INTELECTUALIDADE E IDEOLOGIA
OU: "O INDIVÍDUO" E A CONSPIRAÇÃO DA DIREITA INTERNACIONAL
por
Alvaro R. Velloso de Carvalho
Todo intelectual deve ser livre e imprevisível. - Paulo Francis
Quando do início da celeuma em torno de "O Indivíduo" na imprensa, uma aluna da PUC deu uma entrevista ao Jornal do Brasil dizendo temer que por trás do jornal estivesse algum movimento internacional poderoso.
Não demos atenção à afirmação, tanto por ser demasiado absurda, quanto por desviar o foco da discussão. Estávamos, afinal, mais preocupados em provar que o jornal não tinha nada de racista do que em desmentir a paranóia alheia.
A tese conspiratória, porém, ganhou relevância após uma matéria do mesmo Jornal do Brasil, assinada pelo repórter Cláudio Cordovil, um sujeito cuja ignorância atinge a comicidade: entre outras coisas, chama de conservadores todos os filósofos que desconhece e diz que a metafísica exclui a discussão sobre o movimento e a liberdade. Como quem se esforça em provar que 2+2=5, o sr. Cordovil pegou todas as nossas declarações (feitas numa conversa de mais de 2 horas, em que a estupefação do repórter crescia a cada explicação que dávamos e ele não entendia) e, descontextualizando-as, tentou extrair delas uma ideologia de direita. Não fez isso sozinho. Contou com o apoio de três intelectuais que ora nos acusavam de conservadores, ora de liberais; ora de individualistas, ora de místicos.
O editorial do primeiro número deixava bem claro que a proposta do jornal é inteiramente avessa a qualquer ideologia e a qualquer organização política. Pretender extrair dele o contrário requer altas doses de malícia ou de burrice mesmo.
O que é inconcebível para essa gente é que um grupo de 4 rapazes de faculdade possam fazer um jornal que escape às velhas categorias "esquerda" e "direita". Mais ainda, um jornal bolado com as próprias cabeças e pago do próprio bolso. Pretendendo reduzir-nos ao seu próprio nível, que é a sarjeta, se apressam em lançar sobre nós um rótulo odioso. Como o de "racistas" não colou, por demasiado infantil, agora recorrem a todo o estoque que sobrou, despejado de uma só vez.
Produtos de mentes fracas, que não concebem o mundo senão segundo categorias políticas, essas novas acusações também são frágeis.
Em primeiro lugar, o jornal trabalhou os temas propostos apenas na esfera das idéias. Não existe nele absolutamente nenhuma proposta de ação política. A função do intelectual sempre foi, ao longo da História, a de contemplar a realidade como se ela fosse um signo a ser decifrado por intermédio da razão. Trata-se, portanto, de perceber a verdade e de desvelá-la – esse o objetivo de quem faz teoria, isso o que o distingue do homem prático. Porque à prática não cabe perceber a realidade, mas transformá-la. E transformar a realidade está muito além das pretensões de "O Indivíduo".
Mas isso não é tudo. Ao afirmar o primado da consciência individual, o que estamos fazendo é negar a nossa submissão a qualquer tipo de ideologia. Transformar a idéia de que é o indivíduo quem percebe as verdades – ou, numa formulação formal, que a consciência emerge da unidade do corpo biológico – numa formulação política seria uma temeridade. O reinado da ideologia é justamente o campo político, entendido no sentido de um campo de ações concernentes ao Estado, ao governo ou aos partidos, sempre com fins bem determinados. A ideologia objetiva inspirar esse tipo de ações. É uma doutrina da ação.
Em momento algum defendi qualquer ideologia, mas disse precisamente que o ser humano é capaz de superá-las, ao dar um recuo teorético e observar as coisas tais como elas são. Isso equivale a dizer que o intelectual deve ser capaz de ver o mundo como mundo, sem tentar enquadrá-lo numa idéia de mundo, num sistema fechado que pretenda reduzir a realidade a algumas fórmulas simples.
Se lançarmos um olhar sobre o nosso século, veremos que a ideologia coletivista deixou atrás de si um rastro de morticínio e pesadelo. O nazismo de Hitler começou uma guerra que matou 50 milhões de pessoas. O comunismo aumentou em 80 milhões a população dos cemitérios (num cálculo por baixo). E por aí vai.
Veremos também que os intelectuais que se deixaram contaminar por essas idéias se tornaram cegos à verdade dos fatos: por exemplo, ainda na década de 70, os intelectuais marxistas previam para breve o fim dos EUA e a supremacia da URSS.
Em suma, não me lancem rótulos. Por mais ínfimas que sejam minhas pretensões intelectuais, por mais canhestra que seja minha expressão de iniciante, subscrevo aqui as palavras de Paulo Francis com que iniciei o artigo. Quando o intelectual perde a liberdade de opinar segundo a própria consciência, quando o meio que o cerca o obriga a aplaudir as ideologias de plantão, sua própria função está comprometida. Para qualquer pessoa honesta, a última palavra é sempre dos fatos, por mais que desmintam seus preconceitos e firam sua frágil alminha. E a vida intelectual é incompatível com a desonestidade.
09/12/97