Escravidão consentida
"É justo ou razoável que a maioria das vozes
(...) escravize a minoria que quer ser livre?"
John Milton1
A Dinamarca é um país excelente: lá, o Estado cuida do cidadão desde o nascimento até a morte", celebrava um colunista do jornal O Globo.
Na Globo News, no mesmo dia, um empresário reclamava que o Governo não toma medidas necessárias para coibir o consumo de cigarros, e é só por isso que tanta gente continua fumando.
No caderno Prosa e Verso, do mesmo jornal O Globo, um leitor reclamava que nenhuma autoridade tomou providências contra o crescente uso de palavras de língua inglesa nos estabelecimentos comerciais brasileiros.
Eu sei que parece mentira, mas está aí: toda essa estatolatria em menos de uma semana, e é apenas uma amostra. Poderia conter muito mais exemplos. Mas por que diabos estou citando isso? Explico.
Aristóteles dizia, para escândalo de todos os modernos, que algumas pessoas têm "alma de escravo". Não se trata, como pensa o imbecil coletivo, de uma legitimação da escravidão.2
Alma de escravo, diz Aristóteles, tem aquele que tende a se oferecer como instrumento à autoridade de outra pessoa. Esta tendência não é "natural", não surge no nascimento. Surge posteriormente, por algum fator externo ou interno, como a educação deficiente ou a despreocupação com a própria existência. É uma deficiência da razão, à qual falta a capacidade "deliberativa", que é a possibilidade de organizar a própria vida segundo um fim que não apenas a sobrevivência.
O homem livre não simplesmente vive, mas vive por algum motivo, e organiza seus passos para estar de acordo com este objetivo. É inteiramente responsável por seus próprios atos e sabe tomar decisões por conta própria, bem como reconhecer, intimamente, se tomou a decisão certa ou a errada, isto é, a decisão que o aproxima de sua razão vital ou a que o afasta. Essa mesma responsabilidade lhe permite responder, perante a própria consciência, se calculou bem ou mal os efeitos de seus atos.
Quando a consciência individual se encontra deprimida, o indivíduo passa a não se sentir responsável por si mesmo. Precisa de uma babá, ou de um bedel. E apela ao Estado. Incapaz de ascender da condição de criança à de adulto responsável, pede, implora ao Estado que o mantenha seguro, que cuide dele, que o guie, que lhe diga o que pode e o que não pode fazer, que regule sua vida, que lhe dê um projeto vital. Não faz mais nada por si, nem mesmo se relaciona com os outros sem o intermédio do Estado bedel (para usar a brilhante expressão de Olavo de Carvalho).
O caso do colunista do Globo é o mais elucidativo, pela própria palavra utilizada: "cuidados". O Estado que "cuida" de seus súditos, isto é, que faz por eles tudo aquilo que eles já não se sentem capazes de fazer por si mesmos.
E aí surge a legislação contra o cigarro (ou papai dizendo ao filho que é errado fumar?), surge o código de trânsito (ou o bedel que dá varetadas no menino indisciplinado?), o controle do vocabulário (ou a professora que lava com sabão a boca da criancinha de "boca suja"? - embora "boca suja" hoje seja, por exemplo, dizer ao negro que ele é negro).
A situação atinge seus exemplos mais caricaturais nos países ditos "mais civilizados", como a Dinamarca e a Suécia. Nesta, qualquer pai que dê um tapinha no filho pode ser processado por este, ou qualquer sujeito que for visto meio bêbado em alguma festa e for denunciado é imediatamente conduzido a tratamento pelo Estado, sem direito a apelação. Na Alemanha, os pais são obrigados (sim: obrigados) a colocar os filhos na escola. Isso é a tal "social-democracia".
A nossa caipirice, babando na gravata, vê isso como grandes exemplos de civilidade e racionalidade. São, antes, exemplos de infantilismo e de total submissão ao "poder imenso e tutelar", de que falava Tocqueville. Quando o Estado invade a esfera pessoal e tira dos indivíduos a possibilidade de decidir por si mesmos os rumos da própria vida, e isso é aplaudido por estes mesmos que perderam a liberdade, é que a tal "alma de escravo" anda mais difundida do que poderíamos pensar. Na verdade, é de se pensar que estamos diante do maior caso de depressão da consciência de que já se teve notícia em toda a História humana. É o fenômeno, ainda pouco notado, da escravidão consentida, que tem uma evolução histórica muito nítida.
3E que ninguém isente os intelectuais da responsabilidade por isso. Boa parte do pensamento contemporâneo consiste em negar à razão humana a capacidade deliberativa, bem como qualquer outra. Uma consciência individual que opera no meio do absurdo, incapaz de apreender o que quer que seja, só pode ser incapaz de se responsabilizar por qualquer ação ou pensamento.
Aquilo que Aristóteles apontava como algo que impedia o surgimento da "alma de escravo", a educação, acaba tendo o efeito oposto. Porque Aristóteles se referia ao verdadeiro conhecimento, não a isso que hoje se vende como tal (caso pro Procon? Não. Caso de dar-se conta e fugir por conta própria!). Caímos, assim, no elogio do irresponsabilismo e da inconseqüência. Mas esse acaba sendo o elogio da "alma de escravo". A educação, em sentido amplo, deixa de ter sua função libertadora para tornar-se também escravizante.
A negação da consciência individual cria um clima cultural em que os indivíduos se sentem cada vez mais incapazes e acabam se tornando incapazes mesmo. É simples: em vez de exortar o sujeito a buscar a independência, a responsabilidade, o esforço intelectual, o ensino apenas lisonjeia sua ignorância, transformando a incapacidade em regra universal.
É aí que o relativismo e o ceticismo contemporâneos (caros tanto à direita quanto à esquerda) revelam sua sinistra aliança com a escravidão das almas pelo Estado.
É só observar: algumas doutrinas endeusam o Estado (Hegel). Outras reduzem a consciência individual a um produto social (Gramsci, Gadamer, etc.), a um mero acidente (título do livro mais recente de um conhecido cientista), ou ao produto de um código genético (Monod). Outras alimentam o reinvidicacionismo (Habermas, etc.). Quase todas se esforçam para provar que nossa vida não faz sentido, que estamos num mundo caótico em que a nossa pobre razão não pode enxergar um palmo à frente do nariz e deve se colocar imediatamente nas mãos de alguma entidade coletiva.
Os séculos de relativismo, de kantismo, de ceticismo, de "modéstia metodológica" e congêneres, prontamente aproveitados pelos ativistas de plantão, são os responsáveis pela nova escravização da espécie humana sob os auspícios do Estado.
Esses inimigos da consciência são também inimigos da raça humana. Não fará o menor sentido defender a própria liberdade enquanto não for restaurada a autonomia da consciência individual e sua capacidade de apreender o mundo. Enquanto não recuperarmos, individualmente, a possibilidade de dirigir as nossas próprias vidas, continuaremos nas mãos do Grande Irmão, por mais disfarçado que ele possa aparecer (deve-se ressaltar que a liberalização econômica, advogada, com toda a razão, pelos liberais, é perfeitamente compatível com este tipo de repressão).
Mais do que nunca, é preciso lembrar: a liberdade é uma conquista individual, não pode ser "dada". Todo Estado que promete dar a liberdade por via legislativa está apenas inventado uma bela mentira para encobrir o aumento da própria tirania.
Essa conquista, que é a própria emergência das sombras da caverna, ainda é possível. Requer apenas empenho e sinceridade. "Buscai e achareis; batei e abrir-se-vos-á." (Mt; VII, 7).
NOTAS:
(2) A respeito disto, veja-se o excelente trabalho de Richard Bodéüs, "Aristote. La justice et la cité", PUF, 1996.
Voltar(3) Uma brilhante abordagem do assunto (com outros termos) está em dois livros de Olavo de Carvalho: "O Jardim das Aflições: de Epicuro à ressurreição de César. Ensaio sobre o materialismo civil" (Diadorim, 1995) e "O futuro do pensamento brasileiro: ensaios sobre o nosso lugar no mundo" (Faculdade da Cidade Editora, 1997). Veja-se também "A nova ciência da política", de Eric Voegelin (Editora Universidade de Brasília, 1982).
Voltar