FÓTONS

Ratinho e a cultura da morte

Por Alvaro R. Velloso de Carvalho


Eu nunca tinha assistido nem a meia hora do programa do Ratinho, apesar de toda a falação a respeito dele. Mais por acaso do que por qualquer outra coisa, outro dia vi um trecho do programa. E devo dizer, por mais estranho ou pouco "sofisticado" que isso pareça: os trechos do Ratinho que eu vi valem mais do que todos os "jornais nacionais" do ano inteiro; valem mais do que toda a falação de colunistas vazios nos jornais.

Ratinho se referia ao caso do garoto de Campos que foi atacado por dois pitbulls, e salvo por uma cadela vira-lata, informando que a cadela doente tinha sido "adotada" por um outro apresentador de televisão, que pagará todas as suas contas de veterinário. E logo passou a entrevistar o garoto e sua mãe, que começou a descrever o estado de nervos do garoto depois do ataque.

E Ratinho voltou-se para o público e lembrou que ninguém, absolutamente ninguém, tinha se oferecido para pagar a conta do menino (que certamente terá vários gastos com cirurgiões e possivelmente com psiquiatras). E ele se propôs a encontrar alguém que pagasse a conta do menino.

Nessa hora o programa do Ratinho foi um tapa na cara de toda a imprensa pretensamente "humanitária", que não se cansa de nos bombardear com falsos apelos aos direitos humanos, com cenas de sentimentalismo fingido, usadas para os fins políticos mais baixos possíveis.

Porque de tudo o que se disse sobre o caso do garoto, ninguém se lembrou de mencionar sequer a dor do próprio garoto ou a dor da família. Muito se falou sobre a cadela, realmente impressionante, e mais ainda se falou contra os pitbulls. Mas nada se falou do garoto. Ninguém se preocupou com ele, em saber como ele estava, se ia sobreviver, se ia ter seqüelas graves.

Não: todos estavam preocupados ou com a cadela ou com os pitbulls. Já se inventaram dezenas de novas legislações contra cachorros e contra donos de cachorros, o tal apresentador de tevê se dispôs a pagar as contas da cadela - mas a parte humana da história ficou esquecida.

E, ao mostrar isso, ao dar um tapa na cara dessa imprensa hipócrita e imbecil, o Ratinho deu um tapa na própria civilização que permite e exalta uma situação dessas.

Sim, porque não pensem que esse é um caso isolado, e que não revela nada do estado de coisas no mundo moderno, este mundo que é o único em toda a história humana que se orgulha de uma coisa tão tola como o fato de ter nascido hoje e não ontem. Porque este é o mundo em que mais de um milhão de crianças são assassinadas por ano num único país e em que todos estão muito mais preocupados com a vida de alguns macacos, ou baleias.

Foi isso que Ratinho mostrou quando disse: a sobrevivência deste menino é muito mais importante que a sobrevivência da cadela.

Será tão difícil assim ver a verdade contida nessa frase? É uma verdade simples, que os modernos insistem em ignorar: a vida humana vale mais do que a vida animal. A vida de um homem vale mais do que a vida de todas as baleias do mundo.

Mas o caminho da legislação nos últimos anos, especialmente na maior potência do mundo, segue justamente a direção contrária. Nos Estados Unidos, hoje, é possível fazer aborto até algumas horas antes do parto - e já existem propostas para que seja possível fazê-lo algumas horas depois. Ao mesmo tempo, um sujeito que recentemente matou um urso que estava invadindo a propriedade de uma velhinha de 89 anos vai ser julgado por ataque à natureza (não acredita? Leia a história toda aqui).

Mesmo aqui no Brasil, se eu destruo um ninho de passarinhos, posso pegar a mesma pena do caso em que eu matar alguém.

Eis a que grau de perversão chegou o sistema de valores moderno - embora todos se orgulhem de ter mandado esse negócio de valores às favas. Não, a sociedade moderna não é "amoral", não é "isenta" ou "imparcial". Ela é propriamente imoral, é contra tudo que de mais básico se pode pensar em termos de certo e errado, de justo e injusto, de razoável e irrazoável. É uma sociedade cuja arrogância presunçosa não lhe permite ver suas próprias contradições, seus próprios absurdos, o grau de sua demência.

Dou mais um exemplo. Acaba de morrer o juiz Harry Blackmun, responsável pela famosa decisão no caso Roe vs. Wade, que legalizou o aborto nos Estados Unidos. Sabem qual o motivo alegado por ele para essa decisão? A Quarta Emenda da Constituição Americana, que permite o direito à privacidade. Sim, senhores: o direito de matar seu próprio filho é um direito à privacidade, o que é a interpretação constitucional mais imbecil e canalha que já vi na minha vida.

Agora, os maiores defensores do aborto nos EUA (e que choraram até não mais poder a perda desse "herói") são os democratas, que acabam de propor a legislação intitulada "Know your customer", que propunha, simplesmente, que os bancos mapeassem todas as transações de todos os seus clientes e as repassassem para o governo, sob o pretexto de punir "negociações estranhas". Quer dizer: o direito à privacidade só vale quando interessa, quando não interessa, pode ser jogado pela janela. (Alegro-me em dizer que a proposta foi rejeitada por causa da reação popular. Só para não dizerem que só dou más notícias...)

Pois que autoridade moral pode ter essa gente? Aliás, que tipo de autoridade pode ter essa gente? E essa é a mesma gente que apóia legislações ecológicas de todo tipo, que não permite que você mate um urso para defender a vida de uma velhinha, ou que mate uns coiotes que estão ameaçando a população de ovelhas.

Alguns dias antes, uma leitora tinha escrito para a Folha de São Paulo dizendo que ninguém tinha o direito de matar pitbulls, pois isso equivaleria à pena de morte. E eis que, num mundo de inconscientes, que já não sabem mais a diferença entre um garoto e um cachorro, o Ratinho foi, naquele instante do programa, um momento de consciência humana. Não sei como é o resto do programa dele, mas sei que, naquele instante, ele mostrou o ridículo da turba de idiotas que quer tirá-lo do ar, sob pretextos moralizantes.

A maior lição de moral que esse país recebeu nos últimos meses veio desse sujeito tão odiado, tão demonizado pela unanimidade burra. Foi um ataque incisivo à cultura da morte que vemos ser erigida com o nome de "civilização mundial". Uma civilização que, em nome dos direitos humanos, relega a vida humana ao desprezo, enquanto protege animais, plantas e minerais.

Rio de Janeiro, 13 de Março de 1999