30 anos de "Novus Ordo"
Por Alvaro R. Velloso de Carvalho
Este é o meu corpo!
Fazei isso em memória de mim.
Essas palavras têm ressoado na minha cabeça nas últimas semanas. Tivemos Corpus Christi e estamos completando 30 anos da edição do Novus Ordo Missae, quando Paulo VI instituiu a mudança na liturgia da missa. Mudou a missa, mudou a Igreja, mudou tudo. Do gregoriano, para o padre Marcelo Rossi; de São Tomás para Teilhard de Chardin, e assim por diante.
E a presença real? E o corpo de Cristo?
Em 1917, Léon Bloy podia escrever as seguintes palavras (perdoem a tradução capenga):
"Quando o padre eleva o cálice para receber o Sangue do Cristo, pode-se imaginar o silêncio enorme de toda a Terra. O adorador supõe que ela se encha de pavor em presença do Ato indizível que faz parecerem insignificantes todos os outros atos, semelhantes a vãs gesticulações no meio das trevas."
O Ato indizível, pelo qual a eternidade, mais uma vez, penetra na temporalidade; pelo qual rompe-se a densidade das trevas que nos separam da vida eterna, e rompe-se a fumaça dos 2 mil anos que nos separam da Crucificação, ponto central da História, que justifica tudo o que veio antes e tudo o que virá depois.
Para o freqüentador da missa, esse sacrifício acontece verdadeiramente, cada vez que o padre ergue o pedaço de pão e ergue o cálice, e profere as palavras da consagração. E cada fiel que comunga receberá corpo, sangue e divindade de Jesus Cristo. Receberá verdadeiramente, e viverá verdadeiramente o drama da salvação da própria alma pela comunhão com Cristo.
Um autor inglês aponta, justamente aí, a diferença entre os homens comuns e os homens de religião: para os primeiros, a crucificação e a ressurreição são fatos que se passaram num passado distante; para estes, essa é a realidade da vida diária, e acompanhar Jesus Cristo na cruz é sua preocupação central.
Mas... quem pode dizer essas coisas hoje? Quem vê, na hóstia, o corpus Christi que uma festa cujo significado quase todos já esqueceram celebra? Que católico freqüentador da missa nova tem ainda plena consciência da gravidade do que está acontecendo ali?
Não: o altar, aos pés do qual o padre consagrava, ajoelhado, foi substituído por uma mesa ridícula, à qual o padre se senta, como se tudo não passasse de uma ação de graças.
A genuflexão foi abolida: agora todos ficam de pé, inclusive o padre. Ai de quem for receber a hóstia de joelhos: ninguém mais se ajoelha perante Nosso Senhor, mas ficam de pé, e fazem questão de demonstrar que não fazem a menor idéia do que se passa ali.
E o barulho na hora da consagração? E as músicas horrendas e blasfemas, tocadas no violão, com as letras mais idiotas do mundo e com os ritmos mais banais possíveis?
A bagunça se instaurou na missa, a blasfêmia tomou o lugar do respeito. E a presença real? Que presença real?
A missa virou apenas uma celebração, ninguém sabe bem de quê. Virou um evento social, que as pessoas freqüentam para confraternizar, para namorar, fofocar, ou qualquer outra coisa.
E aí surge o hábito de dar a comunhão na mão, como se fosse um pedaço de biscoito; e aí surgem as missas que não usam o pão, mas consagram em biscoito São Luiz, ou pão Balducco.
Tenho uma breve historieta ilustrativa. Minha irmã não é católica, nunca foi católica. Não fez primeira comunhão, nada disso, mas sempre estudou em colégio de freiras. Um dia, foi parar numa missa, não sei bem por quê. Na hora da comunhão, todo mundo se levantou, ela resolveu ir também. Mas ela não sabia o que fazer com a hóstia, que lhe foi dada na mão. Ela simplesmente pôs no bolso, até que o pão se dissolveu.
Será que alguém ainda é capaz de perceber o escândalo de uma situação dessas? Quer dizer, alguém pega o corpo de Nosso Senhor e põe no bolso?! É o próprio Cristo que está ali, encarnando de novo, e a menina O põe no bolso, até que ele se dissolva?
Mas o ambiente da missa nova é propício para isso. A consagração não tem solenidade nenhuma, nada tem solenidade nenhuma. Tudo é banal, profano, tudo parece um espetáculo de televisão. Que respeito um espetáculo desses pode inspirar? Nada mais natural, pois, que uma pessoa ignorante, que não sabe o que está se passando ali, ache normal enfiar a hóstia no bolso. Afinal, lhe deram aquele pedaço de pão na mão, não disseram muito bem o que era aquilo, não explicaram o que ela devia fazer, e ninguém ali parecia estar levando a coisa a sério mesmo. Então, ela pôs Nosso Senhor no bolso.
E situações como essa se repetem, e têm se repetido nos últimos trinta anos. Como acontecem missas com faixas vermelhas e fotos de guerrilheiros no lugar dos crucifixos, como acontecem missas que parecem shows de rock, e assim por diante. O sentido daquilo, ninguém mais lembra.
Quem pode se surpreender, diante disso, que pululem as maluquices? Que um sujeito dê uma entrevista nas páginas amarelas de Veja dizendo que a Igreja tem um "produto" excelente, mas não sabe fazer "promoção" dele, e que para promovê-lo devia pôr bancos anatômicos nas paróquias; que um bispo faça a defesa de um movimento guerrilheiro revolcionário - quem pode se surpreender com isso? Quem, diante da missa nova, pode achar absurdo que tudo isso tenha surgido? E quem é idiota o suficiente para não perceber a relação entre a profanação da liturgia e a perversão da doutrina? Como é que o papa Paulo VI esperava respeito por sua bela encíclica Humanae Vitae, que acabou se tornando uma das encíclicas mais mal compreendidas e mais criticadas da história da Igreja, se demonstrava tanto desrespeito pelo que havia de mais sagrado na Igreja?
Muito já se escreveu contra a missa nova. Há a excelente carta dos cardeais Ottaviani e Bacci para o Vaticano (a carta pode ser encontrada aqui, em tradução fornecida por uma adorável leitora) que discute todos os aspectos teológicos da missa. Não tenho muito o que acrescentar, não estou apresentando um trabalho de teologia. Queria só lembrar a todos essa ocasião: são, este ano, trinta anos de esquecimento da presença real e do drama real do cristianismo. São trinta anos de teatro, trinta anos de um rito semi-protestante e cheio de perigos para a alma. Nunca se escreverá o suficiente contra essa mudança.
Nunca se escreverá o suficiente sobre esse escândalo a que os fiéis foram submetidos, sobre essa grave falta contra a Fé. Precisamente na hora que o mundo precisava de algo que permanecesse, já que tudo estava caindo; precisamente na hora que os fiéis precisavam de algo que reforçasse sua fé, abalada pela confusão do mundo; precisamente na hora que o mundo precisava reconhecer algo que sobressaísse em meio ao caos, a Igreja ofereceu o espetáculo de sua própria devastação.
Ao mundo que decaía, a Igreja só ofereceu afagos e fingiu não ver a queda. Resultado: caiu junto. Aos fiéis que precisavam da fé, a Igreja ofereceu o retorno da heresia modernista, ofereceu uma doutrina deturpada que se curvava até mesmo diante das maiores atrocidades comunistas. Ao caos do mundo, a Igreja acrescentou o caos da liturgia, e permitiu que cada padre inovasse do jeito que achasse melhor, abolindo, por fim, toda distinção entre sagrado e profano.
São, já, trinta anos de escândalo. Trinta anos que deixam um rastro de devastação incalculável.
Numa das mais belas páginas de um de seus mais belos livros, Bernanos deixa uma profissão de fé na honra do povo cristão. Reproduzo-a, novamente em tradução capenga, a seguir, tentando deixá-la como marca da esperança em algum tipo de restauração, que talvez algum dia venha. Um dia, esse povo de que fala Bernanos, certamente se cansará de ter sua fé tripudiada. Bernanos fala dos ataques à fé vindos de fora; mas suas palavras certamente valem para os ataques vindos de dentro; também mostra que todos que pretendem se servir da Igreja para fins inferiores estão fadados ao fracasso. Talvez, para restaurar a fé, seja preciso um santo, talvez uma nova Santa Catarina de Sena. É através dos santos que a história conhece suas maiores viradas, e talvez alguma restauração venha daí. Não sei, não sou profeta. Mas espero que Deus abrevie esses dias de espera.
"A palavra caridade talvez não tenha, para muitos dentre vocês, um sentido muito preciso; não importa! Cada parcela da divina caridade do Cristo é hoje mais preciosa para a sua segurança - para a sua segurança, eu disse - que todo o numerário fechado nos cofres do Banco nacional americano. Sem ela, as massas cristãs, aparentemente tão disciplinadas atrás de seus pastores e que vocês vêem caminhar passo por passo em seus congressos eucarísticos, não valeria grande coisa para sua defesa. Aquilo que elas lhes mostram não é nada, menos que nada, uma massa grosseira, cujo fermento vocês não vêem. Vocês só têm olhos para os jovens atletas, os empresários, os notáveis, o tambor e a música. Talvez vocês notem a abóbada suntuosa como um estandarte, com suas franjas e seus enfeites? Isso ainda não é nada. Abaixo dessa abóbada, há uma minúscula hóstia branca, certamente invisível do lugar onde vocês estão. Bom! Não esperem de mim que eu me perca aqui em frases comoventes e enternecedoras; aquilo que eu penso disto que me é mil vezes mais caro que a vida não lhes diz respeito, eu não tenho minimamente a intenção de convertê-los ou de enchê-los de palavras edificantes, eu desejo me fazer entender por qualquer homem razoável, quer dizer, capaz de aceitar honestamente os resultados de uma experiência... Há, então, essa minúscula hóstia. E há, ainda, perdidos aqui e ali, nessa multidão enorme, algumas pessoas que certamente passam despercebidas de vocês, alguns velhos padres tímidos, alguns homens, algumas mulheres, algumas crianças - sábios ou não, que importa! Não os procurem entre aqueles que mostram as córneas e estiram a língua, com caretas extasiadas. Aquilo que eles têm no coração raramente se exprime em seus traços, e ademais eles nem sabem o que têm no coração; Deus o sabe. Entre a hóstia branca e essa humanidade tão pouco digna da atenção dos observadores e da objetiva das câmeras, há uma troca misteriosa; eis tudo que conta, é assim eu tenho a honra de lhes dizer. De qualquer maneira que vocês expliquem o fato, ele se impõe, ele sempre se impôs no decurso dos tempos. Tão logo se encontrem ameaçados, não os tesouros da Igreja ou seu prestígio, mas sua fé, os pobres diabos insignificantes de que eu falo se tornam mártires, vocês o sabem tão bem quanto eu. Eles dizem tranqüilamente: "Não!" aos poderosos que na véspera saudavam humildemente; e então o não que eles lhes opõem é tão humilde quanto sua saudação, mas implacável, inflexível, inexorável. A doce teimosia desses predestinados fez correr mais sangue - o deles mesmos- do que todo o orgulho dos conquistadores. E, fato ainda mais surpreendente (dêem para ele a razão que lhes agrade, que me importa!), pouco a pouco vê-se fermentar a massa grosseira de que eles eram o fermento. Os devotos se tornam indulgentes, as devotas caridosas, os avaros pródigos, os casuístas simples como as crianças, os calculistas correm riscos, os prelados políticos perdem sua astúcia e os tiranos, mestres dos palácios e das basílicas cheias de ouro, de repente ouvem com estupor, com angústia, com pavor, a velha Igreja rejuvenescida que canta no fundo das catacumbas. Oh! perdão, vocês podem me censurar o tom lírico - pois não é de forma alguma o poeta em vocês que me proponho de comover. Eu poderia também simplesmente dizer que só na provação a cristandade dá a medida exata de sua força. Não é a infelicidade que a torna forte, mas a infelicidade recoloca cada um em seu lugar, e os santos no primeiro plano. Eu tenho, pois, o direito de concluir daí que se, diante do perigo que ameaça o mundo [referência ao nazismo, mas que pode ser atualizada], vocês têm perfeitamente o direito de se servir da Igreja - a Igreja está ao serviço de todos, ela contempla junto com Maria, ela não se recusa a temperar com Marta a sopa das pessoas pobres - não é necessário que vocês lhe desejem a perseguição que a diviniza - esse voto seria pouco caridoso; mas é absolutamente necessário que vocês lhe desejem heróis e santos. A Igreja é uma grande potência temporal, que seja! Vocês fazem avidamente a conta de seus efetivos, de suas organizações de propaganda, de seus jornais, de suas influências políticas confessas ou secretas, de seus imensos recursos. Tudo isso, sem dúvida, não é desprezível, mas vocês pagariam sempre caro demais, vocês seriam roubados. Quem pretende utilizar a Igreja para fins realistas, num espírito realista [em Bernanos, realista é praticamente sinônimo de maquiavélico], será sempre o ingênuo do negócio. Na medida exata que vocês crêem amarrá-la com negócios sábios, vocês a desamarram daquilo que faz sua força real. Não se trata aqui, repito, de mística, mas de experiência. Nunca os partidos clericais tinham sido tão poderosos como nos anos que precederam a guerra. Eles tinham um pé em todos os meios, como eles dizem. Que pés! A liquidação próxima de sua pueril revolução nacional provará a vocês que eu tive razão de não apostar um centavo nas chances deles." (Lettres aux anglais, Gallimard, 1984, pp. 130-132)