A lição da humildade
Por Alvaro R. Velloso de Carvalho
"Humility is the mother of giants.
One sees great things from the valley;
only small things from the peak."
(G. K. Chesterton)
Roberto Benigni não deu ao mundo de Hollywood apenas uma lição de cinema, com seu filme "A vida é bela". Deu também uma lição de vida. No meio de seu discurso durante o Oscar, uma de suas frases passou despercebida, talvez engasgada no meio de todo o talento cômico do italiano, talvez por ser escandalosa demais para ser notada. É que, na pátria do consumismo e do materialismo, Benigni agradeceu a seus pais por lhe terem dado o maior de todos os prêmios, de todos os dons: o prêmio da pobreza.
Como assim, da pobreza? Pergunta o leitor incrédulo. Eu respondo, e tento mostrar por que essa frase foi uma grande lição de vida não só para o meio hollywoodiano, como para todos nós.
Alguém já parou para reparar a dureza de nosso trajeto pelo mundo? Freqüentemente, dá vontade de desistir. Eu sei que dá. Não venham com otimismo, ou com "pensamento positivo" para cima de mim. Essa mania de mandar as pessoas verem somente "o lado positivo da vida" é extremamente perversa. Eqüivale a dizer que você só deve olhar, na realidade, o que te agrada; que deve fingir que as coisas desagradáveis não existem, que deve fingir que não há nada de miserável na condição humana: em suma, é como dizer "faça uma lavagem cerebral em si mesmo".
Um tal delírio florido só pode levar, depois de um certo tempo, a seu extremo oposto: a depressão total. O sujeito começa tentando fazer mais do que pode, e, ao se descobrir incapaz, reduz a própria consciência até contentar-se com o "realismo" que consiste em engarrafar-se dentro da mais opressiva mediocridade.
Casos desses existem aos montes: vejam a obra de Wittgenstein, que começa com a tentativa absurda de encontrar uma linguagem perfeitamente lógica e sem ambigüidades para a filosofia, e, ao descobrir a impossibilidade desse projeto, reduz-se a um culto idiota da linguagem cotidiana. Vejam as pessoas que tentaram reformar o mundo inteiro na década de sessenta e, nos anos oitenta, viraram yuppies conformistas. São casos que ilustram essa passagem, aparentemente paradoxal, do delírio de potência ao culto da própria impotência.
Tudo isso para dizer que o desejo de só olhar o lado positivo da vida, de achar que as coisas são sempre melhores do que elas realmente são, só pode, depois, levar ao mais inabalável niilismo e à mais profunda depressão. Não é à toa que um dos filósofos do niilismo, Nietzsche, começa com o culto da "vida" e do "liberou geral".
Ora, dêem uma olhada no século XX. No filme "O advogado do diabo", o diabo diz para sua vítima: "Não percebes que o século XX foi inteiramente meu?". Alguém duvida? Foi o século em que mais de 200 milhões de pessoas foram sacrificadas no altar da ideologia.
Foi o século em que judeus morreram só porque eram judeus, em que padres foram esquartejados só porque eram padres, em que regimes inteiros se construíram sobre uma massa incalculável de vítimas - e sob os aplausos da intelectualidade mundial.
Mas saia do plano macroscópico e passe para o plano microscópico. Veja a extrema vaidade da posse: aquilo que o homem tem hoje, pode muito bem deixar de ter amanhã. Perdemos aquilo que mais acalentamos; depositamos todas as nossas esperanças sobre castelos de areia, que uma chuva fraquinha basta para desmontar e despedaçar. Confiamos em quem não merece; fazemos escolhas que pouco tempo depois mostram todo o seu potencial destrutivo; passamos de momentos de extrema euforia para outros da mais absoluta aridez, freqüentemente sem ninguém nem mesmo para perguntar o que está acontecendo.
É justamente nesses momentos, é justamente por tudo isso, que o dom da pobreza, isto é, a humildade, é um dos maiores dons. É só o dom da humildade que nos permite enxergar as coisas como elas são, e não nos desesperarmos com isso.
A humildade mostra a falta de sentido no apego às coisas terrenas. Mostra a extrema imbecilidade de quem funda sua própria vida na busca de uma ilusão, uma ilusão que lhe será tirada antes que ele imagine. Essa ilusão pode ser o poder político, objeto de tanta guerra, pode ser a posse econômica, pode ser até mesmo o convívio com outras pessoas, a euforia do "divertimento", a satisfação dos sentidos: são todos esses objetivos que se bastam a si mesmos, e que duram menos que um sopro. Todos os debates públicos que costumam girar em torno dessas ilusões, algumas mais estúpidas, outras mais mortíferas, outras mais inócuas, mas todas ilusões, delírios da vaidade humana.
Ora, claro, no meio de todo o absurdo diário, sempre surge um sorriso que ilumina a dificuldade, sempre surge uma palavra que precisávamos ouvir, sempre surge uma recompensa para um esforço - mas mesmo o sorriso pode desaparecer, as palavras podem ser esquecidas e a recompensa pode ser retirada.
No entanto, existem momentos em que o Infinito parece se manifestar no finito. Existem momentos em que uma certa tarefa, um certo apelo superior vem até nós. Freqüentemente, não fomos nós que assim quisemos. Não fomos nós que escolhemos isso. Mas o chamado superior aparece com uma evidência que é difícil negar. Vocação vem de "vocatus", chamamento. Em certos instantes, o chamamento fica claro, mais claro do que nós mesmos gostaríamos, porque aquilo que entendemos perfeitamente bem é, de certa forma, obrigante.
O chamamento cria uma obrigação na nossa alma, uma obrigação que não queríamos aceitar, uma obrigação que preferiríamos rejeitar. Mas algo nos diz que é precisamente ali que está a nossa tábua de salvação. É precisamente ali que está a chave para o entendimento do mundo; é a partir dali que as situações de sofrimento se explicam, se fundem numa síntese superior, concorrem todas a um mesmo fim.
Esse fim não pode ser generalizado, nem comprovado racionalmente. É um fim individual, e refere-se diretamente às possibilidades do indivíduo. É aquilo que só ele pode realizar, é o caminho que toda a realidade em torno está indicando especificamente para ele. Ortega y Gasset dizia que estamos diante da vida como um poeta diante de um soneto: o tempo todo, o soneto nos aparece, mas está faltando o último verso, a chave de ouro. É justamente esse verso que nos cabe colocar; é justamente ele que dará sentido a todo o resto. E é justamente ele que, freqüentemente, nos aparece com toda a clareza.
Tentar comprovar o Sentido seria estéril, porque ele não é objeto de especulação: é objeto de evidência direta. Falar abstratamente sobre ele seria, já, não realizá-lo, seria reduzi-lo e, de certa forma, rejeitá-lo. O Sentido precisa ser realizado; requer uma opção consciente, uma decisão firme de seguir determinado caminho. Ele não pode ser retirado do homem, ele é aquilo que ele mesmo acalentou, mas não acalentou sozinho, porque lhe veio de uma fonte superior. É o tesouro que a traça não rói, de que fala o Evangelho.
Em face dele, se evidencia a miséria da luta pelo finito. Em face dele, se revela, ao mesmo tempo, a miséria e a grandeza da criatura. Porque ela é falível, ela é precária, ela fraqueja, mas ela pode aspirar a algo superior e, mais do que isso, pode realizar algo que a transcende, algo que é maior do que ela mesma.
Sem humildade, a aceitação desse destino é impossível. Sem o necessário desprendimento das alegrias terrestres, sem o necessário desinteresse por tudo que é mundano e, portanto, transitório, essa opção não pode se concretizar. E, ao mesmo tempo, ela precisa se concretizar: ninguém vai terminar o soneto por nós - mas podemos optar pelo absurdo, e esquecer o soneto, nos recusarmos a vê-lo, nos recusarmos a terminá-lo, ou terminá-lo fora da métrica e sem rima. Eis o grande drama humano; eis o grande drama do Sentido da vida.
A opção pelo Sentido é uma opção pela perenidade, em oposição à transitoriedade. Pode ser, freqüentemente, a opção pela solidão e pelo sofrimento, mas isso não abala a força do sujeito que opta, porque ele está de posse da única coisa necessária. A opção pelo Sentido é a opção pelo Reino de Deus, é o abandono do reino de César, muito embora - e isso parece paradoxal, mas não é - só possa ser realizada dentro do próprio mundo.
O Sentido só pode se atualizar, só pode se desenvolver, dentro da transitoriedade, dentro do tempo. "Only through time Time is conquered", diz Eliot. Só na transitoriedade é possível conquistar a perenidade. A ação se faz no tempo, se faz no mundo, mas aspira ao Eterno, aspira à superação deste mundo. E é só em face dessa superação que este mundo faz sentido. É só em face do equilíbrio geral, da solução final, que os desequilíbrios parciais se explicam e fazem sentido.
Mas mesmo depois de ter perdido tudo (ou exatamente por isso), depois de ter sido abandonado e relegado à miséria, o homem imbuído do guiamento do Eterno sabe que não há sentido nas coisas terrestres. Ele pode perder tudo aqui, que isso não lhe será ocasião de desespero, porque ele não depositou suas esperanças neste mundo, há tanto tempo condenado. Suas esperanças estão depositadas Naquele que não pode trair as esperanças, Naquele que veio até nós oferecer a chance da redenção e da felicidade eterna.
Só o homem verdadeiramente humilde pode encher os pulmões e dizer "a vida é bela", porque sabe que o que há nela de bela não são seus aspectos mutáveis e secundários, mas é tudo aquilo que o liga ao Eterno, é tudo aquilo que permite que ele realize a própria vocação, que permite que ele atenda ao chamamento de Deus para a salvação da própria alma. Para chegar a isto, claro, é preciso morrer um pouco. É preciso morrer para algumas glórias passageiras e aparentes, é preciso estar disposto a sacrificar o seu amor-próprio, em nome de algo infinitamente superior. É preciso aprender a transcender-se; é preciso aprender a refrear os próprios impulsos e a escutar o apelo que vem do Alto, que vem Daquele que, o tempo todo, quer ser conhecido e amado, e que o tempo todo Se oferece a nós.
O homem que compreende e aplica tudo isso já começou a instaurar o Reino de Deus dentro de si; sem essa consciência, sem essa necessária humildade, ele sempre será apenas um narciso, obcecado com as próprias opiniões, os próprios desejos de poder e fama, as próprias fraquezas. O desejo de transcender-se e a consciência da própria desimportância são indispensáveis ao exercício honesto da atividade intelectual; são condições necessárias para que se entenda o que o objeto quer dizer e ensinar, para que se entenda o que vem de Deus, e mesmo para que se entenda Deus.
A humildade é indispensável para a realização do Sentido, porque é ela que permite ao homem mudar seu foco de visão da mais pura materialidade para a eternidade, e é ela que lhe permite enxergar a grandeza e a seriedade do drama em que está envolvido, e a necessidade de encontrar a melhor saída para ele.
Rio de Janeiro, 27 de Março de 1999.