FÓTONS

Apelo a meus companheiros de geração

Por Alvaro R. Velloso de Carvalho


Minha dívida com Otto Maria Carpeaux data já de alguns anos. Eu ainda estava na escola, e precisava fazer um trabalho sobre o Barroco. Fui até à biblioteca, e, andando pelas estantes, encontrei, na parte de Literatura, uma coleção de livros encadernados com capa dura azul, coleção chamada História da Literatura Ocidental. Peguei o volume sobre o barroco, e fui para casa.

Quando comecei a ler o livro, posso dizer sem exageros, foi como se escamas fossem caindo de meus olhos. Eu já não estava mais tratando o barroco como um estilo literário antigo feito por uns homens esquisitos - que é a visão que temos dele nos livros de "literatura" - mas o autor estava trazendo aquela época a mim. Aqueles homens estavam presentes. Graças a esse livro, comecei a me livrar de todos os preconceitos cronocêntricos, que colocam nossa era no topo de todas as outras e relegam a cultura antiga ao silêncio, ou ao simples papel de precursoras do que se faz hoje.

Acabei lendo quase todo o resto da coleção, e ela me abriu um leque infindável de escritores, filósofos, poetas. E lendo do jeito que o autor tinha me ensinado a ler: tomando-os não como curiosidades arqueológicas, mas como representantes da sabedoria humana acumulada ao longo do tempo.

O autor dos livros era Otto Maria Carpeaux, que eu não fazia a mais mínima idéia de quem fosse, à época. Só fui descobrir depois que se tratava de um judeu austríaco que tinha vindo se refugiar no Brasil durante a Guerra, e que aprendeu português aos 40 anos.

Também não conhecia a obra ensaística de Carpeaux, que só agora venho encontrar, com a preciosa edição de Olavo de Carvalho dos Ensaios Reunidos, pela editora Topbooks. Não pretendo fazer um comentário sobre a obra inteira; quero apenas ressaltar algumas observações da introdução do prof. Olavo e do ensaio de Carpeaux intitulado A idéia da universidade e as idéias das classes médias.

Nesse ensaio, Carpeaux retrata o cenário de pobreza intelectual predominante nas universidades, mostra a miséria mental dos universitários, e critica a tirania das massas iletradas, agora também diplomadas:

Via a biblioteca coberta de poeira, os auditórios barulhentos, estupidez e cinismo em cima e em baixo das cadeiras dos professores, exames fáceis e fraudulentos, brutalidades de bandos que gritavam os imbecis slogans políticos do dia, e que se chamavam "acadêmicos".

À medida que prossegue a análise, Carpeaux não se furta a apontar quem considerava culpado por essa decadência:

Quem é o culpado? Ainda uma vez apelo para aqueles que disso entendem. Por toda parte onde há aqueles regimes os estudantes estão nas vanguardas da violência. Não é um acaso. Ouso responder: os estudantes são os culpados.

Os estudantes são culpados porque se deixaram usar pelas ideologias políticas sanguinárias da época (um crítico mau leitor ou mal intencionado apontou nesse ensaio resquícios de fascismo, talvez sem ter lido o ensaio inteiro e as críticas duras que Carpeaux faz ao fascismo nele). Os estudantes são culpados porque se curvaram àqueles que os lisonjeiam em troca do apoio político. Os estudantes são culpados porque deixaram sua missão de construir a si mesmos, de sair de si mesmos para ingressar no mundo da cultura, e se contentaram com a incultura pedante, a incultura que quer ser elevada ao status de cultura e quer abolir toda preocupação superior.

Carpeaux aponta, então, como problema decisivo do destino espiritual de nosso tempo o problema da formação das elites intelectuais:

O problema capital do nosso tempo, o problema da elite, é, no fim das contas, um problema de pedagogia humanística. Existe mesmo, hoje, política que consiste na exterminação das elites pelas armas dos especialistas. E foi bem preparada: da diminuição das lições latinas, existe apenas um passo para a destruição dos livros e dos museus.

O resultado mais freqüente da moderna educação universitária é um decidido adeus aos livros. Mais tarde, combaterão as "línguas mortas" na escola. Enfim, declararão inútil todo o ensino secundário, com as suas idéias vagas e inúteis duma "cultura geral"; talvez toquem, com isso, no ponto nevrálgico da discussão. Todo o problema espiritual dos nossos dias é, pois, um problema de falta de educação humanística, um problema pedagógico; e todo o problema pedagógico dos nossos dias é um problema da escola específica das classes médias, da escola secundária.

Segundo o regime escolar vigente em todos os países, sem exceção, a Universidade dedica-se ao ensino profissional superior, enquanto a "cultura geral" fica reservada ao ensino secundário, aos ginásios e aos liceus. Quer dizer: o ensino da cultura geral limita-se aos jovens de dez a dezoito anos. Depois, a "cultura" termina, e a medicina e a jurisprudência começam, sem nenhuma "cultura geral". Os conhecimentos do ensino secundário empalidecem, naturalmente, com o tempo; mas ainda há coisa pior: todo esse ensino de "cultura geral" é feito ao alcance de jovens de dez a dezoito anos: a história, a filosofia, a literatura, amoldadas ad usum Delphini, e forçosamente puerilizadas. E aí fica.

O problema de formação das elites é, então, um problema de cultura geral. Ora, é evidente que por esse termo não se deve entender o verniz cultural que se tornou moda de uns tempos para cá. Não se adquire cultura geral, no sentido que o Carpeaux emprega o termo, lendo O Mundo de Sofia ou o mais recente manual da dona Marilena Chauí.

A dica para entender o que Carpeaux quer dizer com "cultura geral" e com "pedagogia humanística" está dada na referida introdução de Olavo de Carvalho. Analisando o método hermenêutico de Carpeaux, e seus elementos, o filósofo chega à seguinte conclusão:

Mais que de humildade, é uma lição de autoconhecimento. É graças a ela que o estudo das obras do passado pode se tornar, como propunha Carpeaux em A Cinza do Purgatório, "um exame de consciência". Firmemente escorado no tripé estilística-sociologia-hermenêutica, e disposto a não abdicar da busca da sabedoria que é a justificativa última se não única de toda curiosidade científica, o crítico pode fazer da investigação da unidade da história a ocasião de um nosce te ipsum que se aprofunda numa busca do sentido da existência. Aí a crítica e a história literárias assumem plenamente o seu papel no quadro de uma pedagogia espiritual, do qual, sob pretextos variados sempre oportunistas e pedantes, elas vem festivamente abdicando nas últimas décadas.

Aí é que está: o legado cultural do passado não deve servir apenas de curiosidade histórica. É justamente pelo diálogo direto com esse legado que seremos capazes de entender o que se passa no presente. É nos ligando diretamente à herança de sabedoria da humanidade que seremos capazes de nos situar perante a História, e de compreender o sentido da vida presente.

Carpeaux viu, nisso, o problema central da vida intelectual em nosso tempo. E Olavo de Carvalho encontra em Carpeaux o homem que poderia ter executado esse trabalho no Brasil, o homem que, sozinho, poderia ter educado o Brasil.

Mas - e quem leu o restante da introdução sabe do que estou falando - Carpeaux não chegou a concluir essa tarefa. Ele, que tanto criticou a politização da cultura, acabou abandonando sua obra de crítico para se engajar na luta política - e, não à toa, foi tomado de uma sensação de tempo perdido no fim da vida.

Pois bem: Carpeaux não chegou a completar o trabalho, mas nada impede que cada um de nós o complete para ele. Eu fui, de certa forma, educado por Carpeaux, e a publicação de seus Ensaios Reunidos abre o espaço para toda uma geração o seja também. A oportunidade que se abre, agora, é de aproveitarmos de Carpeaux aquilo que a geração que conviveu com ele não aproveitou, sua melhor parte, seu trabalho de crítico, historiador e ensaísta.

Mas estou aqui escrevendo sobre Carpeaux e paro um pouco para pensar em outro grande escritor, que publicou sua primeira obra em 1944, dois anos depois da publicação do primeiro livro brasileiro de Carpeaux. Refiro-me a Gustavo Corção.

Se a obra ensaística e historiográfica de Carpeaux foi relegada ao silêncio, o que dizer da de Corção? O homem virou o que Orwell chamava de "não-pessoa", foi inteiramente apagado de todos os registros históricos, literários, religiosos e o que mais for.

E se trata não de um qualquer, mas do autor de algumas das mais belas páginas de toda a nossa literatura - a saber, as páginas de A Descoberta do Outro e Lições de Abismo. Trata-se, ainda mais do que isso, do sujeito que, quando tudo em volta estava caindo, se manteve íntegro, uma fortaleza moral no meio do descalabro da intelectualidade brasileira.

Quando todos vendiam sua alma - inclusive as mais altas autoridades da Igreja que Corção tanto amava - esse homem respondeu, praticamente sozinho, pela Tradição católica.

Acabo de ver uma revista que elegia os maiores religiosos brasileiros do século. Na lista, que não vou citar inteira para evitar ânsias de vômito, se incluíam todos os que trabalharam dia e noite para a destruição do catolicismo no Brasil e por sua substituição pelo marxismo. Está também o atual bispo do Rio de Janeiro, sucessor de um outro que teve o descaramento de desautorizar publicamente Gustavo Corção.

Mas aí é que está: nós nos acostumamos, no Brasil, a celebrar as nulidades, a celebrar os imbecis, os cretinos, os apologistas da tirania. E, nesse cenário, não há lugar para Corção - exatamente como não há lugar para Carpeaux.

A conspiração de silêncio contra Corção vem de todos os lados. Dos esquerdistas, que nunca foram capazes de diminuir seu brilho e sempre recorreram aos expedientes mais sujos para difamá-lo. Dos liberais, que têm repugnância por tudo que seja religioso. Dos católicos, que, vendo a destruição causada na Igreja pelas mudanças que Corção tanto combateu, no fundo sabem perfeitamente bem que ele tinha toda a razão, mas preferem fingir que ele nunca existiu e que tudo vai bem na Igreja.

Da união desses imbecis, resulta que não há mesmo lugar para Corção. Não pode haver lugar para um autor tão grande num meio que se compraz em discutir Nietzsche ou Schopenhauer, em que todos estão empenhados em produzir o próprio modelo de sociedade para impô-lo ao mundo inteiro, num meio onde tudo que se diz ou faz visa à obtenção de um cargo público, ou à produção de um projeto de lei.

Não há lugar para Corção num meio em que as questões mais graves da existência humana são substituídas pela discussão em torno de preferências sexuais ou raciais e em que a paixão política se sobrepõe a todo o resto, a tal ponto que a colocação apolítica de um problema se torna inimaginável.

Não há lugar para Corção, e não há lugar para Carpeaux - pelo menos não para o Carpeaux ensaísta e historiador.

Porque, afinal, o que diria o ensaísta ao ver que os estudos literários, agora, partem do pressuposto de que o autor não existe, ou de que quem constrói o significado é o leitor, ou de que as preferências sexuais são mais importantes do que o conteúdo da obra, ou de que o texto só se refere a si mesmo ou a outros textos?

O que poderia ele dizer, em face de todo esse subjetivismo e toda essa profunda incultura que tomaram conta dos estudos literários, reduzindo à esterilidade a produção acadêmica?

Carpeaux e Corção. Muitos, com certeza, estranharão a aproximação que estou fazendo. Afinal, os dois tinham um temperamento forte de polemistas, e se puseram nas posições políticas diametralmente opostas. Mas a vantagem de estarmos em 1999, e não em 1972 ou 73, é que as desavenças políticas podem ser postas de lado, e podemos encontrar os pontos que ligam esses dois grandes homens.

E um deles é, simplesmente, o fato de que suas gerações não souberam merecê-los. Seus companheiros de geração não souberam aprender com eles tudo o que tinham a aprender. Não souberam parar e ouvir, parar e se curvar diante de quem era mais sábio, mais forte e mais capaz. Não souberam aprender com o estilo e a erudição de Carpeaux, nem com a fé e a virtude de Corção.

É por isso que este artigo se chama "apelo a meus companheiros de geração". A geração que hoje nos dá aula nas universidades, que escreve os livros que pretende que leiamos, que edita os jornais, é uma geração que não soube aprender com os grandes homens da geração anterior. É uma geração inteiramente fracassada e ridícula, que introduziu o consumo desenfreado de drogas, a politização de tudo, o culto da incultura e do barbarismo, a adoração pelas bobagens intelectuais da moda em Paris ou Nova Iorque.

É uma geração que, quanto mais fala em soberania nacional e cultura brasileira, mais é subserviente aos novos senhores do mundo e mais faz tudo que os organismos internacionais mandam.

O meu apelo, portanto, é o seguinte: é hora de esquecer essa geração. É hora de esquecer seus pretensos ideais políticos, suas doutrinas estéticas idiotas. É hora de superarmos suas limitações mentais.

Para isso, é preciso restabelecer o laço que essa geração fez tudo para apagar - o laço com o passado. É preciso voltar diretamente aos clássicos, é preciso entrar num ciclo histórico maior do que o dos últimos 2 ou 3 séculos. E, para refazer essa ligação, é preciso restaurar os verdadeiros valores da cultura brasileira - é preciso voltar a aprender com gente como Otto Maria Carpeaux e Gustavo Corção.

Porque os frutos do corte com o passado estão aí: a mais profunda miséria intelectual e a mais profunda submissão aos interesses estrangeiros.

Eu não confio em mudanças políticas. Revoluções costumam dar certo ou errado por fatores inteiramente arbitrários. Não é da classe política que se pode esperar qualquer melhoria no Brasil. Mas eu acredito em mudança intelectual. Não há um único caso de progresso político que não tenha sido precedido de uma hegemonia cultural e intelectual. Mas não é criticando a cultura de massa que se muda a cultura, porque não é dela que depende a saúde intelectual do país. A saúde intelectual do país depende de seus intelectuais - dos universitários, dos escritores, dos pensadores.

Sem a mudança nos nossos cânones intelectuais, sem o corte com essa geração que só produziu destruição e bobagem, sem o retorno aos verdadeiros valores, sem o diálogo direto com a cultura das demais civilizações, a doença intelectual não vai passar, e o Brasil vai continuar incapaz de levantar a cabeça.

A publicação dos Ensaios Reunidos de Carpeaux vem dar uma ocasião excelente para essa mudança. Não à toa, ela vem produzida por um filósofo cuja obra, tão profundamente incompreendida, sinaliza justamente essa possibilidade de diálogo direto com a cultura superior - o filósofo que nos deu uma leitura inteiramente nova de Aristóteles e mostrou que não há nada mais atual do que a obra do Estagirita, e que agora nos acena com essa possibilidade de corrigirmos o caminho errado que a geração anterior tomou.

 

Não deixe de ler os dois ensaios de Carpeaux que disponibilizamos em O Indivíduo.