Leviatã em marcha
Por Alvaro R. Velloso de Carvalho
Algumas pessoas comentaram que a minha carta que O Globo publicou há algum tempo sobre o governador Garotinho tinha sido muito branda. Na verdade, não era não: os editores do jornal é que a editaram a tal ponto de ela ficar branda. Mas mesmo na versão original (publicada abaixo), a carta não chegava a expressar o que eu realmente penso do governador e seus comparsas, pelo simples fato de que se eu publicasse isso ele poderia me pôr na cadeia por injúria.
Mas vou tentar inteirar o leitor não-carioca (e a grande maioria de nossos leitores vem de fora do Rio, como já era de se esperar, porque tem alguma coisa no clima da Cidade Maravilhosa que atrapalha a vida intelectual) dos fatos. Não vou falar do governo Garotinho como um todo; falarei apenas da sua política de segurança.
Eu nunca esperei nada que prestasse dessa política, primeiro porque conheço Garotinho há vários anos e sei que ele nunca faz nada que preste; segundo porque a cabeça por trás dela é a do cientista político Luís Eduardo Soares, que crê sinceramente que eu e o Sr. Pedro Sette Câmara fomos influenciados ao mesmo tempo por Robert Nozick e Joseph De Maistre.
A avalanche de notícias de crimes no noticiário só mostra que minhas apreensões tinham toda razão de ser.
A primeira medida desses dois grandes cérebros da nova esquerda brasileira foi a criação de uma central de denúncias de abusos da polícia. Até aí, até que faz um certo sentido: a polícia comete abusos, a população tem o direito de se defender desses abusos. Agora, imaginem só uma central de denúncias anônimas contra a polícia: é o sonho de todo traficante! Claro, o telefone não deve parar de tocar o dia inteiro, os traficantes devem mesmo ter contratado alguém só para ficar ligando para lá. Uma festa.
Uma festa que serve para paralisar a polícia, para impedir que os policiais ajam. E uma festa que já deu frutos: a bandidagem aumentou, e quem quer que more no Rio já percebeu isso.
O governador Garotinho negou esse aumento, num artigo publicado em O Globo de 13/03, com o título mui sugestivo de "A violência não aumentou no Rio". Agora, para vocês verem que não estou brincando quando digo que o homem é uma besta, vejam só o último parágrafo do artigo:
A violência não cresceu no Rio nos últimos dois meses. Nosso Governo não vai fazer nenhum tipo de segurança permissiva. As pessoas que falam das coisas que não conhecem o fazem por dois motivos: o primeiro, é evidente, eleitoral, o segundo, por total desconhecimento do assunto.
Viram só que primor? As pessoas falam do que não conhecem porque não conhecem. O céu é azul porque é azul. O Globo é um jornal porque é um jornal. E o Garotinho não sabe escrever porque não sabe escrever.
Como se isso já não fosse suficiente, chegaram mais notícias: o sr. Soares estava organizando palestras para tornar a polícia "politicamente correta". Primeiro, foi um líder gay dizer para os policiais que eles devem também achar o modo de vida dos gays uma lindeza, porque se não o fizerem serão apenas monstros preconceituosos. Tudo bem, mas a palestra é inteiramente inútil: nunca se ouviu falar de violência policial contra gays no Brasil; que alguém me cite um único exemplo e dou a mão à palmatória. A segunda palestra, claro, foi sobre racismo, essa obsessão do intelectual brasileiro. E é mais lindo ainda: como a esmagadora maioria da polícia é constituída de pretos ou mestiços, deve ter sido uma beleza um líder negro dizendo para uma platéia preta ou mestiça que eles não devem odiar pretos e mestiços.
Em tudo isso, fica parecendo que a culpa pelos crimes é da polícia, e não dos bandidos. A indefectível dupla Soares e Garotinho, até então, mostrava preocupação exclusiva com os policiais, esquecendo completamente quem é que, afinal, comete os crimes.
Mas logo veio a gota d'água, comprovando que o problema, para os responsáveis por nossa segurança, não era só da polícia: era também das vítimas. Foi lançada a campanha de desarmamento, pela qual o Estado proibiria não só o porte não-autorizado, mas também a venda de armas. Claro que a medida é inconstitucional, mas, o governador disse que conta com o apoio popular. Bom, quer dizer que se há apoio popular, um governador pode rasgar a Constituição? Beleza.
Falemos um pouco desse negócio de desarmamento. Num artigo antigo sobre o desenho South Park, defendi o livre porte de armas, desde que cumpridas algumas recomendações mínimas. Até hoje recebo e-mails descendo o cacete naquele artigo. Se há um ponto da pregação esquerdista já entranhado na cabeça das pessoas, foi o da proibição das armas.
Na argumentação do jornal O Globo a favor da interdição, o editorialista escreveu, simplesmente, que as armas podem causar estresse em seus portadores e eles podem atirar quando não devem. Quer dizer, quem atira é a arma, e não a pessoa. Quando eu era criança e batia no meu irmão, também dizia que quem tinha batido nele era minha mão, e não eu. O raciocínio é o mesmo, mas o editorialista não põe as coisas nesses termos, preferindo ocultar seu raciocínio peculiar - até porque não é possível que qualquer pessoa com mais de dez anos tenha a cara de pau de repeti-lo em público.
É preciso, mesmo, ter perdido qualquer resquício de racionalidade para acreditar num negócio desses. Olavo de Carvalho escreveu que é como culpar as seringas pela difusão da heroína e que, para manter a coerência, Garotinho devia proibir as injeções em farmácia, para evitar o consumo de drogas.
Pois é. Mas a justificativa que o governador deu para sua política não foi só imbecil. Foi sonsa:
A proibição do comércio não vai tirar as armas das mãos dos bandidos. Mas a proposta impede que num momento de exaltação um homem de bem possa atirar.
Percebem a insolência? Ele sabe que os bandidos não serão minimamente afetados pela medida. Ele sabe que nenhum bandido entra numa loja de armas para comprar um revólver, que as armas da bandidagem chegam até eles por misteriosos esquemas que seu governo não vai ter coragem de enfrentar. E então, ele ataca o lado mais fraco: ataca as vítimas! Ataca o homem honesto, ordeiro, que simplesmente quer ter uma arma em casa para proteger sua família e a si próprio. Ele quer tirar do cidadão um direito básico: o de auto-defesa.
Se alguém me ataca, eu tenho todo direito de me defender. Mas não agora, porque o Garotinho está fazendo birra e não quer deixar mais. Quem mora no Rio sabe que precisa de algum instrumento de auto-defesa, porque não pode contar com a polícia, que provavelmente vai estar ocupada demais investigando a si própria. Mas o Garotinho quer que nós acreditemos que seus policiais vão vir nos defender, sempre que precisarmos. Francamente: é muita palhaçada para um sujeito só.
Os problemas não param por aí. O primeiro governo a proibir o porte e a venda de armas foi o governo nazista, pela Lei de Armas de 1938. Isso não é um mero acaso. Há uma ligação muito clara entre o totalitarismo nazista e essa proibição. O cidadão desarmado está inteiramente nas mãos do Estado, suscetível a qualquer intrusão em sua liberdade.
Ora, ao mesmo tempo que luta para desarmar a população honesta, a esquerda tem armado certos movimentos de características inequivocamente revolucionárias. Ao mesmo tempo que a população se torna indefesa, os Sem Terra se tornam mais poderosos e se começa a se desenvolver a tal "luta armada no campo". E ninguém deve esquecer a notória ligação entre esquerda e banditismo: para a maioria de nossos cientistas políticos (Luiz Eduardo Soares entre eles), os bandidos são excelentes instrumentos de "transformação social", são "inocentes úteis" para fazer a revolução.
O leitor pode achar que não há nenhuma ligação entre essas coisas e que eu sou apenas um paranóico. Pode ser que não haja mesmo - pelo menos é mais cômodo achar que não há. Muitos judeus que fugiram da Alemanha quando da ascensão do nazismo também foram tachados de paranóicos...
Alguns dias depois da controvérsia das armas, veio a controvérsia do secretário de segurança. É a história mais mal contada dos últimos anos, e é uma pena que a nossa imprensa só divulgue escândalos que favorecem a esquerda, porque essa história realmente precisava de uma investigação honesta.
O sr. Soares diz que havia vários grampos em seu gabinete, feitos por companheiros do secretário de segurança, general José Siqueira. Estes dizem que Soares é que estava interferindo em todas as instâncias da secretaria, passando por cima de todos, sem conhecimento de causa.
Me perdoem, mas eu não compraria uma caixa de fósforos do sr. Soares. Eu não acredito nele. Tudo isso cheira a expurgo, uma forma de expulsar os desafetos de Soares do governo. O negócio é simples: nenhum general veria com bons olhos toda essa palhaçada que Soares e Garotinho chamam de política de segurança. Generais têm, pelo menos, uma noção do que é segurança, enquanto a única experiência policial do sr. Soares é na polícia do pensamento que queria proibir O Indivíduo. Dificilmente um general aplaudiria um esforço consciente para destruir o Estado de direito e instaurar o socialismo.
O fato, porém, é que Garotinho demitiu Siqueira e pôs no lugar um pau-mandado seu, um PM ex-funcionário da Prefeitura de Campos.
Ao mesmo tempo, O Globo deu a manchete na primeira página "Crise leva PM a substituir Exército na segurança do Rio". Percebem a mentira? Não era "o Exército" que estava no comando da segurança; era um determinado general. O jornal deu uma notinha no dia seguinte, com a devida correção - a manchete, porém, fez o bastante para lançar uma sombra de dúvida sobre a reputação de todo o Exército brasileiro, como se todo ele fosse corrupto e estivesse contra o Garotinho e contra o povo do Rio.
Enfim, o Rio está vivendo numa atmosfera de mentiras, burrices, histórias mal contadas. Segurança não é brincadeira, não é coisa para garotinho. Esses palhaços estão pondo em risco a vida e a propriedade de cada um dos cidadãos do Estado, com objetivos, no mínimo, duvidosos. O governador e seus comparsas estão tirando nossa liberdade, nos deixando indefesos contra o banditismo e contra o próprio governo, e ainda estão ocultando informações. E nós assistimos impotentes à marcha ascendente do Leviatã, nos braços de Beemoth.
Rio de Janeiro, 8 de Abril de 1999.
Eis aí a carta, com todas as partes que O Globo não publicou (inclusive o PS, que nada tem a ver com o tema deste artigo, mas vale o registro):
De: Alvaro Rosário Velloso de Carvalho
Para: Jornal O Globo
Assunto: Política de segurança de um garotinho
Data: 24/03/99
Em tempos normais, eu diria que ninguém é burro o suficiente para não entender por que a violência aumentou no Rio desde que o "sr." Garotinho assumiu o governo e vai continuar aumentando. Mas, em tempos de imbecilidade coletiva ululante, fica difícil enxergar o óbvio. Pois esse senhor, junto com seus brilhantes assessores, já tomou uma medida significativa, e agora anuncia outra: a primeira foi amarrar as mãos da polícia, criando uma central de denúncias anônimas contra policiais (o sonho de todo traficante); e agora ele anuncia que vai amarrar as mãos da população, proibindo as armas (um político americano já disse que "if you outlaw weapons, only outlaws will have weapons" - e que se dane o cidadão comum e honesto que quer proteger a própria família). Como se vê, longe de proteger a população contra os bandidos, o nosso governador prefere proteger os bandidos, primeiro, contra a polícia e, depois, contra a população. É o reinado da palhaçada universal, bem debaixo de nossos narizes. Ninguém vai falar nada? Ninguém vai dizer a esse fulaninho que com segurança não se brinca, que não precisamos de um Estado para nos proteger de nós mesmos, mas para nos proteger dos bandidos? Para onde foi o bom senso geral?
PS- Mudando de assunto, noto ainda a dificuldade de nossos "intelectuais" em se informar das coisas: como é que o sr. Verissimo pode se referir ao livro de Lillian Hellman sobre o período de caça aos comunistas nos EUA, a essa altura do campeonato, quando todo mundo já sabe, pelo menos desde os comentários de Mary McCarthy (na década de 80) que Hellman era uma mentirosa patológica, e que não há um parágrafo confiável naquele livro? Para interessados: a prova mais recente disso encontra-se no livro de Paul Jonhson, "Intellectuals", editado no Brasil pela Agir. Voltar