O fim do reinado de Gramsci?

Alvaro R. Velloso de Carvalho

Claro que não acredito no mito do progresso. Acho ridículas essas pessoas que, ao verem qualquer coisa boa acontecendo, vão logo berrando: "é o progresso da humanidade"! – restando, ainda, explicar como é que qualquer coisa tão desprovida de unidade substancial como a humanidade pode progredir.

Também não nego que tenho muito pouca fé no futuro de nosso país. Que fé posso ter no futuro de um país que elege Garotinho e Olívio Dutra, que esquece seus maiores pensadores, como Mário Ferreira dos Santos e Gilberto Freyre, para cultuar idiotas como José Arthur Giannotti e Florestan Fernandes, e no qual se discute seriamente a distinção entre cultura erudita e cultura popular? Um país que ressuscita modas esquecidas em todo o mundo, como a madame Blavatsky, o espiritismo e o positivismo?

Não: durante muito tempo, o Brasil ainda vai continuar como depositário da babaquice universal, porque essa parece ser a vocação de nossos intelectuais e homens de cultura – a nossa "elite", porca miséria!

Tudo isso não me impede de assinalar certos fatos animadores, mesmo não sabendo ainda se eles são apenas um alívio temporário para a dureza dos noticiários ou se eles realmente representam uma mudança no estado de coisas.

Refiro-me a duas entrevistas muito significativas, dadas por dois expoentes do esquerdismo nacional.

Primeiro, o ministro Francisco Weffort declarou à revista VEJA que "o samba não é o gênero adequado para fazer reflexões sobre o Estado e a sociedade", dando a entender que ninguém precisa politizar a música popular.

Depois, o cantor Chico Buarque, na revista REPÚBLICA, disse que a arte não precisa ser politicamente engajada, e que o artista tem todo o direito de não se manifestar politicamente.

Posso estar apenas delirando, mas parece que alguma sensatez desce sobre o cenário cultural nacional.

Expliquemos tudo com detalhes, como de costume.

O grande ídolo da esquerda brasileira chama-se Antonio Gramsci. Gramsci se diferencia dos demais expoentes do marxismo pela importância que ele dá à cultura.

Para ele, a primeira etapa no caminho da revolução era a revolução cultural. Nessa revolução, que é a própria tomada da cultura pela esquerda, os intelectuais se encarregariam de transmitir à população em geral os valores esquerdistas.

Desta forma, com o imaginário moldado pelo marxismo, não haveria muita resistência à tomada do poder, a próxima etapa na revolução comunista. Aliás, também essa tomada do poder seria feita gradualmente, mas não vou me ocupar disso neste artigo.

Esse programa foi cuidadosamente posto em prática pela esquerda desde os anos 60. Os esquerdistas tomaram conta do mercado editorial, do mercado fonográfico, das universidades, das novelas de TV, dos suplementos culturais, etc.

Desta forma, a cultura fica reduzida a uma etapa da ação política. Não serve mais para defender certos valores universais, nem para elevar a alma humana, mas apenas para ensinar marxismo de forma subliminar.

É interessante notar que é aí que tem origem o culto dos cantores populares. Afinal, para Gramsci, intelectual é todo aquele capaz de passar a mensagem revolucionária – seja ele um carteiro, seja ele um Ph.D. Ora, ninguém foi mais eficaz nesse trabalho do que os cantores populares. Boa parte das obras de Chico Buarque e Caetano Veloso serviu exatamente para isso.

Também é aí que se origina a confusão proposital entre cultura popular e cultura erudita. É óbvio que meio acorde de Beethoven vale mais do que todo o samba já produzido em todo o universo, mas não é politicamente vantajoso que seja assim. E como os esquerdistas dominaram a imprensa e a crítica cultural, ficou estabelecido o que era politicamente vantajoso, não o que era verdadeiro. Aliás, a submissão da verdade aos interesses políticos é outra das idéias de Gramsci.

Por isso, aliás, artistas são, hoje em dia, julgados mais pelas suas opiniões políticas do que pelo valor de suas obras – por exemplo, tanta exaltação ao João Silvério Trevisan e o silêncio em relação a Herberto Sales. O próprio culto a um tetrólogo menor como Brecht se explica assim.

Será, então, que podemos entender as declarações de Chico Buarque e de Weffort como o princípio do fim dessa moda gramsciana? Parcialmente, sim.

Se expoentes esquerdistas vão a público defender a arte "alienada", não posso deixar de ver isso como um bom sinal, talvez como o primeiro passo rumo à despolitização da arte.

No entanto, os malefícios das idéias gramscianas ainda estão profundamente enraizados em nossos meios culturais, e a reversão do quadro levará muito tempo.

Por exemplo, o prof. Leandro Konder, a reencarnação brasileira de Antonio Gramsci, já atacou o Weffort, naquele mesmo estilo que ele usava, durante a ditadura, para proibir a publicação dos livros que não interessavam ao Partido. Konder não pode, sob hipótese alguma, admitir a despolitização da arte – nem ele, nem seus colegas de ideologia.

A reação às palavras de Weffort foi mesmo imediata. Konder liderou a patota, e logo contou com a colaboração de Affonso Romano Sant’anna (que tem motivos para detestar o Ministro) e Sérgio Augusto.

Sinal de que muita gente ainda vai atacar a arte "alienada", e que mesmo esse primeiro passo não será fácil.

E notem que mesmo as entrevistas de Weffort e Buarque vêm carregadas de equívocos. O primeiro deles, a qualificação do samba como "arte". Weffort foi além: falou em democratização da cultura, com o Paulo Coelho e a Carla Perez na liderança.

Isso pode indicar um erro triste: que Weffort tenha passado do conceito gramsciano/politizado de cultura para o conceito neoliberal/mercadológico. De uma idiotice a outra.

O outro equívoco é o próprio excesso de importância que se dá ao trabalho de Chico Buarque. Música popular não é alta cultura.

As obras de Homero têm valor até hoje, mesmo tendo sido escritas na Grécia Antiga. As peças de Shakespeare idem. Mas alguém se lembra das paradas de sucesso dos anos 30? Ou dos anos 60? Qual era a música de maior sucesso em novembro de 1972, em qualquer lugar do mundo? Ninguém sabe – e também não interessa saber. Mas as partitas de Bach permanecem, e isso não é por acaso.

Existe uma profunda diferença qualitativa entre, por exemplo, Drummond e Chico Buarque. É a diferença que separa o poeta do letrista, a alta cultura da cultura de massas.

Enquanto nossas classes letradas não perceberem essa diferença – livrando-se, assim, dos últimos ranços gramscianos – a cultura brasileira continuará sendo a pobreza que é.

ADENDO:

Freqüentemente, quando falamos na influência de Gramsci no Brasil, a esquerda nos acusa de exagero. No entanto, a própria esquerda nunca hesitou em confessar que usa as táticas gramscianas e que seu objetivo é sempre o "convencimento" subliminar, e não a persuasão racional. Se querem uma comprovação disso, sugiro uma visita ao seguinte "site": Gramsci e o Brasil. Mas sugiro que tomem um Engov antes e outro depois. É muita tolice, mesmo.

Rio de Janeiro, 17 de Dezembro de 1998

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