A Quarta Via,

ou

A Alegria de Ser Brasileiro

 

por Cláudio Lévi's Lee

Mais uma visita a este país tropical. A França, séria e sisuda, deixei-a por uns tempos; que o frio e o Baudrillard fiquem bem longe. O Pierre Bourdieu também, com essa chatura de televisão. Acho que o que ele quer é se arrumar com alguém do Canal Plus.

Por que o Brasil? Porque a vida aqui é sempre uma brincadeira. O Parque Temático Socialista do Brasil encontrou o ingrediente que faltava ao marxismo, aquele tchan que o torna finalmente palátavel para as massas: a ludicidade. Isto mesmo. Sei dos abalos que esta tese poderá causar à comunidade acadêmica, mas é preciso que falemos do socialismo lúdico antes que ele vire piada na mão de filósofos autonomeados. Somente recordo, antes de prosseguir, o respeito que já adquiriu a tese do socialismo hidráulico dos astecas.

Quando cheguei ao Rio de Janeiro, a cidade estava em polvorosa por causa da nova brincadeira que o governo inventou: a obrigatoriedade do kit de primeiros socorros em todos os veículos automotivos. À primeira vista, pensei que se tratasse de uma exigência desmedida e totalitária, pois nem todos os motoristas deste país sabem fazer um curativo. Mas a má impressão se dissipou assim que vi o kit, que vem com uma tesourinha do jardim de infância e gaze o suficiente para brincar de múmia no carnaval. É claro que é brincadeira. O motorista do táxi, no caminho do aeroporto até o hotel, me explicou que se alguém não tiver em seu carro o kit e for pego pela polícia, será desclassificado e terá que pagar uma prenda chamada multa, além de perder muitos pontos e correr o risco de não poder mais brincar.

Mas por trás deste ato tão banal percebi a grandiosidade de um governo que sabe se impor em cada momento da vida de um cidadão sem jamais deixar de ser lúdico. Um insight me tomou como um relâmpago, e vi naquela relação jocosa entre Estado e povo a chave de um socialismo lúdico que pode ser a quarta via.

Imaginem os senhores que o governo brasileiro colocou toda a população para viver em estado de gincana. São tarefas a cumprir ou prendas a pagar, e o brasileiro, na sua docilidade habitual, responde com verdadeira euforia às brincadeiras estatais. Depois dos apitos e dos espelhinhos, os brasileiros fazem qualquer coisa em troca de certos serviços ou da própria segurança civil. Enquanto isso, o Padre Marcelo Rossi comemora os 500 anos da découverte dançando na missa, fazendo memória de seus antepassados no primeiro rito cristão celebrado no Brasil.

Fazendo mais pesquisa de campo para meu livro Heureuses Tropiques, travei contato com mais brincadeiras que atestam este estado de ânimo profundamente prazeroso que caracteriza a relação entre o Estado e a população.

A primeira delas é que você tem que andar com um monte de papeizinhos no bolso. Cada papelzinho representa uma brincadeira pela qual você já passou. Se você não brincou na hora certa, então tem que pagar uma prenda. E se perder um papel, a prenda é pior ainda. Por exemplo: para ingressar em certos estabelecimentos estatais, você precisa da sua certidão de nascimento e da sua carteira de identidade. Se você não tiver a certidão, então você tem que andar todo de preto, e as pessoas saberão que você se tornou um "aborto civil", por ter perdido o documento que era a sua ligação umbilical com o Ser Estatal e seu ingresso no Parque Temático. Os funcionários públicos começam a te olhar como se você não existisse, e você começa ter amnésia. Pode parecer sério, mas essa é a penalidade para quem perde o passaporte para a gincana. Por isso, todos no Brasil guardam como se fosse um tesouro sua certidão. No Brasil, os documentos são a sua identidade.

Se você perder o seu CPF, Cartão de Pessoa Física, ficará privado de suas propriedades mais materiais: comprar e vender. Você só poderá agora participar da gincana como pagador de prendas/impostos, até conseguir um novo CPF. Mas para isso você tem que cumprir a tarefa de subir a escada da morte do Ministério da Fazenda, encontrar o funcionário público Dragão que foi tomar um café há dois mil anos, matá-lo, entrar no colossal sistema da Receita, encontrar os códigos secretos e enfim pegar a segunda via do CPF, seu tesouro. Quem for capaz de descer até as profundas cavernas da TELERJ poderá receber o poder mágico de se comunicar à distância, e assim por diante, em várias brincadeiras que emulam situações mitológicas. Tudo num clima de fantasia, cheio de felicidade.

É por isso, senhores, que vejo no Brasil o potencial para ensinar a socialistas do mundo inteiro como se comanda uma população, dando-lhe bem-estar e alegria. Tornando lúdica a vida do cidadão, com prendas, pontos, tchan e muitas brincadeiras, o governo representa o trabalhador da forma mais legítima possível, ou seja, trabalhando com a criança que existe dentro de cada um de nós e que clama por uma sociedade mais justa e mais agradável.