrangeiros, e que isso é um atentado à soberania nacional. Essa parte do discurso é certa, mas a conclusão que o nosso amável dr. tira daí é louca: acha que devemos, então, votar no Lula. Não: do ponto de vista econômico, a globalização é positiva. Só existe esse jeito de obtermos garantias econômicas; só existe essa saída para a economia nacional.

Mas o outro ponto equivocado no discurso do prof. Sader é que isso significa uma vitória da direita, representante do imperialismo americano.

Em primeiro lugar, os conservadores americanos acreditam que a globalização é um atentado à soberania dos próprios Estados Unidos. Qualquer um que vá à página do Pat Buchanan vai ver isso (www.theamericancause.com), junto com observações que comprovam o que venho dizendo aqui.

Em segundo lugar, Fernando Henrique não é um homem de direita, sob hipótese alguma. É realmente um homem de centro-esquerda, um social-democrata.

Mas o que é essa tal de social-democracia, que vem conquistando adeptos no mundo inteiro e é, realmente, o modelo dominante neste fim de século (ao contrário do que previu Fukuyama)?

Simples: é um modelo que aceita o mercado, que adota o mercado livre, mas adere às tradicionais causas esquerdistas em todo o resto. É o Estado que libera a economia, e estatiza os órgãos, a posse de armas, o ensino, a moral, etc.

São os filhos rebeldes do capitalismo. Passaram a vida inteira odiando esse sistema, por razões econômicas. Logo perceberam, porém, que os argumentos de Marx contra a economia liberal não valiam um tostão furado, e que o mercado é a única via possível. Abriram mão da economia, então, mas não do resto. Que o resto se planifique, enquanto a economia se libera.

Aqui, uma rápida observação: é claro que essa "liberalização" da economia só vale internamente, isto é, dentro do país. Em termos mundiais, não há liberalização da economia: como pode ser liberal uma economia em que os planos econômicos são decididos de antemão por organismos internacionais? Na prática, o que temos mesmo é o velho capitalismo monopolista. Mas essa é outra história.

Voltando ao plano nacional: o Estado social-democrata, ao mesmo tempo que desregula a economia para entregá-la aos FMIs e Bancos Mundiais, toma controle cada vez mais rígido da vida do cidadão. Vai, pouco a pouco, reduzindo a esfera em que ele tem liberdade de agir, até chegar a quase nada. E isso em nome de "direitos"...

Estou, então, dizendo que o PSDB é um PT que cresceu? Sim. Esse é o ponto.

Mas não pensem que isso significa que a globalização é apenas econômica, ou que todos os países do mundo estão se fechando. Muito pelo contrário.

Os organismos internacionais também financiam movimentos reivindicatórios. A maior parte da grana do MST vem deles. A grana dos movimentos negros, também. Por quê?

Porque esses movimentos têm a força de desestabilizar o poder do Estado, ao criar situações que este não pode resolver, e este tem de recorrer a organismos internacionais. Esse é o outro lado da globalização: a formação de um poder mundial, com legislação própria.

O importante papel dos movimentos negros aí é que eles são responsáveis por desestruturar a cultura nacional, importante componente de formação dos Estados nacionais.

Agora, vamos entender bem: os Estados se tornam mais fortes internamente, para planificar melhor as vidas dos súditos. Ao mesmo tempo, tornam-se muito fracos externamente, ficando nas mãos de entidades supra-governamentais e supra-nacionais. E aí está configurada a tal de Nova Ordem Mundial.

Os únicos políticos que sobrevivem, hoje em dia, são os que seguem essa receita. O Fernando Henrique é a encarnação mesma dela; é um homem que defende a liberação da economia ao mesmo tempo que defende "affirmative action" e passa a mão na cabeça do MST (ninguém se iluda com alguns ataques que ele fez a esse movimento: se não fosse a leniência dele, o MST não teria progredido como progrediu). De filho rebelde, passou a filho subserviente.

O mesmo se pode dizer dos social-democratas europeus. Por isso ninguém deve se alarmar quando um ministro do Tony Blair vem aqui e ignora o Lula, ao mesmo tempo que defende o Fernando Henrique: embora os nomes dos partidos sejam os mesmos, Tony Blair não é o Lula de lá; é o Fernando Henrique. Lula é uma espécie em extinção.

A prova cabal de que os dias de Lula estão contados é a proposta do futuro governador do Rio de Janeiro, o grotesco Anthony Garotinho.(1)

Essa figura emergente da vida política nacional disse a "O Globo" que proporá a formação de uma nova esquerda, unificada em torno do que ele chama de "estado social". Essa esquerda, ainda segundo ele, aceitará a liberdade de mercado, mas não abrirá mão das conquistas sociais.

Sabemos que os termos "conquistas sociais" são um belo eufemismo para o velho dirigismo estatal. Agora, não mais nas áreas econômicas, mas nas demais. E aí entendemos a história: Garotinho, apesar do nome, representa a esquerda que quer crescer, a esquerda que também quer se integrar completamente na globalização.

Aqui, mais uma vez, não me entendam mal: a esquerda já contribui para a globalização, ao apoiar os já mencionados movimentos reivindicacionistas, ao apoiar ONGs, ao apoiar causas ecológicas. Nenhum pretexto melhor para uma legislação global do que a ameaça ecológica que paira sobre o planeta, segundo os ecologistas.

Da mesma forma, o feminismo, ao pretender a união das feministas do mundo inteiro em torno de legislações que, teoricamente, defendem a mulher, como assédio sexual. E, ao mesmo tempo que pretendem defender a mulher, essas leis (como todas as leis - mas algumas são necessárias) diminuem a área de atuação dos cidadãos, em favor de um aumento do aparelho repressor do Estado.

Já dá para perceber que Benedita da Silva e Marta Suplicy são também paradigmas da Nova Ordem. Não é preciso ser muito esperto para ver isso.

O que a esquerda nunca percebeu (e o próprio Garotinho não percebe, quando defende o que defende) é que todas essas causas só favorecem seu maior inimigo: a tal da globalização, o poder mundial. E tenho vontade de gargalhar quando vejo Celso Furtado discursando contra a globalização, quando ele foi um dos maiores entusiastas da formação do "direito penal cultural" da UNESCO, alguns anos atrás. Um documento que pretendia fornecer as bases para a moral universal, punindo qualquer um que atacasse a cultura alheia, mesmo com argumentos verbais. (A discussão desse documento nos levaria muito longe, mas não precisamos disso, porque ela já foi feita por Olavo de Carvalho, no livro O futuro do pensamento brasileiro, uma pequena grande obra que, infelizmente, passou quase incógnita aqui em Pindorama).

O trágico, realmente, é isso: Celso Furtado trabalha para quem diz odiar. Ele e a esquerda nacional, em geral, que não foi capaz de perceber o caráter duplo da globalização. De um lado, a globalização dos mercados; de outro, a globalização das culturas, das legislações. De um lado, a causa dos liberais; de outro, a causa dos esquerdistas. Juntando os dois, um poder mundial, mais forte e planificador do que qualquer outra coisa que já se viu na Terra (e a causa dos social-democratas).

Claro que esse poder é a coisa mais monstruosa do mundo, mas não acredito na formação de uma nova ideologia contrária a ele. Não tenho razões para desgostar da globalização econômica. Ela me permite comprar livros e CDs pela internet, reduziu o custo de vida médio e tende, a longo prazo, a criar uma certa prosperidade. O capitalismo como sistema econômico ainda resistirá a muitas crises, e persistirá.

Não, posso, porém, ser a favor do movimento de desmantelamento das culturas nacionais, em nome de um globalismo duvidoso patrocinado por ONU e congêneres. O Brasil, por exemplo, tem como caráter indissociavelmente seu a harmonia entre as raças. Nunca discriminamos ninguém. Não somos uma sociedade "multicultural", mas uma sociedade mista mesmo. Todas as raças se misturaram para formar uma cultura só - nisso, o Darcy Ribeiro tinha razão. Os movimentos que querem destruir essa cultura em nome de uma cultura africana que nunca existiu, nem aqui nem na África, são simples joguetes nas mãos do poder mundial, estão unicamente se esforçando para destruir nossa unidade cultural e criar, artificialmente, um problema racial que nunca tivemos.

O mesmo vale para o valor da preservação da língua. Esta é um dos principais fatores de união nacional, que estamos vendo, aos poucos, perecer. Não falo apenas dos estrangeirismos desnecessários, mas da perda de determinadas expressões, que acaba tornando a comunicação cada vez mais complicada.

E isso leva, de certa forma, de volta ao que falava no início: a única forma de resistir ao totalitarismo é a diversificação dos poderes. A única forma de uma cultura se preservar, em tempos globalizantes, é não se deixar ir pelo mesmo rumo da economia. A cultura deve ser autônoma, não sujeita à economia, como tem sido.

Mas aqui já me distancio do tema inicial, que era o poder político nos tempos atuais, pós eleições. Creio já ter dito o essencial: Lula e FHC concorrem a um mesmo fim, embora por lados diferentes. Tenho mais simpatias por este último, que ao menos não vai tentar fechar a economia. Já na disputa para o senado, só tenho a lamentar que tenham escolhido Saturnino Braga, um zero à esquerda que irá para o senado com o fim exclusivo de puxar o saco do Mogadon Suplicy, eleito por São Paulo (na disputa mais indigesta dos últimos tempos). Roberto Campos, por outro lado, embora tenha posições altamente discutíveis em vários domínios, é um de nossos maiores economistas, e poderia trazer alguma lucidez às discussões no Senado.

Mas deixemos isso para lá, com algumas palavrinhas sobre a oposição ao presente estado de coisas. Infelizmente, a estrutura de poder do governo mundial está montada de tal forma a impedir a formação de uma oposição.

Ora, essa união de capitalismo monopolista e socialismo é o que define o fascismo. A nova ordem mundial é fascista. No entanto, como explicou o prof. Olavo de Carvalho em recente artigo no "Jornal da Tarde" (Escalada neofascista), ao mesmo tempo que existe essa escalada, a mídia mundial inventa determinados perigos fascistas falsos, como o Le Pen, na França, e como uma meia dúzia de neonazistas na Alemanha.

Ora, pela própria configuração da economia mundial, as propostas desses movimentos não são realizáveis. Mas, tomando-as como perigos reais, o poder mundial pode reforçar-se ideologicamente, apresentando-se como grande opositor desses regimes fascistas (não é esse o discurso dos movimentos de minorias?). Quem quer que se oponha a ele, então, torna-se imediatamente suspeito de fascismo também - e imediatamente desmoralizado. Como diz o artigo citado, "chuta-se o cavalo morto para que os coices do vivo possam ser tomados como carícias".

É por isso que um idiota como Fernando Barros e Silva pode afirmar, na revista "Bravo!" (edição de outubro), que o Olavo é um "guru da extrema-direita". E qualquer opositor da Nova Ordem recebe o mesmo rótulo, como Ariano Suassuna, e como o americano Pat Buchanan (já citado).

Existe, claro, uma zona do indivíduo que totalitarismo nenhum nunca vai poder tomar, que é a liberdade interior, que é a consciência própria. Estes também são tempos hostis a elas, em que seus principais guardiães - a classe intelectual - se tornaram seu principal opositor. Negam a consciência individual e depois ficam defendendo a liberdade de consciência, sem perceberem a contradição.

Mas mesmo assim, ainda é possível manter uma área em que nenhuma força externa pode penetrar, em que o homem está só com Deus, pois quien habla solo espera hablar con Dios. Isso, governo nenhum pode tirar de nós. E, no fim das contas, é isso que importa. Que este mundo estava condenado, disso já estávamos avisados...

Alvaro R. Velloso de Carvalho

Rio de Janeiro, 06 de outubro de 1998.



NOTAS:

(1) Já estou dando por pressuposto que Garotinho será eleito no Segundo Turno. A eleição estadual não entra nesta discussão aqui. O que haveria para discutir seria o grau de obediência ao presidente que cada candidato oferecerá: tenho certeza de que o Garotinho será muito mais obediente do que o César Maia seria, o que é mais um argumento a favor de Maia. Ao mesmo tempo, elegendo Garotinho ficaremos sem a conhecida competência administrativa do ex-prefeito, pondo no lugar dela a volta da violência urbana e da corrupção. Conheço Garotinho há seis anos, sei que ele venderia a mãe para obter poder político. Voltar