Onipotência e servidão
Acabo de ver, estarrecido, na Rede Globo, a cena de uma jovem negra se esforçando para fazer cara de sofredora e para embargar a voz, dentro de uma delegacia. Ela estava ali junto com um vigia (também negro), que, segundo ela, acabara de discriminá-la, chamando-a de "preta".
Segundo a moça, isso era uma humilhação terrível. Segundo o delegado, era crime de racismo, inafiançável - o que significa que o vigia (não só negro, mas casado com uma negra) vai passar um bom tempo na cadeia, e conseqüentemente vai perder o emprego, sofrer humilhações físicas, que vão de estupro a espancamento, e vai carregar por toda a vida o estigma de criminoso. Mais que isso: o estigma de racista.
Não são só as conseqüências sobre a vida do vigia dessa palhaçada toda que me preocupam aqui. São também as conseqüências sobre a vida da jovem, que se dizia tão terrivelmente ofendida só porque o rapaz falou com ela em tom insultuoso.
Um dos aspectos mais monstruosos do movimento "politicamente correto" é a fragilização e a infantilização que ele provoca nas pessoas que diz defender.
A menina da delegacia ficou tão fragilizada, ficou com a própria consciência tão diminuída, que não pode nem mesmo ouvir um insulto que já vai correndo se refugiar nas saias do Estado.
Da mesma forma, um negro que acha que está excluído a priori de um emprego que exija "boa aparência" (e, para certos empregos, a boa aparência é mesmo necessária; quem entenda um pouco de marketing sabe disso) só pode estar acometido de um complexo de inferioridade anormal - afinal, quem em sã consciência poderia achar que a Taís Araújo ou a Isabel Fillardis têm aparência de alguma forma pior do que a Maria da Conceição Tavares ou a Betty Goffman?
Os exemplos de fragilização são muitos. De qualquer forma, as leis "politicamente corretas" incitam à neurose, e têm um motivo para isso. O sujeito de consciência diminuta, que precisa de apoio e ajuda para tudo, torna-se incapaz de reger a própria vida. Torna-se dependente da instrução e da condução alheias, incapaz de agir e pensar por conta própria. E, por isso, pede apoio estatal para absolutamente tudo; pede regras sobre todas as coisas; pede que o Estado lhe diga o que fazer, como agir, e o proteja das situações adversas. Pede, enfim, o Estado-mamãe, o Estado possessivo, que se imiscui na vida particular de todos, a fim de "proteger" seus filhos.
E, assim, o Estado vai protegendo pretos contra brancos, não-fumantes contra fumantes, mulheres contra homens, e assim por diante. Vai aumentando o controle sobre todos os setores da vida, baseado na incapacidade de seus súditos de se regularem a si próprios.
É exatamente nesse ponto que a democracia pode se converter em tirania. A liberdade não é um presente dos céus; é uma conquista que cada um tem de fazer. Para que ela permaneça, é preciso que haja homens livres, que haja pessoas decididas a ser livres, a correr todos os riscos que a liberdade implica, e a não pedir arrego ao Estado diante de cada adversidade.
À medida que decresce o amor à liberdade e decresce a capacidade de regular a própria vida, surge um espaço vazio que será ocupado pelo poder estatal - pelo mais frio dos monstros.
Por isso minha preocupação com a menina negra: ela cedeu a própria alma aos líderes imorais do movimento negro a ponto de não conseguir mais aceitar um insulto - fato normal na vida de qualquer ser humano adulto. Ela se tornou, assim, mais uma peça na imensa engrenagem totalitária que está sendo posta em ação, pouco a pouco, em todos os países, até que o mundo se torne uma imensa Suécia.
Não podemos dizer que não tenhamos sido avisados. Vendo no Estado moderno a ressurreição do Estado romano e seu totalitarismo, Georges Bernanos, que foi um profeta, previu exatamente isso, em 1941, no seu livro Lettres aux anglais (tradução e grifos meus):
"O homem livre tem apenas um inimigo, que é o Estado pagão, qualquer que seja a denominação que lhe demos, quer ele se afirme num tirano ou se dissimule na mais grosseira multidão hedonista e covarde. Contra sua potência material, não podemos nada: ele já dispõe de nosso trabalho e de nossas vidas. A nova organização econômica favoreceu prodigiosamente seu crescimento, e o imenso esforço de guerra pôs sob seu controle toda a maquinaria. Daquilo que ele tomou, sabemos que ele não devolverá nada ou devolverá apenas a aparência. E, ademais, tenho vergonha de falar nesse deus, como se ele existisse por conta própria, quando ele nada mais é do que a soma assustadora de nossas ignorâncias, de nossas indolências, de nossas covardias, de nossos terrores e de nossas cobiças. Os homens que pretendem descarregar sobre a coletividade seus deveres ou seus riscos se condenam a também entregar a ela seus direitos. Hoje mesmo, em face da maior catástrofe de toda a história, vocês não ouvem quase nunca esses infelizes dizer que se esforçarão amanhã para mudar, que eles serão melhores. Não é a eles próprios que eles sonham melhorar, é a Constituição, é o Estado. Eles esperam enfim encontrar uma legislação miraculosa que será justa e razoável em seu lugar, que lhes permitirá continuar a ser o que são, enriquecer e desfrutar, não somente sem riscos, mas também sem remorsos. Eles continuarão a enriquecer às custas dos pobres diabos, mas o Estado recolherá aos hospícios os pobres diabos que eles terão arruinado. Eles farão filhos, mas o Estado pagará a gravidez, pagará a ama de leite, sustentará a criança e premiará os genitores. Ou então eles se recusarão a fazer filhos, e o Estado pagará a alguém para fazê-los no lugar deles. Eles cortarão as árvores, secarão as fontes, envenenarão os rios, mas a coletividade assumirá os custos do replantio, construirá reservatórios e imensos viveiros para a fecundação artificial dos peixes. Em suma, eles praticarão todos os vícios e o Estado os protegerá das conseqüências; eles dissiparão, em seu furor pelo lucro, todas as riquezas da terra, mas, graças a uma modesta contribuição levantada de seus benefícios, o Estado mágico reconstruirá essas riquezas a cada trimestre. Nessas condições, será tão difícil parar o Estado em sua marcha em direção à Onipotência quanto parar esses covardes em sua corrida em direção à servidão, pois esses dois fenômenos, repito, formam um só."
14/06/99