ANTROPOLOGIA CULTURAL

Entrevista com o presidente FHC

Por Cláudio Lévi's Lee

Cláudio Lévi’s Lee faz uma entrevista fictícia com Fernando Henrique Cardoso e revela o que está por trás do complô para privatizar as universidades públicas


Luminares da ciência social, sínteses da razão, Cláudio Lévi’s Lee e Fernando Henrique Cardoso se conheceram no mestrado que fizeram juntos na Sorbonne nos anos 60, sob a orientação de Pierre Bourdieu. Enquanto o primeiro não pôde conter o olhar pasmado ante os fenômenos antropológicos e preferiu se dedicar ao questionamento dos totens e tabus fundadores da sociedade primitiva moderna, o segundo se dedicou às atividades políticas e magisteriais. Hoje, Cláudio Lévi’s Lee é conselheiro de Antropologia Cultural da Sorbonne, e Fernando Henrique Cardoso é presidente do Brasil.

A mensagem do presidente é extremamente grave, e O Indivíduo tem orgulho de estar presente neste momento histórico em que os poderes intelectuais de dois países, França e Brasil, se unem contra a ameaça externa. Nenhum cidadão que se preze pode pretender se alienar do problema.

CLLÉ bom ver um colega das ciências humanas dirigindo um país. A razão, a precisão laminar do cientista diante dos fenômenos... Tudo isto contribui, imagino, para o desempenho das suas funções. Ou não?

FHC – Sim e não. O princípio do indeterminismo de Heisenberg nos mostra que as experiências são alteradas pelo observador. Então, uma coisa é você ficar aí em Paris tentando entender o Brasil, e outra coisa é você estar aqui participando dos acontecimentos. Ainda mais em Brasília, que tem o ar rarefeito e prejudica a concentração. Mas a consciência do cientista social se impõe e me impede de compreender alguma coisa sempre que existe esse perigo. E, se tudo piorar, a Ruth está sempre comigo.

CLLMas como você mantém a forma intelectual no meio das turbulências?

FHC – A primeira norma da vida intelectual deve ser a constância. Por isso, a Ruth lê para mim todas as noites meus livros favoritos, como as Meditações Metafísicas, de Descartes, todas as obras de Rousseau e, é claro, seus clássicos Folie Struturale e Heureuses Tropiques. A discussão do socialismo lúdico me interessa sobremaneira. A proposta, contida implicitamente na formação do Brasil, de se criar uma ditadura do proletariado no sentido real do termo me fascina. Veja um fenômeno como o Tchan e esses grupos de pagode e axé: que são eles senão uma expressão da cultura proletária mais legítima? E a sua ubiqüidade radiofônica e televisiva não justifica o nome de ditadura do proletariado? Correr atrás do socialismo, como fizeram os europeus, não dá certo aqui, pois nós já o implantamos há muito tempo. E não sabíamos. Foi preciso o kit de primeiros socorros do DETRAN para que percebêssemos, ou para que você percebesse e nos contasse sobre esta que doravante passa a ser a Quarta Via brasileira.

CLLSim, foi um estalo que tive. Mas eu percebo que há inimigos do socialismo lúdico no Brasil, e digo isto como quem mora em Paris e já viu de tudo na vida.

FHC – Eu sei que há estas pessoas. O objetivo do meu governo é justamente terminar o serviço dos militares. Veja você que naquela época um grande perigo ameaçava o Brasil, mas os militares não o viram e por isso só o atacaram precariamente. Este inimigo se chama socialismo intergaláctico. Seu principal teórico é J.J. Posadas e suas idéias foram muito difundidas no Brasil, especialmente nos anos 60 e 70, através de folhetos encartados nos livros de Antonio Gramsci e de uma mensagem subliminar, que felizmente deciframos, veiculada na canção "Pra não dizer que não falei das flores", de Geraldo Vandré.

CLLMon Être Supreme! C’est vrai? Na França nós já erradicamos esse problema.

FHC – Mas aqui no Brasil é a coisa que mais me preocupa. Felizmente, nós já levantamos muitas informações e já estamos decidindo um plano de ação.

CLLE nossos leitores podem saber alguma coisa disto?

FHC – Creio que devem, pois estas informações dizem respeito à própria segurança deles. Não lhes falar a respeito disto seria como sonegar-lhes informações a respeito da AIDS. A coisa funciona da seguinte maneira: de repente, as universidades públicas começam a fazer convênios com outros países, e ficam cheias de alunos que ninguém sabe de onde veio. Esses alunos são trazidos por agentes que comungam do socialismo intergaláctico.

CLLSó um momento, presidente. Creio que devemos explicar ao leitor o que vem a ser o socialismo intergaláctico.

FHC – É verdade. Toda a argumentação do socialismo intergaláctico pode ser resumida nas seguintes proposições: Os extraterrestres existem; os extraterrestres são mais desenvolvidos do que nós; como são mais desenvolvidos do que nós, eles são socialistas. É claro que esta tese cai diante da incognoscibilidade da coisa-em-si de Kant, mas podemos dizer que ela foi resgatada pela transformação do senso comum de Gramsci e pela existência de Muniz Sodré, Leandro Konder, Lindbergh Farias e, é claro, de Itamar Franco.

CLLComo assim?

FHC – A partir de Hobsbawn, com A Era da Ansiedade na Galáxia, percebemos que as denúncias feitas por Erich von Däniken eram verdadeiras. Os extraterrestres de fato estão no meio de nós e estão difundindo o socialismo intergaláctico. Eles já dominam vários setores nos Estados Unidos, como o cinema e a televisão. Vou dar um exemplo. Você conhece a série de TV e os filmes de Jornada nas Estrelas? A "Federação" que lá aparece e que governa tudo nada mais é do que uma ONU interplanetária que vai assimilando militarmente as civilizações que encontra. De fato é assim que acontece no universo desconhecido. Só que o socialismo intergaláctico deles se impõe pela violência, e não pelo ludismo, como o seu – como o nosso. Os extraterrestres querem preparar as pessoas para sua invasão.

CLLQual será, então, o papel da universidade na resistência ao socialismo intergaláctico? Será que ela vai se entregar ou vai manter de pé a bandeira do socialismo lúdico?

FHC – Meu medo é que, neste campo, a batalha já esteja perdida. Existem sérios indícios de que os quatro elementos que eu citei há pouco sejam extraterrestres. Basta ler o que eles escrevem para perceber que raciocinam de maneira inteiramente diferente da humana. Além disso, seu desejo de poder total transparece em cada palavra. Eles querem algo. Eles, através daqueles convênios que mencionei, trazem alunos de supostos países estrangeiros, quando na verdade estão trazendo habitantes de outro planeta para dominar a Terra.

CLLJá é possível determinar qual é o planeta de origem destes alienígenas?

FHC – Eles já nos deram uma pista. Um dos focos de atividade revolucionária subversiva é o PSTU. Muita gente acha que este é o Partido Social dos Trabalhadores Unificado, mas as informações secretas mostram que é na verdade o Partido Social-Trotskista de Urano. Então é de lá que eles vêm.

CLLO que o governo pretende fazer para erradicar esta ameaça?

FHC – Bem, no Rio de Janeiro parece que a coisa ainda é restrita às universidades. Não se pode simplesmente demitir todos os professores, cancelar todos os convênios e fazer testes sangüíneos em todos os alunos. Por isso, creio que uma parceria com a iniciativa privada é a melhor saída. Como os socialistas intergalácticos só se reproduzem em meios estatais, a progressiva privatização das universidades públicas irá enfraquecê-los e matá-los como uma verdadeira kriptonita. O Estado não tem o direito de impor ordem em seus estabelecimentos, pois estaria sendo autoritário. Mas os estabelecimentos privados – desde que não sejam católicos – podem impor o que quiser, e ainda podem cobrar por isso. Sem ter nada para sugar, e sem poder fazer baderna, os uranianos decidirão voltar para seu planeta.

CLLMas e a antiga tese de que PSTU na verdade significa "Partido Social Trotskista Ucraniano", tendo surgido de uma sangrenta batalha interna do Komintern?

FHC – Hoje sabemos que esta foi uma história difundida por Oscar Niemeyer nos anos 50, por causa da construção de Brasília. Naquela época, Juscelino estava quase colocando suas mãos nos socialistas intergalácticos, mas somente na arraia-miúda. Ele não sabia que seu arquiteto era um deles, mas sabia de seus contatos diretos com a Rússia, e por isso acreditou na história. Mas esta foi uma das grandes barbaridades do Brasil, porque ainda que os uranianos tenham passado por ucraniananos, Niemeyer conseguiu construir uma cidade inteiramente extraterrestre! E todo o mundo acha que aquilo é só o estilo dele! Que nada: como os socialistas intergalácticos só se reproduzem em meios estatais, foi preciso uma gigantesca obra pública para que eles pudessem ser trazidos para o Brasil. Ali, então, eles fundaram colônias e, chegada a hora, resolveram tomar as universidades públicas do Brasil.

CLLOu seja: a privatização das universidades é apenas uma maneira de tentar recuperar o que pertence ao povo brasileiro.

FHC – Numa escala maior, a privatização de tudo. Mas o caso das universidades é o mais grave. Estamos nos movimentando para vender tudo, mas a resistência alienígena é muito forte, ainda mais porque conta com apoio da ONU, que já está mancomunada com a Federação Socialista Interplanetária.

CLLWaal...

FHC – Não podemos permitir que as universidades caiam nas mãos deles, pois isto significará a permanência do Brasil numa situação colonial. Já fomos vítimas do imperialismo português, do inglês e do americano. Agora cairemos também nas mãos do imperialismo socialista intergaláctico, nas mãos desses uranianos? De jeito nenhum! Se for assim, nós teremos que trabalhar para sustentar todo o sistema solar, e, o que é pior de tudo, ouvindo ordens do João Pedro Stédile!

CLL Bem, presidente, acho que já estamos suficientemente alarmados. Os esclarecimentos prestados pelo Sr. finalmente revelaram a origem e o sentido da presença destas criaturas no Brasil. Muito obrigado.

FHC – De nada. E não esqueçamos que a privatização é a única maneira de libertar o Brasil desta ameaça.

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Cláudio Lévi’s Lee atuou como consultor do filme Como Ser Terráquio no Rio de Janeiro. Pensando bem, ele é também um adepto do eurocentrismo total.