Perigos Reais e Ovinhos de Codorna

Alvaro R. Velloso de Carvalho

 

A hipocrisia dessa nossa mídia esquerdista não pára de me espantar.

Vejam vocês: meia dúzia de garotos, em Porto Alegre, responderam a uma revista do colégio que admiravam Hitler. Qualquer pessoa sensata reduziria o caso a duas hipóteses: ou os garotos estavam simplesmente brincando, ou se trata do fascínio que figuras malévolas exercem sobre a mente infantil e adolescente (e, neste caso, os garotos disseram Hitler como poderia ter dito conde Drácula). Mas os cordovis jornalistas cariocas já foram logo pondo nas manchetes: conspiração nazista em Porto Alegre! Escândalo! Estado de sítio! Ameaça ao Estado de direito! Ovo da serpente!

O único órgão de imprensa que reduziu o fenômeno a suas devidas proporções foi a revista República, que tratou o caso como uma simples brincadeira de adolescentes inconseqüentes.

O preocupante, porém, dessa história toda é justamente o tom da matéria do sr. Augusto Nunes na República. O jornalista passa a matéria inteira defendendo o colégio da acusação de conservadorismo, querendo provar que a escola está "aberta a ventos liberais".

O que está implícito nisso é a proibição ao pensamento conservador. Quer dizer, o colégio não pode ser de direita, não pode dar lições conservadoras aos alunos, mesmo sendo um colégio militar. É isso também que está implícito em tudo o que se faz sob o título de "imprensa cultural" aqui em Pindorama, e é isso que deveria chamar mais a atenção no episódio, por evidenciar o estágio a que chegou a lavagem cerebral marxista.

Vamos dar uma olhada de perto em alguns aspectos dessa lavagem.

Cito a seguir algumas passagens de livros adotados em escolas de Segundo Grau no Rio de Janeiro, escolas onde a maioria dos estudantes vem de classe média alta ou de classe alta:

"A economia de livre mercado, que é legitimada pela ideologia liberal, aumentou a distância entre ricos e pobres, ampliou a exploração de uma classe por outra e conduziu à construção de uma sociedade injusta e violenta. Além disso, o livre mercado oferece oportunidade para grupos minoritários nacionais, em muitos casos associados ao capital estrangeiro, possam se enriquecer às custas dos interesses dos setores populares."

(Ricardo, Ademar e Flávio - História - vol. 3, ed. Lê)

"Na verdade, o que a ideologia neoliberal prega é a venda de estatais lucrativas para favorecer os interesses das grandes potências internacionais."

(Florival Cáceres - História do Brasil - ed. Moderna)

"Os coronéis baianos, descritos nos romances de Jorge Amado, se enriqueceram às custas do suor do trabalhador rural.

"Foi no sertão da Bahia, numa área abandonada. Primeiro, uma rocinha aqui, um barraco lá. Nas vilas da região, pregava o beato Antônio Conselheiro. Ensinava que, em breve, Jesus Cristo retornaria para queimar os homens maus ( os latifundiários ) em enxofre. O movimento era de revolta social, mas tinha a aparência de religioso ( é o que os sociólogos chamam de messianismo ). Os salvos seriam os que vivessem no reino cristão. Ele estava sendo construído ali perto. No arraial de Canudos, a terra pertencia a todas as famílias, e as pessoas eram socialmente iguais. Comunismo primitivo. Como no tempo dos primeiros cristãos.( Atos 2:44-5, 4:34-5 )."

"Canudos se defendeu do jeito do povo: com guerrilha."

"No sertão nordestino, atuavam grupos de bandidos chamados cangaceiros. Até hoje, na literatura de cordel, a gente ouve falar bem deles. Como é que pode? É que eles constituíam o que o historiador Eric Hobsbawn chamou de banditismo social. Gente pobre e corajosa, farta de ser humilhada, atacava e roubava os fazendeiros. A sede de vingança fazia-os cruéis. Com os pobres que colaboravam sabiam ser generosos. Eram os Robin Hoods da caatinga."

"As classes dominantes são vingativas. Na calada, esperaram tudo voltar ao normal e pegaram os marinheiros desprevenidos e desarmados. Centenas foram mandados embora ou enviados para trabalhos forçados no Acre. Vários, fuzilados (mas a chibata acabou).

Contam que o fantasma de João Cândido até hoje ronda o cais do porto, esperando o dia de uma nova revolta dos trabalhadores. Os opressores sentem calafrios na espinha..."

(Mário Schmidt, "Nova história crítica do Brasil")

Bom, é fácil encontrar os elementos definidores dos fragmentos acima (e a lista poderia continuar para sempre): mentiras sobre a ideologia liberal, concepção da História como produto das lutas de classes, exaltação dos movimentos violentos, desde que comprometidos com a causa da esquerda. Em suma, a concepção histórica típica do regime que deixou um rastro de pesadelo em todos os lugares por onde passou, neste nosso século XX.

A cada ano, nossas escolas de Segundo Grau formam milhares de alunos pela cartilha stalinista, e todos acham a coisa mais normal e aceitável do mundo.

Ah, poderiam argumentar, mas o professor é livre para ensinar como quiser. Mentira. O professor de segundo grau tem em vista uma coisa chamada vestibular. Sabem quem faz as provas? Gente como os autores dos livros acima.

Este ano, no vestibular de Geografia da UERJ, uma pergunta se referia à "falta de necessidade das reformas da Providência, cujo problema poderia ser solucionado por uma política de combate ao desemprego".

E se o aluno tivesse tido um professor com algumas noções mínimas de economia, que lhe tivesse dito que não adianta nada querer acabar com o desemprego por decreto?

Ou um outro que lhe dissesse que os países que adotaram o livre mercado são aqueles que têm os menores índices de pobreza? (Embora ninguém mais pretenda que o mercado possa regular tudo sozinho, o que seria absurdo).

Ou alguém que questionasse a idéia das lutas de classe, e pretendesse afirmar a importância da ação individual no curso da História?

Professores que dissessem isso seriam imediatamente tratados como perigosas ameaças. Seriam enquadrados como "conservadores", o que quer dizer imediatamente "fascista" e "nazista". E como ninguém mais sabe o que as palavras significam mesmo, as nossas esquerdas já tacham de "extrema direita" qualquer neoliberal. Fica a pergunta: e Plínio Corrêa de Oliveira, é o quê?

É que o debate político brasileiro está tão dominado pelo discurso esquerdista, que qualquer outro que se lhe oponha vem carregado de termos cujo sentido falseado e distorcido já foi dado pela esquerda. De tanto ouvir o mesmo locutor, o auditório já assimilou todos os conceitos forçados que ele passa e não entende nenhum outro. Os ouvintes acabam pensando e falando em categorias marxistas, mesmo sem saber.

Ao contrário do que pensaria o inefável dr. Emir Sader, não estou dizendo isso porque sou de direita. Não tenho nenhuma posição política definida e não estou muito preocupado com isso. Claro que defendo uma economia liberal, mas defender uma economia liberal não implica defender uma ideologia liberal. Já disse aqui que todas as ideologias são odiosas e é no mínimo ridículo pretender que a simples liberdade econômica vai garantir todas as outras.

Digo isso porque sou testemunha da dificuldade que foi, quando saí da escola, conseguir pensar as coisas com parâmetros não marxistas. Só consegui após esforço tremendo, pelo qual acredito que muitos do que estão saindo agora do segundo grau também terão que passar.

O ensino médio se transformou numa fábrica de fantoches socialistas e coletivistas (sem falar do ensino universitário, que comento daqui a alguns meses porque minha paciência é pouca), que tira todo pensamento verdadeiramente crítico do indivíduo, que pretende suprimir a individualidade.

A descrição mais branda que encontro para isso é que se trata de um estupro de mentes virgens, seguido de aborto de todas as potencialidades latentes.

E até uma escola militar é obrigada a ensinar história marxista, sob pena de ser execrada nas primeiras páginas de todos os jornais e revistas do país.

É claro que a coisa nem sempre funciona muito bem, porque há jovens muito mais inteligentes que seus professores, que percebem que aquilo tudo é uma empulhação e vão surfar ou ver novela, mandando o professor de Geografia ou de História às favas.

Mas o ensino médio molda o imaginário do jovem, até desse jovem relapso. Ele pode não se lembrar de mais nada do que os professores disseram, mas o esquema mental se instala na sua mente. Para isso contribui todo o resto da mídia, a novela inclusive.

Essa estratégia de educar os jovens no cânone marxista é uma estratégia revolucionária pregada pelo ídolo da esquerda tupiniquim, santo Antonio Gramsci (cuja encarnação nativa é o prof. Leandro Konder).

Gramsci, ídolo igualmente de João Pedro Stédile e Fernando Henrique Cardoso, percebeu que, ao contrário do que achava Lênin, não basta tomar o poder político para fazer a Revolução. Antes, é necessário instaurar a ideologia esquerdista no imaginário popular, através da propaganda, da mídia e da educação. Essa produção do imaginário visa a criar o que ele chamava hegemonia cultural. Essa hegemonia cria as condições necessárias para a conquista final, a tomada do poder político.

Algo como uma lubrificação reforçada: depois, é só colocar, que ninguém vai nem perceber. (Não é à toa que ele foi apelidado de Antonio só-a-cabecinha Gramsci...)

Pois bem: toda essa massa de professorezinhos secundários não está fazendo nada além de seguir as diretrizes de seu mestre Gramsci. E, junto deles, todos os cordovis jornalistas, todos os autores de novelas, os professores universitários, etc.

É por isso que olho com muita pena para os movimentos estudantis: eles não passam de massa de manobra nas mãos da esquerda gramsciana, não passam de produtos primários e grosseiros que ajudarão a instalar neste país o Estado totalitário.

Porque enquanto Zuenir Ventura denuncia os meninos de Porto Alegre como graves ameaças, mais mentes são embotadas, mais apóstolos da uniformização e da coletivização são formados. E o Governo toma posse de nossos órgãos, determina em que lugar da rua podemos andar, escolhe o que devemos calçar para dirigir, controla a direção dos nossos olhares, toma de nós a possibilidade de autodefesa, bloqueia contas e bens sem justificativa, quebra sigilo bancário... - e nós achamos lindo e democrático, com apoio de todos os fiéis de sto. Gramsci, conscientes ou inconscientes.

Há um tom muito fingido nessa mania denuncista. É o tom dos que pretendem mascarar perigos reais, desviando a atenção para detalhes irrelevantes e criando grandes espetáculos midiáticos sem substância, fingindo confundir codornas com serpentes. É o tom da mentira maquiavelicamente calculada (Maquiavel era um dos ídolos de Gramsci), do fingimento proposital dos que pretendem, colhendo os cacos do Muro, reinstaurar entre nós o culto a Papai Stálin.

Rio de Janeiro, 20/30 de março de 1998.