Olavo de Carvalho, em seu magistério socrático,
exerce uma prática não muito comum no Brasil de hoje, sobretudo
no meio das pessoas maravilhosas: defender, em nome de uma verdade filosófica,
e sem perder de vista a coerência ética, princípios
que transcendem as circunstâncias e que não podem ser traídos
sob pena de mutilação total da consciência humana.
Mas só que esses princípios comumente envolvem pessoas, e
nem sempre a coragem é a mesma, como a de Olavo de Carvalho, por
parte de defensores de certas causas, quando os envolvidos são indivíduos
ou minorias normalmente silenciosas e fora, portanto, do raio de proteção
da inteligentzia dominante.
O caso dos redatores do jornal estudantil da PUC, O Indivíduo,
Pedro Sette Câmara e Álvaro de Carvalho, que tanta celeuma
causou na mídia – os quais tiveram a temeridade de tecer certas
críticas ao extremismo de uma Semana da Consciência Negra,
(realizada sob os auspícios dessa Universidade e debaixo do signo
da ideologia norte-americana do politicamente correto) merecendo por isso
a execração, inclusive, do titular da Reitoria, e apenas
a compreensão fraterna do filósofo – é bastante sintomático
do grau de cretinização que tomou conta de largos setores
da inteligência nacional que se abriga, principalmente, nos famigerados
"centros de excelência" puquianos e uspianos amancebados com o domínio
dos meios de comunicação de massa que fazem a cabeça
deste malogrado país.
Mas o que é mesmo de pasmar é a desproporção abissal entre as críticas sensatas dos rapazes a qualquer forma de racismo – inclusive a da consciência ter cor – e a condenação irremissível como racistas que lhes foi imposta pelos guardiães da nova moral do politicamente correto. E o mais pasmoso, ainda, que se verificou, entre tantas vestais enfurecidas – sem falar dos pseudos pesos-pesados do poder político, travestido em poder ora intelectual, ora espiritual – contra rapazes inermes, apupados por uma maioria truculenta, cuspidos e quase linchados, por dizerem tais verdades, confiados apenas no poder da própria consciência, foi vermos entre aqueles um discípulo de Santo Inácio, batizado de Jesus, tomando o partido de Barrabás nesse desairoso episódio, e isso em detrimento simbólico e real do próprio nome com que se chama e é chamada a Companhia na qual fez votos religiosos, antes de ser Reitor da PUC.
Quando um jesuíta chamado Jesus já não sabe distinguir Nosso Senhor de Barrabás, especialmente na hora da Crucificação, não é de se esperar que saiba fazer uma distinção melhor entre o valor sagrado da nossa própria consciência e as arremetidas da falsa consciência quando se arroga de defensora dos verdadeiros interesses humanos que não são só negros, mas também brancos, amarelos, vermelhos e, além de tudo, universais.
A salvação de tudo é que contra a solidariedade dos medíocres, de que falava Ingenieros, nos restará sempre, quando não a Graça, o "Espírito, que sopra onde quer", e que no meio de tantos poltrões destituídos de hombridade e de caráter surjam homens de porte de Olavo de Carvalho para partir em socorro dos direitos da inteligência contra a prepotência da burrice, que se acha quase sempre poderosa e insigne por contar com a unanimidade costumeira de todos aqueles que abdicaram e abdicam das responsabilidades da própria consciência nas situações com que se defrontam entre o seu verdadeiro dever e os favores da boa vida que se contenta com cargos, benesses e o eterno apoio dos poderosos e seus mais fiéis aliados na massa ignorante.
Felizmente acredito que cada um traz em sua memória um
deus em que possa se mirar, como já sugeria Platão belamente
no Fedro. Assim não é de estranhar que a inteligência
dominante encontre no Jesus Hortal – em sua consistência de hortaliça
– o Jesus mais adequado ao seu senso do divino.
Bem dizia meu saudoso amigo, José Ernesto Domingues da
Silva: "Ângelo, a inteligência é limitada, mas a burrice
é infinita"... Devemos concluir,então, que quando esta cisma
de ser Jesus, para assumir as vozes de sua comunidade irritada, ela se
torna mais infinita ainda...
Recife, 8 de dezembro de 1997
Festa da Imaculada Conceição
Ângelo Monteiro é poeta e filósofo, professor
da Universidade Federal de Pernambuco. É autor de, entre outros,
"Didática da esfinge", "O Rapto das Noites ou O Sol como Medida",
"Armadilhas da Luz" e terá em breve lançado o livro de ensaios
"Escolha e Sobrevivência: Estudos sobre Estética".
Texto publicado no DIÁRIO DE PERNAMBUCO do dia 17 de dezembro
de 1997.